Campus Perdizes

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PÁTIO
PUC-SP: História e Presente

Os mais de 70 anos de existência da PUC-SP acumulam inúmeros acontecimentos. Por isso mesmo, qualquer descrição é necessariamente incompleta. No entanto, compartilhar essa memória é fundamental e exige um olhar sobre o nosso passado a partir do presente. Presente cheio de vitalidade e oportunidades para profissionalização de alto nível, produção de conhecimento e construção de um mundo cidadão, com mais igualdade, justiça e solidariedade.

Milhares de estudantes, docentes, funcionários e funcionárias viveram e vivem cotidianamente esta Universidade, cada um a seu modo, compartilhando um fundamental espaço de liberdade e debate. A postura crítica que daí emerge foi construída ao longo de décadas. Não nasceu pronta e pede uma disposição diária para continuar existindo.

Desde a década de 1960, liberdade e debate qualificado são marcas institucionais, que diferenciam nossa Universidade da maioria das Universidades públicas e privadas do país. A PUC-SP confrontou a ditadura militar; acolheu intelectuais que voltavam do exílio ou foram afastados das Universidades públicas pelos atos institucionais do governo militar; inovou pedagogicamente em seus cursos; propagou ideias para a educação popular; indignou-se e combateu a desigualdade e a injustiça social; incorporou e atendeu pessoas com necessidades especiais; produziu e propagou conhecimento para além dos seus muros; sediou eventos políticos e acadêmicos importantes; participou de movimentos pela garantia de direitos; organizou debates com personagens políticos em momentos decisivos do país e valorizou coletivos sociais de diferentes tipos e matizes.

Esse mosaico de experiências históricas coletivas e pessoais molda a PUC-SP do século XXI.

A PUC-SP foi fundada em 22 de agosto de 1946, pela da junção da Faculdade de Filosofia e Letras de São Bento com a Faculdade Paulista de Direito. Na sequência, integraram-se à Instituição a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, a Faculdade de Engenharia Industrial, as Faculdades Campineiras, a Faculdade Santa Cecília e a Faculdade de Medicina de Sorocaba. No início do ano seguinte, a Universidade obteve o título de “Pontifícia”, concedido pelo Papa Pio XII e vinculou-se à Santa Sé, que governa a Igreja Católica.

Seu atual prédio Sede, na Rua Monte Alegre, foi construído no início da década de 1920 para servir originalmente de convento às Irmãs Carmelitas Descalças. No final da década de 1940, a Ordem das freiras, a pedido do então Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, transferiu-se para a região do Jabaquara e entregou o Prédio para a Cúria Metropolitana de São Paulo, bem como a capela e o terreno contíguo de 18 mil metros quadrados. A importância desse conjunto arquitetônico, que inclui ainda o Teatro Tuca, construído posteriormente, foi reconhecida em 2002, ao ser tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo, recebendo o nome de Cardeal Motta.

Nos seus primeiros anos de existência, até meados da década de 1960, a PUC-SP teve como principal marca a formação nas áreas de Filosofia, Direito e Psicologia, no Instituto “Sedes Sapientiae”, herança das faculdades que lhe deram origem. Professores de grande relevância simbolizam esse período, como o filósofo Leonardo Van Acker, o jurista e político André Franco Montoro e o psicólogo Joel Martins, que se tornou, inclusive, um dos reitores da Universidade.

A década de 1960 e os primeiros anos de 1970 definiram uma virada importante da instituição em direção à sua vocação crítica, à produção acadêmica de excelência e à inovação pedagógica. O plano acadêmico da PUC-SP de 1967 estruturou uma orientação humanista, direcionada à intervenção social em termos de ensino, pesquisa e extensão universitária. O plano inspirou-se nos encontros internacionais promovidos pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), cujos eventos questionadores das crescentes violações de direitos políticos e civis no continente fomentaram o que veio a ser chamado de Teologia da Libertação. Em 1969, a Universidade criou alguns dos primeiros cursos de pós-graduação do país nas áreas de Psicologia Educacional, Sociologia, Teoria Literária e Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Em 1971, instaurou, de maneira pioneira, a proposta interdisciplinar de um ciclo básico para os estudos de ciências humanas, resultado do debate sobre a Reforma Universitária instituída por lei federal em 1968.

O protagonismo político da PUC-SP ganha expressão nas décadas de 1970 e 1980, motivado pela sua firme posição contra a ditadura militar, instaurada em 1964 no Brasil. A Universidade abrigou importantes intelectuais perseguidos, tais como: Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Paulo Freire, Maurício Tragtenberg, José Arthur Gianotti, Bento Prado Jr. e Paul Singer. Em 1977, foi sede do mais importante encontro político-acadêmico da época, a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Proibida pelo governo militar de acontecer nas Universidades públicas, a PUC-SP acolheu o evento, o que possibilitou a retomada da União Nacional dos Estudantes (UNE). Meses depois, no dia 22 de setembro de 1977, durante um encontro da UNE, o campus Perdizes foi invadido por tropas militares, sob o comando do coronel Erasmo Dias, à época Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo. A truculência da ação policial teve como resultado diversos feridos e cerca de 900 estudantes detidos e levados para o Batalhão Tobias de Aguiar (a Rota) e para o Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS.

Dom Paulo Evaristo Arns, uma das principais lideranças da Igreja Católica e grão-chanceler da PUC-SP à época, manifestou-se contra a violência, afirmando: "na PUC só se entra prestando exame vestibular. E só se entra na PUC para ajudar o povo, não para destruir as coisas".

No final da década de 1980, a primeira eleição para reitoria de uma Universidade no Brasil foi realizada pela PUC-SP, uma marca democrática importante, que também questionava a persistente ditadura militar. A professora Nadir Gouvêa Kfouri, que hoje dá nome à biblioteca central da Universidade, foi eleita por voto direto de estudantes, professores e funcionários, uma prática até hoje em funcionamento para todos os cargos de gestão acadêmica.

Desde a década de 1990, uma série de desafios internos e externos vêm forjando a história da Universidade, que completou 70 anos em 2016. A PUC-SP expandiu-se e diversificou seus cursos de graduação e de pós-graduação. Fortaleceu também sua área de educação continuada, a COGEAE, possibilitando uma formação complementar de qualidade para estudantes de todo o país. Manteve-se como um espaço de resistência contra as persistentes desigualdades e injustiças sociais, redefinindo seu lugar na sociedade brasileira após a ditadura militar. As enormes transformações vivenciadas no país ao longo das últimas décadas, a partir da redemocratização, tiveram impactos decisivos sobre a PUC-SP. A Universidade, que passou por importantes desafios econômicos e políticos, ressurgiu nos últimos anos com mais força, inovando e se reinventando. Hoje, passa por um processo de modernização dos seus cinco campi, avançando em estratégias de acessibilidade, realizando importantes investimentos em pesquisa, em tecnologia e incentivando novas propostas pedagógicas.

PRAINHA
Vivências e Resistências na Universidade

“Prainha”: uma escadaria de concreto que separa os dois prédios do campus Perdizes da PUC-SP? Sim, prainha. Quem frequenta o campus já passou por lá, mas talvez não saiba de onde vem o apelido do local.

Durante a ditadura militar, com o objetivo de transgredir convenções e se contrapor à censura política vigente, um grupo de estudantes encheu de areia a escadaria entre os prédios Sede e “Novo”, abriu guarda-sóis e colocou trajes de banho para se manifestar.

Essa não foi a única vez, nem a única forma de reinvindicação.

Em 1983, três elefantes foram trazidos à frente do Teatro Tuca por um grupo de estudantes capitaneados pelo Centro Acadêmico de Ciências Sociais. O ato fazia parte de um conjunto de atividades artísticas designadas Invasão Cultural, realizada para relembrar e repudiar a violência das tropas militares na Instituição, ocorrida em 1977.

Em 1987, estudantes da PUC-SP adentraram o gabinete do então deputado Erasmo Dias na Assembleia Legislativa, que foi o comandante da PM na invasão da Universidade, e lhe entregaram uma bomba de chocolate, balas de açúcar e um cacho de bananas. Isso simbolizava, respectivamente, bombas de gás lacrimogêneo, munição de armas e os policiais da ditadura, chamados à época de gorilas do regime pela truculência com que agiam.

A PUC-SP sempre foi o lugar do respeito à diversidade de opiniões e temas, da formação crítica que fomenta o diálogo, da compreensão ao diferente, do olhar interessado ao outro. Não à toa, de suas salas de aula saíram profissionais de destaque nas áreas pública, privada e do terceiro setor, pessoas que levam diariamente à sociedade o que puderam experimentar intensamente no ambiente da Universidade.

Fazer um curso superior não significa apenas frequentar aulas, estudar e pesquisar, mas conhecer e ter contato com o diferente, o surpreendente, fazer amizades, participar de ações sociais e culturais, expandir horizontes e sensibilidades. Essa vivência é particularmente intensa na PUC-SP, com seus centros acadêmicos, atléticas, baterias e a diversidade de pessoas e temas de interesse que formam a nossa Universidade, em todos os seus campi.

Há diversas opções para compartilhar experiências, vivenciar a Universidade plenamente e até mesmo relaxar e se distrair entre um e outro momento de estudos. No campus Perdizes, há esportes na quadra, peças de teatro no Tuca, filmes na videoteca, jornais e revistas na biblioteca. Se a ideia for apenas sentar à sombra, vale ir ao Pátio da Cruz (prédio Sede), à pérgola (atrás da quadra) ou admirar o pequeno jardim em frente à Reitoria. No final da tarde, a vista dos andares superiores do Edifício Reitor Bandeira de Mello (prédio Novo) é garantia de um dos mais belos crepúsculos da cidade de São Paulo – com direito a enxergar o Pico do Jaraguá, lá no extremo da Zona Oeste da capital e todo o entorno alargado do bairro de Perdizes.

Há mais de 50 anos, o Tuca constrói-se como um espaço de resistência política, produção cultural e divulgação acadêmica. A peça que marcou sua inauguração, no dia 11 de setembro de 1965, foi Morte e Vida Severina, baseada em poema de João Cabral de Melo Neto, musicado por Chico Buarque, e encenada por um grupo de jovens atores. O grupo percorreu todas as capitais do Brasil, encenando a peça e mostrando a arte da representação de um poema. O sucesso foi tão grande que rendeu um prêmio da Associação Paulista de Teatro (APCT). No ano seguinte, o espetáculo do grupo Tuca (Teatro dos Universitários da Católica) venceu o Festival Mundial de Teatro Universitário em Paris, na França. Ao longo do tempo, a sigla da companhia acabou virando o nome do local.

Nos anos seguintes, a música também tomou conta dos palcos, com cantores de MPB (Nara Leão, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa e Vinicius de Moraes, entre tantos outros) e internacionais (como o argentino Astor Piazzolla e a chilena Mercedes Sosa). Foi no Tuca que, durante o Festival Internacional da Canção (FIC), em 1968, Caetano Veloso discutiu com o público ao apresentar a música “É proibido proibir” – e para escapar de agressões teve que sair escondido pelos fundos, em meio às obras de construção do restaurante universitário. Ao longo do tempo, o teatro tem recebido uma infinidade de novos e consagrados artistas, que mostram seu talento para um público constante e ávido por novidades. A comunidade puquiana tem ainda o privilégio de assistir a essa programação qualificada e diversificada com descontos especiais. Consulte a programação do Tuca.

Outra característica histórica eram as atividades acadêmicas e políticas de resistência à ditadura. Além de sediar reuniões proibidas pelo regime militar, como a SBPC e a retomada da UNE, também havia ocasiões festivas. Foi um evento no auditório principal, em 1980, que marcou a volta do educador Paulo Freire ao Brasil, após 15 anos de exílio. Dois anos depois, lideranças católicas que se opunham à ditadura foram homenageadas no teatro: Dom Hélder Câmara, laureado com o título de Doutor Honoris Causa da PUC-SP, e o arcebispo de São Paulo e grão-chanceler Dom Paulo Evaristo Arns, premiado com o mesmo título pela Universidade Notre Dame (EUA).

Atualmente, núcleos de pesquisa da Universidade utilizam o seu palco para realizar importantes eventos acadêmicos.

A ousadia da Universidade teve duras consequências: em 1984, dois incêndios (um deles comprovadamente criminoso) destruíram quase que completamente o Tuca. Mesmo restaurado e modernizado, o teatro mantém até hoje em suas paredes marcas do fogo, verdadeiros ecos de sua ousada resistência e do direito a um lugar de memória.