ARTIGOS

ESTÁGIO E SUPERVISÃO: UM DESAFIO AO ENSINO TEÓRICO-PRÁTICO DO SERVIÇO SOCIAL(*)

Rosa Maria Ferreiro Pinto*


Introdução


A trajetória profissional construída ao longo de anos de docência, desenvolvendo atividades relativas à supervisão de estágios, de ensino e de pesquisa na Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica de Santos, tem sido marcada por freqüentes indagações acerca dos múltiplos e complexos aspectos que fazem parte do processo de formação profissional do assistente social. Este processo, vivo e dinâmico, ainda tem mostrado vulnerabilidade no debate acadêmico, quando se trata do estágio e da supervisão.
A análise do estágio e da supervisão deve ser efetuada no contexto do ensino teórico-prático do Serviço Social evitando-se seu descolamento da realidade da prática profissional, o que pode gerar um distanciamento entre o discurso acadêmico e o cotidiano das ações profissionais.
O aprendizado de uma profissão, em parte atribuído ao estágio, envolve uma dinâmica típica e específica, que se estabelece na produção de conhecimentos da prática, o qual supõe o redimensionamento dos conhecimentos teóricos na sua relação com a realidade. Compreender os meandros presentes no ensino teórico-prático do Serviço Social não é tarefa fácil e nem tampouco solitária. Exige um esforço que ultrapassa os limites de um estudo e de um só investigador. Porém, é possível debruçar-se sobre ele para buscar compreender e explicar seus elementos constitutivos na tentativa de ampliar o fenômeno estudado, remetendo novas descobertas a um contexto mais amplo e trazer contribuições ao debate coletivo.
Com este intuito, tomamos como objeto de estudo o estágio e a supervisão como componentes do ensino teórico-prático do Serviço social, mas localizado em um projeto específico de formação profissional.
As unidades de ensino carecem viver, no seu interior, o constante desafio da prática, decorrente da natureza interventiva do Serviço Social. Mais do que viver, carecem trazer para seu interior a discussão das mudanças atuais e futuras da prática profissional e institucional, buscando compor a substância da própria formação.
Neste contexto, algumas questões se colocam: o processo cognitivo da aprendizagem da profissão pela prática do estágio tem possibilitado ao aluno a identificação de particularidades do Serviço Social na relação com a complexidade da realidade social? Em que medida o ensino teórico-prático expresso em um projeto de formação profissional pode desencadear a articulação entre o pensar e o agir profissional? Que competências e habilidades pressupõem o aprendizado profissional?
Tais questões conduziram-nos ao estabelecimento dos seguintes objetivos de investigação:
· Compreender como o estágio tem contribuído efetivamente para o aprendizado profissional do aluno e, para a apropriação do significado social da profissão;
· Compreender em que medida o estágio e a supervisão, no processo de ensino e aprendizagem da profissão, auxiliam a articulação de conhecimentos teóricos à prática.
Tais objetivos conduziram-nos a uma investigação qualitativa com características compreensiva e explicativa através de estudo de caso. Por ter vivido uma experiência peculiar relativa ao estágio e à supervisão, o caso estudado foi a Faculdade de Serviço Social - Universidade Católica de Santos - buscando-se apreender nela a dinâmica de seu cotidiano e o ensino teórico-prático que se propõe.

Capítulo I - O Estágio e a Supervisão na Experiência da Faculdade de Serviço Social da UniSantos: da intenção da semente ao sabor da fruta

Para compreender o significado do estágio e da supervisão no processo de formação profissional da Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica de Santos foi necessário identificar, ao longo de sua história, os fatores que provocaram a formulação de novas propostas para o ensino teórico-prático por ela desenvolvido. Contextualizar a experiência vivenciada pelo curso foi fundamental para o desenvolvimento deste estudo.
A região, a cidade e suas características foram contextualizadas, já que sua história apresenta peculiaridades em função do desenvolvimento econômico, político, social e cultural intimamente ligado ao porto de Santos e pelo impacto da implantação do parque industrial de Cubatão.
Por outro lado, a trajetória da Universidade Católica de Santos mereceu ser destacada por marcar sua presença na região como importante complexo educacional, cujo primeiro curso, o de Direito, foi fundado em 1952. A Universidade é pioneira na região, captando alunos de todas as cidades da Baixada Santista, mantendo estreito vínculo com a comunidade por sua vocação católica e comunitária.
A Faculdade de Serviço Social, fundada em 1970, é a única em todo o litoral paulista e, pode-se afirmar que os profissionais absorvidos pelo mercado de trabalho da região, nos últimos 30 anos, são, na sua esmagadora maioria, ex-alunos da Faculdade, tornando-se, então, ponto de referência do Serviço Social e do trabalho profissional desenvolvido na Região.
Considerando sua importância na Região, o estudo de sua trajetória histórica, desde sua fundação, tornou-se fundamental para este estudo, destacando-se a forma como o estágio e a supervisão foram concebidos e desenvolvidos pelo curso, através da Coordenadoria de Estágios e Trabalhos Práticos - CETP. Este estudo mostrou a importância da CETP em todo o processo de discussão do ensino teórico-prático da Faculdade e sua influência nos rumos tomados pelo curso na elaboração de seu projeto político pedagógico a partir dos anos 90.

Capítulo II - Formação Profissional, Estágio e Supervisão no Ensino Teórico-Prático do Serviço Social

A formação profissional é geralmente entendida como a tarefa de qualificar indivíduos a exercerem uma determinada profissão, e, atribuída aos estabelecimentos de ensino superior, cujo funcionamento é regulado e regulamentado pela legislação educacional vigente.
Diante do complexo panorama da universidade brasileira e das diferenças significativas que caracterizam o ensino superior no Brasil, a formação profissional também adquire diferentes nuances tanto pela sua natureza quanto pelo seu conteúdo. Como resultante, o ensino do Serviço Social também convive em formatos institucionais diversos que implicam experiências diferentes no trato do estágio e da supervisão, no âmbito da formação profissional do assistente social.
Ao se tratar de formação profissional, em nosso entender, está se tratando do tipo, da qualidade e da direção que o ensino do Serviço Social tem ou deveria ter. A formação profissional vai-se construindo no exercício da prática profissional e social do assistente social e, vai adquirindo consistência à medida que o profissional se reconhece e se aceita como membro efetivo da categoria e, ao mesmo tempo, se apropria do significado sócio-histórico da profissão. Não é possível ensinar conteúdos fechados que preparem o aluno para a vida profissional, mas, promover o aprendizado de ferramentas teórico-metodológicas para que o mesmo desenvolva sua capacidade de aprender permanentemente no exercício profissional. A formação profissional não se completa com o curso, ao contrário, ele é o seu desencadeador.
A formação profissional deve ser interpretada como integrante do fenômeno educativo e o desdobramento deste pressuposto conduzem-nos às seguintes determinações:
1ª - como fenômeno educativo, a formação profissional compreende o estágio e a supervisão como momento formal do ensino do Serviço Social;
2ª - o estágio e a supervisão constituem-se momentos privilegiados para o ensino e aprendizagem profissional;
3ª - o ensino e a aprendizagem profissional, mediante o estágio e a supervisão, não podem estar desvinculados de uma proposta específica de formação profissional, cuja direção depende de um projeto político pedagógico do curso em que estão inseridos.
Esta vertente de análise resulta da contribuição que o estudo da Educação e da Filosofia da Educação trouxe à nossa trajetória profissional e intelectual. Filosofia e Educação estão vinculadas, pois a filosofia é que permite a reflexão sobre a educação na sociedade em que se situa, o papel do educador e do educando na prática social dos indivíduos e a finalidade da ação pedagógica. Portanto, a formação profissional não é somente o conjunto de informações e saberes transmitidos pelos professores, articulados a um rol de disciplinas em um espaço de tempo determinado, assim como o processo educativo não significa a forma de retenção desse conjunto pelo aluno .
Formação profissional pode ser entendida como processo permanente de construção e reconstrução da prática profissional e que vai se solidificando no seu efetivo exercício e na capacidade crítica deste exercício, configurando-se em processo contínuo do conhecimento ativo do Serviço Social na sua vinculação com a realidade social. Sob esta perspectiva, o espaço profissional poderá constituir-se em objeto de investigação e de reflexão que forneça elementos para a prospecção de novas demandas ao Serviço Social.

A primeira aproximação que o aluno tem com o espaço e a prática profissional se dá mediante o estágio. Então o estágio, no processo de formação profissional deixa de ser um momento episódico do ensino do Serviço Social para adquirir peso específico no processo de aprendizagem da profissão. O estágio curricular no curso de Serviço Social é o momento em que se oportuniza ao aluno aprender, identificar-se e apropriar-se de sua futura profissão.
Mediante a experiência do estágio, é possível que o aluno estabeleça relações mediatas entre os conhecimentos teóricos, que já tem e os que estão em processo de construção, e a realidade da prática profissional, a partir das quais pode desenvolver sua capacidade técnico-operativa e as habilidades desejáveis ao exercício profissional. Ao mesmo tempo, é no processo de aprendizagem profissional que é possível para o aluno reconhecer os nexos fundamentais entre a prática do Serviço Social e o contexto mais amplo das suas relações com a sociedade. E este é um processo do aluno.
Como espaço de aprendizagem, o estágio constitui-se em um processo de apreensão da profissão pelo aluno, e que incorpora aspectos cognitivos, culturais e sócio-profissionais de sujeitos. Como atividade curricular obrigatória, o estágio deve ser supervisionado.
É, pois, a partir de uma concepção de estágio que deve estar vinculada uma concepção de supervisão e desta, o reconhecimento da natureza que diferencia o trabalho do professor supervisor e do supervisor de campo, a qual se revela a partir de uma concepção de profissão e de educação. As tarefas de ambos, em relação ao aluno, não são excludentes, mas congruentes e embora tenham naturezas diferentes, devem convergir para o mesmo fim.
A supervisão no ensino do Serviço Social, adquire para nós, duas formas distintas:
1) A supervisão, como prática docente, é tarefa do professor supervisor no contexto do curso. Compreende o processo de ensino-aprendizagem que se estabelece na relação do professor supervisor com o aluno, a partir da atividade cotidiana do estágio, mediante uma dada programação que vise ao reconhecimento dos nexos entre os conhecimentos do Serviço Social e a realidade da prática profissional na sua relação com a demanda, com a organização campo de estágio e com a realidade social.
2) A supervisão como acompanhamento das atividades práticas do aluno no estágio é tarefa do assistente social supervisor no contexto organizacional. Compreende o processo educativo de desenvolvimento das habilidades técnico-operacionais desejáveis à prática profissional, mediante uma dada programação que vise ao atendimento das demandas frente à realidade organizacional e social e as alternativas de enfrentamento às questões sociais que emergem do cotidiano da prática.
O estágio, e a supervisão compreendida em suas duas dimensões, constituem-se espaço privilegiado para o processo de ensino e aprendizagem, tornando-se componentes do processo de formação profissional do assistente social. Mas, a tarefa de pensar este processo é do curso, porque desencadeador da formação profissional.
As peculiaridades que se apresentam no contexto do ensino teórico-prático do Serviço Social mediante o estágio e a supervisão, revelam elementos que estão no bojo do processo de ensino e aprendizagem. Se o estágio propicia ao aluno a primeira aproximação com a vida profissional, esta ação desenvolve sua capacidade de compreensão e a emergência de níveis de abstração que vão se tornando cada vez mais concretos através do cotidiano vivido e experimentado. Para isso, é necessário que a supervisão se torne o espaço favorável onde o aluno possa refletir sobre sua ação para entender seu modo de agir profissional e volte à ação, instrumentalizado por entendimentos sucessivamente mais avançados que abriguem novas reflexões e ações.
No âmago das relações vivas e dinâmicas que o estágio e a supervisão traz ao ensino do Serviço Social, pudemos identificar, neste estudo, três categorias a posteriori que se articulam intimamente às definidas a anteriori: a interatividade, o cotidiano e a competência.
O ensino e a aprendizagem profissional se processa através de uma trama de relações, cuja característica é a interatividade. A interatividade, na análise do material empírico, pôde ser compreendida como processo, mediante o qual, emergem relações inter-pessoais e inter-institucionais na vivência cotidiana dos sujeitos, e que desencadeiam atitudes cooperativas e de mútua realimentação, provocando mudanças significativas na vida dos indivíduos.
A interatividade no processo de construção da aprendizagem profissional passa necessariamente pela ação humana, posto que é através dela que o homem realiza sua humanidade cotidiana e historicamente .
Segundo Arendt, é na teia de relações humanas que se revela a identidade através do discurso e nela imprimem conseqüências, pois, a história singular de cada um afeta, de modo singular, a história de vida de todos. Em uma dimensão mais ampla, o ser humano resulta do conjunto das relações sociais nas quais ele participa. Como fenômeno tipicamente humano, a educação ocorre nesta mesma teia de relações. O processo de ensino e aprendizagem profissional resulta de um sistema de trocas que se estabelece pela interação entre sujeitos. O processo de ensino e aprendizagem da profissão é perspassado pela interatividade e que, no mesmo compasso, permite a construção da identidade profissional pelo aluno. Neste estudo, a marca mais profunda da interatividade é justamente o processo pelo qual os alunos constroem sua identidade profissional. Esta identidade, contudo, resulta do movimento relacional entre a igualdade e a diferença do aluno em torno de si próprio e dos outros.
A aprendizagem profissional não é apenas um processo cognoscitivo, mas implica em profundas mudanças na vida do aluno. Ao conhecer a profissão, ele constrói e reconstrói este "objeto do desejo" que, por seu turno, só pode ser conhecido e apropriado por intermédio de relações interpessoais. Mas, a interatividade reconhecida no processo de ensino e aprendizagem da profissão mediante o estágio e a supervisão, se realiza em um determinado espaço vivencial: o cotidiano .
O cotidiano, no material empírico, foi interpretado como o espaço vivencial possibilitador do ensino e aprendizagem profissional, posto que é na vida cotidiana do estágio que o aluno desenvolve sua ação e o conhecimento profissional e pode tomar consciência das múltiplas relações entre a prática profissional e a social. Dentre estas múltiplas relações apresenta-se a realidade por excelência, ou seja, a realidade da vida cotidiana, pois, através dela, o aluno se põe em comunicação e interação com os outros sujeitos da vida profissional. Sob esta perspectiva, o cotidiano passa a ser um modo único e possível do indivíduo viver sua vida e realizar sua atividade profissional.
O cotidiano, assim interpretado, perde a característica opressora em torno da qual os indivíduos estão presos pela monotonia, pela repetitibilidade dos atos e fatos e pela alienação. Ao contrário, o cotidiano é valorizado como espaço de aprendizagem profissional. Os conhecimentos subjacentes e específicos do Serviço Social podem ser introjetados ou apropriados, na medida que o aluno experimenta o fazer profissional através do cotidiano institucional.
É, pois, na estrutura da vida cotidiana que o aluno em processo de formação pode compreender o espaço físico e social de sua intervenção profissional e estabelecer com ela uma atitude crítica e radical. Por outro lado, a rotinização, a repetitividade, os hábitos, a persistência e a estabilidade das atividades do cotidiano do estágio, também permitem ao aluno o desenvolvimento de sua competência, no processo de aprendizagem profissional.
A competência profissional, como terceira categoria está intimamente vinculada à interatividade e ao cotidiano e, simultaneamente, é a finalidade do processo de ensino-aprendizagem de uma profissão. Sendo assim, o estágio e a supervisão como atividades curriculares específicas, tornam-se pontos de referência na avaliação do processo de construção da competência profissional.
A competência profissional é um processo em construção, inserido no processo de formação profissional, que envolve os sujeitos que nele interagem. Ou seja, a competência profissional necessita de relações diversificadas do aprendiz com outros sujeitos.
A competência profissional não é apenas técnica. Ela possui uma outra dimensão, que é a política. Sem a dimensão política, a competência técnica fica esvaziada de sentido, de finalidade, pois, a competência técnica já supõe um compromisso político. Como afirma Saviani, "não se faz política sem competência e não existe técnica sem compromisso; além disso, a política é também uma questão técnica e o compromisso sem competência é descompromisso" (1983:134).
Existe estreita vinculação entre as dimensões que estão presentes na competência e que se revelam em quatro níveis que se interpenetram: o teórico, o político, o técnico e o interativo.
Como a competência se constrói também na relação com os outros, o processo de sua construção é compartilhado. Quando se trata do fenômeno educativo, deve-se acrescentar à competência, uma outra dimensão que se articula às demais: a ética. A dimensão ética está relacionada à filosofia da educação que ilumina os procedimentos gerais e específicos que demandam a prática pedagógica que determina seus fins. Por esta dimensão é possível problematizar o processo de ensino e aprendizagem, atribuindo-lhe significado para a liberdade, a democracia, a cidadania na formação de novas gerações de profissionais competentes. Neste aspecto é que se reveste de importância o papel do curso na elaboração de seu projeto pedagógico. É no projeto de formação profissional que o estágio e a supervisão (como prática docente e não), devem estar localizados como atividades inerentes ao ensino teórico-prático do Serviço Social.

Capítulo III - Os Construtores no Processo de Construção

O estágio é o momento da vida acadêmica do aluno em que ele se põe face a face com a prática profissional do Serviço Social. Porém, como o aluno processa a articulação dos conhecimentos do Serviço Social com o que vivencia no estágio? Em que medida o estágio e a supervisão favorecem ao aluno o conhecimento da realidade, da demanda e co campo específico do Serviço Social? Quais são os sujeitos significativos que o aluno reconhece no desenvolvimento de seu processo de aprendizagem profissional? Através de quais mecanismos ou fatores se desenvolvem competências e habilidades na prática profissional do aluno? Quais os aspectos são relevantes para que o aluno identifique-se com a profissão?
Visando contribuir com algumas respostas a estas questões, dirigimos nosso estudo para o estágio e a supervisão como componentes do ensino teórico-prático do Serviço Social, localizados no contexto de um projeto de formação profissional que se desenvolve na Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica de Santos.
O estudo da trajetória histórica da Faculdade e da Coordenadoria de Estágios e Trabalhos Práticos (CETP) foi importante para o levantamento e a identificação, no conjunto de dados, da perspectiva de trabalho que sustenta o modo de compreender o estágio e a supervisão. Paralelamente, a análise dos documentos produzidos no curso para a implantação do currículo de 1982, mostrou que a partir dos anos 80, através dos órgãos colegiados, desencadeou-se um processo de discussões a cerca da formação profissional, que não apareceu com nitidez nos períodos anteriores.
A análise destes documentos e notadamente dos que subsidiaram a revisão de 1990, foi fundamental para recuperar, no processo histórico, a teia de relações que envolveram e determinaram a perspectiva de formação profissional que fundamentou o perfil do profissional e o projeto pedagógico do curso. Este procedimento permitiu a definição dos sujeitos significativos em torno dos quais situa-se o ensino teórico-prático desenvolvido pelo Curso, definindo-se quatro grupos: os alunos em processo de estágio; os professores supervisores; os supervisores de campo; os professores das disciplinas que devem favorecer os fundamentos e a instrumentalização para o agir profissional.
Definidos os sujeitos, em cada grupo, os instrumentos utilizados foram: discussão em grupo com os alunos e entrevistas abertas a partir de tópicos norteadores com os demais grupos de sujeitos.
Das aproximações que se sucederam entre o campo de referência empírico e o campo de referência teórico, foi possível construir as categorias que serviram de referência para a análise, as quais viabilizaram a interpretação e a compreensão das relações significativas que conduziram á explicação dos elementos essenciais ao objeto de estudo.Dos depoimentos dos sujeitos envolvidos na pesquisa, surgiram três categorias que foram tomadas como eixos referenciais da análise, pois se interpenetram no conjunto dos dados empíricos: a interatividade, o cotidiano, a competência. A vinculação entre as categorias se mostrou tão íntima que permitiu sua separação apenas para ressaltar, na análise, os elementos fundamentais que se mostraram nos depoimentos dos sujeitos. Da mesma forma, foi impossível dissocia-las das categorias apriorísticamente utilizadas no campo de referência teórica, tratadas no capítulo anterior.
As análises que resultaram do processo investigativo, permitiram que se identificassem aspectos relevantes em relação ao estágio e à supervisão como componentes dói ensino teórico-prático do Serviço Social.

Considerações Finais - Atalhos e Caminhos Para Repensar o Estágio e a Supervisão no Ensino Teórico-Prático do Serviço Social

No caso da Faculdade de Serviço Social - UniSantos, a análise do estágio e da supervisão só adquire consistência no âmbito do projeto de formação profissional que o Curso vem construindo em sua trajetória histórica. Dada as características da abordagem investigativa utilizada, não foi possível fazer amplas generalizações ao ensino do Serviço Social, mas na perspectiva do ensino teórico-prático, não impede que o conhecimento construído neste estudo possa contribuir para ampliar o espectro das reflexões em torno do estágio e da supervisão. O estágio e a supervisão tratados como recortes do processo de formação profissional do assistente social, permitiu identificar, neste estudo, elementos marcantes que procuramos sintetizar, sem menosprezar sua inter-relação em um contexto determinado.

1) O estágio é elemento substantivo para o processo de construção do ensino e aprendizagem profissional.

O cotidiano do trabalho no estágio permite ao aluno apropriar e construir saberes, os quais se constituirão nos fundamentos de sua prática profissional futura. O desenvolvimento de habilidades específicas pra o agir profissional adquire consistência e coerência para o aluno na medida em que estabelece sua identificação com o Serviço Social, isto é, aceita-se e reconhece-se como membro efetivo da categoria profissional.
Através da sua vivência cotidiana com a demanda, com a prática profissional e com a realidade social, o aluno vai introjetando os valores, as contradições, os limites e possibilidades da profissão que escolheu, apropriando-se do seu significado social. Ou seja, o aluno compreende o papel do Serviço Social no processo sócio-histórico da sociedade brasileira.
Este movimento é simbiótico no âmago do processo de aprendizagem profissional, e impulsiona o aluno a buscar o desenvolvimento de habilidades e estratégias a nível operacional, que tragam resultados às suas atividades no estágio, reconhecendo, então, a contribuição de seus conhecimentos teóricos já instituídos e os que estão se processando.
Mas todo esse movimento não ocorre espontaneamente. Deve ser provocado e só se corporifica mediante etapas sucessivas e contínuas da apreensão do agir profissional na realidade institucional e social, através de sua experiência concreta em espaço e tempo determinados. No processo de aprendizagem profissional, o estágio permite a leitura crítica da prática, mas não se pode subtrair desta, a dimensão individual do aluno enquanto sujeito histórico e as diferentes formas que utiliza para estabelecer com os outros sujeitos às relações que lhe são significativas neste processo.

2) As práticas e os saberes construídos no cotidiano do estágio não prescindem de um processo de reflexão realizado coletivamente na sala de aula e na supervisa.

O Curso é o espaço propício para a reflexão da prática cotidiana do estágio visando a construção da competência profissional do aluno e do Serviço Social. A teia de relações inter-pessoais e inter-institucionais que o estágio desencadeia necessita ser reconhecida pelos sujeitos nela envolvidos para que a reflexão da prática profissional não fique no plano da abstração e fundamente a aprendizagem profissional.
Para isso, a supervisão, como prática docente intencional e politicamente definida no contexto de um projeto de formação, é o espaço propício para a reflexão que possibilita ao aluno a articulação entre o pensar e o agir profissional, não se reduzindo à tarefa de treinamento de habilidades, nem tampouco só à tarefa de articulação da teoria à prática.
A supervisão, enquanto trabalho docente, é o espaço onde o encontro do aluno com a prática profissional, pode ultrapassar os limites do imediatismo e da superficialidade do real para, refletidos, tornarem-se constructos do processo de aprendizagem profissional. Nesta perspectiva, o ensino teórico-prático do Serviço Social não se resume ao trabalho docente do professor supervisor, mas do coletivo do Curso.

3) As condições institucionais do ensino teórico-prático do Serviço Social são elementos importantes para a aprendizagem e competência profissionais.

A processualidade da construção do projeto educativo do Curso é ponto a ressaltar, posto que interfere na interpretação e no formato que o estágio e a supervisão adquirem na unidade de ensino focalizada. As condições materiais e institucionais em que se realiza o trabalho docente não devem ser subestimadas, posto que elas podem tornar-se limitadoras dos objetivos educacionais do Curso. É necessário reconhecer que o trabalho docente, realizado por sujeitos e com sujeitos, deve ser compreendido na sua heterogeneidade, mas que sua consecução se efetiva em condições específicas na relação entre os sujeitos e o Curso, que por sua vez, determinam a forma de apropriação de um mesmo marco referencial firmado coletivamente.

O ensino do Serviço Social é eminentemente teórico-prático. Esta característica é decorrente da dimensão de interferência e de intervenção no real da profissão e da maneira como se deu sua institucionalização na sociedade brasileira. Portanto, o ensino da prática é reconhecido historicamente como componente essencial para a formação dos assistentes sociais. Porém, se esta "prática" não for tomada como parte no âmbito do ensino do Serviço Social, então o estágio não passará de um necessário "treinamento" para o exercício profissional. Isto significa reduzir a prática do estágio ao desenvolvimento de habilidades necessárias ao futuro desempenho profissional, atribuindo a este último, um caráter meramente tecnicista e instrumental, e reduzi-lo a um apêndice do curso. Da mesma forma, se a supervisão for tomada por uma tarefa apenas realizada fora do espaço escolar, então estaremos tomando a análise do estágio e da supervisão por um atalho.
Para que se efetive o processo de ensino e aprendizagem da profissão, estágio e supervisão devem ser reconhecidos como um conjunto articulado, que tem como pilar de sustentação a dimensão pedagógica e, que dão ao ensino do Serviço Social o atributo de ser teórico-prático.
É tempo de sair do atalho apertado, reduzido e limitador, para buscar o caminho aberto, rico de paisagens e total, ainda que seja difícil, longo e seguramente o das pedras.

* Doutora em Serviço Sopcial, professora e vice-reitora da Universidade Católica de Santos/UNISANTOS.

(*) Resumo de tese de doutorado defendida em 1997 na PUCSP.