Fotografia e Complexidade Interlab

Por: Fernando Fogliano

e-mail: fogliano@pucsp.br



Ciência, complexidade e cultura

Neste século, que se avizinha de seu ocaso, a sociedade humana passou por um processo de transição como jamais havia ocorrido em toda sua história. Mudanças radicais ocorreram nos mais variados, senão em todos, setores da atividade humana. Tais modificações ocorreram, notadamente, em função dos tremendos avanços obtidos na ciência e na tecnologia, dois campos que se relacionam numa função de causa e efeito e que se induzem mutuamente num processo evolutivo que conduz a sociedade humana a uma espiral de desenvolvimento e aumento de complexidade (Stewart: 1990, pp. 1-3). Como num jogo de derrubar dominós, todas as demais atividades humanas foram, de alguma forma, envolvidas por esta espiral. As artes, as comunicações, a filosofia não cessam de sentir os efeitos das deflagrações de verdadeiras bombas científico-tecnológicas que ocorrem quase que incessantemente.

Em suas "Propostas", Italo Calvino (Calvino: 1990, pp. 20), com grande sensibilidade, aponta a multiplicidade como um valor ou qualidade importante de ser cultivada na literatura no próximo milênio. Em realidade, tanto nos meios de comunicação, quanto nos meios de expressão artística, o que mais chama a nossa atenção, nos nossos dias, é a interconexão das coisas, a inter-relação de assuntos distintos, a pluralidade das possibilidades; sinteticamente: a multiplicidade. Tal característica se vê manifestada nos meios de comunicação e expressão, tanto nas linguagens, quanto nas técnicas utilizadas para produzir seus enunciados, onde vêem-se diversos entrecruzamentos entre os mais diversos sistemas expressivos como cinema, vídeo, fotografia, imagem digital, música, etc.

Segundo Giovanni Cutolo (Eco: 1988, pp. 11) as artes em geral foram profundamente influenciadas, durante este século, pela aplicação de conceitos advindos das descobertas científicas. Cutolo especula se a arte moderna, ao contestar os valores clássicos de "acabado" e "definido", não estaria a propor a substituição desses conceitos pelos de arte indefinida e plurívoca, aberta, verdadeira rosa de resultados possíveis, regida pelas leis que governam o mundo físico, no qual estamos inseridos. O próprio comportamento inquieto da juventude pode, segundo ele, ser explicado como fato da transferência desses princípios do campo da arte para o da estrutura social.

Calvino, quando descreve seu processo de criação literária, afirma buscar na Ciência o alimento para suas visões, quando sente falta de novos caminhos para a exploração da imagem do mundo. Se deixarmos que a Ciência nos sirva de guia, tal qual sugere o escritor, e nos deixarmos levar pelos tortuosos caminhos da multiplicidade, do acaso e do caos, da criação e da transformação, talvez possamos, então, mergulhar nas profundas águas da complexidade que rege a frenética e turbulenta atividade humana e a própria vida.

 

Da ordem ao caos

A ciência contemporânea contrapôs a visão de um mundo estático e sujeito a leis imutáveis e deterministas, a de outro instável e dinâmico, onde reinam a incerteza, o acaso e a multiplicidade. Sob esta ótica, a ênfase é dada não mais aos fenômenos no seu isolamento, mas aos processos e às estruturas que os geram. É necessário lembrar-se de que quando se está no domínio da complexidade precisa-se de um ferramental adequado para que seja possível uma análise dos fenômenos. A postura determinista e mecanicista não é mais a adequada nestas situações; para ratificar esta afirmação recordemo-nos da história da Física no século XX, especialmente a Física Quântica. A origem de uma nova perspectiva na análise de problemas complexos pode ser encontrada na descoberta de um fenômeno que ocorre no campo da Física, mais especificamente na Termodinâmica de Sistemas Afastados do Equilíbrio. Descobriu-se que fenômenos entrópicos, contrariando idéias clássicas, podem causar a criação de ordem, ao invés de desordem ou equiprobabilidade. A Termodinâmica Clássica associa a ordem ao equilíbrio e a desordem ao não equilíbrio. Hoje sabe-se que fenômenos turbulentos são altamente estruturados. No desequilíbrio a matéria atinge um novo estado, o chamado estado coerente (Prigogine: 1988, pp. 39-42), onde as partículas interagem à distância. Este é um fato novo que contradiz o que se pensava há até bem poucos anos. No desequilíbrio a matéria se reorganiza produzindo novas estruturas. O não equilíbrio constitui o domínio, por excelência, da multiplicidade das soluções.

Ao se estabelecer uma relação entre Sistemas Termodinâmicos e fenômenos da contemporaneidade está-se praticando aquilo que Bertalanffy chamou de Isomorfismo na Ciência (Bertalanffy: 1993, pp. 80-86). De acordo com a sua Teoria Geral de Sistemas, a existência de leis de estrutura similares em diferentes campos, torna possível o uso de modelos mais simples ou melhor conhecidos, para descrever fenômenos mais complicados e de difícil tratamento. Através do isomorfismo, é possível transferir princípios de um campo para outro, não sendo necessário duplicar ou triplicar o descobrimento do mesmo princípio em diferentes campos isolados um do outro.

Se encararmos a sociedade humana como um imenso e complexo sistema, composto por uma infinidade de subsistemas concretos (como os sistemas sociais) e conceituais (como as artes), e se assumirmos que os sistemas comportam-se isomorficamente, veremos então que as especulações de Cutolo fazem muito sentido, ou seja, que o comportamento das artes e dos sistemas sociais é regido por leis naturais. Leis originárias de uma ciência contemporânea, que não somente relativiza a questão do determinismo, mas que também incluem no cenário dos acontecimentos a probabilidade, a irreversibilidade e o caos.

O estudo de um problema clássico, o das "Instabilidades de Bérnard", pode lançar alguma luz sobre o problema do estudo dos fenômenos da complexidade. Imaginemos a seguinte situação: uma fina camada líquida é submetida a uma diferença de temperatura entre a superfície inferior, permanentemente aquecida, e a superfície superior, em contato com o ambiente externo. Para um determinado valor da diferença de temperatura, o transporte de calor se dá através do mecanismo da condução(1); à medida que a diferença de calor entre as superfícies aumenta, cresce a demanda por transporte de calor. Nesta situação o processo de transporte, que necessita ser muito mais eficiente, torna-se predominantemente convectivo(2). Formam-se turbilhões que se distribuem na camada líquida em "células" regulares.

Os desenhos acima mostram o resultado de uma simulação em computador de um sistema de partículas representadas pelos seus vetores de velocidade. A figura da esquerda mostra o movimento das partículas quando o sistema está em equilíbrio; a da direita representa o mesmo sistema longe do equilíbrio; notar o surgimento de um movimento coerente das partículas.

É o surgimento dos turbilhões que merece nossa especial atenção. Neste processo, moléculas sobem, enquanto outras descem. O fenômeno da turbulência observada no líqüido em ebulição, ao contrário do que sua aparência caótica indica, é extremamente organizado e coerente. As correntes convectivas no interior da massa líqüida estabelecem, a partir do movimento das partículas que as compõem, um fluxo no qual as moléculas correlacionam-se no espaço por distâncias muitas vezes maior do que suas próprias dimensões. Este fato aponta para uma característica importantíssima dos sistemas complexos: a capacidade de "auto-organização" ou de "comportamento emergente". No caso dos turbilhões de Bérnard, a emergência de macro estruturas, as correntes convectivas, decorre da necessidade de organização sistêmica a fim de permitir um transporte de calor mais eficiente.

A integração dos sistemas expressivos materializada através dos seus diversos entrecruzamentos, permite-nos concebê-la, em analogia com os sistemas afastados do equilíbrio, como o estado de coerência entre os elementos constituintes de um sistema submetido a um vínculo entropizante. As novas técnicas fotográficas digitais, os sistemas interativos multimídia, ou a realidade virtual, por exemplo, poderiam ser vistos como emergências de um sistema cultural afastado de seu equilíbrio em busca de novas e mais adequadas formas de organização, para poder atender a uma crescente demanda de representação de complexidade.

O que se observa atualmente, ao contrário do que as aparências indicam, não é o ruir das estruturas vigentes, mas o surgimento de uma nova ordem, de novas possibilidades expressivas e de organização. Termodinâmica dos Sistemas Afastados do Equilíbrio tem aparentemente todas as condições de ser a via para a compreensão dos fenômenos contemporâneos. A esse respeito Prigogine faz o seguinte comentário:

"será que podemos prolongar essa idéia ali onde a termodinâmica já não nos pode guiar, ali onde se trata principalmente das relações dos homens entre si e com a natureza? A intensificação das relações sociais que a vida urbana favorece, por exemplo, não foi ao mesmo tempo origem de desperdício, de poluição e de invenções práticas, artísticas e intelectuais?" (Prigogine: 1992, pp. 55).

Nas questões levantadas até aqui, falamos de sistemas afastados do equilíbrio sem entrar no mérito das causas ou agentes que provocam tais mudanças. Ao estudarmos o exemplo dos turbilhões de Bérnard, vimos que o agente instabilizador do sistema físico era o calor. E no caso dos sistemas culturais, como identificar o agente, ou agentes, que desequilibram o sistema? Esta é uma questão ampla e que provavelmente provocaria acalorados debates. Porém, é possível apontar uma entidade sobre a qual não haveriam, talvez, oposições: a tecnologia.

O físico belga David Ruelle (Ruelle: 1993, pp. 113-119) especula se não seria possível analisar o desenvolvimento de um sistema econômico comparando-o a um líquido viscoso aquecido por baixo e, a partir daí, estabelecer as semelhanças, ainda que qualitativas, entre os sistemas. Em sua análise, Ruelle considera a tecnologia como agente instabilizador ou, metaforicamente, como o "calor da economia". Numa breve descrição, ele mostra como um sistema evolui à medida que, pela ação das tecnologias, vai sendo afastado de seu equilíbrio.

 

Fotografia, complexidade e comportamento

Analisar a fotografia como sistema expressivo envolto por uma teia complexa de relações e de possibilidades, implica em estabelecer conexões entre Tecnologia, Ciência e Arte. Estas áreas da atividade humana poderiam ser descritas como partes constituintes de um sistema maior: o Cultural. Numa espiral de aumento de complexidade Ciência, Arte e Tecnologia imbricam-se numa relação de influências mútuas. Essa intrincada relação evolutiva acaba por provocar a necessidade de reestruturação do Sistema Cultural em sua totalidade. À medida em que a tecnologia fornece os suportes para a comunicação humana e suas representações, pode-se lhe atribuir o papel de agente entrópico e desestabilizador do sistema cultural. Podemos, a exemplo do que Ruelle fez em sua análise da economia, supor que a tecnologia é o "calor cultural" que propicia o estado coerente ou inter-relação entre os sistemas expressivos.

Um exemplo interessante de emergência de novas possibilidades expressivas é o sistema fotográfico conhecido como "tecnologia de imagem panorâmica" (Halfhill: 1995). Este sistema, que utiliza fotografias digitalizadas e computadores pessoais, permite que se coloque um observador no meio de um cenário de realidade virtual. Tal sistema, que permite reunir imagem fotográfica a sistemas multimídia, conquistou a atenção nacional, nos Estados Unidos, quando o noticiário NBC News o utilizou para criar panoramas de cenas do crime de assassinato, durante o julgamento de O. J. Simpson. Através dos novos sistemas de produção de imagens fotográficas, como o desse exemplo, podemos ter uma experiência visual direta de realidades antes inimaginadas, quer seja um pensamento ou um hipercubo(3). Ao observarmos essas imagens na tela de um computador, nós estamos face a face com desafios como aqueles enfrentados pelos primeiros cientistas a fazerem uso do telescópio, ou microscópios de raios X.

"Estamos vendo coisas agora que nunca foram vistas antes e estamos apenas aprendendo a interpretá-las"(Banchoff: 1990, p. 11).

 

Representação e permanência.

Premida por uma necessidade de manter e expandir seu nicho na natureza e garantir a preservação da própria espécie, a raça humana busca melhor conhecer e representar o universo a seu redor. Changeux define o comportamento, ou conduta do homem, através da sua atuação sobre o meio ambiente no qual comunica-se com seu semelhante através do movimento dos lábios, dos olhos, das mãos, por um conjunto de atuações motrizes. O cérebro, visto por ele como um "cérebro-máquina cibernética" pode somente efetuar um número definido de operações. Nem todas são possíveis. As operações possíveis somente podem ser realizadas na medida em que o cérebro contenha uma representação do ambiente. Em síntese, poder-se-ia dizer que a apreensão do mundo exterior e a resposta produzida (comportamento) dependem da maneira como esse mundo é representado no cérebro, ou da maneira como está internamente organizada a "máquina" (Changeux: 1991, p.105-106). Vistas sob este aspecto, poderíamos definir as atividades artístico-científicas com atividades oriundas do impulso instintivo de auto-preservação, com o objetivo de apreender e representar o ambiente a fim de, a ele, melhor adaptar-se.

Fotografia e experiência humana estão envolvidos numa densa relação. A fotografia pode oferecer aos nossos olhos fenômenos que nos permitem conhecer estruturas do real, ou vivenciar experiências que ampliam nosso imaginário, mudando nosso comportamento e nossas relações com o meio ambiente. Esta mudança se dá a partir dos processos perceptivos que são, por sua vez, a ponta de um processo muito mais amplo e complexo: a cognição. É necessário, portanto, que se reconheça a profunda importância da imagem fotográfica como elemento deflagrador dos vários processos existentes na produção científica, artística e cultural.

 

Percepção e representação

Com relação à percepção visual, David Marr, em seu livro Vision, afirma que o nosso sistema visual não é um instrumento generalista para a análise das distribuições de cor e intensidade luminosa. Trata-se basicamente de um sistema destinado a perceber objetos no espaço de três dimensões, sendo estas limitadas por bordas. O sistema visual reconhece estes elementos no ambiente e os coloca, para outros sistemas mentais, de forma organizada para a interpretação da informação. Tudo o que se vê é o resultado de interpretações a partir do processamento de um sistema que a evolução natural produziu, levando em consideração as condições de uma realidade física exterior. No universo não há lugar para a abstração universalista. Mesmo a mecânica quântica que é uma ciência que lida com partículas universais como elétrons e fótons, produz leis universais que dão origem à individualidade. A evolução física do universo, de acordo com as leis da mecânica quântica, produziu e espalhou pelo cosmos objetos particulares como o planeta Terra e todas as formas de vida que aqui evoluíram (Gell-Mann: 1994, pp. 3-10).

A própria vida é uma organização singular entre dois tipos de organização físico-química existentes. E, além disso, as descobertas de Hubble sobre a dispersão das galáxias e a descoberta da radiação cósmica de fundo, oriunda de todos os horizontes do universo, trouxeram a ressurreição de um cosmo singular que teria uma história singular na qual surgiria nossa própria história singular (Morin: 1996 p.178).

Diferentes espécies evoluem e adaptam-se ao ambiente de maneira particular. Uexküll (Uexküll: 1992) afirma que a realidade se manifesta para cada espécie de maneira diversa; tudo se passa como se em torno de cada ser vivo existisse uma bolha claramente delineada porém invisível, a que ele chamou de umwelt. As atividades científica e artística contribuem, portanto, para dilatação dos limites do umwelt (Vieira: 1996) e, as imagens fotográficas, como elementos capazes de armazenar informações visuais, constituem-se nos agentes, em grande parte determinantes, no processo de expansão de nossa sensibilidade para a realidade cósmica.

 

Bibliografia

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NOTAS

(1) Processo de transferência de calor onde esta se dá através da colisão entre moléculas.

(2) Enquanto o processo condutivo envolve a transferência de energia em escala microscópica ou atômica, o processo convectivo resulta do movimento em larga escala de quantidades de matéria.

(3) Instância quadridimensional do cubo (Banchoff: 1990, p. 9).

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