janeiro 17, 2005

Saia-justa na Escola do Teatro Bolshoi



Pessoal, quem nunca engoliu essa história, não via a hora de ver essa ilegalidade colocada a limpo, desmascarada. Está mais do que na hora de valorizarmos os verdadeiros profissionais da dança e não os que se aproveitam dela para enriquecer, usando o mote da inclusão social. Espero que num futuro bem próximo nossos governantes tomem vergonha na cara e que nós, cidadãos, não permitamos que isso possa acontecer novamente. Obrigada Estadão, obrigada pelos profissionais éticos e sérios que investigaram e insistiram no sentido de desmoralizar essa fraude. Evoé!

Leia a matéria na íntegra, a seguir.
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CADERNO 2
O ESTADO DE S.PAULO
Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2005

Escândalo de improbidade administrativa ganha novos personagens com a entrada do procurador Celso Três

Kazuo Inoue
Especial para o Estado

FLORIANÓPOLIS - O escândalo da Escola do Teatro Bolshoi de Joinville, com denúncias de improbidade administrativa e desvio de recursos públicos, ganhou novos personagens. O procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, designou o procurador Celso Três para trabalhar no caso, que está sendo conduzido pelo procurador Davy Rocha. O prefeito Marco Tebaldi (PSDB) e o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) tentam minimizar o caso com receio de perder a única filial no mundo da famosa escola russa da balé, além dos desdobramentos legais.

Os principais acusados são o empresário Antônio João Ribeiro Prestes e sua mulher, Joseney Braska Negrão, que teriam recebido uma "comissão" pelo agenciamento do patrocínio da Empresa de Correios e Telégrafos do Brasil. Só em 2002 teriam sido pagos R$ 700 mil de comissão e R$ 340 mil por agenciamento de contrato a quatro empresas que pertencem a Prestes, a R. Prestes, a Progress, a Zait e a MBK. Os Correios negam ter feito qualquer pagamento a essas empresas. Em três anos a escola recebeu mais de R$ 10 milhões de recursos públicos.

O procurador Celso Três afirmou que, aparentemente, o governador está perdido diante do escândalo, até porque foi durante sua administração na prefeitura de Joinville que foram firmados os contratos para a instalação da Escola do Teatro Bolshoi, em 2000. "A questão do desvio de dinheiro público e da improbidade administrativa já estão bem claros", disse ele, ressalvando que é difícil fazer o rastreamento do dinheiro, que circulou por várias contas no Exterior. "Essa seria a prova mais consistente."

A presença de mais um procurador no caso foi provocada pela discussão pública entre Rocha e o governador. Ambos fizeram desafios de abertura de sigilos bancários e, recentemente, Luiz Henrique fez várias referências a comportamentos inusitados do procurador: "Esse procurador é uma piada. É uma vergonha. Ele não passa por um exame de sanidade mental."

Para Três, isso não passou de "um rasteiro ataque pessoal" por parte de quem não sabe explicar como foram feitos os contratos e justificar o fato de a entidade, que é uma ONG, utilizar prédio e móveis públicos para suas atividades. Segundo ele, só no ano passado é que os documentos relativos aos contratos escritos em russo foram traduzidos.

"A forma é privada. Todavia, o conteúdo, dinheiro que a mantém, é todo público. Formatação privada a verbas do erário é a velha fórmula de usufruir os bônus sem os ônus, ou seja, os controles públicos", afirma um documento assinado pelo procurador.

Da parte do governo, o prefeito Marco Tebaldi e o governador Luiz Henrique decidiram nomear o vice-prefeito Rodrigo Bornholdt (PMDB) para a presidência da Fundação Cultural de Joinville, com a missão de manter a escola no município, e designar o chefe de gabinete da prefeitura, Antonio Fraiz, para realizar um diagnóstico da situação, o que foi encarado como uma espécie de "intervenção branca" na entidade.

Publicamente, desde que começaram as investigações, Tebaldi e Luiz Henrique afirmam total confiança no empresário Antônio João Ribeiro Prestes, representante dos russos no Brasil, e sua mulher, Joseney Braska Negrão, que se afastou do cargo de supervisora da escola. Ambos tiveram seus sigilos bancários quebrados. "Estamos apreensivos, precisamos descobrir onde está tudo o que o procurador está apontando. Por enquanto, parece que não há nada de irregular, mas quero investigação com transparência", disse Tebaldi.

O Ministério Público apurou que a empresa representante do Bolshoi russo no Brasil - a Paramount Advisory Services, com sede em Dublin, na Irlanda - é "fantasma", pois foi criada nas Ilhas Seychelles, paraíso fiscal no Oceano Índico, com nome diferente da que foi fechada na Irlanda em julho de 2001, Paramount Advisory Services Limited. Segundo Antonio João Ribeiro Prestes, teria sido apenas mudança de endereço. Os recibos apresentados à Fundação Cultural de Joinville pelo pagamento de royalties e de professores do Bolshoi russo estão em nome da Paramount Advisory Services irlandesa, fechada há mais de um ano. Assim, o dinheiro teria sido pago a uma empresa "fantasma".

O procurador Celso Três disse que ainda está à espera de uma manifestação do Teatro Acadêmico Estatal Bolshoi da Rússia para explicar o caso, além de grande quantidade de documentos que precisa ser analisada. Enquanto isso, a Polícia Federal de Joinville trabalha em quatro inquéritos para investigar as denúncias de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e peculato.

caderno2@estado.com.br

Postado por IJ Serpentine em 09:50 AM | Comentários (0)