Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia
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Histórico

Atualmente, a velhice e o processo do envelhecimento estão se tornando mais visíveis em muitos países, principalmente naqueles em desenvolvimento, onde problemas ainda não equacionados, e muito menos resolvidos, tomam conta das prioridades das políticas públicas e sociais. Dados espantosos e previsões alarmantes têm ocupado demógrafos e preocupado cientistas sociais com estudos sobre seguridade social, direitos civis e saúde pública focando, especificamente, as faixas etárias de mais de sessenta anos. 

O documento Active Ageing (WHO, 2002), afirma que hoje 69 milhões de pessoas no mundo estão com mais de 80 anos, a maioria vivendo, por enquanto, em países desenvolvidos; no entanto, alerta que esta é a faixa etária que mais está crescendo dentre a população idosa, já tendo alcançado até agora 3% da população dos países mais pobres.  O crescimento da população idosa afeta diretamente a razão de dependência (número de pessoas com 60 e mais anos de idade dividida pela população de 15 a 60 anos), e exige novas contas para o sistema de aposentadoria e pensões em todos os países, além de mais investimentos em serviços de apoio aos idosos, suas famílias e seus cuidadores, o que, com certeza, vai desequilibrar orçamentos e abalar decisões políticas.

No começo de dezembro de 2003, o IBGE publicou que “estimativas para o ano 2020 revelam que a esperança de vida do brasileiro ao nascer é de 71 anos. É a primeira vez que as projeções superam a casa dos 70 anos. As mulheres vivem 7,6 anos a mais que os homens, que são mais afetados pela violência quando jovens” (IBGE 01/12/2003). No ranking da ONU referente à expectativa de vida, o Brasil está na 88ª posição do total de 192 países. E a mulher idosa, muitas vezes sozinha, vai sobressair na demanda por mais qualidade de vida, além de estar assumindo predominantemente o papel de cuidadora de idosos dependentes e fragilizados. [1]

Estes e outros dados, como a transição epidemiológica [2] em números e suas conseqüências, e temas como a gestão da velhice por parte das famílias e das instituições, fenômenos mais recentes como a incidência da AIDS em pessoas de mais de sessenta anos, o custo-efetividade da atenção à saúde do idoso e das ações de promoção da saúde, o processo de morte e suas implicações éticas e de cidadania, a violência doméstica que vitima os idosos, são, entre muitos outros, temas ainda bastante obscuros no nosso país.

Como construir e reconstruir a opinião pública sobre a presença e a importância de mais idosos na sociedade? Como provocar modificações substantivas nas atitudes públicas ante o crescente número de idosos na sociedade brasileira? Como convencer a nossa sociedade e as autoridades da necessidade do respeito aos direitos dos idosos e de sua cidadania? Como sensibilizar profissionais para o fato de que o envelhecimento não é um fenômeno exclusivamente biológico? Questões a serem aprofundadas pelas ciências humanas e sociais, como psicologia, sociologia, antropologia, ciência política, educação, filosofia, direito, serviço social, economia política, gerontologia e outras.

A Gerontologia, como campo de saber, está em construção. Embora o processo do envelhecimento de muitas sociedades venha ocorrendo há mais de cem anos, o âmbito da gerontologia como área de conhecimento é bastante recente, e diferentes autores têm se referido à sua juventude. Green cita Borgatta e Mc Cluskey (1980:9) que denominaram a gerontologia uma “ciência muito jovem”, localizando seu nascimento no fim da década de 1940, mas observando um atraso no seu reconhecimento acadêmico até os anos 70.

Gerontologia é a disciplina que estuda sistematicamente o envelhecimento. Observa o envelhecimento de dois pontos de vista: como o envelhecimento afeta o indivíduo e como uma população que envelhece vai mudar a sociedade. (Novak, 1988:4, in Green, 1993:1) [3]

A multidisciplinaridade tem sido evocada para definir o campo do saber gerontológico. A entendemos como campos de forças que mobilizam diferentes dimensões da existência humana e, conseqüentemente, do saber. Em nosso entendimento, o social e o cultural não se constituem meros cenários onde se desenvolvem as várias etapas da vida, mas um conjunto de significados que interpretam os sentimentos e os valores. As pesquisas desenvolvidas no Programa apontam para o sujeito idoso como um ser social com capacidade não somente para desenvolver as suas habilidades pessoais para promover a sua saúde em geral, mas também a capacidade que tem para interferir sobre os fatores que determinam a sua qualidade de vida.

No entanto, a multidisciplinaridade pode ser uma etapa preliminar para a interdisciplinaridade, na medida em que a produção científica se caracterize por propostas integradoras de objetivos focalizados. Com certeza, hoje as abordagens e os métodos para o conhecimento da velhice e do envelhecimento são realizados por meio de óticas de muitas e diferentes disciplinas, e no interior das próprias áreas de conhecimento, que estão buscando sua integração. Este propósito vem sendo perseguido em muitos países, assim como no Brasil.

A proposta do Mestrado em Gerontologia da PUCSP firma, portanto, o propósito de conferir uma marca própria no cenário nacional dos programas de pós-graduação em Gerontologia, em consonância com a própria vocação da Universidade que o gestou. E para dar conta desta singularidade, a área de concentração “Gerontologia Social” oferece a oportunidade para alargar as possibilidades do conhecimento no campo social, político e humano, o que deverá ser ampliado para evidenciar, ainda mais, a construção de linhas e projetos integradores.

O Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia/Mestrado iniciou suas atividades em agosto de 1997 e as primeiras dissertações foram defendidas a partir do segundo semestre de 2000, logo após a recomendação do Programa pela CAPES (portaria n. 966, de 13/07/2000), tendo formado, até Dezembro de 2009, 227 mestres. O programa originou-se no Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), criado em 1988. Os estudos e pesquisas realizados pelo Núcleo permitiram uma ampliação da produção de conhecimento sobre envelhecimento e velhice, o que resultou no reconhecimento e necessidade de formalizar um Programa de Estudos Pós-Graduados na área, nove anos depois.

Ao assumir um Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, a PUC/SP já apresentava um número razoável de pesquisas, dissertações e teses cujo tema relacionava-se ao envelhecimento. Importante ressaltar que, em 1986, antes da criação do NEPE, a questão do envelhecimento já vinha sendo discutida na Universidade, especialmente pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social. Na ocasião, um grupo de professores e pesquisadores, incluindo a atual coordenadora do Programa de Gerontologia, Prof. Dra. Suzana A. Rocha Medeiros e alunos de diversos Programas da Pós-Graduação da PUC/SP, integraram a pesquisa da United Nations University (UNU/Tóquio), tendo como tema “O idoso e o seu sistema de apoio: estudo da situação do idoso do Distrito da Lapa no Município de São Paulo”.

Realizada, simultaneamente, no Brasil, Coréia do Sul, Egito, Índia, Cingapura, Tailândia e Zimbábue, alguns de seus dados foram utilizados em estudos comparativos. Essa pesquisa teve como objetivo obter o perfil da população idosa e caracterizar os recursos existentes, para atendimento de idosos, visando apreender, em maior profundidade a percepção do velho, sua condição de vida, suas aspirações e necessidades. A pesquisa ocorreu no período de 1986 a 1988 e teve seu relatório entregue na UNU, em 1992.

A formação dos pesquisadores, para realização da referida investigação e a experiência coletiva, de caráter interinstitucional e internacional, foram elementos fundamentais para a constituição de um grupo de professores e alunos, interessados no tema envelhecimento. O Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE teve origem na produção acadêmica constituída de dez dissertações de mestrado e uma tese de doutorado.

O conhecimento construído nessa fase incorporou ao NEPE professores de diferentes áreas disciplinares da universidade, parte dos quais, vinculados ao quadro do Programa de Estudos Pós-Graduados em  Gerontologia, favorecendo a ampliação e diversificação dos estudos sobre envelhecimento e velhice. Dessa produção, que sinaliza a necessidade acadêmica de estudos voltados para a temática do envelhecimento, resultou o estabelecimento de novas relações interinstitucionais e parcerias.

De lá para cá a velhice e o processo do envelhecimento estão se tornando cada vez mais visíveis em muitos países, principalmente naqueles em desenvolvimento, nos quais, problemas ainda não equacionados influem na delimitação das prioridades das políticas públicas e sociais. Dados espantosos e previsões alarmantes têm ocupado demógrafos e preocupado cientistas sociais estimulando estudos sobre temas como: seguridade social, direitos civis e saúde pública focando, especificamente, as faixas etárias de mais de sessenta anos.

Esses são alguns dos problemas a serem aprofundados pelas ciências humanas, sociais e da saúde, como a psicologia, sociologia, antropologia, ciência política, educação, filosofia, direito, serviço social, economia política, biologia e, em especial, pela gerontologia, numa concepção multi e interdisciplinar de produção de conhecimento.

A necessidade de estudos e pesquisas que avaliem a realidade contemporânea e as implicações da mesma sobre o processo de envelhecimento e a velhice, justifica a importância da formação de pesquisadores e docentes na área. As conexões entre mudanças sociais, processo do envelhecimento e as implicações destes nexos na visibilidade deste segmento etário no Brasil precisam ser aprofundadas, tanto quanto os impactos dessa realidade na vida dos idosos.

[1] - Segundo dados do site www.ibge.gov.br 21/12/2003

[2] - A transição epidemiológica refere-se à substituição das causas de morte de uma população. Com o envelhecimento populacional as mortes por doenças infecciosas e parasitárias são substituídas por doenças crônicas e degenerativas, conforme Veras, R. (1994:28).

[3] - Bryan S. Green, professor de Sociologia na York University, Toronto, é inglês, doutorado em Bath, U.K. e publicou em 1993 “Gerontology and the Construction of Old Age”, onde, aplicando o método da análise de discurso e de texto examina textos e documentos publicados nessa área de desenvolvimento recente e eclética.

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