[1] Contexto social-histórico contemporâneo
A cibercultura tornou-se o nosso mundo, a nossa atmosfera material, simbólica
e imaginária, a configuração específica da vida
humana em sua fase histórica presente.
Ramificando-se de maneira avassaladora e abrangendo um sem-número
de acontecimentos, processos e tendências, na esteira da circulação
de objetos e produtos informáticos e da diversificação
da Web, a cibercultura se apresenta como fenômeno complexo
e paradoxal, que desafia a reflexão teórica, em escala nacional
e internacional. Entrelaçada com as principais características
da pós-modernidade, ela retém, em seu bojo, aspectos da tradição
e da modernidade; reescreve e reescalona a mundialização mercantil
da cultura e da informação, ao lhes dar ambiência virtualizada,
cibericônica, hipertextual e interativa; vigora como condição sine
qua non – embora normalmente pouco notada – da globalização
econômica e financeira; reconfigura e multiplica, radicalmente, os
conflitos sociais e as lutas políticas; enraíza-se, cada vez
mais, na vida cotidiana.
O Simpósio foi concebido para inserir esse (já não tão)
novo cenário social-histórico na agenda de uma reflexão
teórica mais criteriosa.
[2] Estado da arte teórico-epistemológico sobre a temática
Os estudos sobre a cibercultura estão hoje espalhados pelo Brasil.
(Repercutem, nesse aspecto, tendências internacionais.) Desde o início
dos anos 90, quando foi especialmente abrigado na ECA/USP, até hoje,
o conceito (na verdade, um expressivo campo de conhecimento) só mostrou
vitalidade. Ele está presente, em especial, na PUC/SP, na UFRJ, na
UERJ, na UFF, na UFBA, na PUC/RS, na UFRGS, na Unicamp, na Unisinos e na
UFPE.
Embora notoriamente majoritária nesse âmbito de estudos, a área
de Comunicação não detém a respeito nenhum monopólio.
Esse fato depõe tanto mais em favor da assinalada magnitude do fenômeno,
bem como dos estudos interdisciplinares concernentes.
Na última década, uma extensa lista de livros e artigos formou-se
a respeito. No Brasil e na América Latina, muitos(as) pesquisadores(as),
de filiações teóricas diferentes, vêm somando
esforços em tal direção. É enfática, no
entanto, a carência de iniciativas mais críticas, profundas
e de maior fôlego.
Em geral, o fôlego histórico de uma epistème e
do campo intelectual em torno dela organizado se mede pelas questões
teóricas que deixa em aberto (sobretudo quando postas na perspectiva
de alguma categoria consistente de crítica) do que pelas soluções
que propõe ou, menos, pelo seu suposto efeito de moda, refém
de uma década específica. Não é difícil
constatar, com efeito, que, do ponto de vista histórico, o debate
sobre a cibercultura está apenas começando; e se mostra longe
de sua marcescência ou ocaso. Sua longevidade depende, obviamente,
do que os(as) estudiosos(as) farão dele e de quais horizontes teóricos,
epistemológicos e metodológicos a ele serão entregues.
[3] Conseqüência material de importância nacional e internacional
A previsão de fundação de uma associação científica nacional mostra que o Simpósio não configura evento de características convencionais – fato que merece especial notação. Além de reunir pesquisadores(as) para divulgação, discussão e intercâmbio de conhecimentos científicos, com resultados consideráveis (quase que exclusivamente) para a prática individual de pesquisa, de ensino e/ou de orientação em Departamentos de Graduação e Programas de Pós-Graduação, o Simpósio produzirá conseqüências de grande porte em razão, primeiro, da organização de um espaço institucional mais apropriado para a pesquisa coletiva no campo interdisciplinar assinalado e, segundo, [em razão] do estímulo à produção, partilha e renovação ampliada dessa mesma pesquisa, com repercussões multilaterais em matéria de desenvolvimento das Ciências Humanas e Sociais no país. O espírito do evento está previsto para perdurar na instituição científica a ser criada no lastro da própria discussão intelectual a ela originariamente identitária.