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Dia dos pobres

Recentes estudos dão conta de que no Brasil a pobreza continua enorme e tende a crescer. A classe A da população, 3,8% dos brasileiros com renda familiar mensal superior a R$ 17.286, detém 38% da renda global do país; enquanto isso, as classes D e E, que somam 54,3% da população mais pobre e tem renda mensal familiar abaixo de R$ 2.302, detém apenas 16,3% da renda global (revista Veja, 5/7, página 66). A concentração da renda é fator de perenização da pobreza no Brasil.

Diante desse estado de injustiça social, ficam ainda mais escandalosos os fatos de corrupção e de desvio de dinheiro público de que vamos tomando conhecimento!

Pobres são aqueles que não possuem a renda ordinária suficiente para o sustento digno de si mesmos e de seus dependentes; por outro critério, são pobres aqueles que carecem de alimento suficiente, moradia minimamente digna, acesso aos cuidados da saúde, à educação, oportunidades de trabalho e renda e do reconhecimento de sua dignidade. Pobres, geralmente não classificados como tal, são também os que vivem sem esperança, afundados nos vícios, sem afeto, sem lar, sem pátria, sem motivos para viver. Os pobres, entre nós, ainda são muitos, muitíssimos!

Nas relações sociais, a defesa exacerbada de direitos individuais pode deixar os pobres ainda mais distantes do reconhecimento dos seus direitos básicos e de sua dignidade humana. A pobreza é, em grande parte, consequência da falta de verdadeira solidariedade e justiça social. O mesmo pode acontecer entre os povos. O papa Paulo VI, na encíclica social Populorum progressio (sobre o desenvolvimento dos povos, 1966), já recomendava aos países mais privilegiados a renúncia a algumas de suas vantagens para porem, com mais liberalidade, os seus bens a serviço dos povos mais pobres. Em vez de insistirem na afirmação de seus próprios direitos, as economias mais abastadas deveriam estar atentas ao clamor das populações mais pobres (cf. n.º 289).

Quanto contam os países pobres para os arranjos das políticas internacionais de todo tipo? Esses vivem abandonados à própria miséria e à violência, que explode entre eles, muitas vezes na disputa pelas migalhas de alimento e de condições mínimas de vida digna. Quando migram, atraídos pela mesa farta dos países abastados, esses pobres do mundo acabam rejeitados por muros de indiferença e preconceito.

Paulo VI, na encíclica citada anteriormente, traçava orientações para a superação da pobreza e a promoção da solidariedade entre os povos. Hoje, 50 anos depois, a situação dos povos pobres ainda não melhorou muito. No dia 20 de novembro de 2016, ao encerrar o Ano Santo da Misericórdia, o papa Francisco estabeleceu que a cada ano seja comemorado na Igreja inteira o Dia Mundial dos Pobres. Poderia parecer estranho comemorar um “dia dos pobres”... O que haveria para ser comemorado, se eles contam tão pouco para a sociedade, orientada por ideais de prosperidade, consumo e conforto?

Na sua mensagem para a comemoração do primeiro Dia Mundial dos Pobres, que será realizada no dia 19 de novembro deste ano, Francisco alertou para a pobreza no mundo contemporâneo: “Ela é difusa e onipresente, aparecendo nos rostos marcados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas, a prisão, as guerras, a privação da liberdade e da dignidade, a ignorância e o analfabetismo, a falta de saúde e de assistência sanitária, a falta de trabalho, o tráfico de pessoas, as escravidões, as migrações forçadas. São homens, mulheres e crianças explorados por interesses vis, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. O elenco constrangedor dos pobres é impiedoso e nunca completo, fruto de injustiça social, da corrupção, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada” (cf. Mensagem para o Dia Mundial do Pobres, 13/6/2017).

Comemorar é trazer à memória, à recordação. Gostamos de comemorar coisas boas, como aniversários e outros momentos marcantes; comemoramos pessoas ilustres, heróis nacionais e seus feitos, artistas célebres e suas obras, fatos importantes, como a abolição da escravatura ou a independência do País. Comemorar pode ser motivo de festa, mas também ocasião para a tomada de consciência, ou para a advertência, para que fatos terríveis não sejam esquecidos e não voltem a se repetir. A comemoração ajuda a formar o senso ético e a cultura.

O papa Francisco está convidando a comemorar o Dia Mundial dos Pobres, acima de tudo, para uma tomada de consciência sobre a existência dos pobres entre nós. Muitos pobres! Os que moram na rua, em São Paulo, já somam mais de 20 mil! Conhecemos sua real situação, seus dramas e necessidades? E os numerosíssimos pobres das periferias e dos cortiços de nossas cidades, que formam cidades invisíveis e só aparecem nas estatísticas dos problemas urbanos, mas são esquecidos e descartados pela sociedade e pelas administrações públicas?

A comemoração serve para perguntar se existe uma preocupação efetiva em com os pobres nas políticas econômicas, financeiras, culturais e de seguridade social. Geralmente, eles são descartados quando se tem em vista o movente principal de iniciativas econômicas, que é o lucro sempre maior. Quando lembrados, os pobres são até vistos como um peso incômodo e um empecilho para o alcance das metas do crescimento econômico. Quem se lembra efetivamente dos pobres na definição das políticas públicas?

O Brasil só será um país mais justo, mudando o curso de sua História para melhor, se escutar efetivamente o grito dos pobres, comprometendo-se com eles para erguê-los do seu estado de marginalização e abandono. Quando isso for realizado, teremos motivos para comemorar, também fazendo grande festa!

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Artigo publicado no Jornal "O Estado de S. Paulo", ed. 8/7/2017