Voltar para página inicial
sobre observatórioinformativorevista ecopolítica contato
pesquisadores
projeto em fluxos
ecopolítica
direitos
segurança
meio ambiente
penalização a céu aberto
documentos
eventos
links
relatórios
pesquisas
iniciações científicas
mestrados
doutorados
pós-doutorados
home | sobre o projeto

Paisagens

Texto: Gustavo Simões

 

inferno agora!

 

   

 

 

Em 1980, na Alemanha, como resposta às violências da polícia sobre a “República livre de Wendland” — acampamento de militantes contrários à inauguração de um depósito de lixo radioativo em Gorbelen, na Baixa Saxônia —, anarquistas se mobilizaram no que ficou conhecido como “Black Friday”. Vestidos com jaquetas de couro preta¹ e capacetes de motocicletas, os libertários naquela ocasião saíram às ruas das maiores cidades do país. No final do ano, em Berlim Oriental, novamente trajando preto e com o rosto coberto, militantes articularam maciça resistência à tentativa de despejo de okupas e squatters pelas autoridades do lado socialista. Segundo Francis Dupuis-Déri², esta foi uma das primeiras ações nomeadas de black bloc pela imprensa germânica.
Inicialmente como resistência squatter, a tática lack bloc se espraiou por toda a Alemanha. Em Hamburgo, contam que o bloco emergiu incisivamente, em 1986, na Hafenstrasse, rua localizada no bairro de St. Pauli, mais uma vez visando proteger espaços habitados por mulheres e homens que se declaravam antissistema. Às margens do rio Elba, para além de impedir as desocupações pela polícia, o bloco incendiou lojas, propriedades privadas de políticos e monumentos pertencentes ao Estado. Adotada também por autonomistas, no final da década de 1980, mais precisamente em 1988, a tática black bloc passou ser utilizada para atacar reuniões como as realizadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em Berlim Ocidental.
Foi somente na década seguinte, pouco a pouco disseminado por meio de jornais e zines anarcopunks, que o black bloc ganhou também as Américas, inicialmente em protestos que exigiam o fim imediato da guerra do Golfo (1991) e em ações antirracistas, nas manifestações levadas adiante pelo AntiRacist Action (ARA). O bloco de combate ampliou-se, sobretudo, no fim da década, em protestos de ataque à cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada em 1999, em Seattle, Estados Unidos. Sob o efeito explosivo de Seattle, na ultrapassagem do século XX, em diversas cidades do planeta que sediavam encontros internacionais, o black bloc reconhecido como força “antiglobalização” chegou às ruas.
Em 2001, segundo Acácio Augusto, no rescaldo da política, da organização pela esquerda organizada do Fórum Social Mundial (FSM) e da execução pela polícia do jovem anarquista Carlo Giuliani durante protesto contra reunião do G8, em Gênova, Itália, o fogo antiglobalização arrefeceu³.
Como surpresa aos que decretavam o fim das chamas, desde a segunda metade da primeira década do século XXI, sobretudo na Grécia (2006 e 2008), mas também em variados cantos do planeta — no Occupy Wall Street, passando pelas :Jornadas de junho (2013) e pelo Não vai ter copa (2014) no Brasil, e em movimentos na Europa contra a ascensão de partidos fascistas e a perseguição aos imigrantes —, homens e mulheres anônimos seguem praticando ações direcionadas à abolição da propriedade e do Estado. 
Três décadas depois do acontecimento em Seattle, em julho de 2017, voltando a Hamburgo, considerada uma das mais inflamadas e inflamáveis cidades da Europa, as autoridades do G20 decidiram brincar com fogo. E tiveram o que pediram. Foi em vão a tentativa de Angela Merkel de mostrar aos líderes mundiais que sob o seu governo era possível retomar pacificamente as conferências do G20, afastadas das grandes cidades a partir do início dos anos 2000.
Todavia, em texto que circulou às vésperas do G20, militantes anônimos afirmaram: “Desde o final dos anos 90, as cúpulas dos governantes não podiam ser realizadas sem perturbações. Seattle, Gênova, Gotemburgo e Praga não serão lembradas como cúpulas de sucesso, mas como fortes momentos de resistência anticapitalista. Como eles tiveram que levar em consideração a nossa força, as cúpulas do G7/G8 dos anos seguintes na Europa foram deslocadas para fora das grandes cidades devido ao nosso protesto e ação (...). Neste momento, uma outra grande cúpula de chefes de estados e governos terá lugar em uma cidade europeia na Alemanha. Como esquerda radical e anticapitalista, será nosso dever confrontar esse espetáculo de poder”4.
A partir de meados da década de 1980, St. Pauli, bairro próximo à zona portuária de Hamburgo, tornou-se um distrito formado por inúmeros coletivos e associações de anarquistas, autonomistas e antiautoritários. Entre as okupas que se formaram nas últimas décadas do século XX, atualmente ainda se destaca a existência livre do Rote Flora, teatro construído no século XIX mas que, a partir de 1989, foi habitado por artistas, anarquistas e integrantes de movimentos sociais. Próximo ao Rote está a sede do St. Pauli, time de futebol com flâmula preta contendo a imagem de uma caveira similar à dos barcos piratas e que disputa a segunda divisão do campeonato alemão, que atrai torcedores de lugares distintos devido ao clamor antifascista e antirracista da torcida e dos atletas que vestem a camisa do clube. O bairro foi um dos espaços de encontro para a resistência incendiária ao G20, sobretudo, para a manifestação marcada para o primeiro dia do encontro, 7 de julho, chamada de “Bem-vindos ao inferno”.
A cobertura midiática do G8, realizado em 7 e 8 de julho de 2017, foi farta, valorizando o primeiro encontro de Donald Trump com Vladimir Putin e as tentativas políticas da anfitriã Merkel para debater o protecionismo estadunidense e a rejeição da maior economia do planeta em assinar acordos climáticos como os negociados em Paris. Os milhares de ativistas que se deslocaram até Hamburgo para a realização de um encontro alternativo, simultâneo ao G8, também receberam caracteres em diversos sites, blogs e páginas do facebook. Contudo, como era de se esperar, a grande notícia foi a retomada das ruas pelos black bloc em um evento internacional. Em vez da discussão sobre o futuro político do planeta, presente tanto na cúpula como nos encontros alternativos, o bloco preto fez da rua a possibilidade de alteração radical da vida no presente, enfrentando a polícia, destruindo propriedades privadas e estatais, perturbando a ordem.
Reuniões de cúpula como as do G20 e dos alternativos são traços da constituição de uma governamentalidade planetária. Desde os fins dos anos 1970, organizam-se diretrizes de condutas que devem ser seguidas por governos, empresas e cidadãos nos campos da economia, do meio ambiente, da segurança e dos direitos. Como grandes festivais de celebração dos princípios da competição e da cooperação, tais reuniões são um momento no qual se apresentam os princípios de governança que devem orientar e salvar o futuro de um planeta que vive a iminência de uma catástrofe desde a criação da bomba atômica no final da Segunda Guerra Mundial.
Os enfrentamentos dos blocos negros nos encontros de cúpula são um grito do presente. Eles alertam que a catástrofe no capitalismo e sob o governo de Estados está presente para milhões de viventes no planeta. Os combates black bloc são a recusa ativa das metas e prognósticos negociados nos grandes conclaves de Estado e organismos internacionais que pretendem fazer crer que haverá futuro sob a governança global.
O futuro glorioso do qual falam os chefes de Estado no G20 é o presente de fome, miséria, violência institucional, prisões, campos de refugiados e sistemas de segurança que muitos aceitam sob a esperança de um mundo melhor amanhã, de um paraíso possível permutado nas mesas de negociações.
Aqueles que realizaram o enfrentamento com imenso contingente de policiais alemães em Hamburgo, reforçado por guardas franceses, fazem lembrar que nem todos acreditam esperançosos nesse futuro paradisíaco da governança global. Assim, os black bloc prometeram para os líderes presentes no G20 o inferno. E cumpriram!
Em vez de paraíso para amanhã, inferno agora!

1Sobre a vitalidade da escolha do preto pelos black bloc em seus protestos, ver: Edson Passetti. “Política e Antipolítica: resplendores de cores e negror” in verve. São Paulo: Nu-Sol, vol. 30, 2016.

2Francis Dupuis-Déri. Black Blocs. São Paulo, Veneta: 2014.

Acácio Augusto. “Antipolítica e a nova politica: o movimento antiglobalização, anarquia e os governos do sul”. Disponível em http://www.academia.edu/31969725/Antipol%C3%ADtica_e_nova_pol%C3%ADtica_
o_movimento_antiglobaliza%C3%A7%C3%A3o_anarquia_e_os_governos_do_Sul

4G20 — Welcome to hell”. Disponível em https://www.g20hamburg.org/tr/node/142. Acesso em: 12/11/2017.




   
 
   
 

 

 


 

 

 

 

 

 

 
 
 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 

 
   
 
 

 

 

 
 
nu-sol
 
DTI-NMD

Voltar para página inicial mapa do site página de contato