Resenhas
Resenha 1:
Colapietro, Vincent M. ( 1989). Peirce´s Approach to the Self. A Semiotic
Perspective on Human Subjectivity [Abordagem de Peirce sobre o Indivíduo.
Uma Perspectiva Semiótica na Subjetividade Humana]. New York: State
University of New York Pres.
Por Maria Amélia B. Trigüis.
Resenha 2:
Haley, Michael C. (1988).The Semeiosis of Poetic Metaphor. [As Semioses da
Metáfora Poética] Texas: Indiana University Press.
Por Nadja de Moura Carvalho.
Resenha 3:
Santaella, Lúcia (s/d). "Palavra, imagem & enigmas", in: REVISTA USP,
n. 16.
Por Giane Chagas.
Resenha 4:
Santaella, Lúcia. "A Percepção: uma teoria semiótica",
Por Daniel do Nascimento Andrade Bento.
Resenha 5:
Johansen, J. D. (1985). Prolegomena to a Semiotic Theory of Text Interpretation.
Semiotica 57-3/4, 225-288.
Por Fátima Regina Machado.
Colapietro, Vincent M. ( 1989). Peirce´s Approach to the
Self. A Semiotic Perspective on Human Subjectivity [Abordagem de
Peirce sobre o Indivíduo. Uma Perspectiva Semiótica na Subjetividade Humana]. New York: State University of New York Pres
por Maria Amélia B. Trigüis
A leitura de Colapietro, de acordo com o próprio título do livro, nos informa pormenorizadamente sobre as idéias de Peirce em relação ao desenvolvimento de cada indivíduo em sociedade; por assim dizer, um processo de construção social do eu de cada indivíduo; de como isto ocorre para Peirce, e a importância de se considerar a subjetividade humana, nas relações semióticas deste processo.
Convém citar o fato de que Colapietro ressalta em seu livro, o problema de se estudar os escritos de Peirce, por ter sido este por vezes mal compreendido, ou, entendido de forma fragmentada, e, além disto, a necessidade de se estudar suas idéias, nos dias de hoje, como uma fonte para compreensão de nossa época e para se realizar futuros trabalhos sobre este assunto.
Para este estudo, Colapietro parte de análises a respeito das teorias de Peirce, em confronto com outros autores, quanto a validade do caráter geral destas.
Assim, o autor explica fundamentos das teorias de Peirce no que se refere às relações triádicas do signo no processo de semiose – o qual envolve a cooperação entre três sujeitos, o signo, o objeto e o interpretante. Desta forma, Colapietro distingüe, segundo Peirce, duas espécies de relações; uma, diádica, que se refere a uma reação, ou ação de força bruta, ou seja, um em reação contrária a outro, e, outra, triádica, contando com a mediação de um signo.
Com isto, chega-se a uma posição de Peirce na qual este se refere ao signo, enquanto um mediador nas relações de representação e compreensão da realidade, não como expressão da mente, mas como sendo desenvolvido na realidade da mente; nesse sentido a mente é uma espécie de semiose – processo de desenvolvimento de um signo, que pode tornar-se outro, em continuidade.
A questão discutida por Colapietro com outros autores, em suma, pode ser explicada em função do fato de que as considerações de Peirce a respeito de processos sígnicos, não devem ser tomadas de modo fragmentário; assim, o objeto não pode ser eliminado da essência do signo; um signo não pode ser considerado sem se levar em conta a materialidade necessária para que este possa existir. Ou seja, a representação não exclui a realidade, mas constitui-se, neste contexto, num processo de mediação o qual possibilita uma visão não determinista, mas dinâmica de realidade.
O caráter geral das teorias de Peirce é então explicado na medida em que qualquer coisa pode ser considerada um signo, desde que seja uma representação, livre de qualquer julgamento ou princípio moral.
Com isto, o autor apresenta as idéias de Peirce referentes ao fato de que os signos apresentam-se em todo processo da natureza, longe de qualquer pensamento antropocêntrico, sem estar necessariamente ligado à mente humana; signos aparecem no trabalho das abelhas, nos cristais, em todo mundo puramente físico.
O princípio proposto para esta visão de realidade, neste texto, considerado como o paradigma de Peirce da semiose por diversos autores, pode ser tido como a cooperação, dentro de uma concepção de universo.
A importância do eu neste contexto, é explicada por Colapietro, segundo Peirce, a partir de uma concepção de subjetividade, com o cuidado de não confundi-la com a noção de subjetivismo, relacionada às idéias de Descartes, na qual a subjetividade é considerada como fator de isolamento, quanto à validade da comunicação humana; ou seja, a subjetividade como fator predominantemente exclusivo de cada indivíduo e a objetividade como fator comum, pela observação dos fenômenos, conforme estes princípios do pensamento ocidental.
Observa-se que Peirce rejeita a visão predominantemente diádica de realidade, tal como a de Descartes, considerando seus princípios dentro de concepção triádica de realidade, como foi citado em parágrafo anterior, quanto à idéia de mediação.
Desta forma, Colapietro comenta o problema de uma visão mecanicista de realidade, pela referência a Humberto Eco, para o qual a "semiótica = uma teoria de códigos + uma teoria de produção de signos"; o ser humano não é = um eu + carnes e sangue; ou seja, não se pode conceber as teorias de Peirce de uma forma fragmentária. Antes, para Peirce, o corpo humano não é fechado como uma caixa de sangue e carne, nem um local onde o eu do sujeito está localizado, mas o meio pelo qual cada eu se manifesta.
A manifestação desse eu, dentro da concepção de Peirce se dá pelo diálogo de cada ser humano com a coletividade, em cooperação, pelo reconhecimento das subjetividades de cada um, melhor dizendo, pela comunicação intersubjetiva em sociedade, numa visão teleológica.
Além disto, estas idéias vão mais longe, quanto as considerações de Peirce sobre o fato de que quanto mais elevado o nível de consciência, menor é a exclusividade do eu. Assim, num processo de mediação sígnica, uma vez que qualquer coisa pode ser considerada um signo, os eus são desenvolvidos a partir das relações com o outro, numa interação dinâmica com diversas realidades, considerando-se neste ponto as variações de tempo e de espaço.
Nesse sentido, Colapietro expõe a idéia de Peirce sobre transitoriedade e indeterminação do eu, num processo contínuo de ser e vir a ser.
Desenvolvendo essas idéias de Peirce, Colapietro também rejeita a visão obscura de psicologismos, ao invés disso propõe a importância dos estudos de Peirce para a Psicologia.
Quanto à Psicologia, Colapietro apresenta as concepções de Peirce longe de uma visão mecanicista da psicologia comportamental, descrevendo a formação de hábitos como fruto desta interação dinâmica mediada pelos signos, a qual nos permite uma concepção de realidade em estado de constantes transformações.
Assim, os hábitos são formados na medida da terceiridade de Peirce; o organismo animal, do qual não escapa o ser humano, diante das oposições que lhes são apresentadas pelo meio ao seu redor em seu processo de desenvolvimento, reage a estas, numa relação diádica; uma vez apreendidas estas reações, através da experiência, emerge o hábito, em estado de terceiridade.
Nesta parte é importante dizer que Peirce não exclui a secundidade dos processos de interações sígnicas; uma terceiridade pressupõe uma secundidade, não de forma linear, mas, como foi dito, de forma dinâmica, o que pode nos permitir perceber a possibilidade de ocorrência de transformações neste processo.
Assim, pela mediação sígnica, a realidade não pode ser vista como algo determinado, cristalizado no tempo e no espaço, o que pode levar a uma concepção de diversidade de realidades vividas por um mesmo sujeito; desta forma, o conhecido pela experiência pode ser passível de transformação, pela capacidade humana de imaginar, o que é enfaticamente exposto por Peirce.
Estas idéias são relacionadas ao desenvolvimento do eu pela concepção de subjetividade apresentada por Peirce.
Os processos de intersubjetividade (comunicação intersubjetiva ) – os quais podem ser caracterizados por um compartilhar de sentimentos, pensamentos, expressão de experiências, o que são considerados por Peirce como tipos de processos da cognição humana – uma vez viabilizados em sociedade, como por exemplo, por relações de companheirismo e empatia, ou ainda pela intimidade de pensamentos, através da meditação, podem permitir o desenvolvimento do eu em sua maior instância, livrando o ser de seu isolamento, possibilitando a consciência em lugar da alienação, pela mediação sígnica em continuidade.
Estas considerações não excluem a idéia de um ser individual, mas o tomam como um todo, sem dualismos, uma parte integrada em um todo. Segundo esta visão são apresentadas as idéias de Peirce quanto ao desenvolvimento do eu, a partir das concepções de substância, organismo e mente.
Pode-se dizer que segundo o Pragmatismo de Peirce, diferente das idéias deterministas, o signo é aberto a interpretações; assim, a representação da realidade é uma coisa, o sentido dado a ela pode ser outra.
A partir das considerações a respeito de intersubjetividade, Colapietro comenta em decorrência disto, sobre intimidade e autonomia.
Não havendo mais brechas entre o pensamento humano, através da intimidade, sendo possível então o desenvolvimento do eu como um todo, em seus aspectos afetivos, emocionais, cognitivos, em sociedade, em processo de contínuas transformações, pode-se chegar a uma situação de autonomia do eu, como ser livre em uma dinâmica de jogo com as realidades, pela mediação sígnica.
Por fim, é importante citar as últimas considerações de Colapietro, quanto ao fato de que nenhum ser humano é um ser pronto, acabado; em seu desenvolvimento, participam momentos de individuação e coletividade, de maneira dinâmica, daí o autor afirmar que " ser humano é existir numa tensão entre solidão e solidariedade" ( to be human is to exist in the tension between solitude and solidarity). Como se observa, a vasta obra de Peirce vem contribuir para o esclarecimento de muitas questões da época contemporânea, como os diversos processos de comunicação humanas como as artes, as ciências e ainda questões as quais podem estar relacionadas até mesmo à nossa própria sobrevivência, como seres integrantes de uma natureza.
São Paulo, 05 de abril de 1999.
Haley, Michael C. 1988.The Semeiosis of Poetic Metaphor.
[As Semioses da Metáfora Poética] Texas: Indiana University Press.
por Nadja de Moura Carvalho
Em As Semioses da Metáfora Poética, Michael Haley esclarece que não pretende esgotar a concepção de Peirce sobre metáfora, na verdade, a intenção do autor é apresentar a sua própria redescoberta da metáfora segundo a perspectiva da semiótica Peirceana, na tentativa de clarear e ampliar as condições essenciais de definição da metáfora poética.
Haley demonstra os elementos comuns da metáfora (Similaridade, Dualidade e Justaposição), em suas variações de termos e definições entre os autores Aristóteles, Jakobson, Sapir e Peirce, no intuito de ressaltar a relação que se estabelece entre essas noções e as categorias Peirceanas (Possibilidade, Atualidade e Lei) e as suas respectivas funções sígnicas (Ícone, Índice e Símbolo.)
Na perspectiva Peirceana, conforme Haley, a metáfora poética de acordo com as funções sígnicas é tratada da seguinte forma: o símbolo da metáfora se refere a dois ou mais objetos de diferentes domínios semânticos, o interpretante imediato desta relação signo-objeto-objeto, resulta numa percepção de tensão semântica.
Dessa maneira, o leitor forma uma hipótese baseada num índice de que a tensão semântica possui significado, ou seja, a tensão é um signo e, mais especificamente, um índice indicando algum outro objeto.
Então, o ícone é o único objeto confiável do índice metafórico e assim o leitor começa a testar essa possibilidade de índice ao procurar por um ícone entre os referentes da metáfora.
A importância desses aportes teóricos, conforme Haley, é sugerir que a imaginação que traz dois objetos contrários em uma conecção atípica não pode qualificar uma metáfora poética. Ou seja, o modo de associação entre objetos não é uma escolha absolutamente livre, mas influenciada por uma percepção estética.
Haley comenta que para Peirce o ícone não tem uma conexão preestabelecida com o objeto que representa, simplesmente acontece que suas qualidades se parecem e excitam sensações análogas na mente de quem assim os percebe. Daí Haley deduz que, embora a metáfora poética seja responsável pela criação de muitas configurações de sentido, o prazer mais imediato que ela proporciona provém de uma harmonia entre a mente e a realidade icônica precedente .
Haley acrescenta que Peirce rejeita a idéia de um índice metafórico que exista por si, ao contrário, ele deve existir para indicar o ícone por cuja introdução no contexto metafórico faz o índice surgir. Sobre esse aspecto em particular, o autor indaga se deveríamos estudar melhor o índice. Segundo ele, ao examinarmos a teoria triádica de Peirce (Signo-Objeto-Intérprete), a resposta é sim, por que se a tensão semântica é um índice que nos aponta para um ícone, então o índice é confirmado como um signo metafórico.
O livro de Haley está dividido em sete capítulos: no primeiro, a semiótica Peirciana demarca uma visão geral da metáfora que irá fundamentar todo o seu trabalho; no segundo, o enfoque corresponde a uma investigação do caráter icônico da metáfora, com destaque para o hipoícone de Peirce, além de abordar usos específicos do termo metáfora, mostrando a evolução do ponto de vista de Peirce na linguagem figurativa; no terceiro, desenvolve uma teoria da possibilidade metafórica com enfoque no ícone, baseado na noção de Primeiridade de Peirce e no seu realismo filosófico; no quarto, mostra como a leitura do ícone de Peirce se aplica a exemplos reais da metáfora poética; no quinto e sexto retoma o índice de Peirce e desenvolve a sua noção de "substituição figurativa" na metáfora poética, e finalmente no sétimo, explora tudo o que os capítulos anteriores podem sugerir sobre a importante função que a metáfora ocupa na expansão do símbolo.
Em seu capítulo conclusivo, Haley sugere que até mesmo as metáforas mortas fertilizam o crescimento semântico da línguagem, da poesia e do pensamento. Ele utiliza a palavra scruple que em Latim quer dizer uma pedrinha, daquela que entra no sapato e incomoda, embora não faça a pessoa parar para retirá-la em público. Hoje, em Inglês, ela significa relutância ou hesitação (na consciência). Nesse sentido, a evolução da pequena pedra para uma idéia moral não é aleatória: a pedra é a causa metafórica para a hesitação. Observa ainda que quanto mais examinamos o crescimento das línguas, mais o vocabulário parece estar conectado à metáforas em desuso e até mesmo mortas.
São Paulo, 04 de maio de 1999.
Santaella, Lúcia (s/d). "Palavra, imagem & enigmas",
in: REVISTA USP, n. 16.
por Giane Chagas
De imagens e miragens
Nesse segmento do artigo, em reflexões sobre as definições da imagem, é questionada a definição de Mitchell sobre o que vem a ser imagem: tenta fugir às classificações para não perder os traços particulares de cada fenômeno e, por isso, não define. Kosslyn busca uma abrangência maior e considera, inclusive, a imagem perceptiva, mas perde o poder de diferenciação pelo excesso de generalização.
A filigrana das diferenças
São tecidas considerações em torno das teorias da percepção: a gibsoniana (válida por fazer distinções importantes entre as quais estão os aspectos estético e pragmático da percepção, mas incompleta por não tratar das imagens auditivas ou táteis) e a gestáltica (aceita para os estudos sobre a imagem bidimensional). Trata ainda da importância dos estudos de Arnheim, Gombrich e Goodman; da ciência cognitiva que estuda a relação entre imagem e palavra: as imagens mentais; e discute o antagonismo entre os iconófobos e os iconófilos. A discussão antagônica não chega a respostas, pois não é considerado o caráter sígnico da questão.
As imagens e as coisas
Joan Costa traça uma lista de imagens (das coisas visíveis - pintura, fotografia -, passa pelas invisíveis - molécula, átomo -, pelas inexistentes - a Gerra Mundial -, pelas não visíveis - onda sonora, justiça etc.), outra em que relaciona imagem e referente (com graduações da semelhança à significação até a imagem sem significação), mas são classificações que, se direcionadas à compreensão da imagem, estão fadadas ao fracasso, pois estão associadas ao canal que as veiculam.
Baseando-se nas distinções lógicas das imagens e inspirada nas categorias fenomenológicas e na semiótica de Peirce, Santaella classifica a linguagem verbal em três grandes matrizes: 1) formas não-representativas (cuja ênfase está na aparência da imagem); 2) figurativas (centrada no referente); 3) representativas ou simbólicas (centrada nas leis que determinam o modo como serão interpretadas). Essa classificação desconsidera as imagens perceptivas, as mentais e parcialmente as verbais, por ter sido restringida às imagens fixas.
Os nove níveis da iconicidade
Do ícone puro à metáfora, os nove graus do ícone são detalhados na classificação da Prof.ª Santaella, fundamentais para a resolução de problemas teóricos em torno das imagens perceptivas, óticas, gráficas, mentais e verbais - sempre considerando a permeabilidade entre os níveis e o encapsulamento do mais simples pelo mais complexo.
O símbolo como síntese
A partir do significado do termo símbolo - que não é diferente para Aristóteles ou para Peirce, ou seja, "o símbolo é aplicável a tudo aquilo que possa concretizar a idéia relacionada com a palavra" -, são tratadas as relações de mediação que envolvem objeto e interpretante, bem como os papéis da indexicalidade de da iconicidade operadas no símbolo.
Imagens verbais e mentais: interfaces
Além do ponto de vista que trata a imagem verbal como metafórica, há o que a tem como figuração (empregado por Wittgeistein). Muito próximo desse ponto de vista, está a noção peirceana de diagrama: seu sentido está presente em qualquer tipo pensamento (todo pensamento - a partir de Peirce - é diagramático); na linguagem verbal, musical ou visual fala-se em diagrama sintático. Pound e Octavio Paz são citados como formuladores de concepções modernas de poesia que realizam a densidade da imagem verbal.
A imagem da palavra
Da invenção do alfabeto ao hibridismo da linguagem verbal - por meio da mistura entre palavra e imagem diagramática e fotográfica -, são discutidas - inclusive com o embasamento dos conceitos e teorias de Derrida, Freud e Lacan - as múltiplas faces que a linguagem verbal vem adquirindo.
Palavra e imagem: interstícios
Partindo da afirmação de Pound que acredita mais na proximidade entre poesia, imagem e música que entre poesia e linguagem verbal, reflete-se sobre a semelhança entre as construções paratáticas da escrita chinesa e a composição poética ocidental baseada nas aliterações, paronomásias, rimas e anagramas. Haroldo de Campos é citado por levar em conta o método ideogrâmico de Pound e a metáfora cinematográfica de Eisenstein e levá-los ao circuito da função poética de Jakobson, dos anagramas de Saussure e dos diagramas icônicos de Peirce. Reflete-se sobre os rumos que a poesia tem tomado depois de Mallarmé (Lance de dados) ou, no mesmo sentido, sobre os ilimitados caminhos da poesia eletrônica. Esta última, seriamente estudada, com base nas matrizes peirceana, por Philadelpho Menezes e Valdevino S. Oliveira que identificam, dessa maneira, procedimentos imagéticos na poesia.
São Paulo, 2º semestre de 2000.
Santaella, Lúcia "A Percepção: uma teoria semiótica".
por Daniel do Nascimento Andrade Bento
Fruto de curso ministrado pela autora, o livro trata de questões relacionadas à maneira como nossa percepção funciona, através da semiótica de Charles Sanders Peirce (1839-1914), traçando também um histórico de como o problema foi abordado por outras linhas de pensamento e pelos próprios estudiosos peirceanos. No grande impulso que as ciências cognitivas tiveram nos últimos anos, a problemática se aqueceu, porém nem sempre sob um olhar semiótico. A percepção é de interesse a todos aqueles que lidam com ela, de um jeito ou de outro. Ou seja, todos nós.
Pelo pensamento triádico de Peirce pode-se entender de forma única o assunto, longe dos dualismos "mundo exterior" versus "mundo interior", penetrando na ponte entre a linguagem, o cérebro e o exterior: função semiótica sob sua ótica mais ontológica e psicológica. Para Peirce, não pode haver separação entre percepção e conhecimento e toda cognição inevitavelmente entra pela percepção e sai pela ação. O âmbito da percepção é o ponto exato de união entre a fenomenologia e a semiótica.
Encontra-se na obra, abdução relacionada ao julgamento de percepção, ambos processos mentais além de nosso controle consciente, embora aquele destituído de certeza, e este, mesmo falhando, indubitável (felizmente, pois não resistiríamos ao constante questionamento do que percebemos). O conceito cartesiano de "intuição" é inevitavelmente refutado pelas implicações peirceanas de abdução. Esta contestação se mostra também nos processos da percepção. Certos conceitos necessários ao estudioso de semiótica são claramente abordados, como a diferenciação entre percepto e percipuum.
O leitor poderá concluir que nada pode ser dito sobre algo que aparece, sem um signo perceptivo. Afinal, para algo funcionar como signo basta uma coisa estar no lugar de outra. Esse é o motto perpetuo da percepção, cujo encadeamento se dá pelo julgamento de percepção num primeiro elemento semiótico, percipuum como objeto imediato e percepto como objeto dinâmico num segundo, e as sentenças lógicas, interpretante, terceiro.
Com estes e mais conceitos de Peirce, impasses são resolvidos, como a diferenciação entre só percebermos objetos através de nossos órgão sensoriais e a equivocada tendência em só reconhecer como existente aquilo que é percebido.
A relevância do assunto aumenta pela sua raridade no âmbito da pesquisa peirceana, cujos estudiosos em alguns pontos divergem. O livro também aborda os trabalhos destes, mapeando-os e precavendo o leitor contra alguns problemas neles encontrados.
Numa linguagem acessível tanto aos iniciados quanto àqueles que estão pela primeira vez tendo contato com este universo, a obra nos dá de forma objetiva e clara, sem entretanto deixar de se aprofundar, um vasto universo da percepção, pelas lentes triádicas de Charles Sanders Peirce.
São Paulo, 1º semestre de 2000.
Johansen, J. D. (1985). Prolegomena to a Semiotic Theory of
Text Interpretation. Semiotica 57-3/4, 225-288.
Por Fátima Regina
Machado.
Dentre as várias atividades que já exerceu e exerce no meio acadêmico, pode-se destacar que o dinamarquês Jorgen D. Johansen, pesquisador de teoria literária, semiótica e história da literatura européia, é professor de literatura geral e comparada no Departamento de Literatura e Semiótica da Universidade Odense, na Diamarca e é membro e já ocupou posições importantes em associações internacionais de semiótica. (cf. dados colhidos na home page da universidade citada)
Em meio aos livros e artigos que Johansen escreveu e publicou, encontra-se o extenso artigo "Prolegomena to a semiotic theory of text interpretation", publicado na revista Semiotica 57 (3/4, 225-288). Nesse artigo, o autor ressalta a relevância da semiótica peirceana para a interpretação de um texto lingüístico e apresenta um possível modelo de semiose do discurso baseado nas relações entre os elementos envolvidos na comunicação lingüística. Johansen, porém, tem o cuidado de deixar claro que não pretende que esse modelo seja aplicável a todos os casos possíveis de semiose. Diz ter consciência de que, principalmente devido à ampla concepção que Peirce tem de signo e, conseqüentemente, de linguagem, a semiótica peirceana tem um escopo muito mais abrangente do que o recorte que ele faz dela.
O artigo em questão enfoca o discurso humano e trata da semiótica peirceana em especial no que diz respeito à sua relevância para a produção, transmissão e interpretação de significado por meio de signos lingüísticos. Ao longo do texto, Johansen levanta questões de natureza geral e formal, por isso, apesar de fazerem parte de um todo, elementos, relações e processos são analisados separadamente. Coloca-se em constante diálogo com Peirce e deixa claro os pontos levantados que são resultantes de suas próprias reflexões a respeito da semiótica peirceana. Desta forma, o autor faz uma demorada exposição das principais características da semiótica peirceana da linguagem, deixando claro qual é sua visão da semiótica peirceana e como entende os conceitos utilizados por Peirce. Nessa espécie de revisão, o autor apresenta: a concepção de signo de Peirce, os elementos do objeto (discutindo a questão do significado do signo e a relevância do conceito de percepto), o interpretante (discutindo suas classificações) e as relações entre o declarante e o intérprete, pois, segundo Johansen, as partes que tomam parte em uma ação simbólica não devem ficar de fora da análise do significado. Ainda para introduzir o modelo de semiose do discurso, o autor define o conceito de common ground e enumera suas características, que constituem pré-requisitos indispensáveis para a ocorrência de um diálogo bem sucedido entre duas partes.
Johansen deixa claro que processos semióticos informacionais e comunicacionais operam em conjunto e se influenciam mutuamente. Faz uso de diagramas através dos quais tenta representar graficamente as relações entre os diferentes elementos da semiose. Os diagramas possibilitam um melhor entendimento dessas relações. Além dos diagramas, o autor utiliza exemplos ao longo do texto através dos quais aproxima a teoria à vida cotidiana, o que facilita a compreensão. Enfatiza que para se fazer a distinção entre processos semióticos informacionais e comunicacionais é necessário encontrar uma explicação do significado da linguagem, que inclua também as semioses não-verbais. Na visão do autor, "um texto origina-se da declaração de uma seqüência ordenada de símbolos lingüísticos governada implícita ou explicitamente por quatro aspectos" (p. 286) que contribuem com o interpretante dinâmico e cuja natureza permanece envolta em questões não respondidas. Esses aspectos são: o sistema de linguagem, o universo do discurso, a intenção do declarante e o suposto efeito sofrido pelo destinatário. Johansen termina o artigo sugerindo que "apenas aderindo à visão de que o fundamento do significado do texto é heterogêneo, ou mesmo heterológico, podemos ter alguma esperança de nos acercarmos de uma resposta" (p.287) acerca das questões que envolvem a natureza desses quatro aspectos.
Todo o artigo é muito bem fundamentado, coerente e bastante didático. O autor não faz questão de ser sintético, mas nem por isso divaga. Pode-se dizer que o artigo em questão é altamente recomendável não apenas aos interessados em uma teoria semiótica para a interpretação de textos, mas também aos interessados em fazer uma cuidadosa revisão dos conceitos peirceanos e de suas relações semióticas a nível geral.