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Paisagens

texto e seleção de imagens: gustavo simões e flávia lucchesi

 

Escrachos e Pussy Riot

 

 

Escrachos: Do lado debaixo do Equador

 

Desde 2011, irromperam no Brasil as manifestações dos denominados escrachos aos torturadores, médicos e outros colaboradores da ditadura civil-militar (1964-1985). A procedência desta prática política emergiu, na América do Sul, com mais de uma década de antecedência, na Argentina, uma invenção do grupo H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas por la Identidad e Justiça contra El Olvido e el Silencio).

 

Após o indulto concedido a torturadores e militares durante o mandato do governo de Carlos Menem, o grupo de filhos de militantes resistentes à ditadura, "desaparecidos" pela polícia e pelos militares, passou a articular intervenções públicas que visavam expor a residência e as ocupações profissionais, em plena democracia, dos serviçais da violência do Estado.

 

O estopim para a deflagração de tais ações foi o depoimento de um ex-oficial da Aeronáutica, ainda nos anos 1990, acerca dos chamados "vôos da morte", relatando a decisão da ditadura argentina de assassinar, sistematicamente, os homens e mulheres resistentes ao governo que se encontravam encarcerados na ESMA (Escola da Mecânica Armada). Foi sob o efeito de tais declarações, proferidas por Alfredo Scilingo, que os H.I.J.O.S. começaram os escrachos. Os "vôos da morte" consistiam em retirar os subversivos das prisões, sob o pretexto de remanejamento a outra penitenciária localizada no Sul, dopá-los com soníferos, para depois lançá-los com vida no mar. Diante deste comunicado público, certos jovens decidiram intensificar a militância política pela memória e esclarecimento do destino efetivo dado pelo governo aos seus pais e familiares.

 

Ultrapassando a exposição da residência de torturadores, militares, médicos legistas, já no final dos anos 1990, os escrachos tornaram-se também um movimento que aproximou os moradores dos bairros em que realizavam as ações visando, para além de escancarar o endereço, estimular também o não convívio com tais funcionários da ditadura. Nesse momento, os H.I.J.O.S. criaram festas e peças de teatro, distintas das tradicionais manifestações militantes pelo direito à verdade, animando nos moradores desses bairros a vitalidade em não mais servir pão, café, serviços de táxi, de entrega de jornais, entre outros, para colaboradores ativos com as violências do Estado perpetradas na Argentina entre 1976 e 1983.

 

A partir daí outros coletivos associaram-se aos H.I.J.O.S, também com o intuito de fortalecer os escrachos e resistir, no presente, à política de "tolerância zero" ou de "saturação policial" aplicada na província de Santa Fé e que se consolidava como política criminal de segurança em toda Argentina, já democratizada. Associações de jovens e os H.I.J.O.S. prepararam material para distribuição na porta de certas escolas com informações aos jovens e telefones de advogados de plantão para liberação em caso de detenção.

 

Um programa de rádio local também foi inventado para combater as ações policiais. Entretanto, no interior da articulação dos escraches, uma nova perspectiva ganhou força no início dos anos 2000. A partir de então, o clamor por justiça e punição passou a compor as ações do H.I.J.O.S., e em muitos momentos suplantou o inicial combate que emergiu como articulação da revolta contra o próprio Estado, as violências que este produz. De início, a forma de ação também visava a disrupção de um novo modo de ação política, que não poderia incluir os reclames por justiça punitiva.

 

Quinze anos depois da Argentina e quase uma década depois do Chile, onde ocorreram sob o nome de funa, os escrachos eclodiram no Brasil. Após algumas ações ocorridas em 2012, às vésperas da criação da Comissão Nacional da Verdade, as manifestações se fortaleceram.


Em diversas capitais, torturadores como David dos Santos e legistas como Harry Shibata e José Carlos Pinheiro foram alvos dos protestos. As ações explicitaram que os serviçais da ordem seguem com suas violências no presente, administrando empresas de segurança privada e exercendo cargos públicos. A partir do segundo semestre de 2012, depois da Rio+20, momento em que militantes presentes na "Cúpula dos Povos" articularam o escracho a Dulene Aleixo, ex-capitão de Infantaria do Exército, outras ações ocorreram em variados cantos do país. Aos poucos, os alvos também se ampliaram para além da corja canalha de policiais, torturadores e legistas.

 

Em Porto Alegre, o jornal Zero Hora foi escrachado por sua conivência com a ditadura civil-militar e, em São Paulo, o atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin. Em 1976, Marin, ex-deputado estadual pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e vice-governador biônico de Paulo Maluf, incentivou a ação do Estado na repressão à equipe de jornalismo da TV Cultura. Na semana seguinte à exortação de Marin, o jornalista Vladimir Herzog foi preso e "suicidado" por agentes da ditadura. O escracho a Marin, articulado em redes sociais, teve sua página censurada pelo Facebook, explicitando que a rede ainda não suporta os ataques vitais ao que resta e persiste feito ranço da ditadura civil-militar no Brasil.

 

Os escrachos, que emergiram na Argentina, passaram pelo Chile e recentemente aconteceram no Brasil, expõem a afirmação da urgência de certos jovens em lutarem contra os efeitos da ubiquidade das violências de Estado durante as décadas de 1960 a 1980, na América do Sul. Entretanto, se os escraches e funas, em determinados momentos, intensificaram seus embates ao próprio Estado e às suas violências, no Brasil, tais ações também foram utilizadas recentemente para levantar "organizações", seus "programas" e "projetos" de luta. Ao contrário do percurso dos escraches na Argentina, irrompidos lentamente a partir da urgência daqueles que viveram na própria pele as feridas provocadas pela violência do Estado, não tardou para que rapidamente certos grupos reivindicassem a autoria das ações ocorridas em várias capitais brasileiras e propusessem organizar os protestos.

 

Procedente de grupos ligados à luta pela reforma agrária, porém, voltado para o fortalecimento do processo de organização da juventude urbana, um dos grupos que reivindicou a autoria dos escrachos no Brasil apreendeu a metodologia dos protestos irrompidos na Argentina visando torná-los uma das "bandeiras" de luta da juventude, mas submetendo sua contestação à construção de um novo projeto de esquerda popular no país. Autonomeada como "apartidária", a organização reclama o pertencimento dos escrachos ao que denomina de unidade das lutas de esquerda, tornando o protesto radical uma questão de agenda política, expondo com suas próprias palavras, relações com o Estado e a política centralizada. A sanha em assumir a propriedade dos escrachos não cessou, culminando no fim de 2012, em São Paulo, com a conexão entre grupos de artistas e militantes políticos que produziram o evento chamado "organizar o escândalo".

 

Escracho pode significar "fotografia do rosto". Em dicionários argentinos, porém, já é situado como ação política. No Brasil, em menos de seis meses, ganhou uma definição na Wikipedia. O registro nos léxicos mostra os efeitos decisivos desta prática política inventada por jovens insolentes que combateram para descobrir o destino que o Estado reservara a seus familiares nos anos 1970 e 1980. Portanto, seja em Buenos Aires, Santiago, São Paulo, Recife, cabe a quem se envolve nessa questão urgente não esquecer que é preciso avançar escrachadamente e que, do lado de baixo do equador, isso é muito mais gostoso gozando, cantando e dançando. E que o escracho, quando destinado aos poderosos, senhores do governo e da guerra, deve ser amplo, geral e irrestrito, afirmando, para além da denúncia, o desacato! Pois não se trata de produzir justiça para a preservação da memória, coisas pelas quais partidos e governos se digladiam, mas de expor descaradamente o que é impossível de organizar, a verdade como escândalo!

 

 

 

 

pussy riots: o fogo do lado do lado de lá

 

No início de novembro de 2011, algo escandaloso interrompeu a mesmice da vida cotidiana em Moscou: três jovens mulheres, vestindo roupas e balaclavas coloridas, escalaram um andaime de obras no interior da estação central de metrô para tocar, com apenas uma guitarra e um microfone, um punk rock que incitava uma revolta popular capaz não apenas ocupar as ruas e praças, mas de "destruir a pavimentação". Ao mesmo tempo, sobre o teto de um ônibus, outras três jovens tocaram a mesma música.

Esta foi a primeira apresentação pública da banda de punk feminista russa, Pussy Riot, seguindo uma tática já utilizada em Moscou pelo grupo de ação-artística-anarquista de rua Voina, que levou seus integrantes também à prisão, em 2010. Também no mês de novembro, foi a vez da burguesia moscovita se assustar. As pussies tocaram a música "Kropotkin-Vodka" – fazendo referência contundente à história política do país, atravessada por embates libertários – sob o teto de um estande de exibição de um novo carro luxuoso, na vitrine de uma butique fashion e na passarela de um desfile de modas.

Nenhuma de suas apresentações aconteceu a partir da permissão de alguma autoridade ou proprietário. "As únicas performances das quais participamos são as ilegais", afirma uma das integrantes do grupo.

Em dezembro, sobre os muros vizinhos ao Centro de Detenção de Moscou, as jovens gritaram a urgência pela morte das prisões.
No primeiro mês do ano seguinte, em uma resposta bem humorada à reação da polícia russa a uma marcha contrária ao presidente candidato a reeleição, Vladimir Putin, realizada às vésperas do Natal, elas saudaram a revolta russa com a música "Putin se mijou", apresentada na Praça Vermelha. Depois dessa apresentação, as garotas foram levadas à delegacia e liberadas no mesmo dia.

No dia 12 de fevereiro de 2012, elas adentraram o altar da Catedral do Cristo Salvador– igreja destruída durante o regime soviético e reconstruída na década de 1990, após o declínio regime socialista soviético, como marco político do novo regime do país – para orarem a "Reza-punk: Virgem Maria leve o Putin embora". No início de março, três das cinco garotas envolvidas nessa apresentação foram detidas pela polícia por "vandalismo e incitação ao ódio religioso". Presas desde então, aguardaram o julgamento realizado no dia 17 de agosto.

As outras duas envolvidas na ação da catedral conseguiram escapar da polícia e não foram encontradas.
"Que vá para o inferno com o seu perdão!" foi o que Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich responderam aos líderes políticos e religiosos que pretendiam perdoá-las. Durante todo o julgamento, presas em um cubo de vidro, elas se negaram a participar do tribunal: não admitiram culpa, não pediram desculpa e não aceitaram perdão.

Foram condenadas, como era de se esperar, a dois anos de prisão. Samutsevich conseguiu liberdade condicional. Tolokonnikova cumpre sua pena na colônia de trabalho forçado para mulheres IK-14 em Mordovia; Alyokhina, em Perm, na IK-32. Ambas as prisões, localizadas no interior da Rússia, compuseram durante o regime soviético o arquipélago GULAG (sigla em russo que designa Administração Central dos Campos).

Grandes celebridades da música pop e movimentos sociais de defesa dos direitos humanos, feministas e LGBTT de todo o planeta se manifestaram contrários à "prisão das artistas", que definem como "presas políticas". Estas manifestações chamaram atenção para o caso que passou a ser debatido pela imprensa e a diplomacia internacional como uma afronta à democracia e à liberdade de expressão.
Apressados, julgaram a democracia russa como debilitada e ainda profundamente marcada pelos anos de Ditadura do Proletariado.

Não ouviram o berro dessas garotas: "morte à prisão!". Morte à prisão; instituição inerente e imprescindível a qualquer Estado e dentro da qual não existe um só encarcerado que não seja um preso político e que não faça parte da seletividade do direito penal, segundo as forças políticas que ocupam o governo de Estado.
Não assimilaram a intrínseca relação entre religião e Estado, explicitada pelas pussies em sua reza punk.

Não foi um protesto ateísta ou contrário à religião católica.
Mas foi a recusa à existência do tribunal com suas culpas, desculpas e perdões.
Elas afirmam a potência de minorias – mulheres, gays e punks– apartadas das democráticas marchas e pletora de direitos formalizados, se desvinculam da indústria pop e se recusam a participar do mercado, seja fazendo shows em "lugares apropriados" ou vendendo cds e camisetas com o slogan "free pussy riot" (como tentaram fazer certas celebridades e organizações civis).

As imagens dessa sessão de paisagens expõem, a partir desses dois acontecimentos recentes, o escracho e o escândalo. Afirmando e registrando em um planeta que se ajusta na lei e na democracia inquestionáveis, a revolta de jovens, aqui e ali, resiste mesmo diante das pacíficas e bem comportadas machas de protestos inclusivos. Os escrachos e as pussies escancaram, ainda que o governo tenha a pretensão de cobrir todo o planeta com suas moderadas intenções, que sempre haverá impérvios cantões aos quais os poderosos não terão acesso, nos quais resistentes libertários afirmam seus modos de existência e sua refração aos exercícios dos poderes. Essas meninas escrachadas e certos jovens escandalosos são uma pista, uma indicação de como hoje se resiste no planeta sob as tecnologias da sociedade de controle.


 
nu-sol
 
DTI-NMD

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