Um movimento por uma música
revolucionária, nova, em oposição ao academismo dominante,
teve nascimento em São Paulo , no começo dos anos 60, e sua
continuidade na vizinha cidade de Santos, a fundação do Festival
Música Nova, 1962, pelo compositor santista Gilberto Mendes. Este
Festival, anualmente realizado, vem sendo o palco do desenvolvimento de
toda uma história de um segmento da vida musical brasileira, voltado
para a criação de vanguarda, para o experimentalismo, a criação
de novas linguagens e técnicas musicais, novos materiais, em conformidade
com o avanço tecnológico do pós-guerra, com as novas
teorias (semiótica, cibernética, teoria da informação,
dos "quanta", estocástica, etc.), porém, sempre dentro de
um projeto de modernidade, de humanismo que de acordo com as palavras de
Maiakovski: "não existe arte revolucionária sem forma revolucionária."
Os companheiros de Gilberto
Mendes nesta histórica tomada de posição foram os
compositores Willy Correa de Oliveira, Rogério Duprat, Damiano Cozzella
e os maestros Olivier Toni, Julio Medaglia e Klaus-Dieter Wolff.
Neste trabalho procuro levantar
a hipótese de que embora formalmente tenha sido apenas um dos signatários
do Manifesto Música Nova, foi a presença de Gilberto Mendes
, de suas obras experimentais, sua liderança na promoção
dos Festivais Música Nova e na construção de "música
de invenção", que decidiram os caminhos da nova música
brasileira.
Dois questionamentos embasam
o eixo desta comunicação procurando comprovar a hipótese
levantada:
1). quais os resultados musicais e culturais gerados pelos caminhos
do Movimento Música Nova , a partir do seu Manifesto até
a presente época.
2). qual o exato papel de Gilberto Mendes e do Festival Música
Nova por ele criado e dirigido nesses caminhos impulsionadores e sistematizadores
de uma "arte revolucionária" alimentando o contexto histórico,
estético, musical e cultural do Brasil.
Portanto, a análise
do desenvolvimento de uma linguagem musical do século XX, projetada
no Festival Música Nova cujos resultados se configuram nas tendências
musicais destes últimos trinta anos, merece um estudo mais profundo
de sua influência e dos novos rumos imputados à literatura
musical, à nossa contemporaneidade e à arte em geral .
Um território demarcado num trabalho em equipe com musicoterapia
Esse trabalho é o
desdobramento do capítulo "Atuação do Musicoterapeuta
Atendimento em Equipes", do livro "Musicoterapia: Uma Visão Geral",
de minha autoria, direcionando os questionamentos sobre a atuação
do Musicoterapeuta em equipes com profissionais de outras especialidades
na área da saúde e a dinâmica do funcionamento desse
grupo, buscando a compreensão dos processos ocorridos nesse território,
nos teóricos e filósofos contemporâneos e na semiótica,
como um empreendimento interdisciplinar, uma interface entre os núcleos
sonoro, verbal e gestual, que nos permite compreender os acontecimentos
e a comunicação existente no universo musicoterápico
através do jogo sígnico.
Quando os integrantes de
uma equipe de profissionais (musicoterapeutas, médicos, fonoaudiólogos,
fisioterapeutas, psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais,
assistentes sociais, etc.) se unem para um atendimento, naquele lugar,
naquele momento, há um território específico demarcado,
que extravasa os vários territórios ali representados, no
qual ocorre a todo tempo, desterritorialização e reterritorialização,
e é exatamente esta dinâmica que sinaliza as transformações
e o andamento do processo terapêutico. "Sem dúvida, em todos
os casos, devemos fazer funcionar ao mesmo tempo fatores de territorialidade,
de desterritorialização, mas também de reterritorialização".
(Deleuze e Guattari, 1997).
No território formado
durante o atendimento transdisciplinar, o musicoterapeuta pode estar utilizando
o jogo sígnico sonoro-musical como transdutor, ou seja, como fator
desencadeador de transformações e através desse jogo
proporcionar o desenvolvimento de relações no processo terapêutico
e compartilhar com o grupo de profissionais da equipe as leituras musicoterápicas
e os canais de comunicação abertos.
É um tópico
já bastante definido dentro da cultura ocidental que a criação
artística tenha como Télos a constante busca do ìnovoî e
isso desde pelo menos os primórdios do século XVIII (que
se tome como exemplo a Querelle des Anciens et des Modernes). Todavia,
através das vanguardas do começo deste século,
tal tópico ganhou uma radicalidade inédita, na medida em
que foi potencializado pelo próprio modo como a época pensou
a si mesma e que o verso de Brecht - que Walter Benjamin tomava como
emblema da obsessiva ruptura com o passado sob o signo do novo - resume
muito bem : ìApaguem os rastros ! î. No plano musical, tal concepção
estética apresentou-se sob a forma das constantes inovações
seja formais, seja estruturais pelas quais a música (tal como era
compreendida no século XIX) passou nas mãos de Webern, Stockhausen,
Boulez, Xenakis...
Cabe, contudo, notar que
as diversas vanguardas apresentavam-se sempre lastreadas por uma fundamentação
de caráter, por assim dizer, metafísico-substancialista que
conferia uma necessidade histórica (para não dizer ìmetafísicaî)
para seus projetos. Assim, a arte apresentava-se vinculada à idéias
de progresso, projeto utópico, luta de classes, ou mesmo a uma trans-histórica
oposição necessária entre o antigo e o moderno. Todavia,
mais recentemente, numa época em que toda fundamentação
absoluta é de imediato posta sob suspeita, o próprio arrefecimento
das propostas de vanguarda se mostra paradigmático (que se considere
as tendências restauradoras de um certo minimalismo, da nova simplicidade...).
Frente a isso, o que seria propor - mais uma vez (?) - o ìnovoî numa ìépoca
de conformismo generalizadoî (Cornelius Castoriadis)?
Uma leitura de alguns escritos
de Luigi Nono, com efeito, poderia oferecer uma resposta.
Assim, esta breve comunicação
procurará refinar e aprofundar os pressupostos e implicações
que permeiam as idéias do compositor italiano, através das
respostas oferecidas às seguintes questões : (1) o que é
o novo (o ìoutroî) tal como Nono busca defini-lo? E em que medida distancia-se
das propostas do princípio do século? (2) Se o ìnovoî tem
como contrapartida necessária sua vinculação à
uma nova escuta, como pensá-la para além de uma teoria da
percepção que desde já a retira de sua dimensão
histórico-poética? (3) O que é o pensamento musical
e qual sua relação com a escuta e a criação
?
Esta comunicação
centra-se em uma das categorias da escuta e da composição
musical definidas por Brian Ferneyhough, a textura, para abordar como as
três sínteses deleuzeanas do tempo podem aí ocorrer.
Sendo inabarcável em sua totalidade, a textura é encarada
como campo potencial para a atualização de múltiplas
escutas possíveis. Daí decorre a atração composicional
que exerce contemporaneamente.
Este trabalho é uma
pequena parte de uma pesquisa maior, que vem sendo realizada, sobre o tempo
na música contemporânea. Devido ao estágio em que tal
pesquisa se encontra, a presente exposição restringe-se a
comentar alguns textos que vêm servindo de referência. Apresenta-se,
nesse sentido, como o resultado dos estudos realizados na disciplina ìMúsica
e Repetição: a música em Gilles Deleuzeî, ministrada
pelo Prof. Dr. Sílvio Ferraz, e adota o trabalho desse pesquisador
como fonte principal.
Esta comunicação inicia com a apresentação de dois modos de ruptura sintática: uma no eixo diacrônico e outra no eixo sincrônico. Mostra-se em seguida como esses processos foram associados à aspectos da teoria de sistemas dinâmicos para a criação de materiais sonoros a serem utilizados em composição musical. Será fornecido um exemplo. Este assunto é uma parte da pesquisa Fragmentação e Materialidade desenvolvida na Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP.
A atitude do homem em relação
à música parece estar diretamente condicionada aos sons ambientais
de seu tempo e, sob esta perspectiva, não podemos deixar de observar
que o século xx tem promovido mudanças radicais tanto no
pensamento quanto na escuta musical. Este trabalho pretende tecer algumas
considerações sobre a escuta de paisagens sonoras urbanas,
abordando princípios estéticos que fundamentem e possibilitem
a reflexão de questões como: Ao ouvirmos os sons da rua estamos
ouvindo música? Se for música, estamos compondo a partir
da nossa escuta?
Serão focalizados
aspectos do pensamento de Murray Schafer e de John Cage, os quais, cada
um a seu modo, nos sugere que ouçamos a paisagem sonora do mundo
como sendo "música" e, para "pensar-escutar" essa paisagem como
uma composição, nos "apropriaremos" do conceito de invenção
de Ezra Pound e do conceito de nomadismo de Deleuze, para fundamentar o
que estaremos chamando de "escuta nômade" - uma escuta que compõe.
O tema visa uma breve apresentação do Método de Análise Musical desenvolvido por Jürgen Uhde, (pianista, musicólogo e pedagogo alemão) e Renate Wieland (filósofa alemã). Trata-se de um método de estruturação pela Análise das "Zeitgestalten" configurações temporais) da Música, partindo do Detalhe e relacionando-o com o Todo. O Método de caráter teórico e prático, tem a Intuição como ponto de partida e possibilita um aprofundamento no processo musical de uma Obra, auxiliando o Intérprete em sua tarefa de "recompor" uma obra, passo a passo, tornando sonoros, signos rígidos do texto no qual permanecem enclausurados, libertando-os novamente à sua origem, sempre entrando neste jogo a Personalidade de cada Intérprete.
A obra desenvolve-se mediante
a apresentação de um material sonoro cujas características
espectrais assumem um papel fundamental no processo de organização.
Embora sob vários aspectos, estejamos lidando com uma obra inovadora,
alguns procedimentos relativos à sua construção assemelham-se
aos da música tradicional, a exemplo da reapresentação
variada do material, envolvendo transposição, fragmentação
ou apresentação diminuída de elementos previamente
apresentados, entretanto, em Poème Électronique o material
não é de natureza melódica, e sim, constituído
por objetos sonoros.
Trata-se de uma música
híbrida onde Varèse utiliza tanto o material concreto, quanto
o eletrônico em um tipo de organização que lembra procedimentos
adotados pelo próprio compositor em outros trabalhos, como Ionisation
e Hyperprisme, quando ainda não podia dispor de meios eletrônicos
para compor. Outro fator à ser observado é o emprego de elementos
contrastantes, representado pela justaposição ou sobreposição
de objetos sonoros de características espectrais totalmente diversas.
Esse contraste se dá, não só pela composição
espectral do material exposto, mas também, pela duração
(longo/curto) ou o tipo de movimento (dinâmico /estático),
como por exemplo: sons de longa duração com freqüências
fixas em contraste com glissandos. Esse jogo de oposições
se evidencia ainda no plano textural, onde momentos de grande densidade
se contrapõem aos momentos de rarefação tanto no plano
horizontal, quanto no vertical.
Para que esses pontos de
investigação relativos ao material sonoro utilizado em Poème
électronique sejam evidenciados, o trabalho conta com a apresentação
de uma partitura gráfica composta pelos espectrogramas gerados pelo
software AudioSculpt a partir da análise espectral da obra. Gilberto
Assis de Oliveira Rosa, aluno de mestrado no Programa de Comunicação
e Semiótica da PUC, sob orientação do Prof. Dr. Fernando
Iazzetta.
O século XX se caracteriza
pela possibilidade de multiplicação técnica do som
e pela esquizofonia , o que contribuiu para o surgimento de novas condições
de transmissão e recepção da mensagem e, por conseguinte,
novas situações de performance .
Se o desenvolvimento tecnológico
possibilitou o registro sonoro da geografia e da história das performances
sonoras e musicais, esta mesma tecnologia também promoveu a hibridação
das diferentes músicas das mídias, desde a criação
destas. Tomando como exemplo a canção popular urbana, verificamos
que as intervenções sígnicas não se limitam
à assimilação de traços particulares de uma
dada cultura; mas procedem a uma retomada de elementos de estéticas
e modismos em voga num passado, mais ou menos recente. Também o
folclore e os chamados clássicos populares servem como material
básico de (re)criação. Estes procedimentos se evidenciam
mais enfaticamente nas duas últimas décadas, na pós-modernidade.
Se, de um lado, verificamos
essa regurgitação de tempos e espaços, de outro, a
forte presença de canções que, por razões específicas,
mantêm-se vivas, mesmo em estado latente. Há uma força
de permanência que sustenta sua longevidade. Tomando as referências
teóricas da semiótica da cultura, chegaremos à sua
espinha dorsal: a simbologia da morte. Neste caso, mais precisamente, a
morte na e pela mídia.
Entretanto, se há signos que resistem a essa morte, é
porque certos elementos (temas, formas) têm raízes profundas
e antigas. Que traços são esses? Que mecanismos os signos
musicais (e culturais) utilizam a fim de preservar sua longevidade? Quais
os determinantes sócio-culturais para a sobrevivência destes
signos musicais?
O campo de significado mutante
e variado da palavra gesto e seu emprego em diferentes contextos do discurso
sobre a música impõe atualmente uma necessidade de esclarecimento
sobre sua utilização. Seu uso como muleta epistemológica,
artifício para a defesa de uma ou outra forma de pensar ou fazer
em música, ou como conceito para explicar outros fenômenos
diferindo do significado da palavra gesto tal qual encontramos nos dicionários,
cria problemas de entendimento acabam por confundir e obscurecer o trabalho
de pesquisa que envolve a idéia de gesto.
Entre experiência
e abstração, teoria e prática, conceito e dúvida,
crença e ceticismo, faz-se necessário um esclarecimento da
palavra por contexto e logismo comparativo, evidenciando a forma empregada,
o autor, a época, a finalidade teórica e prática.
Os novos meios de comunicação e a multiplicidade de atividades
com relação à música vêm alterando o
campo de significado não só da idéia de gesto mas
também os principais conceitos com os quais abordamos a própria
música. A tecnologia traz toda uma nova condição de
relacionamento e atribuição conceitual, já que a prática
humana incorpora com ela, cada vez mais, novos meios simbólicos
de abstração e representação. A idéia
de gesto gravita e se transforma por entre corpos conceituais diversos
e até divergentes, ao acompanhar as mais variadas práticas
culturais. Uma reflexão sobre essa idéia pode elucidar em
parte a aplicação difusa do termo gestoÇ em diferentes descrições,
seu uso em algumas elaborações verbais que, em geral, são
de cunho heurístico ou especulativo, dentro de um processo de busca
pela descoberta científica ou estética.
A função música/saúde
acompanha a história da humanidade. Este fenômeno vem se acumulando
pelo tempo e, aflora com características específicas em diferentes
culturas. Nestes dois últimos séculos, no ocidente, o composto
música/saúde tem apresentado-se pela contextualização
científica, o que gerou uma posição de Ñ estar entre
a Arte e a Ciência
Deste contexto surge a área
de Musicoterapia que, apesar de nova, carrega na memória muitos
exemplos de práticas utilizadas por outras culturas e outros períodos
históricos. Com este respaldo, na década de 50, a Musicoterapia
entrou em um processo acelerado de desenvolvimento, sendo possuidora de
um campo que comporta linhas teóricas, métodos e técnicas
próprias.
Um dos componentes da Musicoterapia
é a Escuta Musicoterápica que está inteiramente moldurada
por vários fatores que se cruzam : linhas musicoterápicas,
tipo de cliente, método musicoterápico, técnica musicoterápica,
área de atendimento e outros. Por estar entre duas grandes áreas
- Arte/Ciência - e desenvolver trabalhos emvários campos de
atuação da saúde, um estudo sobre a Escuta Musicoterápica
necessita de uma abordagem teórica que possa interligar estas áreas.
A Semiótica por sua vez, apresenta uma perspectiva de correlação
entre áreas, sendo um aporte possível para a Musicoterapia.
Tal qual a Musicoterapia, a Semiótica também desenvolve-se
por abordagens diferenciadas. Uma destas abordagens vem da visão
de Deleuze. Dentre muitos assuntos de suas obras, o autor descreve sobre
o jogo onde três pensamentos se cruzam : a Filosofia, a Arte e a
Ciência. Aqui surge a grande ressonância com os anseios da
Musicoterapia, que pretende andar nestas áreas de vizinhança.
A Escuta Musicoterápica encaixada nesta dinâmica, flui para
a confecção de um caminhar entre os planos da Ciência
( música e medicina, neuromusicologia, música e imunologia,
música e patologia ), da Arte ( som, música, estética,
escuta, escuta heterogênea, expressão) e da Filosofia aqui
focada pela vertente deleuziana - ( devir música, ritornelo, tempo
liso, tempo estriado, espaço háptico, escuta nômade).
Esta rede, auxilia o Musicoterapeuta a tornar Audível forças
Inaldíveis trazidas pelo paciente.
A musicoterapia encontra-se
em uma área limítrofe de conhecimento. Evidenciando suas
características com a Filosofia, a ciência e a arte (principalmente,
com a música), procuramos estabelecer relações de
co-existência da musicoterapia com o pensamento do filósofo
Gills Deleuze. A partir de um sistema apresentado por Deleuze e Guattari
como sendo um rizoma, procuramos analisar o que ocorre em um setting musicoterápico,
onde cadeias semióticas de várias naturezas se cruzam e se
entrelaçam numa homogeneidade de ações e agenciamentos,
gerando diversos códigos (sistemas de signos) que se entremeiam
e se conectam, dando origem à trama terapêutica.
...neste cenário catográfico não de multiplicidades
sígnicas, agenciamentos, hecceidades e devires ñ que propomos
analisar o que ocorre em um processo musicoterápico com indivíduos
portadores de autismo, sempre estabelecendo correspondências com
o pensamento de Gilles deleuze. Para tanto, estaremos utilizando alguns
vídeos de sessões de musicoterapia realizadas com crianças
e adolescentes portadores de autismo. Essas filmagens fazem parte do acervo
de pesquisa A musicoterapia na Neuropsiquiatria Infantil: os estados autísticos,
desenvolvida durante três anos e meio por uma equipe de profissionais
ligados à Universidade Federal de Goiás.
Os concursos de música
e a UFG - Um marco da tradição cultural de Goiás
Esta pesquisa se originou
a partir de conversas com pesquisadores e musicólogos e da nossa
percepção de que a memória da produção
musical da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás,
vinha se perdendo, e que só um competente registro de suas atividades
artísticas (procedimento até então negligenciado),
garantiria a memória e o mapeamento de sua história musical.
Com muitos dos seus eventos já esquecidos, até mesmo pela
própria Instituição, fazia-se então necessário
esse procedimento, para a preservação de sua memória.
Estimulados por essa necessidade
e com a certeza de que, só resgatando os feitos artísticos
da Escola de Música e preservando o conhecimento de sua produção
passada é que garantiríamos a permanência de sua identidade,
mergulhamos nesta pesquisa, dirigindo o nosso olhar para essa pulsante
"oficina" de arte, que pela sua dinâmica, tornou-se Goiânia
um centro de produção musical do mais alto nível.
Objetivando resgatar a sua
memória, recortamos então a nossa abordagem, investigando
do ponto de vista histórico, social e cultural, os Concursos de
Música realizados nessa instituição, nesses 48 anos
de sua existência, caracterizando e instituindo a chamada "marca
cultural de Goiás".
Levantaremos, num primeiro
momento, parte da história dos mais importantes Concursos de Piano,
nacionais e internacionais, procurando particularmente, nestes últimos,
a presença brasileira, seja através de pianistas concorrentes,
seja através de membros integrantes do júri. Num momento
posterior, passaremos à produção brasileira específica
(pianística), sua fase áurea, e, num terceiro instante nos
deteremos nos concursos promovidos pela própia Escola de Música
da UFG, (focalizando o período de 1969 a 1999). Cumpridos esses
passos serão considerados os resultados artístico-musicais
dos referidos concursos, seja para a vida dos performers, para a instituição
e para toda a comunidade. Concluída a pesquisa, estruturaremos esse
memorial e montaremos uma exposição de todo esse material
histórico, na UFG, levando-o assim ao conhecimento de todos, professores,
alunos, outras instituições musicais e público interessado.
Esse trabalho será
sustentado pelo levantamento, organização e catalogação
de dados que vão desde atas de resoluções da Instituição,
nomes de pessoas envolvidas, realização dos concursos, datas,
júri, candidatos, programas, prêmios, fotos, críticas,
artigos, notícias em jornais a fatos a eles relacionados. Assim,
ao término da pesquisa, ao lado do resgate da memória de
nossa Instituição, estaremos também pondo à
disposição da comunidade um material de consulta que, provavelmente,
servirá de incentivo a novas pesquisas que enfoquem outros aspectos
da produção artístico-musical da Escola de Música
da UFG.
Na Índia, por milênios,
a música tem sido considerada como uma arte representativa. Os significados
expressos pelas diversas formas musicais variam da representação
de relações cósmicas às refinadas qualidades
de sentimento que um connoisseur desfruta quando ouve um concerto ou assiste
a uma apresentação de um dos estilos tradicionais de dança.
Enquanto no primeiro caso as significações musicais referem
às idéias filosóficas e metafísicas indianas,
o segundo caso se volta para significados relacionados com as concepções
dramáticas desenvolvidas pelos estetas indianos e conhecida como
a teoria do rasa. Esta consiste não apenas na classificação
de tipos de sentimentos estéticos e sua prescrição
para a representação musical e dramática, mas também
numa sofisticada teoria da percepção e do desfrute estético.
Inicialmente desenvolvida
no campo da dramaturgia, a teoria do rasa tem a sua mais antiga referência
no Natyashastra (II d.C.), tratado atribuído a Bharata. Nesta
obra, a experiência estética é comparada com o ato
de degustação de pratos finos e bem elaborados. De fato,
a palavra rasa significa literalmente sabor, essência, mas também
sentimento. O desfrutar de uma obra de arte consiste na percepção
dos seus elementos materiais e técnicos que representam para o espectador
aquilo que ele irá interpretar como essência, qualidade de
sentimento ou rasa. Bharata estabelece oito categorias que constituem os
arquétipos da experiência estética: o erótico,
o cômico, o patético, a fúria, o heróico, o
terrível, o odioso e o maravilhoso. No século XI, Abhinavagupta
defende a inclusão de um nono rasa, a tranqüilidade, completanto
o sistema clássico de nove rasas, ou navarasa.
Desde o Natyashastra
até as obras contemporâneas, músicos e musicólogos
indianos tem relacionado estruturas musicais com os nove rasas, assim como
com uma variedade de outros objetos musicais e não musicais. De
fato, a representação pode ser considerada na música
clássica indiana como seu modo estético essencial. O objetivo
desta comunicação é o de informar os participantes
do III Fórum do CLM sobre os avanços desta pesquisa de pós-doutorado,
que visa estudar a teoria do rasa dentro do contexto da música clássica
Hindustani (do norte da Índia), especialmente a questão da
significação do raga, as estruturas melódicas da música
indiana.
O Carnaval op. 9 de Schumann
é aparentado em vários aspectos dos Papillons op. 2: uma
série de obras curtas ambientadas em um baile, cada uma delas com
um caráter diferenciado. No Carnaval, particularmente, esses quadros
recebem títulos evocativos seja de personagens reais (Chopin, Paganini)
ou fantásticos (Eusebius, Florestan), além dos habitantes
esperados de um baile de Carnaval (Arlequin, Colombine).
Fica difícil não
intuir que o compositor está querendo ìcontar uma históriaî
, mas, como se conta uma história sem palavras? E que história
pode ser essa?
O trabalho é parte de pesquisa de iniciação científica desenvolvida sob orientação de Silvio Ferraz, na área de composição musical, que tem por tema a analise de obras doscompositores Debussy, Messiaen e Boulez, e o estudo dos programas citados MAX e Patchwork. Na comunicação estarão sendo apresentados os patches desenvolvidos em Patchwork, baseados nas tecnicas composicionais dos compositores, como os Modos de Transposicao Limitada de Messiaen, a tecnica de multiplicacao de acordes de Boulez, e outros, inclusive com patches que trabalham com quartos e oitavos de tom.
Arquitetura do entre é
uma reflexão sobre a obra de Richard Serra através da filosofia
de Gilles Deleuze. Assim, conceitos como espaço liso e estriado,
nômade, agenciamento e desterritorialização serão
alguns dos termos que construirão a teia conceitual da obra desse
artista.
Suas esculturas são
construídas por superfícies de grandes dimensões,
feitas para ocuparem um lugar específico, criando dessa forma, uma
interdependência constitutiva entre a obra e o espaço onde
ela se instala. O observador deve se deslocar, construir pontos de vista
e a partir de cada um deles, a obra será apreendida diferentemente.
Disto resulta que o espaço criado é composto por uma experiência
escultórica entre o andar e o olhar, contrapondo-se à recepção
imediata, à contemplação. Nessas obras, à medida
que se vai penetrando, vão sendo criadas situações
que não são apreendidas de imediato, mas ao longo de suas
trajetórias. Espaço nômade por excelência, fundado
através da experiência do observador na obra e que configura-se
como um agenciamento, porque não é a obra simplesmente que
se quer apontar ou, o sujeito que nela percorre, mas a relação
criada entre eles.
"Shift"(1970-72), "Clara
Clara"(1983) e "Tilted Arc"(1981-89), obras de Richard Serra que têm
em comum a criação de um espaço liso controlado por
um espaço estriado são as três situações
que analisaremos. Funcionando como verdadeiras arquiteturas do entre ou
do intervalo, sugerindo a perambulação, essas obras são
cravadas como cunhas em espaços estriados, colocando-se muito mais
como oposição do que afirmação. E essas oposições
existem porque são geradoras de espaços nômades, ou
seja, espaços de contínua variação. Um campo
instável que está sempre desterritorializando-se, subordinando-se
aos percursos que nele são feitos.
Considerando a música
e a imagem em movimento, através do cinema, como duas artes em que
há predominância do eixo temporal narrativo, sob uma perspectiva
do condicionamento do ouvinte/espectador ao tempo proposto pela obra (diferentemente
da literatura, onde o tempo de apreciação é determinado
pelo leitor), esta dissertação tem como objetivo o estudo
dos mecanismos de articulação da forma e da representação
nos dois movimentos, da música e da imagem, para então estabelecer
pontos comuns que sejam capazes de sistematizar a significação
de ambas, até que se possa dizer que há música nas
imagens e imagens na música.
A imagem cinematográfica
costuma sobrepor-se ao entendimento musical quando ambas se unem, forçando
a trilha sonora de um filme a servir como elemento de retórica narrativa,
afirmando ou complementando uma imagem. Destarte, como o objetivo do presente
trabalho é tecer análises com ambas em igual peso, optei
por debruçar a dissertação sobre o estudo da iconicidade,
indicidade e simbolismo no único exemplo contundente onde se apresenta
o oposto da maioria das obras cinematográficas (em que justamente
a música redunda a ação da imagem), o filme Fantasia
de Walt Disney (1940): Ao invés da música acompanhar a imagem,
nesta animação a imagem é que acompanha a música,
tornando o resultado cognitivo da música e da imagem mais equilibrado
para o presente fim. Fantasia é uma obra singular em seu gênero,
pois seu pioneirismo em fazer da ação cinematográfica
uma ação musical forçou não só a criação
de técnicas inovadoras no cinema de animação, que
nos surpreende até hoje em dia pela precisão do encaixe entre
os movimentos musicais e imagéticos, como também desencadeou
o interesse por um sistema de gravação estereofônica
comercial e novas conquistas tecnológicas na sonorização
do cinema.
Do ponto de vista estético,
há muito o que considerar entre música e imagem em Fantasia.
Há três tipos de obras musicais colocadas em ação
cinematográfica: 1) As de caráter puramente descritivo, obras
que contam uma história (analogia com a Terceiridade, ou símbolo);
2) As abstratas (a chamada música absoluta, analogia com a Primeiridade,
ou ícone) e 3) Obras híbridas, que situam-se justamente entre
estes dois pilares (analogia com a Secundidade, ou índice). Todas
foram adaptadas e regidas por Leopold Stokowski, notável maestro
inglês que destacou-se justamente pelas liberdades interpretativas
heterodoxas que tomava de obras célebres. Portanto, a análise
da resultante catártica entre a música escrita (muitas vezes
com intenções notoriamente diferenciadas das apresentadas),
e a imagem proposta pela equipe de Walt Disney, nos fornecem largas ferramentas
para dissertar sobre como a música conversa por imagens e vice-versa.
O trabalho seguirá
com a utilização de elementos da semiótica postulados
por Charles Sanders Peirce, especificamente para o entendimento do objeto
enquanto significação. Outros autores entrarão para
complementar o estudo nas áreas específicas dos assuntos,
imagem, cinema e música.
Reinaldo Calegari
Pierre Boulez desenvolveu
em ìA Música Hojeî ( Penser la Musique Aujourdíhui) os conceitos
de espaços lisos e espaços estriados. Relacionou o espaço
estriado com o tempo pulsado ou cronométrico e o espaço liso
com tempo amorfo, isto é, que não se refere à cronometria
senão de uma maneira global. Definiu um conjunto de oposições
e diferenças mas mostrou também as ambigüidades, alternâncias
ou justaposições entre os dois tempos.
Gilles Deleuze em ìMil Platôsî
ampliou os conceitos de Boulez, tomando por base
um certo número de modelos como aspectos variáveis dos
dois espaços e suas relações.
Nessa comunicação
serão apresentados três exemplos musicais contemplando a diferença
e semelhança entre os tempos, tendo por base a idéia de liso
e estriado, e
1- Charles Ives: The Unanswered Question
Três grupos instrumentais com diferentes
tempos.
O espaçamento físico (as cordas
fora do palco) produz um sentido de atemporalidade. O tempo lento das cordas
(ìpppîcom surdina) é justaposto à blocos de tempos nos sopros,
que começando num ìpp/lentoî cresce e acelera até um ìfff/prestoî.
2- Olivier Messiaen: Liturgia de Cristal (
Quarteto Para o Fim do Tempo)
Tempos justapostos, permutações
e repetições irregulares.
Séries de durações distintas
para o piano, para o violino e para o violoncelo. Às repetições
das séries (ìppîcontínuo-dinâmica lisa) nestes três
instrumentos, que não coincidem nunca, é justaposta a linha
expressiva do clarinete (improviso de um rouxinol solista).
3- Gyorgy Ligeti: Lux Aeterna
Ausência de pulsação
Um tempo liso e contínuo
perdura por toda a peça. O compasso quatro por quatro não
caracteriza nenhuma pulsação. Mesmo uma eventual mudança
de velocidade (acelerando ou ralentando) não se configuraria como
tal. Mudaria apenas o grau de densidade.
Devido às particularidades
do processo clínico em musicoterapia faz-se necessário um
pensamento musical diferenciado do pensamento artístico (do compositor,
do intérprete, etc.) uma vez que as necessidades e as características
desta música são outras. Porém, dentro do campo da
Musicoterapia, ainda persiste um pensamento musical tradicionalista, o
que minimiza o campo de atuação do musicoterapeuta clínico
e do musicoterapeuta pesquisador. Neste sentido, surge a necessidade de
um novo pensamento musical em Musicoterapia.
A partir de uma perspectiva
deleuziana, consideramos a música como um agenciamento de velocidades,
de forças de atração e repulsão, de polarizações,
de gestualidades, de tempos, de intensidades, de massas sonoras, de volumes,
de texturas, de formas, de devires, etc, enfim, como um moto contínuo
de territorialização e desterritorialização.
Esta música pode
assumir várias funções dentro do processo musicoterapêutico
de acordo com a metodolgoia seguida pelo terapeuta, com as necessidades
e características do paciente e, principalmente, com o momento e
o contexto no qual o paciente e o terapeuta interagem através do
fazer musical. De uma forma geral, podemos demarcar três funções
principais: a música como um estímulo para se obter um efeito/resposta;
a música como uma representação/simbolização;
e, a música como uma meio de atualização de potencialidades,
como um devir, como uma exploração de territórios
e de desterritorializações, como uma máquina que cria
e manipula significações e direcionamentos.
Quando entendemos a Saúde
como adaptação do indivíduo às condições
ambientais (das condições físico-químicas às
condições sociais) de forma a tornar possível a atualização
de suas potencialidades e a manutenção do seu processo de
individuação, a Musicoterapia torna-se uma modalidade terapêutica,
um meio de se alcançar esta saúde através do fazer
musical.
Durante a apresentação
serão desenvolvidas esta idéias e conceitos, bem como serão
traçadas hipóteses de como esta nova forma de pensamento
modifica a prática clínica musicoterapêutica.
Silvio Ferraz
Pretendo apresentar a peça
que intitulei de "Cortazar, ou Quarto com Caixa Vazia" e o uso que faz
da eletrônica e da computação. Os sons tocados pelo
piano disparam procedimentos de tratamento que o distorcem levemente. Não
se trata de uma música eletroacústica, naqueles elementos
que caracterizam as música eletrônicas, eletroacústicas,
concretas, acusmáticas, ou computacionais. O aparato tecnológico,
a princípio bastante simples, só serve para dar uma ressonância
estranha ao piano, a um piano que já procurei tornar estranho
quando ouvia cada acorde e passagem em arabesco. Diversos procedimentos
de geração de acordes foram utilizados, ressaltando-se talvez
com maior presença a rotação de acordes, os acordes
espelhados e inarmônicos e as grandes filtragens.
Com essa peça inicío
o que, ainda um projeto em andamento, tenho chamado de ìO Livro das Sonoridadesî.
Uma série de peças para sons de piano, e não para
piano, intercaladas com textos. Uma seqüência de textos e peças
peças, digamos, sonoras...se bem que considere as leituras não
menos sonoras que as escutas. Entre os textos, alguns ensaios - no sentido
de tentativas - escritos na forma de diáro ou de carta, e algumas
citações como algumas passagens do Livro do desassossego
de Bernardo Soares.
Uma música para ser
ouvida e lida, o que não é novidade nenhuma, sobretudo depois
de Cage e Gilberto Mendes.
Peças para sons de
piano, e não para piano, não significa que não me
valho do piano. Ele é o suporte central da peça. É
através dele que tento tornar sonoras forças não sonoras:
forças das permutações, forças de idéias
sonoras, de imagens, de sensações as mais diversas. Uma composição
que se dá num olhar bastante próximo: ouço as ressonâncias
do piano, cada acorde é testado, invertido, posto de lado, ampliado,
retorcido até que sobrevenha uma sonoridade estranha, sempre buscando
na escuta próxima os limites do som do piano.