
Dentre as inúmeras reflexões que poderiam ser levantadas a partir das obras apresentadas pelos artistas selecionados na Mostra Rumos Dança, duas delas chamam a atenção: a disparidade e o aspecto político. As discrepâncias ou disparidades podem ser percebidas na maneira de entender o que seja dança contemporânea, no modo de proceder durante a investigação, no estágio de implementação no corpo, na articulação das informações e no tempo em que o processo de pesquisa vem se realizando. Já o aspecto político pode ser dimensionado no assunto que foi escolhido para ser tratado coreograficamente, nos posicionamentos e questionamentos que cada criador coloca e, na responsabilidade e atitude que o público precisa assumir como tal.
Um exemplo da desigualdade no entendimento do que seja fazer dança contemporânea aconteceu na noite em que os trabalhos de Adriana Banana, “Desenquadrando as Possibilidades do Movimento”, e o de Ana Catarina Vieira e Ângelo Madureira, “Somtir”, foram apresentados. Com uma estrutura coreográfica feita de certezas, “Somtir” é um ótimo espetáculo, capaz de movimentar platéias. Tanto que uma versão reduzida desta coreografia foi escolhida para divertir o público na cerimônia de abertura do evento. A proposta de investigar a cultura popular na contemporaneidade indica um dos caminhos diagnosticados pelo Rumos Dança, ainda que esta proposta tenha se distanciado do território stricto senso da dança contemporânea.
Já a obra de Adriana Banana instiga nossa atenção para o uso do espaço. Na definição escrita no programa, “o que acontece no palco são processos de navegação de um corpo em determinado espaço/tempo”. Em cena, dinâmicas com comando e execução criam um trânsito vivo. Essas dinâmicas exploram a mudança de direções (e referências) na relação com o espaço/tempo e, no próprio corpo, também um espaço/tempo. Os dançarinos-criadores têm traços de outros movimentos (capoeira, p.ex.), que tendem à complexidade com o novo treino, que desestabiliza o(s) anterior(es). Isso leva a pensar na questão da implementação como uma das mais centrais presente na dança contemporânea. Vale, ainda, pontuar a importância de uma experiência investigativa como esta, ser vinculada a um projeto social.
O aspecto político é um gancho também para as obras “Wagner Ribot Pina Miranda Xavier Le Schwartz Transobjeto”, de Wagner Schwartz, e “Samba do Criolo Doido”, de Luiz de Abreu, mas num outro sentido. Críticos e bem humorados, os trabalhos se aproximam na medida em que questionam o lugar do brasileiro diante da relação nacional/estrangeiro. Carnavalização para além de sua etnia, “Samba do Criolo Doido” não tem papas na língua: debocha daquele Brasil pra gringo ver, insulta com ordem e progresso e escracha a provocação na voz de Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.
Enquanto "Samba do Criolo Doido" localiza sua discussão na imagem comercializada do corpo negro, “Transobjeto” questiona a soberania da Europa como a grande exportadora de tendências artísticas e culturais. Com isso, reflete sobre as relações colonizador/colonizado, originalidade/plágio e centro/periferia. O próprio nome do trabalho expressa um certo rizoma antropofágico que reivindica para si uma outra arquitetura de lugar. Ainda que não se trate simplesmente de subverter a origem da descendência, a denúncia desse panorama legitima o debate. “Transobjeto” parece apontar para a idéia do nacionalismo exilado, distante da sua referência geográfica.
(É curioso ponderar se ambas as obras não carregariam traços da modernidade ao pensar sobre a construção de um sentimento nacional.)
Do ponto de vista da etapa de pesquisa, o levantamento de material parece ter sido o primeiro resultado alcançado pelas Cia. Mário Nascimento e Cia. Corpos Nômades, com as obras “Escambo” e “Hyperbolikós”, respectivamente. Discutir procedimentos metodológicos pode colaborar no processo de organizar a informação no corpo (e não tanto no que está fora dele - na música, no cenário, no texto). Se levarmos em conta que uma das qualidades de ser da dança contemporânea é seu jeito processual e, se considerássemos cada uma dessas coreografias como um estágio de um percurso, caberia perguntar: daqui para frente, que rumo o material levantado tomará?
Para quem viu “Rua”, o trabalho anterior da Quik Cia. de Dança, “Dos tornozelos à alma” representa uma importante aquisição na trajetória investigativa dessa companhia. Digo isso porque o “Rua” procurou modificar o corpo a partir da interação com muitos objetos, uma maneira encontrada para colocar outras informações em contato com as antigas (Rodrigo Quik e Letícia Carneiro são ex-integrantes do Grupo Corpo). “Dos tornozelos à alma” é a procura por um vocabulário em comum e representa um traço de maturidade na trajetória desse grupo. Depois da relação com estímulos externos, agora é a vez da atenção ir para o corpo e construir lá as suas perguntas.
Já as pesquisas de Gícia Amorim e Thembi Rosa investigam como as informações e instruções vindas de outros corpos se adaptam em seus próprios. É comum esse processo de transmissão envolver perdas e transformações. O mais curioso é perceber comoo corpo se auto-organiza e ganha complexidade na medida em que vai adiante, insistindo. Em “Fluxion II”, Gícia Amorim avança no estudo da composição (fluxion é o estudo matemático das pequenas mudanças) e verifica as possibilidades que se organizam em seu corpo, a partir de experiências continuadas na técnica do americano Merce Cunningham. Num contexto onde o fluxo de variações é construído com aceleração, o acaso desempenha um importante papel na gestão da mudança, ao lado das decisões da bailarina.
No caso de “Ajuntamento”, programa com quatro partes, Thembi Rosa “foi coreografada” (embora este termo não seja propriamente aplicável) por Luciana Gontijo (referência na relação tronco/chão, estudo de planos, deslocamentos e direções), Adriana Banana (decisão de forças, quase queda, impulsos e abandonos) e Rodrigo Pederneiras (um remix de padrões e seqüências de movimento de suas criações). Em “10 X 1”, Pederneiras desenvolveu a coreografia para a intérprete em 10 dias, criando um minuto de cada vez. Familiaridade e singularidade dão o tom dos deslocamentos. O que significa que a assinatura de Pederneiras é visível mas com um certo estranhamento, peculiar e gracioso, referente ao novo ambiente, o corpo da Thembi.
Pertencentes ao território que dialoga com as artes visuais, a performance e a videoinstalação, “O Banho”, de Marta Soares e “Gema II”, de André Vidal, foram apresentados na Galeria Vermelho. São corpos para serem vistos de perto. Nosso olhar não os constrange, seja de cima ou de lado (não tem frente única), os corpos estão imersos. São corpos em estado de risco, detalhando limites. Se o corpo de Vidal sofre quedas violentas a partir de um piso muito escorregadio, o de Soares asfixia-se lentamente e torna-se presentificação da passagem do tempo. Memoriais de solidão, quase repousam, tentam a vida.
Se fosse possível encontrar palavras para “Corpo desconhecido”, obra de Cinthia Kunifas, elas deviam ser escritas em caligrafia chinesa, tamanha intensidade na economia de gestos. “Corpo Desconhecido” mostra a passagem de um estado do corpo para outro. Pode ser um tanto incômodo (e emocionante) presenciar um organismo se desmoronar lentamente. Não é mesmo fácil encarar o silêncio, a crise, a quase imobilidade, o movimento milimétrico. Mas é justamente isso que falta: a cumplicidade e o comprometimento do espectador. “Corpo desconhecido” desmascara. Você testemunha.
Esse esforço co-participativo é requisitado do público porque a dança contemporânea precisa dele para dar continuidade às perguntas que faz. Nem todo mundo gosta da idéia, mas diferentemente de um show, a dança contemporânea não presta o serviço de causar conforto. Algo precisa permanecer inquietante para continuar vivo.
Duas outras obras fizeram parte da Mostra Rumos Dança. “I was born to die #1”, de Cristina Moura, espacializou restrições ao colocar o público sentado em forma de L e parcialmente separado por uma tela (videoinstalação). Na sessão em que assisti, ninguém circulou pelo espetáculo, o que acentuou a dificuldade de ver. Metáfora para incomunicação? Como em “Um dia”, das jovens talentosas criadoras-intérpretes Lívia Seixas e Sheila Arêas, onde o cenário grande e alto toma o palco e ressalta a dificuldade de comunicação. A obra remete diretamente à síntese do cotidiano que vive(ra)m.
A imagem acima publicada refere-se ao trabalho “Wagner Ribot Pina Miranda Xavier Le Schwartz Transobjeto”, de Wagner Schwartz.
Postado por IJ Serpentine em abril 25, 2004 11:29 AMMaíra,
Eu queria fazer um comentário mais pensado, mais cuidadoso. Porém tempo que é bom 'tá faltando.
Ao mesmo tempo, toda vez que visito seu blog eu encontro lá: comentários 0. Me dá uma certa culpa e aflição. Então mando breves comentários. Acho que a questão que vc colocou dá para pensar com os critérios levantados no texto que lemos semana passada. Primeiro: a dança moderna se torna modernista a partir do Merce. Porque ele começa realmente a trabalhar a dança com os conceitos e a nova visão que a ciência do século XX nos traz. Isadora, por exemplo, parece que mais tentou corrigir a rota do ballet, que para ela tinha se desvirtuado, do que ter tornado a dança "modernista". Claro que ela inovou muita coisa, mas na real somente "modernizou" o projeto estético que vinha se desenvolvendo desde Noverre. A Graham de certa forma tb somente se "modernizou". Ela trouxe uma temática e um estado de espírito mais contemporâneos, mas a ela era caro os conceitos de causa e efeito, de centralização, hierarquização de cena e etc.
Trazendo este papo para o Rumos, eu não vi, devo confessar, mas talvez o projeto do Brasílica esteja mais perto de um processo de "modernização" da dança que os formaram do que tornar esta dança "modernista" (ou "contemporânea”, aplicando o termo em uso atualmente). Isto não quer dizer que esta dança não seja de pesquisa, investigativa, mas provavelmente ela não compartilha dos conceitos, princípios e modo de produção da estética "modernista" (vulgo "contemporânea").
Por hora é tudo que posso dizer. Boa diversão com as minhas especulações.
Em relação ao texto anterior, parabéns pela coragem das posições assumidas.
Beijos cheios de culpa,
Raul
Querido Raul,
Pensei por longo tempo nas suas observações e, como sempre digo, vc costuma falar pérolas. Fiquei tentando entender melhor as definições de modernista, modernização e sua relação com a dança contemporânea, ocorrências simultâneas hoje, além de sua relação coevolutiva histórica. Vale emcompridar o assunto e entender melhor o q q o Cunningham tem que outros não. Concordo absolutamente com sua reflexão sobre o trabalho do Brasílica e acredito que você tenha expressado melhor do que eu. Ou pelo menos, era isso mesmo que eu queria dizer. Espero q eles não estejam muito chateados.
Sobre o texto, ainda faltou falar da necessidade do trabalho de curadoria para relacionar as obras.
Super beijo pra você,
IJ Serpentine
Quem dá mais?
Posted by: Maíra em maio 14, 2004 12:48 PMMaíra,
Sua reflexão sobre os trabalhos apresentados na segunda edição do Rumos Dança é de grande importância para a área da dança. Particularmente, importa chamar a atenção para o viés político dos trabalhos dos artistas Wagner Schwartz, Luis de Abreu, Cristina Moura. Observei no seu texto que a restrição implicada no apresentação do trabalho de Cristina Moura tenha causado o que vc nomeou/perguntou de incomunicação. Fico pensando se não haveria nesse artifício da restrição um questionamento sobre essa comunicação. Como Helena chamou atenção no texto que precede seus comentários, a comunicação num país da dimensão territorial como o Brasil, se problematiza e na área de dança especificamente é impossível saber o que se está fazendo nessa área mas, voltando à restrição reflito sobre a questão da comunicação sob um pensar crítico dessa comunicação que aparentemente é democrática mas onde as informações não são distribuidas nesse sentido amplo. As questões políticas dos trablhos de Wagner e de Luis batiam de frente com os problemas que os mesmos apresentaram. Talvez no trabalho de Cristina essa preocupação esteja implícita. São algumas reflexões tbem sobre esses trabalhos. O fundamental é ocupar espaço de distribuir modos de pensar sobre as apresentações de dança contemporânea. Parabéns e espero poder ler mais sobre suas reflexões e agradeço e parabenizo pelo blog e pelo espaço de comentários. Bjs, Jussara
(Desculpe-nos a demora dos comentários, pois só acessamos agora).
Em resposta aos seus escritos reflexivos a respeito do projeto Rumos Dança, teceremos alguns comentários/ observações a respeito de questões levantadas e suposições assumidas, principalmente a respeito da empreitada recente da Cia com o projeto “Corpos “Kalligraphikós”, do qual o primeiro resultado foi “Hyperbolikós”, gostaríamos de ressaltar que reconhecemos a importância da análise, da observação e da crítica nas artes cênicas e temos o intuito de colaborar para uma discussão sobre as escolhas dos artistas e as escolhas do público/espectador.
Temos que prestar atenção para comentários tendenciosos, que desconhecem ou desconsideram as possibilidades de escolhas para cada processo em Artes Cênicas. Desconsiderando o processo em si (TESE x Antítese x Síntese) e a possibilidade da existência de inteligências múltiplas. Cuidado com os desvios de entendimento, com a percepção pré-conceituosa ligada à afinidade x não-afinidade; com a diferença de um processo de trabalho solo para o de grupo, com os lados da moeda, coreografia x improviso, “mover x dancer”, “choreographer x maker”, enfim com as incoerências relativas à nossa própria história. Além de que, a nossa dança contemporânea só poderá ser dissecada daqui a algum tempo. Caso contrário corre-se o risco de dissecar um corpo vivo, em movimento, em andamento, se é que você nos entende.
P.s: para esses comentários estamos levando em conta as observações de diferentes pessoas que também assistiram ao espetáculo.
Algumas possibilidades de leituras ou re-leituras, que acreditamos ser úteis para refrescar essa reflexão:
Immanuel Kant - pensamentos
Romantismo – Novalis – Flor azul
Georg Wilhelm Friedrich Hegel - pensamentos
Umberto Eco - Sobre estética (Seis Passeios Pelos Bosques da Ficção)
Fenomenologia da Percepção – Maurice Merleau-Ponty
Paulo Leminski
Maira e Raul,
Eu não fiquei triste com os comentários de vocês ,e Ângelo também não.
Muito pelo contrário estes comentários servem muito para nosso pensamento.
Não tirem por base a unica aula que participaram que por acaso foi Uma aula FESTA......e muito menos as performances feitas na abertura do Rumos,neste dia não apresentamos O Somtir completo foi mostrado apenas um trexo de 5 minutos.
Estamos a bastante tempo em um processo de transformação e pensando muito em todas as coisas que vem acontecendo.
E realmente fiquei muito triste por vocês não terem ido assistir ao Espetáculo Delírio Remix que é criação de Ângelo Madureira e Direção minha.
Foram 10 espetáculos no Masculino na Dança....
Pois para se falar em Projeto do Brasílica ou mesmo a respeito do Somtir não basta saber apenas sobre modernismo ,mas precisamos saber sobre Cultura Popular,Dança Popular,Dança Primitiva,Dança Ritualistica,Dança Folclorica... onde o caminho é grande para se chegar a Brasilica imagine até o que estamos desenvolvendo hoje que é um caminho diferente do Balé Popular do Recife,penso que e desculpa a sinceridade mas falta um pouco de conhecimento no assunto que se refere a Dança Popular/Brasílica para que pudessemos discutir melhor . Por exemplo:
como vamos discutir sobre contemporâneo sem saber sobre modernismo e como vamos discutir Somtir se não conhecemos Dança Popular ,Dança Brasílica ,Espetáculo Delirio etc....
Beijos
Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira