março 05, 2005

CORPO RE-MOTO CONTROLADO(R)



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Em 2003, publiquei A Dança dos Encéfalos Acesos, pesquisa de mestrado transformada em livro. Surgiu lá, no fim do último capítulo, a idéia do corpo remoto controlado como hipótese para a dança que o Cena 11 vinha produzindo (nessa época, o grupo ainda dançava o espetáculo Violência (2000), ao mesmo tempo em que desenvolvia o Projeto SKR, em seu primeiro procedimento). Do corpo da marionete explorado em In’Perfeito (1997), ao corpo do robô no Procedimento 1 (2002), passando pelo corpo do videogame em Violência, parecia coerente levantar uma espécie de categoria (ou seria um conceito?) – justamente a do corpo remoto controlado – que pudesse reunir/abraçar os estágios desse percurso que vem sendo marcado pela perseguição de um interesse: o de pesquisar o movimento. De onde ele vem? Como se desenvolve? São forças internas ou externas que fazem o movimento acontecer?

Em seguida, surgiu um problema. O remoto controlado sugeria, em sua oralização e escrita, a idéia de um corpo passivo e, portanto, passível de dominação e sem perspectivas de liberdade. Para evitar esse equívoco, a Profa. Dra. Christine Greiner sugeriu que um “r” fosse agregado ao último nome do título, ficando assim: corpo remoto controlador. Sob o título “Genealogia de um corpo remoto controlador” apresentei a comunicação, que publiquei na forma de um pequeno artigo nos anais do III Congresso Brasileiro de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas . Apesar da ordenação das palavras chamar atenção, justamente pela brincadeira ou pequena contradição que dela emanava, ainda permanecia um certo incômodo pela fixação do atributo: o corpo é controlado ou controlador? Quem controla o corpo? De onde vem o controle? Há um sujeito no comando? Quem seria esse sujeito?

Mais uma vez, a roupa parecia não ter caimento perfeito para o conteúdo que desejava embrulhar. Com o objetivo de chamar a atenção para o fato do corpo controlar e ser controlado, manipular e ser manipulado, o “r” passou a habitar entre parênteses, trazendo uma espécie de explicitação para o fato de que não há, de fato, estados passivos e ativos no corpo temporalmente separados. Serve para indicar que esses dois estados são não somente inerentes à matéria viva como, de fato, não são estados (no sentido de resultados finais), mas sim os estados das próprias ações em curso – um curso de simultaneidades permanentes. O corpo sobrevive em um trânsito simultâneo, corpo como resultado provisório de acordos igualmente provisórios que se estabelecem em diferentes e também simultâneas escalas de tempo. O foco no entendimento dessa relação é o principal labor desta pesquisa, ainda que a discussão esteja longe de se esgotar nesta etapa. Com esta mudança incorporada ao nome chegamos ao corpo remoto controlado(r).

Mesmo considerando a palavra controle povoada de sentidos indesejáveis, o seu uso se faz exatamente pela taxa de problematização que ela porta. Não se pode esquecer que, para o senso comum, ela quase que resume os problemas da relação humano-máquina. Por isso, foi mantida. Ela provoca o leitor, deixando sua reflexão crítica de prontidão. Mas ainda faltava identificar algo que pudesse unir a tríade, além de apontar para o fato de que o remoto não encerrava toda a questão. A liga dessa estrutura, capaz de traduzir a sua dinâmica necessária, está na proposição do remoto controle como uma propriedade dos corpos, da forma como eles atuam no mundo, incorporando o ambiente, constituindo-se como entrelaçamentos vivos entre natureza e cultura. Não à toa, o remoto vem antes do controle. O ordenação inversa da expressão ‘controle remoto’ tem como objetivo destacar que o eixo que permite a inversão é o do papel central do sistema sensório-motor no funcionamento do nosso corpo.

Com uma outra mudança incorporada ao remoto, com a intenção de salientar que o que está em jogo é a motricidade (moto), surgiu, então, o corpo (re)moto controlado(r). Com ele, dois eixos se tornam explícitos: o do corpo ser um corpo onde as relações motoras (abreviadas aqui como re-moto) são aquelas pelas quais ele se faz corpo (são o seu controle, portanto – tanto aquele que ele sofre quanto aquele que ele exerce, misturando ambos). A solução veio da sugestão da Profa. Dra. Helena Katz em dar especial atenção ao remoto, explicitando graficamente as questões teóricas nele abrigadas. Afinal, remoto contém o sentido de afastado, mas não se reduz a ele; contém a questão do controle, mas igualmente não se reduz a ela. A própria palavra sugere movimento. Remoto contém moto, motricidade e um re que pode ser tratado como seu prefixo, sublinhando que o movimento acontece por repetição e que carrega a idéia do refazer, do re-movimentar. Porém, o prefixo “re” utilizado entre parênteses diferenciava-se do sentido de “r” da palavra controlado(r). Diante disso, surgiu re-moto, que exterioriza os sentidos de remoto, de moto, e de repetição. Com esse mote, tornou-se possível amalgamar os três termos na expressão corpo re-moto controlado(r).

Nos processos da vida, e portanto também nos culturais, ninguém aciona um telecomando. Disparado há muito tempo atrás e feito signo, se reproduz continuamente, produzindo descendentes que fazem o mesmo. Esse refazer da motricidade, que integra taxas de determinância e aleatoriedade, vai desenhando a(s) formas(s) que o corpo toma, ao longo do seu percurso contínuo de transformações. Se existe algo que possa ser identificado como um controle, vem do movimento que rege a ação do corpo no mundo, permeada (ou não) por ferramentas, utensílios e objetos. O controle, portanto, não existe a partir de um ponto zero, quando é acionado para chegar a um resultado (relação causal), mas passa pelas conexões que o movimento provoca. Há que se considerar a porosidade dos corpos e sua pré-disposição aos jogos evolutivos, que os tornam inevitavelmente híbridos. Sem auto-controle.

De fato, os corpos são remotamente controlados pelos próprios corpos e suas co-habitantes temporalidades (vale lembrar dos sistemas reptílicos e límbicos – mais antigos – em relação ao neo-cortex), pelo ambiente, pelos outros corpos do mesmo ambiente, pelo contágio com os outros ambientes e seus corpos, pelas idéias que habitam o mundo da cultura. Estamos, sim, sendo re-organizados pela difusão das informações e pelos laços que constituímos nesse processo. Arranjos em tempo real, contínuos. Não há corpo intocável.

Postado por IJ Serpentine em 11:38 PM | Comentários (12937)