HIDEAKI, Matsuoka
Japanese Prayer below the Equator: how Brazilians believe in the Church of World Messianity, Lanham: Lexington Books, 2007, 173 p. ISBN 13:978-0-7391-1379-0 / ISBN 10:0-7391-1379-8

por Andréa G. S. Tomita[*] []

Hideaki Matsuoka pesquisou e trabalhou como médico especialista em Psiquiatria no Japão antes de atuar como antropólogo da religião. O seu mais recente livro, Japanese Prayer below the Equator: how Brazilians believe in the Church of World Messianity, resulta de pesquisas de campo sobre a Igreja Messiânica Mundial (IMM) do Brasil no período entre 1991 e 1995. Na ocasião, sua análise centrou-se na motivação e no processo de aceitação da religião messiânica por adeptos brasileiros sem ascendência japonesa.

No prefácio, o autor descreve uma intrigante cena que o levou à decisão de pesquisar sobre a Igreja Messiânica, em 1989. Durante um culto, membros brasileiros entoavam em japonês a oração milenar Amatsu Norito. Como aquelas pessoas teriam se interessado e se integrado a uma religião japonesa cuja experiência religiosa certamente era tão distante da realidade religiosa e cultural brasileira?

O objetivo principal do trabalho é explicar a possível dualidade entre o “auto-aperfeiçoamento” (self-cultivation) e a crença no Johrei – uma prática transcendental da IMM que proporcionaria milagres de vários tipos. No primeiro capítulo, conhecemos o motivo da escolha do título: a experiência de Matsuoka vivida na Igreja Messiânica de Belém, que se situa na capital paraense, latitude 1º45 ao norte da linha do Equador. Os tópicos abordados nos capítulos seguintes são descritos resumidamente e ficamos sabendo que as pessoas são atraídas e freqüentam a Igreja Messiânica por vários motivos. Há quem vá à igreja para comprar produtos orgânicos, assistir aulas de ikebana, ouvir orientações dos ministros ou ministrar e receber Johrei – um dos pilares da fé messiânica.

O segundo capítulo divide-se em quatro partes. A primeira delas apresenta e conceitua as chamadas “Novas Religiões Japonesas” (NRJ); a segunda traz uma breve biografia do fundador Mokiti Okada (cujo nome religioso é Meishu-Sama), seguida de uma introdução sobre a doutrina e práticas da religião Omoto – uma das mais significativas, NRJ à qual Okada se filiou e chegou a se tornar sacerdote antes de fundar a IMM, em 01/01/1935. A terceira parte contextualiza a realidade das NRJ no Brasil e, finalmente, a última delas descreve o desenvolvimento da religião messiânica no país.

É preciso mencionar a grande contribuição do trabalho de Matsuoka, visto que, pela primeira vez, o público interessado no assunto tem acesso a um livro editado em inglês inteiramente dedicado à Igreja Messiânica. Estudiosos japoneses como Hiroshi Saito, Takashi Maeyama, Hirochika Nakamaki e Masako Watanabe, entre outros, são algumas das possíveis referências para os interessados no tema das NRJ no Brasil. Contudo, em geral, a IMM é apenas citada em comparação a outras religiões. Um trabalho exclusivamente voltado a IMM e editado em língua inglesa estava por ser feito. Em seu trabalho de campo, o autor entrevistou diretores da IMMB e coletou dados que, em geral, não estão disponíveis nem mesmo a estudiosos brasileiros e, muito menos, à comunidade messiânica. No Japão, ele também entrevistou o Sr. Nobuhiko Shoda, um dos pioneiros da difusão no país que se afastou da organização e fundou outra religião (p.44).

Embora o livro preencha uma grande lacuna, sobretudo, no tocante à contextualização histórica da IMM no Brasil, é preciso registrar a superficialidade do autor quando se refere a uma imigrante japonesa pioneira da difusão, em 1954. Segundo ele, essa mulher emigrara juntamente com seu esposo para Manaus e “não obtivera êxito na adesão de novos membros messiânicos” (p. 46). Na realidade, a referida imigrante era solteira quando veio ao Brasil e, após ter unido esforços com os ministros Shoda e Nakahashi, conseguiu formar muitos adeptos messiânicos na região de Bauru, interior paulista.

Estudos recentes sobre o início da difusão da IMM no Brasil apontam uma nova direção pouco mencionada no discurso oficial da igreja brasileira. Conforme texto publicado na revista japonesa Izunome número 72, ano 2007, editada pela Sekai Kyusei Kyo (denominação da IMM no Japão), a imigrante japonesa citada rapidamente por Matsuoka é Teruko Sato (Teruko Yoneyama, após casamento) – uma corajosa jovem de 18 anos, discípula de Meishu-Sama que expandiu a religião em sua fase inicial no Brasil.

No terceiro capítulo, além da tentativa de esclarecimento dos motivos que levaram a igreja a atrair membros brasileiros, são apontadas semelhanças e diferenças entre a IMM e outras religiões significativas no Brasil como o Catolicismo, Kardecismo e Umbanda. Para leitores não familiarizados com o universo religioso brasileiro, possivelmente, as explicações sobre as demais religiões sejam úteis como introdução, porém superficiais em se tratando de um tema tão complexo. Outra questão discutível é a argumentação baseada em dados do Censo de 1970 e 1991 (p. 48) ao invés daqueles divulgados mais recentemente no censo 2000, do IBGE, em que a religião messiânica é apontada como a religião japonesa com maior número de adeptos no país.

Citações de ensinamentos messiânicos demonstram a proximidade e aceitação da visão de mundo cristã pelo Fundador Meishu-Sama. Para Mastuoka, o fato de a IMM enfatizar as semelhanças com o Catolicismo teria sido um dos facilitadores para a conversão de adeptos brasileiros. No caso do Kardecismo, o autor diz que, apesar das semelhanças entre o Johrei e o passe espírita, há diferenças de compreensão sobre as causas e efeitos das doenças. Uma rápida comparação entre essas duas religiões mostra que, embora ambas enfatizem a elevação do espírito, a IMM não aconselha a incorporação espiritual, uma das atividades religiosas mais importantes no Kardecismo. As referências sobre semelhanças e diferenças com a Umbanda são insuficientes para uma compreensão mais apurada do assunto.

Com base na categorização sobre as NRJ no Brasil proposta por Nakamaki no quarto capítulo, tem-se a argumentação de que a IMM teria se mantido fiel aos seus “traços nipônicos” através de uma sede administrativa central, localizada em São Paulo, além de um programa sacerdotal responsável pela formação do clero que constituiria a futura elite da organização no país (p. 66). É curioso observar que Masako Watanabe, estudiosa japonesa que anteriormente se dedicou a um extenso trabalho de campo sobre este tema no caso da IMM no Brasil, não tenha sido sequer citada na bibliografia.

É compreensível que o contato direto do autor com seminaristas masculinos tenha possibilitado uma descrição detalhada do programa de treinamento ministerial da IMM no país à época. Contudo, novamente, a perspectiva de gênero masculina é priorizada. O autor afirma que o propósito da criação do programa de formação sacerdotal feminino em 1989 era o de “educar boas esposas de ministros”, uma vez que “muitos ministros vinham sofrendo com problemas conjugais” (p. 80). Não cabe aqui especular sobre a veracidade ou não de tal afirmativa, mas, sem dúvida, ela expressa uma perspectiva parcial, em geral, masculina. O ponto mais controverso viria a seguir, quando o autor afirma que “o propósito original da igreja fora atingido pois várias seminaristas da segunda turma, iniciada em 1991, se casaram com ministros messiânicos” (p. 80).

Como uma das seminaristas que ingressaram no programa de formação sacerdotal da IMM no Brasil, sinto-me à vontade para afirmar que a política de formação sacerdotal feminina nunca esteve claramente definida para o corpo diretivo e tampouco para o público messiânico em geral. Embora haja registros sobre cada turma de formação sacerdotal feminina, publicados no Jornal Messiânico (informativo oficial da IMMB), tem-se a impressão de que a principal fonte do autor foi o corpo diretivo da organização. Sabe-se que o programa de formação para moças estendeu-se até 2002, quando a 10ª turma de seminaristas (três moças brasileiras e uma angolana) retornou do Japão e as seminaristas brasileiras tornaram-se funcionárias na Sede Central da IMMB.

Desde então, o programa de seminário feminino foi suspenso e o assunto tornou-se uma espécie de tabu em alguns aspectos. Eu afirmaria, mesmo, que uma pesquisa detalhada sobre esta fase a partir de uma perspectiva de gênero mais equilibrada seria muito útil. Naturalmente, o fato de o autor ter registrado a existência do seminário de formação para mulheres é, sem dúvida, uma importante contribuição à pesquisa sobre o sistema de formação sacerdotal messiânico que, em geral, é tido como um dos fatores importantes para o sucesso da religião no Brasil.

Na segunda metade do livro, em especial a partir do quinto capítulo, há um resumo das pesquisas já realizadas sobre conversão religiosa. Na seqüência, são apresentadas narrativas de entrevistas feitas a quatro adeptos messiânicos e conclusões baseadas nos conceitos de “experiência-próxima” e “experiência-distante”, termos analíticos propostos pelo psicanalista Heinz Kohut e utilizados com certas alterações pelo antropólogo Clifford Geertz. A explicação dos conceitos é assim expressa por Matsuoka:

a “experiência-próxima” é aquela que os brasileiros reconhecem naturalmente e sem grandes esforços porque há alguma referência no contexto religioso brasileiro enquanto a “experiência-distante” é difícil de ser reconhecida devido à inexistência completa ou existência de alguma pequena referência [N.T.: proximidade] na cultura ou religião brasileiras”. Dentre as “experiências-próximas”, são indicadas as seguintes: (1) a prática do Johrei; (2) orientação individual e (3) hierarquização dos espíritos. Dentre as “experiências-distantes”, teríamos (1) autonomia; (2) auxílio ao próximo como expressão de cura mental (espiritual?) – ambos aspectos intrínsecos ao conceito de “auto-aperfeiçoamento” presente na maioria das novas religiões japonesas. (p.95).

Após a explicação de cada um dos tópicos acima, há um item que se propõe a apresentar o Johrei da IMM como meio de “auto-aperfeiçoamento” (p. 104). No entanto, percebe-se uma lacuna entre o subtítulo da seção e o conteúdo. Embora as diferenças entre “experiência-próxima” e “experiência-distante”, no caso da religião messiânica, tenham sido analisadas, não fica evidente o motivo de o Johrei ser considerado um método de “auto-aperfeiçoamento”.

Nos capítulos finais, o principal tema abordado é o Solo Sagrado de Guarapiranga, um complexo de instalações e áreas de preservação ambiental situado em São Paulo e considerado sagrado pelos messiânicos. Inicialmente, o autor descreve uma experiência pessoal vivida durante uma viagem rodoviária de peregrinação ao Solo Sagrado com partida de Belém, em 1994. O ônibus que transportava a caravana de peregrinos messiânicos foi assaltada repentinamente. Segundo o autor, ter presenciado a reação dos adeptos messiânicos àquela situação de crise possibilitou-lhe “um valioso insight para a compreensão dos fundamentos da religião messiânica” (p. 107). Em se tratando de uma religião calcada na orientação de vida para “este mundo”, a Messiânica encoraja seus adeptos a considerar os infortúnios como forma de desenvolvimento positivo. Em enquete feita aos peregrinos assaltados durante a viagem a respeito da possível causa do assalto vivido na ocasião, soube-se que vinte dos trinta entrevistados responderam que o assalto ocorreu “devido às nossas máculas”, ou seja, devido às impurezas que maculam o espírito, segundo a crença messiânica. Para eles, a causa do infortúnio reside em seu próprio interior. Segundo o autor, esta visão demonstra um aspecto significativo da doutrina messiânica: “um traço relativo à responsabilidade pessoal e ao auto-aperfeiçoamento” (p. 118).

A última parte do sexto capítulo apresenta uma análise antropológica do Johrei. Após uma breve explicação sobre o conceito de magia a partir de visões das Ciências Sociais da Religião e da Antropologia, o Johrei é considerado como um “pólo mágico de uma série contínua mágico-religiosa” (p. 122). Contudo, uma importante consideração é feita. À proporção que veio crescendo o número de adeptos, a Messiânica passou a “racionalizar” o Johrei, evitando enfatizar o seu poder de cura.

A contribuição final do livro fica a cargo de uma análise bem fundamentada sobre o papel dos locais sagrados nas NRJ – um tema em geral não trabalhado por estudiosos japoneses. Uma comparação entre os solos sagrados da Igreja Messiânica, Perfeita Liberdade e Seicho-no-Ie aponta as principais semelhanças e diferenças destes locais.

Uma das semelhanças entre essas três NRJ presentes no Brasil é a adoção de sistema binário de autoridade que concilia “local sagrado” e “sede administrativa”. Outra semelhança é a ênfase no “auto-aperfeiçoamento” uma vez que os adeptos participam de seminários realizados nos locais sagrados das respectivas religiões. Na ocasião, espera-se que os adeptos comportem-se de forma paciente e cooperativa, uma vez que dividem espaços comuns e realizam tarefas em grupos. Por outro lado, há diferenças, como o exemplo da Messiânica, que opta por uma postura mais autônoma do fiel que freqüenta o Solo Sagrado. Já a Perfeita Liberdade e a Seicho-no-Ie oferecem vários seminários nos quais os peregrinos devem participar durante sua estada no local.

A conclusão do livro novamente retoma a argumentação de que o Johrei e os milagres dele decorrentes caracterizam uma “experiência-próxima”, enquanto o “auto-aperfeiçoamento” é uma “experiência-distante” para os messiânicos brasileiros. Em seguida, há breves comentários sobre o conceito de “religião de teor reflexivo” e que muitas NRJ se encaixam neste perfil. No entanto, a IMM não deve ser considerada completamente de teor reflexivo, visto que enfatiza os milagres do Johrei e busca a melhoria da sociedade através de atividades na área da agricultura natural, por exemplo. Finalmente, o autor afirma que, para os brasileiros, a religião messiânica de fato tem aspectos próximos da realidade religiosa-cultural brasileira (“experiência-próxima”); contudo, ao compreenderem que sua mudança pessoal para melhor pode alterar sua vida neste mundo, os adeptos messiânicos buscam aprofundar-se, isto é, voltam-se a uma “postura de auto-aperfeiçoamento”.

Evidentemente, a discussão sobre “auto-aperfeiçoamento” na religião messiânica está relacionada a aspectos doutrinários e práticos que ainda não foram completamente compreendidos até mesmo pelo clero e membrezia brasileiros. Nesse sentido, o trabalho de Hideaki Matsuoka contribui imensamente para o fomento de discussões não apenas da perspectiva messiânica como também de outras NRJ presentes no país.

Notas

[*] Andrea G. S. Tomita é doutoranda em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São aulo (UMESP).