maio 14, 2004

POR UMA FILOSOFIA DA MÃO


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Quando entramos em contato com os desafios de produzir conhecimento sobre as relações entre tecnologia, comunicação, corpo e sociedade fica claro que muito pouco se fala a respeito do movimento como matriz de pensamento. Refiro-me ao movimento produzido pelo nosso corpo e suas partes na relação com o mundo e na manipulação de objetos e ferramentas.

mão 1. [Do lat. manu.] S. f. 1. Anat. Segmento terminal de cada membro superior, que se segue ao punho, dotado de grande mobilidade e apurada sensibilidade, e que se destina, sobretudo, à preensão e ao exercício do tato.

A idéia aqui é destacar a participação das nossas mãos no comando das máquinas e na manipulação de ferramentas. Quando aprendemos a ler e a escrever, o que envolve a habilidade com o lápis, operamos cognitivamente em multidireções. Ao dispor a letra "m" no papel, aprendemos a manipular o lápis, apreendemos o formato da letra e seu trajeto do espaço, o tempo e assim por diante.

Existe uma relação de co-dependência entre a mão (o corpo) e o desenvolvimento de habilidades cognitivas abstratas.

Se Lakoff e Johnson, autores de "Philosophy in the Flesh - The Embodied Mind and its Chalenge to Western Thought" (1999), estiverem certos, como tudo leva a crer, "a mente é inerentemente corporificada, o pensamento é predominantemente inconsciente (95%) e os conceitos abstratos são abundantemente metafóricos".

Se todo pensamento vem por metáforas e elas fazem parte do processo de construção de conhecimento, isso significa que o sistema sensóriomotor estrutura a experiência subjetiva. A análise cuidadosa das metáforas comumente utilizadas em nossas expressões verbais e escritas nos dizem muito sobre aquilo que transportam.

Dentre inúmeras outras metáforas, Lakoff e Johnson estudam dois exemplos, relacionados à manipulação de objeto:

1 - Propósitos são objetos desejados

Julgamento Subjetivo: alcançando um propósito
Domínio Sensóriomotor: manipulação de objeto
Examplo: “Eu vi uma oportunidade para o sucesso e a agarrei com força” (apropriei-me)
Experiência Primária: segurando um objeto desejado (correlação entre satisfação e segurar um objeto físico desejado)
(p.53)

2 - Entender é agarrar (segurar)

Julgamento Subjetivo: compreensão
Domínio Sensóriomotor: manipulação de objeto
Examplo: “Eu não tenho sido capaz de agarrar números trasfinitos”
Experiência Primária: obtendo informação sobre um objeto por agarrá-lo e manipulá-lo.
(p.54)

Caberia, então, perguntar: que mudanças estariam ocorrendo em nosso corpo a partir da manipulação de teclados e superfícies de comando via tato? Estamos pensando diferente, incorporando novas percepções de tempo e espaço? Essas novas habilidades cognitivas são favoráveis a nossa sobrevivência?

Postado por IJ Serpentine em 10:53 AM | Comentários (2)