abril 28, 2004

Journal of Consciousness Studies

Journal of Consciousness Studies

Postado por IJ Serpentine em 06:28 PM | Comentários (0)

abril 25, 2004

TRILHAS CONTEMPORÂNEAS E ALGUNS DESVIOS


Transobjeto.jpg

Dentre as inúmeras reflexões que poderiam ser levantadas a partir das obras apresentadas pelos artistas selecionados na Mostra Rumos Dança, duas delas chamam a atenção: a disparidade e o aspecto político. As discrepâncias ou disparidades podem ser percebidas na maneira de entender o que seja dança contemporânea, no modo de proceder durante a investigação, no estágio de implementação no corpo, na articulação das informações e no tempo em que o processo de pesquisa vem se realizando. Já o aspecto político pode ser dimensionado no assunto que foi escolhido para ser tratado coreograficamente, nos posicionamentos e questionamentos que cada criador coloca e, na responsabilidade e atitude que o público precisa assumir como tal.

Um exemplo da desigualdade no entendimento do que seja fazer dança contemporânea aconteceu na noite em que os trabalhos de Adriana Banana, “Desenquadrando as Possibilidades do Movimento”, e o de Ana Catarina Vieira e Ângelo Madureira, “Somtir”, foram apresentados. Com uma estrutura coreográfica feita de certezas, “Somtir” é um ótimo espetáculo, capaz de movimentar platéias. Tanto que uma versão reduzida desta coreografia foi escolhida para divertir o público na cerimônia de abertura do evento. A proposta de investigar a cultura popular na contemporaneidade indica um dos caminhos diagnosticados pelo Rumos Dança, ainda que esta proposta tenha se distanciado do território stricto senso da dança contemporânea.

Já a obra de Adriana Banana instiga nossa atenção para o uso do espaço. Na definição escrita no programa, “o que acontece no palco são processos de navegação de um corpo em determinado espaço/tempo”. Em cena, dinâmicas com comando e execução criam um trânsito vivo. Essas dinâmicas exploram a mudança de direções (e referências) na relação com o espaço/tempo e, no próprio corpo, também um espaço/tempo. Os dançarinos-criadores têm traços de outros movimentos (capoeira, p.ex.), que tendem à complexidade com o novo treino, que desestabiliza o(s) anterior(es). Isso leva a pensar na questão da implementação como uma das mais centrais presente na dança contemporânea. Vale, ainda, pontuar a importância de uma experiência investigativa como esta, ser vinculada a um projeto social.

O aspecto político é um gancho também para as obras “Wagner Ribot Pina Miranda Xavier Le Schwartz Transobjeto”, de Wagner Schwartz, e “Samba do Criolo Doido”, de Luiz de Abreu, mas num outro sentido. Críticos e bem humorados, os trabalhos se aproximam na medida em que questionam o lugar do brasileiro diante da relação nacional/estrangeiro. Carnavalização para além de sua etnia, “Samba do Criolo Doido” não tem papas na língua: debocha daquele Brasil pra gringo ver, insulta com ordem e progresso e escracha a provocação na voz de Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.

Enquanto "Samba do Criolo Doido" localiza sua discussão na imagem comercializada do corpo negro, “Transobjeto” questiona a soberania da Europa como a grande exportadora de tendências artísticas e culturais. Com isso, reflete sobre as relações colonizador/colonizado, originalidade/plágio e centro/periferia. O próprio nome do trabalho expressa um certo rizoma antropofágico que reivindica para si uma outra arquitetura de lugar. Ainda que não se trate simplesmente de subverter a origem da descendência, a denúncia desse panorama legitima o debate. “Transobjeto” parece apontar para a idéia do nacionalismo exilado, distante da sua referência geográfica.

(É curioso ponderar se ambas as obras não carregariam traços da modernidade ao pensar sobre a construção de um sentimento nacional.)

Do ponto de vista da etapa de pesquisa, o levantamento de material parece ter sido o primeiro resultado alcançado pelas Cia. Mário Nascimento e Cia. Corpos Nômades, com as obras “Escambo” e “Hyperbolikós”, respectivamente. Discutir procedimentos metodológicos pode colaborar no processo de organizar a informação no corpo (e não tanto no que está fora dele - na música, no cenário, no texto). Se levarmos em conta que uma das qualidades de ser da dança contemporânea é seu jeito processual e, se considerássemos cada uma dessas coreografias como um estágio de um percurso, caberia perguntar: daqui para frente, que rumo o material levantado tomará?

Para quem viu “Rua”, o trabalho anterior da Quik Cia. de Dança, “Dos tornozelos à alma” representa uma importante aquisição na trajetória investigativa dessa companhia. Digo isso porque o “Rua” procurou modificar o corpo a partir da interação com muitos objetos, uma maneira encontrada para colocar outras informações em contato com as antigas (Rodrigo Quik e Letícia Carneiro são ex-integrantes do Grupo Corpo). “Dos tornozelos à alma” é a procura por um vocabulário em comum e representa um traço de maturidade na trajetória desse grupo. Depois da relação com estímulos externos, agora é a vez da atenção ir para o corpo e construir lá as suas perguntas.

Já as pesquisas de Gícia Amorim e Thembi Rosa investigam como as informações e instruções vindas de outros corpos se adaptam em seus próprios. É comum esse processo de transmissão envolver perdas e transformações. O mais curioso é perceber comoo corpo se auto-organiza e ganha complexidade na medida em que vai adiante, insistindo. Em “Fluxion II”, Gícia Amorim avança no estudo da composição (fluxion é o estudo matemático das pequenas mudanças) e verifica as possibilidades que se organizam em seu corpo, a partir de experiências continuadas na técnica do americano Merce Cunningham. Num contexto onde o fluxo de variações é construído com aceleração, o acaso desempenha um importante papel na gestão da mudança, ao lado das decisões da bailarina.

No caso de “Ajuntamento”, programa com quatro partes, Thembi Rosa “foi coreografada” (embora este termo não seja propriamente aplicável) por Luciana Gontijo (referência na relação tronco/chão, estudo de planos, deslocamentos e direções), Adriana Banana (decisão de forças, quase queda, impulsos e abandonos) e Rodrigo Pederneiras (um remix de padrões e seqüências de movimento de suas criações). Em “10 X 1”, Pederneiras desenvolveu a coreografia para a intérprete em 10 dias, criando um minuto de cada vez. Familiaridade e singularidade dão o tom dos deslocamentos. O que significa que a assinatura de Pederneiras é visível mas com um certo estranhamento, peculiar e gracioso, referente ao novo ambiente, o corpo da Thembi.

Pertencentes ao território que dialoga com as artes visuais, a performance e a videoinstalação, “O Banho”, de Marta Soares e “Gema II”, de André Vidal, foram apresentados na Galeria Vermelho. São corpos para serem vistos de perto. Nosso olhar não os constrange, seja de cima ou de lado (não tem frente única), os corpos estão imersos. São corpos em estado de risco, detalhando limites. Se o corpo de Vidal sofre quedas violentas a partir de um piso muito escorregadio, o de Soares asfixia-se lentamente e torna-se presentificação da passagem do tempo. Memoriais de solidão, quase repousam, tentam a vida.

Se fosse possível encontrar palavras para “Corpo desconhecido”, obra de Cinthia Kunifas, elas deviam ser escritas em caligrafia chinesa, tamanha intensidade na economia de gestos. “Corpo Desconhecido” mostra a passagem de um estado do corpo para outro. Pode ser um tanto incômodo (e emocionante) presenciar um organismo se desmoronar lentamente. Não é mesmo fácil encarar o silêncio, a crise, a quase imobilidade, o movimento milimétrico. Mas é justamente isso que falta: a cumplicidade e o comprometimento do espectador. “Corpo desconhecido” desmascara. Você testemunha.

Esse esforço co-participativo é requisitado do público porque a dança contemporânea precisa dele para dar continuidade às perguntas que faz. Nem todo mundo gosta da idéia, mas diferentemente de um show, a dança contemporânea não presta o serviço de causar conforto. Algo precisa permanecer inquietante para continuar vivo.

Duas outras obras fizeram parte da Mostra Rumos Dança. “I was born to die #1”, de Cristina Moura, espacializou restrições ao colocar o público sentado em forma de L e parcialmente separado por uma tela (videoinstalação). Na sessão em que assisti, ninguém circulou pelo espetáculo, o que acentuou a dificuldade de ver. Metáfora para incomunicação? Como em “Um dia”, das jovens talentosas criadoras-intérpretes Lívia Seixas e Sheila Arêas, onde o cenário grande e alto toma o palco e ressalta a dificuldade de comunicação. A obra remete diretamente à síntese do cotidiano que vive(ra)m.

A imagem acima publicada refere-se ao trabalho “Wagner Ribot Pina Miranda Xavier Le Schwartz Transobjeto”, de Wagner Schwartz.

Postado por IJ Serpentine em 11:29 AM | Comentários (5)

abril 05, 2004

ATALHOS PARA O RUMOS



Rumos Dança


Caros Amigos e Colegas,

Venho por meio desta publicação levantar e propor uma discussão coletiva a respeito do Rumos Itaú Cultural Dança 2003/2004, cuja mostra (com vídeos, espetáculos, workshops, lançamentos de livros e debates) aconteceu entre os dias 2 e 7 de março, em São Paulo. Como as informações sobre o edital, a comissão, os contemplados e outros dados sobre o Projeto Rumos estão disponíveis no site do instituto, não entrarei nesses detalhes.

Para começar, vou traçar algumas impressões que tive ao ler as matérias (as que tive acesso) que foram publicadas pela mídia impressa. Soube, por intermédio da coordenadora geral do Rumos Dança, Sônia Sobral, que saíram reportagens em jornais de Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Recife, além das citadas aqui. Quem quiser gentilmente colaborar conosco, enviando o link ou mesmo o arquivo com o texto, para que possamos divulgar, será muito bem-vindo. O e-mail para envio de material é o ij.serpentine@uol.com.br

Em São Paulo, algumas reportagens (pré e pós-evento) foram publicadas, mas nenhuma delas tocou nos pontos que eu gostaria de refletir. Quero dizer com isso que, do meu ponto de vista, não houve reflexão suficiente sobre este, que é um dos mais importantes projetos na área de dança contemporânea no Brasil. Cabe frisar que todas as questões aqui levantadas pretendem lançar um debate público (lembrando que você pode fazer parte desse debate e manifestar livremente a sua opinião clicando, no fim deste post, em “comentários”), que possa efetivamente nos ajudar a construir uma política cultural adequada, ética e que atenda efetivamente às necessidades da classe. Muitas dessas questões pedem por esclarecimentos e espero, com isso, gerar uma maior conexão entre as pessoas e áreas envolvidas.

Para quem não teve oportunidade de ler tais textos, eu os disponibilizei aqui na forma de links ou para download, já que, infelizmente, o acesso (virtual) aos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo é restrito. Farei breves observações a respeito de cada uma das publicações, esperando contribuir com a (utópica?) diminuição da distância entre as políticas editoriais e os trabalhores da dança contemporânea. Ao mesmo tempo, pretendo fazer valer o jornalismo como uma prática possível a qualquer cidadão.

A primeira reportagem que saiu na Folha, no dia 1º de março, me deixou chocada! Sem dúvida, devido ao destaque da reportagem para um dos trabalhos selecionados pelo Rumos Dança, o “Gema II”, de Matheus Nachtergaele. Inclusive, transcrevo o título, “ator estréia na direção pisando em ovos”. Absolutamente nada contra as desejáveis intersecções entre teatro, dança e performance, mas é preciso ponderar o porquê de uma matéria que teoricamente deveria chamar atenção para os caminhos da dança, deu destaque apenas a um trabalho/autor que nem tradição tem dentro do “terreno”. Também sei que não adianta muito denunciar a estreita relação entre celebridade, vendagem e condução editorial, mas notar quais são os desafios e escolhas que os profissionais da comunicação enfrentam e assinam embaixo. Ao que tudo indica, subserviência pode ser uma palavra justa para este caso.

Já a matéria do Caderno 2 (O Estado de São Paulo) não cometeu essa indelicadeza. O texto faz uma cobertura mais ampla do evento, mas parece ter esquecido de entrevistar algum dos selecionadores e/ou mesmo algum dos artistas, entre selecionados ou não. No meu entender, isso nos ajudaria a dimensionar os interesses de um instituto cultural (que se utiliza de verba pública) e o dos profissionais a quem a área de artes cênicas desse instituto cultural se dirige. Surge ainda, nas linhas desse referido texto, o atual slogan do Itaú Cultural, discutido mais para frente, da “democratização da cultura” ou “democratização do acesso”. Também não me contenho em divagar se realmente foi-se o tempo em que se tinha tempo (e/ou vontade, e/ou espaço) para se fazer jornalismo investigativo.

No texto do dia 9 de março (também da Folha de São Paulo), os leitores puderam saber um pouco sobre os trabalhos apresentados, no palco ou na tela, e, os artistas puderam se ver nas lentes (e teclado) da sua autora. Trata-se, pelo que eu pude perceber, de uma espécie de reportagem pós-evento com a vantagem de ter sido proposta alguma leitura a respeito das obras apresentadas. Quer dizer, se você não pôde comparecer ou ficou na fila um tempão e não conseguiu um ingresso, o que aconteceu foi mais ou menos assim e quem se apresentou tocou nesse ou naquele assunto. O destaque ficou para o Rumos como promotor de uma rede de contatos, coisa que é verdade. Faltou mesmo e, cada vez mais, o exercício (de preferência, evitando que o assunto seja levado para o campo das pessoalidades) da verdadeira reflexão.

Os cadernos de cultura (ou os donos dos jornais?) prejudicam esse trabalho na medida em que retalham o tamanho do espaço criando assim a enorme dificuldade em elaborar um pensamento consistente em tão poucas linhas. Assim, tendo a concluir que temos aqui (no mínimo) quatro problemas: o espaço escasso, o tempo curto, as determinações editoriais comprometidas e a quota de empenho (ou a força política) que o autor do texto consegue fazer valer, no sentido de realizar tal reflexão. Sem dúvida, trata-se de um jogo de cintura para nenhum curador botar defeito. Também não me contenho em perguntar: por que um jornal (Folha), que quase não dá centímetros para a dança, quando o dá é para publicar duas reportagens? Será o fim do jornalismo cultural decente? Será que a crítica de dança está em extinção no Brasil?

Outro jornal que não ficou fora dessa (e da outra) pauta foi o catarinense A Notícia, curiosamente “sediado” em Joinville, cidade cujo forte decididamente não é a dança contemporânea de pesquisa, justamente o foco do Rumos Dança. Mas isso pode ser apenas um detalhe, já que o jornal tem circulação estadual. O importante é ressaltar a fundamental iniciativa em abrir as páginas (mais precisamente, parágrafos) para essa discussão (aliás, mais que iniciativa, deveríamos considerar uma obrigação, mas como a maré não está para peixe…), ainda que nenhum artista do Estado de Santa Catarina tivesse sido selecionado. Esse foi o gancho que faltava para assinalar, como foi feito, a necessidade de se fomentar o ensino, a formação e a criação para haver produção relevante. Aqui, sim, apareceu reflexão e, dado o contexto em questão, pertinente. Mas ainda assim a reflexão foi direcionada para a política cultural do Estado acima citado e não propriamente sobre o Rumos Dança.

O outro texto publicado nesse diário, também no dia 20 de março, cumpriu a função parecida de um relatório, informando o acontecido (com dados) e, se aproximou de uma crítica ao abrir algumas brechas para a reflexão como, por exemplo, a característica processual dos trabalhos investigativos e a descontinuidade na “formação e valorização de curadores e programadores” (em relação a primeira edição, cujo projeto, criado pela consultora Fabiana Britto, incorporou no processo de seleção um grupo de curadores, dentre os quais, eu fiz parte). A matéria também chamou atenção para a organização da classe, assunto do maior interesse, o que demonstra o engajamento de sua autora com as conquistas e lutas dos empreendedores da dança contemporânea brasileira.

Aliás, um ponto que não pode deixar de ser assinalado é a importância de se compreender os domínios e o fazer da dança contemporânea, coisa que decididamente não está clara para todo mundo. Particularmente, sinto muita necessidade em discutir esse assunto. Vejo aí um campo fértil para a produção de conhecimento. Muitas vezes, saio de um espetáculo tentando entender o que ele está me perguntando. Talvez eu não esteja ouvindo bem a pergunta. Talvez não haja nenhuma pergunta lá. Talvez a pergunta esteja a caminho.

Essa pauta é complexa e tenho receio em parecer injusta. Porque o que aparece é uma trama de muitos níveis onde a armadilha está descentralizada e, por isso, mesmo difícil de ser interrompida ou paralisada. Nesse sentido, recomendo a leitura dos artigos A Dança no Mercado e O Jornalismo Não Tem Donos que contribuem com essa discussão.

O intuito de revelar minhas preocupações, percepções e reflexões acerca do que foi publicado pela mídia tem o objetivo de contribuir e gerar uma discussão em nível coletivo. Que o Rumos Dança favorece uma rede de encontros e contatos, não resta a menor dúvida. Mas cabe a nós refinarmos e potencializarmos essa rede de conexões justamente porque quando houver maior interação entre os indivíduos de um coletivo, maior será o seu capital social e maior será a sua chance de tornar-se um coletivo inteligente.

Lembrando também que rumo é direção ou caminho. E caminho significa via de comunicação.

P.S. Foram publicadas reportagens também nos seguintes jornais: O Estado de Minas (9/3), Diário de Pernambuco (2/3, 4/3, 11/3), Correio da Bahia (1/3), O Popular(9/3) e O Tempo (19/2).
Rumos

Postado por IJ Serpentine em 04:58 PM | Comentários (6480)