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Lições do coronavírus

Seria uma pena se esta crise não nos ajudasse a repensar a convivência social, a arte de viver


Nestes dias venho fazendo algumas reflexões, que desejo compartilhar com os leitores. A primeira delas é a constatação de que um simples vírus, aparentemente insignificante, pode causar tamanho transtorno e mudar em poucos dias o ritmo da vida privada e social, a economia das nações e até as relações políticas globais. Quem podia imaginar isso? Era possível imaginar Nova York e São Paulo vazias de gente e de carros por dias seguidos? Escolas e universidades sem estudantes em pleno ano letivo? Os sistemas de saúde à beira do colapso, até mesmo em países ricos e organizados?

O coronavírus acabou pondo em xeque as teorias econômicas que não têm por base a justiça e a solidariedade, as ideologias que, obcecadas pela ambição do poder e das vaidades por ele proporcionadas, promovem o ódio cego e a desagregação social.

Desmascarou as tendências culturais orientadas pelo individualismo e o egoísmo, obrigando a reconhecer que ninguém, nenhum grupo e nenhum povo consegue ser feliz sozinho, nem resolver seus problemas sem os outros.

Não uma bomba atômica, mas um simples vírus nos obriga a fazer as contas com nossos limites e a redescobrir que não somos deuses e que os delírios de onipotência são ilusões perigosas, capazes de causar desordens e desastres na convivência humana piores ainda que o coronavírus. Humildade e um sadio realismo são necessários, mais do que nunca.

Em poucos dias o trânsito nas metrópoles melhorou e os índices de poluição e de desperdício de alimentos baixaram drasticamente. As pessoas viram-se obrigadas a ficar mais atentas umas às outras. Os pais têm mais tempo para conviver com os filhos e as famílias conseguem cultivar hábitos saudáveis, quase impossíveis na loucura da vida “normal”. O vírus fez redescobrir o valor do dinheiro, conseguido a duras penas para ser gasto no essencial. E levou muitos a se voltarem novamente para Deus, reconhecendo a própria fragilidade e insuficiência e que a vida nunca está assegurada, mesmo com as casas bem protegidas, as melhores contas bancárias, as mais destacadas posições sociais, os melhores hospitais e o plano de saúde mais caro do mercado. Os sonhos e promessas de segurança total contra os males da vida ficaram duramente abalados, não por um terremoto, mas por um vírus minúsculo, que nem mesmo se consegue enxergar!

Também as celebrações religiosas estão suspensas e as igrejas seguem vazias, justamente nas solenidades da Páscoa, momento central na liturgia da Igreja Católica, quando as pessoas costumam afluir em grande número. A Igreja Católica, como tantas outras expressões religiosas, participa do esforço geral para evitar o contágio do coronavírus e cuidar da saúde e da vida das pessoas.

Contudo, se não podemos sair de casa para frequentar reuniões e aglomerações de povo, tentamos cumprir nossa missão religiosa de modo diferente, sem deixar de realizar aquilo que nos é tão caro. Procuramos novas maneiras de estar próximos das pessoas, não abandonando doentes, pobres e aflitos.

A pandemia move à solidariedade e ao esforço comum para superar a crise, que não poupa ninguém. É hora de abandonar oportunismos de qualquer tipo e a tentação de tirar vantagens individuais da tragédia geral. É tempo de esquecer diferenças e interesses de cada parte, para somar esforços na busca do que é necessário e bom para todos, focando a atenção nos que mais necessitam ser protegidos. Bem observou o papa Francisco, peregrino solitário diante da basílica vaticana e da Praça de São Pedro deserta, no dia 27 de março passado: estamos todos juntos, navegando em mar agitado pela tempestade; está em jogo o nosso destino comum.

A atual crise sanitária passará, como outras no passado. Oxalá, porém, a vida não volte ao seu normal sem que tenhamos assimilado as lições deixadas pelo coronavírus. Tantas vezes as crises ajudam a perceber melhor a vantagem de somar esforços, em vez de dispersar energias; de ter metas básicas na vida comum, a serem postas acima dos interesses particulares; de abraçar e defender valores irrenunciáveis, como a dignidade e a vida das pessoas, a provimento das necessidades básicas do povo, como alimento, saúde, moradia, saneamento básico e oportunidades para ganhar o sustento de maneira digna.

Crises podem propiciar criatividade e inventividade e, com certeza, haverá muita novidade no mundo da ciência e da técnica voltada para a medicina e a saúde. Mas seria uma pena se esta crise não nos ajudasse a repensar também a convivência social, os costumes, a cultura e a arte de viver.

Nem tudo é comerciável, nem tudo pode ser decidido na base do lucro e da vantagem pessoal. Há valores que devem orientar a vida comum, aos quais não devemos renunciar para não expor nosso frágil barco a tempestades ameaçadoras. Que a angústia, o sofrimento e o preço da vida de tantas pessoas, em consequência da pandemia do coronavírus, nos recordem essas e outras importantes lições de vida.

Dom Odilo Pedro Scherer
Cardeal-Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Artigo publicado em "O Estado de S. Paulo",
no dia 11 de abril de 2020