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Já a Siemens, uma das líderes do mercado de celulares no
Brasil, prefere formar seus próprios doutores. Como não encontrou na
Universidade do Amazonas os pesquisadores de que precisa para sua
fábrica de telefones celulares, em Manaus, a empresa fechou um
acordo com a instituição: fará uma seleção de seis professores com
doutorado para que eles possam lecionar na universidade.
Por três anos, vai pagar seus salários. Além disso, fornecerá
recursos para pesquisa, que terão de ser aprovadas pela Siemens. "A
idéia é que os novos professores criem discípulos", diz Luis
Mariano, 44, diretor de pesquisa e desenvolvimento da área de
telecomunicações da empresa.
Método semelhante tem a Monsanto, multinacional da área agrícola. Ana Teresa Marchi, 39, diretora de recursos humanos da empresa, diz: "Como o segmento de biotecnologia ainda está definindo suas estratégias e estruturas, muitas companhias, como a Monsanto, têm firmado parcerias com universidades, buscando nelas profissionais com formação e títulos específicos".
Entre 20% e 50% dos funcionários da área de pesquisa da empresa têm mestrado, doutorado ou outros títulos. Empresas como a Siemens, a Braskem e a Monsanto são exceções na economia brasileira. De um modo geral, as empresas no Brasil investem pouco em pesquisa por causa de quatro fatores: o custo é alto, o risco também, falta financiamento e a macroeconomia é instável.
Além disso, a iniciativa privada tem limitações de outra ordem, que afugentam alguns talentos. Mauro Cosentino, 35, é doutorando em física. Diz ter pedido demissão do cargo de analista financeiro sênior da Telefônica por causa da insatisfação com o mercado de trabalho.
"A iniciativa privada é muito limitante. Se recebesse um convite para voltar, recusaria. Eu não teria a mesma liberdade", afirma. Por causa dessa insatisfação, trocou o salário de R$ 4.500 por uma bolsa de R$ 1.267.
Hoje, porém, o maior problema está no lado das empresas.
Ronald Dauscha, presidente da Anpei (Associação Nacional de
Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras),
afirma: "As empresas têm medo de perder dinheiro". Por isso,
preferem comprar tecnologia a criá-la.
Segundo o Banco Central, o Brasil gastou, em 2002, US$ 1,582 bilhão
(cerca de R$ 5,5 bilhões) só com tecnologia estrangeira. De acordo
com o IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), 67% das empresas de capital nacional que inovaram em
2000 atribuíram baixa importância à área de pesquisa e
desenvolvimento.
Para as empresas, ao comprar tecnologia, o retorno financeiro é mais rápido e o risco, bem menor -a desvantagem é a dependência. Dauscha explica que o "pacote" de tecnologia vem fechado. Na invenção seguinte, a empresa não pode se atualizar sozinha. Com isso, o problema do desemprego de doutores se agrava.
Para se ter uma idéia, em todo o país existe o chamado "efeito diploma": a possibilidade de conseguir um emprego tende a subir quando a pessoa cumpre uma etapa dos estudos. Nos EUA, a taxa de desemprego de uma pessoa que terminou o doutorado ficou em 1,3% em 2001. Em algumas áreas, como a de ciências da computação, a taxa de desemprego foi de 0,4%.
Não há dados sobre os doutores brasileiros, mas entre os mestres formados no país, por exemplo, a taxa de desemprego chega a 15%, segundo o CPS/FGV (Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas). No Brasil, o acúmulo de conhecimento não se traduz em facilidade.
Mesmo nas universidades, porto visto como seguro para muitos doutores, a situação é difícil: por causa dos altos salários, as particulares estão demitindo doutores para substituí-los por mestres ou bacharéis. Além disso, é pequena a verba que essas instituições destinam à pesquisa.
Enquanto as universidades públicas aplicaram, em 2003, mais de R$ 3 bilhões em pesquisa, os recursos aplicados pelas particulares foram de R$ 270 milhões, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Por outro lado, um emprego nas públicas está cada vez mais difícil. Graças ao aumento da quantidade de cursos de pós-graduação, em 2003 formaram-se quatro vezes mais doutores que dez anos antes.
Além disso, há o problema da falta de verbas. "Nós precisamos aprender a nos desenvolver, mas a universidade parou de contratar, não há recomposição do corpo docente", afirma Alberto Santoro, professor de física na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e um dos mais influentes físicos brasileiros -foi convidado pelo norte-americano Leon Lederman, ganhador do Prêmio Nobel de Física, para participar da equipe internacional que provou a existência dos top quark, partículas do núcleo do átomo.
Se nem a esfera privada nem a pública conseguem absorver esse
contingente, o resultado é que os brasileiros mais bem formados não
possuem a empregabilidade que seria de se esperar.
O governo diz que pretende mudar essa situação. "Nossa missão é
criar políticas públicas e garantir condições macroeconômicas
favoráveis ao desenvolvimento", diz Odilon Antonio Marcuzzo do
Canto, diretor de desenvolvimento científico e tecnológico da Finep
(Financiadora de Estudos e Projetos), entidade ligada ao MCT.
Ronald Dauscha, da Anpei, concorda. Ele aponta a Lei de Inovação, aprovada em novembro do ano passado, como tendo esse propósito. Três itens, contudo, ainda não foram regulamentados: compras tecnológicas governamentais, subvenção econômica e regime fiscal favorável.
"Se esses pontos forem bem trabalhados, as empresas terão interesse em investir em pesquisa porque enxergarão o governo como sócio, e contratarão um doutor", afirma. "Nos últimos 50 anos, investiu-se muito na academia. Então, o lado acadêmico está muito bem, obrigado. Agora é hora de investir em pesquisa e desenvolvimento."
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