INCERTEZAS
DO ESPAÇO DOCENTE NO ENSINO DO SERVIÇO SOCIAL
Rosa Maria Ferreiro Pinto*
Incertezas
se colocam no espaço docente quando se trata do
cotidiano dos professores no ensino do Serviço
Social. Alguns
aspectos estão presentes nesse cotidiano e sugerem
diferentes caminhos ou respostas, posto que o ensino do
Serviço Social realiza-se em instituições
de formatos diferentes, de naturezas diferentes e em diferentes
realidades.
É
preciso ressaltar que não existem soluções
mágicas para os impasses com os quais nos deparamos
no dia a dia já que soluções devem
ser buscadas na particularidade de cada unidade de ensino
e, por sua vez, pelos docentes quando penetram no espaço
da sala de aula, porque construtores do ensino do Serviço
Social.
Existem
pontos que, por serem comuns, merecem ser colocados em
evidência pois envolvem, não só o
corpo docente de uma unidade de ensino como o professor
enquanto desencadeador do processo educativo. O trabalho
de cada um é fundamental para a qualidade do grupo
e, conseqüentemente para os objetivos de ensino que
se busca alcançar.
Nesta
perspectiva, apresentamos quatro desafios da prática
docente e que, embora tratados apenas nos seus aspectos
mais gerais, poderão provocar reflexões
coletivas mais profundas.
1º
Desafio: ensino e educação
Tradicionalmente,
o ensino superior é compreendido como um processo
que se realiza em quatro anos no interior de uma unidade
de ensino com o objetivo de qualificar indivíduos
para exercerem uma determinada profissão, devidamente
regulado e regulamentado pela legislação
educacional vigente no país e, que quase sempre
é confundido com a "formação
profissional".
Quando
se trata de formação profissional, está
se falando do tipo, da qualidade e da direção
que o ensino tem ou deveria ter, para que a formação
profissional se constitua em um processo de contínua
construção através do exercício
da prática profissional o qual adquire consistência
na medida em que o assistente social reconhece e se aceita
como membro efetivo da categoria e, ao mesmo tempo, apropria-se
do significado sócio-histórico da profissão.
Formação
profissional é um processo contínuo e inacabado
de auto-qualificação, de educação
permanente, de construção e reconstrução
de saberes mediatizados pela prática social e profissional
de sujeitos.
Neste
sentido, formação profissional está
no âmbito da educação. Educação
é um processo mais amplo, "(...) é
uma prática humana direcionada por uma determinada
concepção teórica (...) A educação
é um típico 'que fazer' humano, ou seja,
um tipo de atividade que se caracteriza fundamentalmente
por uma preocupação, por uma finalidade
a ser atingida." (Luckesi, 1993: 21/30).
O
processo educacional envolve, não apenas a transmissão
para outro de conhecimentos e informações
de alguém mas valores, conceitos, significados
e finalidades que norteiam a vida em sociedade.
Ao
processo educacional deve estar articulado uma prática
pedagógica, uma prática de ensino que propicie,
ou melhor, desencadeie a formação profissional
de sujeitos assistentes sociais.
Não
é possível discutir a prática docente
no ensino do Serviço Social sem que haja apropriação
do sentido, da direção e da finalidade do
ato educativo e da filosofia que o embasa, já que
é a reflexão filosófica sobre a educação
que permite a aproximação com práticas
pedagógicas coerentes. Assim, esta análise
coloca ao professor um segundo desafio.
2º
Desafio: entendimento do processo de ensino-aprendizagem
no âmbito da educação.
O
fenômeno educativo envolve a "dimensão
humana, a técnica, a cognitiva, a emocional, a
sócio-política e a cultural". (Mizukami,
1986:1).
Como
fenômeno humano, é histórico e multidimensional,
de tal complexidade que não é possível
conhece-lo de uma única forma. Também não
é possível afirmar que existe uma única
maneira de entende-lo em seus aspectos multidimensionais.Por
este motivo, o ato de ensinar e aprender pode ser interpretado
de diferentes formas, de acordo com diferentes pontos
de vista das vertentes teóricas sobre Educação
.
O
processo de ensino-aprendizagem se desenvolve através
de interação sistemática de sujeitos,
que viabilizam a apropriação e a construção
de conhecimentos. Porém, o conhecimento, no processo
de ensino-aprendizagem deve ter significado existencial
para estes sujeitos, condição essencial
para que possa fazer parte da vida do educando, e para,
segundo Luckesi, "ser incorporado pela compreensão,
na exercitação e utilização
criativa" (1993: 131).
Na
ação educativa, educador e educando, como
seres individuais e sociais, interagem no processo de
ensino-aprendizagem e, é no contexto de relações
sociais definidas historicamente que se realiza o fenômeno
educativo.
Neste
segundo desafio, o processo de ensino-aprendizagem deve
levar em conta, pelo menos dois aspectos fundamentais
que se interpenetram.
1)
o sistema educacional:
Neste
aspecto, algumas questões se apresentam: o que
são os cursos de Serviço Social? Onde estão
localizados? Em qual universidade? Em que condições
se desenvolve o ensino do Serviço Social nas universidades?
Qual a relação contratual dos professores
com as unidades de ensino? Quais as condições
de trabalho? Qual a direção que cada curso
imprime ao ensino do Serviço Social?
Como
e que medida estas questões (que não são
todas) interferem no cotidiano da sala de aula (um dos
espaços importantes para a realização
do processo de ensino-aprendizagem)?
Sem
considerar estas relações, dificilmente
se poderá identificar os limites e possibilidades
que se colocam no dia a dia da prática docente,
tornando seus desafios ainda mais difíceis.
2)
os sujeitos do processo educativo:
No
espaço da sala de aula, os sujeitos do processo
educativo são o professor e o aluno.
Enquanto
sujeitos que interagem no processo de construção
de conhecimentos, como seres humanos são caracterizados
por múltiplas relações e são,
ao mesmo tempo, construtores de si mesmos e de suas histórias,
trazendo para esta interação, tais determinantes.
Na sala de aula, não se tem apenas o professor
e os alunos, mas seres únicos.
Portanto,
para refletir o espaço docente é imperativo
um esforço para compreender-se: quem é este
professor? É aquele que se preocupa em trazer todas
as informações necessárias para o
desempenho de uma profissão? Ou é aquele
que se pretende um educador? Qual a diferença entre
um mero professor e um educador? Como entender esta diferença?
Para
tanto, cabe questionar: o que pensa? Como foi formado?
O que pensa sobre a profissão? O que pensa de sua
vida? Em síntese: quem é este sujeito?
Na
mesma perspectiva, quem é o aluno? Como e em que
condições chegou à universidade?
Como e em que condições escolheu o curso?
Que tipo de conhecimentos traz de sua vida pregressa?
Que tipo de conhecimentos lhe interessa, ou almeja alcançar?
O que pensa sobre sua vida? Que vida? Qual a "cultura"
das novas gerações? Como está seu
desenvolvimento cognitivo?
Assim,
para avaliar o processo de ensino-aprendizagem é
necessário buscar conhecer os sujeitos que o concretizam.
Estas
indagações sugerem um terceiro desafio.
3º
Desafio: ensino do Serviço Social e metodologias
de trabalho social
Não
se pode aprofundar, neste espaço, uma análise
da política educacional brasileira contemporânea
iluminada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Brasileira (L.D.B.: Lei nº 9394/96). Porém,
é preciso demarcar o esforço do Serviço
Social na implementação das Diretrizes Curriculares
dela derivadas, que como se sabe, é originária
da Proposta de Reforma Curricular para os Cursos de Serviço
Social, antes mesmo da promulgação da L.D.B
e seus desdobramentos.
Porém,
há um ponto central que merece ser discutido:
O
que dizem e como são "lidas" as Diretrizes
Curriculares para os Cursos de Serviço Social pelas
unidades de ensino?
A
sua interpretação no interior dos cursos
de Serviço Social pode se tornar um desafio para
o ensino. Para ilustrar, reportemo-nos apenas aos princípios
e pressupostos de um projeto de formação
profissional indicativos para os projetos das unidades
de ensino.
·
"exercício do pluralismo e da interdisciplinaridade,
como condições essenciais da vida acadêmica
e profissional;
· qualificação de uma formação
generalista e abrangente assegurada pelo rigor teórico,
metodológico e técnico na apreensão
dos conhecimentos e pelos padrões de competência
técnica profissional, através da articulação
dos conhecimentos básicos e dos conhecimentos específicos
de cada área;
· ensino que assegure elevados padrões de
competência profissional pelo domínio do
instrumental técnico, operativo e das habilidades
de cada área de formação, capacitando
para a atuação nas diversas realidades e
âmbitos de pesquisa e exercício profissional;
· compromisso ético-social como princípio
formativo perpassando o conjunto da formação
curricular;
· articulação entre ensino, pesquisa
e extensão não apenas como princípio,
mas efetiva realidade na condução dos projetos
acadêmicos;
· articulação das dimensões
investigativas e interventivas próprias das áreas
de formação profissional, como expressão
da relação teoria, realidade, através
da constituição de um espaço de pensar
crítico, da dúvida, da autonomia, da investigação
e da busca de soluções;
· indissociabilidade entre estágio e supervisão
acadêmica e profissional;
· padrões de desempenho e qualidade idênticos
para os cursos diurnos e noturnos (formação
universitária com um período mínimo
de 4 anos);
· ensino organizado na observância dos Códigos
de Ética e na observância das competências
e atribuições previstas na Legislação
Profissional de cada área específica de
formação;
· dinamismo na organização dos currículos
plenos de cada curso, possibilitando a definição
e organização de vários componentes
curriculares - disciplinas, oficinas, estágios
supervisionados, núcleos temáticos, atividades
complementares, como forma de garantir o acompanhamento
das transformações sociais, culturais, científicas
e tecnológicas".
A
leitura destes princípios e como implementa-los
nos projetos político-pedagógicos dos cursos,
considerando as peculiaridades de cada unidade de ensino,
são importantes para o ensino de metodologias do
trabalho social. Como valorizar, nos conteúdos
programáticos tais metodologias?
Cabe
a cada curso a leitura crítica das Diretrizes Curriculares
para que a organização curricular ganhe
forma própria respeitando as peculiaridades do
universo de cada um.
A
implementação das Diretrizes Curriculares
esbarra justamente na construção dos projetos
político-pedagógicos dos cursos. E este
detalhe é que propicia a diferenciação
entre os cursos e que devem ser considerados para a identidade
dos mesmos.
A
elaboração do projeto pedagógico,
até por uma exigência oficial, por ocasião
do credenciamento/re-credenciamento dos cursos interfere
na avaliação do mesmo. Esta necessidade,
porém, não deve ser confundida apenas como
uma exigência oficial, mas como atitude intencional
de planejamento das ações educativas para
a formação do assistente social.
Um
projeto pedagógico é eminentemente político
porque contém uma intencionalidade em relação
ao processo de ensino e formação, e não
pode ser elaborado por especialistas ou consultores externos
ao curso que possam formata-lo aos moldes desejados pelo
controle institucional.
Um
projeto político-pedagógico é um
processo em permanente construção e não
um documento pronto e acabado, porque não é
simplesmente um conjunto de normas burocráticas
e administrativas.
O
projeto pedagógico constitui-se em um conjunto
de diretrizes, estratégias e ações
dirigidas a uma ação pedagógica que
se orienta para objetivos bem definidos em relação
ao ensino e à formação profissional
e é comum que expresse as divergências teóricas
advindas do debate acerca do entendimento da relação
profissão/sociedade.
Nas
palavras de Silva, "O projeto pedagógico define,
portanto, as ações educativas e as características
necessárias ao cumprimento dos propósitos
e intencionalidades do curso, tendo a ver, assim, tanto
com a organização do curso como um todo,
como do trabalho pedagógico na sua globalidade.
É projeto político porque estabelece e dá
sentido ao compromisso com a formação do
cidadão e da pessoa humana para um tipo de sociedade,
revelando, portanto, a intencionalidade da formação
e os compromissos deste profissional com um tipo de sociedade."
(1998: 21).
Para
que o projeto pedagógico possa expressar o curso
como um todo, é necessário entende-lo como
um processo de construção coletiva de sujeitos
em direção ao mesmo fim. Como processo,
supõe constante avaliação e revisão
de rumos, para renovar-se, oxigenar-se, e manter-se vivo
e ativo.
Como
processo de construção coletiva, significa
que os sujeitos devem estar envolvidos com ele, porque
nele acreditam, porque com ele se identificam. Caso contrário,
o projeto político-pedagógico não
passará de uma receita que não será
utilizada na prática docente cotidiana e não
passará de um documento a mais, perdido nas gavetas
da burocracia institucional.
Como
cada curso vem construindo seu projeto, e em que medida
as ações educativas são coerentes
com os objetivos propostos? Mas, ainda é preciso
colocar um quarto e último desafio com o qual nos
deparamos no espaço docente.
4º
Desafio: "a cabeça bem feita"
Citando Montaigne, Edgar Morin (2001: 21) afirma: "(...)
mais vale uma cabeça bem feita que bem cheia".
A "cabeça bem feita" é aquela
apta a organizar os conhecimentos e, com isso saber utiliza-los
adequadamente na vida, enquanto que a cabeça cheia
é aquela "onde o saber é acumulado,
empilhado e, não dispõe de um princípio
de seleção e organização que
lhe dê sentido" (Morin, 2001: 21).
Este
é o maior desafio da prática docente no
ensino do Serviço Social. Como avaliar se estamos
enchendo cabeças ou contribuindo para que se façam
cabeças bem feitas? Observa-se, com certa freqüência
a elaboração de conteúdos programáticos
nem sempre proporcionais às cargas horárias
das disciplinas, com extensas bibliografias, e que expressam,
de forma geral, a preocupação em fornecer
informações que nem sempre condizem com
a capacidade do aluno em reter tais conhecimentos.
Este
aspecto deve ser considerado no processo mais amplo de
reflexões e discussões para a elaboração
de um projeto político-pedagógico de curso,
mas, ao mesmo tempo, deve estar no centro das atenções
dos professores ao elaborar seu próprio projeto
enquanto sujeito do processo de ensino-aprendizagem. A
prática docente sugere que se questione:
1.
Quais lições ensinamos? Como definimos os
conteúdos que devem ser ensinados? Que significado
devem ter para o aluno?
2. Como ensinamos as lições? Quais estratégias
didáticas utilizamos ou devemos utilizar para que
os conteúdos tenham significado e realmente sejam
assimilados?
3. Como e até que ponto o aluno assimila as lições?
Como sabermos o que e como o aluno assimila lições
que não estão no conteúdo?
4. Como questionamos as lições? Até
que ponto ensinamos o aluno a pensar e a desenvolver o
espírito crítico necessário à
autonomia intelectual?
5. Como favorecemos ao aluno a ultrapassagem das lições
que ensinamos? Como e em que espaços exercitamos
o aluno a produzir suas próprias sínteses?
6. Como avaliamos as lições que ensinamos?
A avaliação está mais centrada no
produto ou no processo? Avaliamos o processo de aprendizagem
do aluno ou nossa capacidade de transmitir informações?
Estas
são dúvidas que desafiam o cotidiano da
sala de aula quando se pretende um educador e não
apenas o "bom professor passador de informações"
que, às vezes, nem é tão bom passador
de informações quanto se imagina.
E, para concluir: a Educação só pode
servir ao Homem quando o Homem sabe servir-se dela.
Cabe
ao educador compreender que o verdadeiro conhecimento
é aquele que se interroga o tempo todo.
Portanto,
a missão do educador não é apenas
a de ensinar lições, ao contrário,
é colocar em dúvida as lições
que ensina. Para isso, é preciso que ambos (educador
e educando) aprendam e ensinem lições que
nos ajudem a viver, a compreender a realidade, a transformar
o mundo e contribuir para a construção de
uma nova história.
*
Doutora em Serviço Sopcial, professora e vice-reitora
da Universidade Católica de Santos/UNISANTOS.
Referências Bibliográficas
ABESS. Formação Profissional: trajetórias
e desafios. Cadernos ABESS nº 7. São Paulo:
Cortez, 1997.
LUCKESI,
Cipriano Carlos. Filosofia da Educação.
São Paulo: Cortez, 1993.
MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Ensino: as
abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986.
MORIN,
Edgar. A Cabeça Bem Feita: repensar a reforma,
repensar o pensamento. Trad. Eloá Jacobina - 3ª
ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
PINTO,
Rosa Maria Ferreiro. Estágio e Supervisão:
um desafio ao ensino teórico-prático do
Serviço Social. Cadernos do NEMESS/PUC/SP nº
3, 1997.
SILVA,
Ana Célia Bahia. Das Diretrizes Curriculares à
Construção dos Projetos Pedagógicos
em cada Instituição. Cadernos ABESS nº
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WANDERLEY,
Mariângela Belfiore. Formação Profissional
no Contexto da Reforma do Sistema Educacional. Cadernos
ABESS nº 8. São Paulo: Cortez, 1998.