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Nota dos Editores

    
A sexta edição de Aurora acolhe um dos temas mais candentes para a política. A relação entre arte e política guarda uma dívida especial para com a literatura. O surgimento da escrita se confunde com o surgimento da própria humanidade, quando o homem encontrou um meio seguro para partilhar sua subjetividade e registrá-la. A comunicação pelo corpo, primária aos homens, e a comunicação pelas imagens na parede das cavernas vêem na escrita uma maneira de vencer o tempo e de fazer conhecer todo o universo simbólico que habita a subjetividade humana. Se o viver junto requisitava a comunicação, a partir da escrita a comunicação se potencializa e amplia-se o espaço para a política.

Foi a partir da escrita que filósofos e cientistas políticos pensaram as formas de governo, registraram as leis, avaliaram as conseqüências do poder e ponderaram os limites da liberdade. A formação e manutenção do Estado, a relação entre governantes e governados e tudo aquilo que podemos chamar de literatura política dialoga com uma outra forma de escritura, artística, que acrescenta às linhas as devidas entrelinhas que envolvem o leitor e reclamam sua participação. É nesse sentido que podemos dizer que a literatura por si só é política, porque envolve os leitores, estabelece vínculos entre eles, exige o pensamento e contribui para a formação da opinião.

A Revista Aurora publica nesse número uma série de artigos que envolvem a literatura e a política. O texto de Carlos Melo a respeito da crise cambial brasileira de 1999 é um exemplo de análise de conjuntura realizada a partir de uma literatura específica, memórias e documentos a respeito da época em questão. De acordo com o autor esse tipo de literatura permite ao cientista político tecer interpretações, desvelar o processo histórico e dele extrair o conhecimento da realidade vivida.

Márcia Iwai analisa a obra do angolano Ruy Duarte de Carvalho, Os papéis do inglês , evidenciando a literatura como uma forma de questionamento político do sistema colonial e como forma de aflorar aspectos da identidade de um povo a partir de sua recente independência. Se aqui encontramos na literatura uma oportunidade de se aprofundar o conhecimento do sistema de exploração colonial e suas conseqüências para a formação da identidade do povo angolano, no texto de Arlete Fonseca de Andrade, a obra de Cornélio Pires explicita como a literatura é um meio seguro para o conhecimento das peculiaridades da cultura regional paulista. Nos dois textos o leitor encontrará a confirmação da literatura como fonte de saber sobre o cotidiano da sociedade.

De outra perspectiva, Marcelo Burgos P. dos Santos analisa a obra O Turista Aprendiz como uma forma de se compreender o processo empreendido por Mário de Andrade, que lhe permitiu um olhar bastante peculiar sobre a brasilidade. Mario de Andrade pode ser incluído no grupo dos pensadores que retomaram o Brasil a fim de compreendê-lo. Sua interpretação do Brasil abandona as construções do romantismo e aponta a brasilidade a partir de suas viagens pelo país, colhendo contos, músicas, memórias e formas singulares de existir. A literatura como fonte de conhecimento da cultura nacional ainda vai merecer a reflexão de Maria Aparecida Lopes Nogueira ao se propor a análise do mito do cabreiro. Ariano Suassuna trata o povo brasileiro a fim de evidenciar sua riqueza. A autora mostra em seu artigo como o mito tem muito a dizer sobre o povo e sobre o próprio autor. Suassuna também é tema da coluna Arte e Política , nesse número escrita pelo pesquisador Eduardo Viveiros.

Rosemary Segurado e Rodrigo Estramanho de Almeida analisam o romance de Lampedusa, O Leopardo , comparando-o ao filme homônimo de Luchino Visconti. Os autores evidenciam como a arte, seja através da literatura, seja através do cinema, permite uma leitura da realidade política, nesse caso, a forma como o risorgimento tornou possível uma Itália unificada.

O artigo do escritor Ademir Demarchi analisa algumas das práticas contemporâneas de ação cultural como forma de resistência ao mercado de consumo. O texto levanta a questão da arte como mercadoria e avalia seu papel como ferramenta de mudança social. Carlos Rogério Duarte Barreiros analisa a obra Budapeste , de Chico Buarque avaliando como a mesma questão aparece no referido romance. Perseguindo o conceito de arte crítica de Miguel Chaia, o autor investiga a trama colhendo aspectos que problematizam a função política da arte.

Aurora traz ainda o artigo de Luis Fernando Zulietti, pelo qual analisa as últimas 156 gravuras de Pablo Picasso apontando-as como uma forma de se aproximar do artista político, e o artigo de Marcus Ramúsyo de Almeida Brasil, que aborda o conceito de bios virtual a partir da análise do programa televisivo religioso Viva oxalá . Por fim, o artigo de Silvana Tótora e Joana Egypto, a partir da genealogia de Foucault, problematizam o discurso ecológico e suas apropriações no capitalismo, realizando ainda uma experimentação poética.

revista  publica nesse número duas entrevistas que versam sobre literatura e política e dialogam entre si ao abordarem as obras de Shakespeare e Lorca. A primeira entrevista é com a professora e pesquisadora Maria Silvia Betti, da Universidade de São Paulo, que reflete sobre a relação entre Literatura e Política a partir das obras de Shakespeare, Antonio Candido e Artur Azevedo, e a segunda  entrevista foi realizada com o hisopanista Ian Gibson, importante e reconhecido estudioso de Lorca. A resenha nessa edição é de Edson Lopes sobre o livro de Ana Godoy, A menor das ecologias . Esperamos que Aurora atenda às expectativas de seus leitores ao reunir um grupo tão rico e diverso de autores e temas. Entendemos que literatura e política não se separam e esperamos que as análises aqui publicadas possam contribuir para explicitar essa relação.

Rafael Araújo
Silvana Martinho
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