Samuel Araujo
UFRJ
É objetivo desta intervenção discutir um problema central da musicologia enquanto parte das ciências humanas e sociais, qual seja, a posição dessas assim chamadas ciências em relação à produção de conhecimento, enfocando a relação das mesmas com uma noção qualquer de verdade essencial. Ao colocá-la, pretende-se muito menos driblar em bom estilo carioca o tema proposto pelo simpósio "música e religiosidade" que realçar o notável componente religioso que perpassa a produção etnomusicológica como um todo e, finalmente, tentar apontar algumas de suas implicações para o debate histórico e/ou antropológico sobre a música no Brasil. Essa discussão adqüire contornos bastante especÌficos em meio à tensão contempor‚nea entre a crescente secularização das relações sociais e a igualmente observável busca de diferentes concepções de religiosidade em escala global. Procura-se, assim, vislumbrar de que modo certos dilemas tÌpicos da religiosidade continuam a afetar as principais correntes contempor‚neas de pensamento sobre a música, correntes essas que, paradoxalmente, se pretendem livres de qualquer associação a crenças ou dogmas de qualquer natureza.
É sabido que as relações entre conhecimento e religiosidade
se encontram à base da especulação epistemológica.
Os desafios colocados aos seres humanos pelo desconhecido em diferentes
épocas e lugares conduziram — e, sem dúvida, continuam a
conduzir — à busca da verdade por meio de experiências mÌsticas.
Uma determinada articulação de tais experiências pode
vir a constituir um corpus de conhecimento, no sentido místico da
palavra, que eventualmente passe a ser adotado como doutrina ou dogma religioso.
O desenvolvimento da ciência no Ocidente como forma laica e antidogmática
de busca da verdade abala profundamente os alicerces desse tipo de procura
do conhecimento. No entanto, como ressaltado ainda no inÌcio do
século XX pelo filósofo francês Henri Bergson, seria
equivocado pensar que a gradativa hegemonia da ciência tenha vindo
a asfixiar inexoravelmente a inclinação religiosa do pensamento
humano, parecendo mesmo ser necessária sua existência como
alternativa ao pensamento mais estritamente científico (ver, por
exemplo, a discussão de Kofman [1999] sobre o conceito de ideologia).
No Ocidente, a hegemonia do fundamentalismo religioso como caminho priviegiado do conhecimento é deslocada pouco a pouco, notadamente a partir do Iluminismo, para o conhecimento de fundo racionalista e anti-dogmático, onde uma noção de verdade absoluta não deixava de existir, mas estaria localizada não em uma inst‚ncia sobrenatural, mas na formulação de hipóteses verificáveis de fenômenos, na argumentação e no estabelecimento de conceitos e categorias universais, modelo esse estabelecido pelas ciências emergentes. Tal processo é desencadeado no Ocidente, mas se desdobra progressivamente por todo o globo, colocando em questão e mesmo tornando insustentáveis uma série de crenças e definições ìirracionaisî do que seria a verdade essencial.
O que pareceria, no entanto, um movimento historicamente irreversÌvel rumo a um conhecimento laico e isento de preconceitos, que libertasse os homens de pré-juÌzos culturalmente determinados, acabou produzindo um resultado hÌbrido. Nas ciências humanas em particular, produziu-se segundo Gellner, uma espécie de contra-dogma: a fé na ciência como modo exclusivo de produção de conhecimento, ou segundo a bem-humorada expressão do etnólogo, um fundamentalismo racionalista.
A defesa racionalista da idéia de uma verdade essencial foi criticada com veemência no campo das ciêcncias humanas pelo chamado relativismo e sua pretendida constatação da inviabilidade de se obter um conhecimento significativo além dos limites de uma dada cultura; em outras palavras, qualquer generalização com pretensões universalistas seria, no mÌnimo, inócua, senaão suspeita. Em suas muitas versões, tal postura aparece como uma crÌtica à tendência colonialista, certamente desapercebida por inúmeros antropólogos, de sobrepor uma determinada visão de mundo à interpretação das demais. Essa sobreposição é criticada com veemência no campo da antropologia, gerando uma nova versão da crença na circunscrição de todo e qualquer conhecimento à cultura que o produziu: na definição de Gellner, o relativismo pós-moderno. Ele também permite associações estreitas com o que acontece no seio do pensamento religioso pós-iluminista. Alguns dos dogmas mantidos por séculos afora (Gellner cita como exemplo o catolicismo romano) são revistos à luz da ciência ou são ao menos relativizados de modo a não confrontar certas demonstrações cientÌficas irrefutáveis.
A formulação triádica de Gellner, portanto, nos
permite ver três concepções distintas de relacionamento
com uma noção de verdade essencial, mas que, ainda assim,
mantêm algumas relações de aproximação
umas com as outras. Coincidindo com o fundamentalismo religioso, o fundamentalismo
racionalista crê na possibilidade de um conhecimento acima dos limites
de uma cultura determinada, mas difere de sua contraparte na rejeição
à localização desse mesmo conhecimento em uma inst‚ncia
sobrenatural. ¿ semelhança do relativismo pós-moderno,
o FRAC também rejeita a univocidade presente no FREL, mas crê,
segundo Gellner, na imanência de um único procedimento (construção
de hipóteses ou argumentos de modo a tornar sólida uma demonstração
ou interpretação) para se chegar ao conhecimento.
Etnomusicologia e religiosidade
O que nos interessa mais de perto aqui, no entanto, é como essas polarizações e interrelações entre modos de pensamento geram conhecimento sobre a música e, principalmente, se ainda há sentido na busca de uma verdade essencial. Na história da etnomusicologia foi fundamental, embora quase nunca reconhecida explicitamente, a crença na superioridade ìinqüestionávelî de determinados procedimentos ou sistemas musicais. Estes seriam o ápice de uma escala evolutiva, quaisquer outros seriam apenas a confirmação da defasagem, não importa em que diferentes estágios de aproximação ao conhecimento definido como superior cada um dos sistemas dito ìexóticosî se encontraria. No campo da etnomusicologia ou da musicologia comparada (termo utilizado pelos pioneiros estudiosos do mundo germ‚nico desde o final do século XIX até meados do XX), os produtos de tal forma de pensar jamais foram capazes de colocar em dúvida a idéia de superioridade do sistema tonal da música de concerto européia em relação aos demais. De modo siginificativo, portanto, a etnomusicologia absorve a herança paradoxal da história do conhecimento no Ocidente, se debatendo entre a fé fervorosa e indubitável na superioridade da cultura burguesa européia (mais tÌpica do fundamentalismo religioso, i.e. o papel do sobrenatural sendo desempenhado pela ideologia ) e a tentativa de comprovar cientificamente essa mesma crença (algo que vários pensadores europeus já haviam tentado antes e alguns continuariam tentando: a comprovação cientÌfica da existência de Deus).
É interessante notar, ligeiramente, que isso contrasta com a posição das vanguardas da criação musical nas salas de concerto da virada do século XIX-XX, que, se ainda são formadas dentro dos c‚nones da música tonal, já não se encontram tão certas de sua onipotência e procuram em sistemas exóticos uma saÌda possÌvel para seus impasses.
A posição relativista por sua vez, marca profundamente a produção etnomusicológica ao longo do século XX e opera direta ou indiretamente uma crÌtica severa às generalizações inconsistentes e, eventualmente, perigosas do cientificismo evolucionista. De um modo geral, multiplicam-se os estudos de caso em que alguns pressupostos teóricos são invocados procurando, contudo, evitar qualquer pretensão de abrangência das conclusões tiradas. A radicalização dessa posição no relativismo pós- moderno afeta a produção mais recente, onde, ainda segundo Gellner, o objeto de estudo é deslocado da sociedade ou cultura estudada para a experiência por ela suscitada no próprio pesquisador (ver por exemplo, Barz e Cooley 1997).
Convém notar, entretanto, que essa corrente de pensamento também
não fica imune a crÌticas, principalmente no que diz respeito
à sua impotência diante das relações cada vez
mais estreitas e, muitas vezes, desiguais, entre diferentes formações
sócio-culturais. Entre vários outros autores, o mesmo Gellner
se indaga de maneira irônica sobre o papel que ainda restaria às
ciências humanas caso se renuncie absolutamente à possibilidade
de elaboração de conceitos na acepção da palavra.
Recusando essa espécie de agnosticismo contempor‚neo, Gellner reconhece
o importantÌssimo papel do relativismo em questionar os limites
ideológicos colonialistas de certas correntes das ciências
humanas e impor às mesmas o aprofundamento de sua autocrÌtica
e o refinamento de seus conceitos e generalizações.
Algumas implicações para a pesquisa etnomusicológica no Brasil
- questionar os modelos cristalizados por determinações ideológicas (ressaltar a relação com as agências de fomento, a definição de linhas de pesquisa etc.)- investir em formulações teóricas, a partir de uma experiência mais sólida e refinada de pesquisa histórico-etnográfica;
- responsabilidade social com o conhecimento (ética na pesquisa);
- ampliar o trabalho colaborativo interdisciplinar e interinstitucional através de programas estáveis.
Referências citadas