
(Disponível na rede
desde 09/1999) O
período das peregrinações e a
consolidação da fonologia Os
estudos interdisciplinares e o encontro com a
semiótica Nascido em Moscou a 11 de
outubro de 1896, filho de engenheiro químico e
proeminente industrial, Roman Osipovic Jakobson cresceu e
conviveu com a intelectualidade russa anterior à
Revolução. Desde cedo revelou interesse pelos
estudos comparativos. Quando contava dez anos de idade seu
professor de gramática exigia que seus alunos
entendessem os significados das flexões da
língua russa. Para Jakobson a exigência do
mestre estava longe de ser imposição; era um
exercício que ele fazia com entusiasmo. Elaborava
longas listas anotando as várias
significações como quem encontra os tesouros
de sentido. Em 1914, Jakobson
inscreveu-se no Departamento de Eslavística da
Universidade de Moscou onde lingüística era
disciplina básica. Os estudos de literatura abrangiam
não só as manifestações da
escrita mas também a poesia oral e o folclore. Movido
pela mesma paixão, tanto para o estudo da poesia oral
como para o conhecimento da poesia experimental da nova
geração da poesia simbolista, Jakobson
amadureceu a idéia dos estudos interdisciplinares
entre lingüística e poética. Os sons da
língua eram um enigma a ser decifrado. É no
caminho aberto pelos artistas de vanguarda que Jakobson
começa a formar suas idéias teóricas.
Data desse mesmo ano, o primeiro ensaio de Jakobson: uma
carta aberta ao poeta V. Khliébnikov apreciando as
ousadas experiências de jogos verbais e
fonéticos de sua poesia. Dois anos mais tarde,
Jakobson realiza uma experiência com a poesia zaum,
explorando a relação som e sentido na
linguagem. O conceito de fonema que seria formulado mais
tarde nasce no bojo dessas investigações.
Em 1915, os estudantes
fundam o Círculo Lingüístico de Moscou. O
objetivo era dar continuidade às pesquisas e
sistematizar as descobertas sobre os problemas
lingüísticos da linguagem prática e
poética. Um ano depois, os então estudantes
Jakobson, Victor B. Chklóvski (1893-1984), Boris
Eikhenbaum (1886-1959) entre outros, iniciam alguns
encontros que definiriam os rumos da Sociedade de Estudos da
Linguagem Poética, a Opoiaz (Óbchchestvo po
izutchéniu poetítcheskovo iaziká) na
Universidade de Petersburgo. A atividade conjunta de
críticos e criadores deu origem ao polêmico
movimento chamado Formalismo Russo. Nele Jakobson participou
ativamente, até os trabalhos formalistas
caírem no descrédito dos
adversários. Num clima de desagravo e
desafeto, em 1920, Jakobson aceita o convite para ensinar na
Universidade de Praga onde encontra um ambiente mais
propício para continuar suas pesquisas. Dez anos
depois, no acirramento das mesmas
contradições, o poeta Maiakóvski
despede-se da vida. No texto que escreveu sobre o
suicídio do poeta e amigo querido, Jakobson exercita
sua capacidade de ver concretamente a vida na
história e a história na vida. O
período das peregrinações e a
consolidação da fonologia Em Praga, Jakobson inicia
estudos sobre a cultura tcheca, seu verso comparado ao verso
russo. Tem início os trabalhos de
sistematização dos elementos fônicos da
língua através de um tratamento
científico em que se considera a
ligação recíproca entre o som e o
sentido base de uma nova disciplina teórica: a
fonologia. Seus estudos progridem em meio a uma pesquisa
coletiva e suas investigações entram na fase
da maturidade científica. Juntamente com
Trubietzkói realiza as pesquisas que marcariam o
nascimento da fonologia, cujas bases teóricas eram
herança do que havia sido plantado no solo russo.
Nele se define o fonema como unidade mínima da
língua capaz de diferenciar as
significações e as palavras. Mais tarde
Jakobson completa o conceito e fonema é definido como
feixe de traços distintivos para diferenciar
significações. Em 1939 Jakobson deixa a
Tchecoslováquia fugindo da invasão nazista e
da perseguição aos judeus. Refugiou-se na
Escandinávia e participa do Círculo
Lingüístico de Copenhague, onde continua
insistindo na necessidade de tratar rigorosamente a
substância fônica da língua como objeto
privilegiado de estudo na teoria fonológica. A
ocupação da Noruega pelos nazistas impediu a
realização do projeto. Na Suécia
aproveitou o contado com médicos para estudar os
avanços que a fisiologia realizava para desenvolver
um estudo iniciado na década de 30: uma
análise lingüística da afasia. Os
estudos interdisciplinares e o encontro com a
semiótica Jakobson transferiu-se para
Nova Iorque a convite da Escola Livre de Altos Estudos,
fundada por um grupo de cientistas franceses e belgas ali
refugiados. Em suas aulas surgiram figuras com futuro
promissor como o antropólogo Claude
Lévi-Strauss (1908-) e o lingüista brasileiro J.
Mattoso Câmara Jr. (1904-1970). Em 1949, transfere-se para
Cambridge, Massachusetts, onde foi nomeado professor de
língua e literatura eslavas na Universidade de
Harvard e, mais tarde, professor de lingüística
geral. Tornou-se presidente da Sociedade Americana de
Lingüistas em 1956 e, um ano depois, o primeiro
cientista nomeado simultaneamente, junto com sua
cátedra em Harvard, Professor do Massachusetts
Institute of Technology (MIT). Lá organizou o Centro
de Ciências da Comunicação, com um
núcleo de pesquisadores atuando nas áreas de
lingüística e matemática. No
período de 1966 a 1969 ele esteve vinculado ao Salk
Institute for Biological Studies e ao Center for Cognitive
Studies at Harvard. O saldo positivo desses estudos foi a
possibilidade de entender a linguagem na cadeia das outras
atividades humanas. Jakobson inicia uma
revisão da doutrina saussuriana orientando-se pelas
descobertas da teoria da informação e da
comunicação de C. Shannon (1916) e W. Weaver
(1894-1978). A linguagem é redefinida como meio de
comunicação interpessoal e intersubjetiva que
opera entre falantes e ouvintes. Seu aprendizado e sua
sobrevivência dependem do diálogo. Entre a
língua e a fala existe uma interdependência
mútua, não dicotômica, como acreditava
Saussure. A língua existe para a
construção de instâncias da fala; o
funcionamento da fala depende da língua. Conhece a a
cibernética de Norbert Wiener (1894-1964) que lhe
ajudou a estudar o mecanismo da finalidade na linguagem,
arranque final para a classificação das
funções da linguagem. Nos anos 50, Jakobson
descobre os trabalhos de Charles Sanders Peirce, para ele "o
mais inventivo e universal pensador americano". As
idéias de Peirce, sobretudo aquelas que se referem
aos elementos icônicos da linguagem, põem em
xeque a arbitrariedade do signo lingüístico. Sua
noção de interpretante firma a
semiótica como um processo dinâmico em que a
essência do signo é a
interpretação, quer dizer, sua
tradução em outro signo. Desse contato, nasce
a necessidade de uma teoria semiótica que firmasse a
linguagem como instrumento de comunicação e
sistema semiótico humano por excelência.
É com a mentalidade
interdisciplinar que Jakobson se volta para sua antiga
paixão: a fonologia. Sua pesquisa segue um outro
caminho: o estudo dos traços distintivos do sistema
fônico à luz de seu efeito acústico.
Juntamente com Morris Halle, desenvolve uma pesquisa em que
os meios acústicos são usados para a
análise da percepção e
diferenciação das palavras. Após
descrever o sistema de percepção
acústica em termos de variantes e invariantes,
Jakobson afirma a multifuncionalidade do som da fala na
língua. O espírito inquieto
do futurista Jakobson dos anos 10 continua vivo quando
Jakobson se torna um octogenário. Mesmo de longe,
acompanhou os trabalhos da Escola de Tártu-Moscou,
recebendo homenagens em várias de suas
publicações. A presença dos conceitos
jakobsonianos na semiótica da cultura é
inequívoca. Seu trabalho de palavra sobre as
palavras, sua paixão pela língua entre as
linguagens, pelo papel supremo da língua em sua
múltipla relação criadora com outros
signos, tornam-se o legado de Jakobson para as
gerações posteriores. A morte de Jakobson em
Cambridge, Massachusetts, em 18 de julho de 1982, com a
idade de 85 anos, não apagou esse legado que continua
em expansão. Seu trabalho interdisciplinar,
interpessoal, intersemiótico deixou uma
responsabilidade imensa para os seus interlocutores
posteriores. Como imaginar que um
teórico de um país, uma cultura, uma
língua não acessível aos brasileiros,
pudesse marcar uma presença tão forte em nosso
país? Além de fornecer instrumental
teórico de análise da poesia, Jakobson
dialogou com nossos teóricos. Jakobson esteve no
Brasil nos anos 70, era amigo do professor Boris
Schnaiderman, tradutor e introdutor dos estudos sobre os
poetas e teóricos russos no Brasil e durante muitos
anos manteve um diálogo intenso com o professor,
poeta e ensaísta Haroldo de Campos. Dificilmente
é possível ignorar as
contribuições de Jakobson quando se trata de
refletir sobre: a estrutura e a fonologia da língua
portuguesa realizada pelo lingüista e discípulo
Joaquim Mattoso Câmara Jr.; a unidade na variedade
lingüística do português brasileiro; a
poética sincrônica e os rumos da
história textual; as funções da
linguagem nas práticas discursivas; a metalinguagem e
a dialogia dos signos nas culturas. A grande
contribuição de Jakobson para o ensino de
língua portuguesa em seu funcionamento não
está na gramática descritiva e sim no estudo
das funções da linguagem. Ainda que o nome de Jakobson
não apareça em muitos dos livros e manuais
didáticos diretamente relacionados com o ensino de
língua e literatura, suas descobertas são o
eixo a partir do qual se pretende capacitar o estudante de
um conhecimento lingüístico mais amplo. Um dos
primeiros capítulos dos manuais didáticos de
língua portuguesa, seja no segundo grau como em
cursos superiores, é dedicado à
inserção da língua no processo
comunicativo mais amplo. O objetivo é mostrar que
nele [no ato comunicativo] a linguagem pode ser
usada nas mais variadas funções, tal como
concebera Jakobson. Não é apenas
para o estudo da estrutura sincrônica da língua
portuguesa, tal como levou adiante o professor Mattoso, que
o princípio das invariantes nas
variações de Jakobson prestam sua
contribuição. Quando o professor e
filólogo Celso Cunha se volta para refletir sobre a
"unidade de nossa língua dentro de sua natural
diversidade" é em tal princípio que ele busca
sustentação teórica. A realidade
lingüística do português brasileiro
espelha, para o professor Celso Cunha, uma série de
diversidades dentro unidade: a expansão da linguagem
falada, desde o Brasil colônia, não foi
acompanhada pelo desenvolvimento da escrita; a
estratificação lingüística dos
vários dialetos (regionais, sociais) em
contraposição com a "língua dos
doutores"; a dinâmica da linguagem das cidades
costeiras em contraste com a dinâmica da língua
interiorana. Nenhuma política eficiente do idioma
pode ser proposta sem levar em conta tal diversidade.
Embora Jakobson nem tenha
teorizado diretamente sobre os problemas da textualidade,
para esse tema contribui sua concepção de
poética sincrônica que, no Brasil, foi estudada
por Haroldo de Campos. Operando a
noção de texto na fronteira entre oralidade e
escritura, vocalidade e grafismo, similitudes e
contigüidades numa intervenção radical
sobre o código em suas produções
poéticas, Haroldo de Campos reivindica a
dimensão sincrônica para rever a
história da literatura brasileira, em que os
critérios de focalização fosse o
diálogo dos procedimentos estéticos.
O que mais interessa
destacar nesse momento é que a
concepção de uma poética
sincrônica define os rumos de uma "história
textual": que toma o texto em seus elementos inventivos em
que o procedimento é o grande herói da
literatura. Na verdade, a história textual concebida
no horizonte de uma poética sincrônica cumpre
à risca aquilo que anunciara Jakobson em seus estudos
de juventude, quando anunciava que o objeto privilegiado da
literatura era a literariedade. Se o grande empenho de
Jakobson era a prioridade dos estudos interdisciplinares e a
vinculação entre poética e
lingüística, também nesse campo os
estudiosos brasileiros jamais ignoraram tais preceitos. E
foi no Brasil que Jakobson recebeu um epíteto que
confere continência ao trabalho do homem que se
aventurou pelo universo das relações entre o
som e osentido. No ensaio que escreveu quando da vinda de
Jakobson para o Brasil, Haroldo de Campos sabiamente o
chamou "o poeta da lingüística".
