Editorial - REVER número 2, ano 5, 2005

O Gênero oculto nas religiões

Nos últimos anos, os estudos de gênero têm contribuído de maneira significativa para a introdução de novas abordagens da realidade, em todos os campos do conhecimento. Os estudos de religião também têm sido influenciados por essa perspectiva de análise. O presente número de REVER compõe-se de uma série de textos que tomam as mulheres como seu foco de atenção. O enfoque de gênero não se restringe, porém, à população feminina. Ao contrário, supõe os homens, enquanto o outro termo da relação social que nomeia. Assim, ainda que os textos que compõem este número tenham nas mulheres o seu foco, os homens estão aí presentes.

Os lugares e funções atribuídos às mulheres nas diversas religiões estudadas, suas práticas devocionais, só podem ser entendidas se consideramos que há outros agentes religiosos que têm lugares e funções, e desenvolvem práticas diferentes daquelas. No entanto, é raro que encontremos textos e análises que tomem os homens como seu objeto. Pouco sabemos de suas crenças, devoções e comportamentos religiosos. Mais uma vez, essa lacuna da pesquisa continuará aberta. Conhecer, de maneira empírica, sistemática, por meio de dossiês bem construídos, como os homens se relacionam com suas religiões, permanece um desafio para a pesquisa.

Do presente dossiê emerge uma multiplicidade de rostos femininos.

Teresinha Bernardo, antropóloga, nos conduz ao mundo do Candomblé, onde as mulheres têm lugar central, como sacerdotisas. Essa religião aparece como exceção ao lugar marginal ocupado pela população feminina nas religiões de origem judaico-cristã. É a própria autora que indica, logo na introdução, o espanto causado por essa situação diferenciada: "Tanto os estudiosos das religiões quanto as pessoas anônimas ficam realmente surpreendidas quando se deparam com a mulher ocupando o ápice da hierarquia religiosa."

As mulheres pentecostais são o objeto do artigo de Fernanda Pimentel. Retomando a pesquisa que serviu de base para sua dissertação de Mestrado em Ciências da Religião na PUC-SP, a autora nos fala da ambigüidade do tratamento das mulheres na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A análise de textos da IURD, bem como de depoimentos de fiéis, a levam a concluir que, ainda que haja posições mais abertas em relação ao papel social e religioso da população feminina, mantém-se nessa igreja um modelo de mulher submissa ao marido no contexto da família e uma concepção da mesma como "fonte do Mal".

Os textos sobre o Judaísmo, Zen Budismo e o Catolicismo são escritos por estudiosas que são também adeptas dessas religiões. Sandra Kochmann, primeira rabina brasileira, recorre à História para explicar o lugar subordinado das mulheres no Judaísmo. Aponta, porém, a ação das mulheres judias que, atualmente, reivindicam igualdade na sinagoga, bem como na família.

A líder budista, monja Coen, referindo os escritos e o comportamento de Buda em relação às mulheres, tanto quanto as sociedades em que essa religião se desenvolveu, mostra a impregnação das idéias patriarcais nas mesmas.

Mary Hunt, teóloga católica feminista americana, única autora estrangeira que integra este número, nos oferece um texto desafiador. Propõe uma reflexão crítica sobre o que nomeia "heterossexismo" – ação e pensamento que reforçam a heterossexualidade como normativa.

Dois textos integram a seção Intercâmbio: Claudirene Brandini, doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos na área de gênero e religião, apresenta a construção do "modelo" feminino no contexto do Brasil Colônia, focando o olhar sobre práticas cotidianas de resistências das mulheres nesse período.

"Catolicismo, a configuração da memória", texto da reconhecida socióloga francesa, Danièle Hervieu-Léger, atual presidenta da École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, foge à temática de gênero, mas traz uma interessante análise do Catolicismo. Ainda que tenha sido escrito há algum tempo, o que torna certas referências "datadas", a penetrante análise da autora oferece elementos teóricos que nos permitem revisitar o tema atualíssimo do futuro, não só do Catolicismo, mas das chamadas "grandes religiões".

Este número da REVER foi organizado pelo Grupo de Pesquisa Gênero e Religião, da PUC/SP. Esse grupo intensificou suas atividades em 2004, ao elaborar seu primeiro dossiê sobre Gênero e Religião, em fase de publicação, para a Revista de Estudos Feministas da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Em conseqüência desse primeiro trabalho surgiu o projeto de organizarmos dois números sobre o mesmo tema para a REVER. Assim, a este primeiro seguir-se-á, na próxima edição da REVER, um segundo, composto basicamente por artigos de autoras estrangeiras.

Acreditamos que incentivar reflexões com enfoque de gênero tem relevância para o desenvolvimento de uma visão objetiva, inclusiva e democrática da compreensão das religiões como espaços sociais e como expressão da cultura e da vivência humanas de mulheres e de homens.


Maria José Rosado Nunes, coordenadora do Grupo de Pesquisa Gênero e Religião, PUC/SP

Adriana Tanese Nogueira, Mestra em Ciências da Religião - PUC/SP

Neusa Steiner, Mestranda em Ciências da Religião – PUC/SP

Miriam Verri Garcia, Mestranda em Ciências da Religião – PUC/SP