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LATINIDADES
por Edgar Morin
29 de agosto de 2003 SESC - Av. Paulista
Mostra Sesc de Artes - Latinidades
Retomando
o título das palestras do ciclo da Mostra de Artes
realizada pelo SESC, encontramos o termo latinidade no plural:
Latinidades. Diante disto, sabemos, nas latinidades existe
a Latinidade, e realmente é importante estudar este
conceito a partir da origem, ou seja: Roma.
Existem duas faces complementares a respeito daquilo que
chamaremos de "romanidade". A primeira é
histórica e surge das conquistas extremamente bárbaras,
tomando-se como ponto de partida a cidade de Roma e subjugando
de forma implacável e destrutiva a Itália
e o mundo mediterrâneo. Os estudiosos da história
antiga recordam-se da destruição total de
Cartago e sua grande civilização púnica;
o saque e a destruição total da grande cidade
grega Corinto; o cerco a Numância, povoado espanhol
com sua vã resistência e por fim exterminada.
Mesmo no próprio mundo romano, aconteceram ferozes
repressões às revoltas de escravos, como a
de Espártaco, e a destruição da república
e da democracia para o surgimento de um império com
seu "divino" imperador.
Em continuação,
defrontamo-nos uma segunda face, embora paradoxal, desta
Latinidade. Desta conquista feroz da qual falamos, emerge
não somente um império pacífico como
também civilizador. Uma civilização
com virtudes ao mesmo tempo integradoras e universalistas.
A primeira integração foi a do grego assim
que Roma conquista a Grécia. Nos veículos
de transporte, nas carruagens triunfantes dos vencedores
chegaram escravos gregos, e com eles a cultura grega progressivamente
difundida no império. E, como vocês sabem,
o grego tornou-se o idioma do império bizantino,
após a desintegração de sua porção
ocidental, tornando verdadeiro o adágio latino: "a
Grécia vencida venceu seu bárbaro vencedor".
Qual
a contribuição da Grécia vencida? Um
pensamento universal criado e desenvolvido por seus filósofos
e, principalmente, a célebre máxima humanista
de Protágoras : "o homem é a medida de
todas as coisas", que encontra eco em Terêncio,
autor latino de teatro totalmente influenciado pela cultura
grega. Em uma de suas obras encontramos a célebre
frase: "homo sum: humani nihil a me alienum puto"
ou seja: "eu sou homem: nada do que é humano
me é estranho". Naturalmente esta universalidade,
este humanismo são extremamente limitados e sem a
participação dos escravos.
Na Grécia,
na Atenas da grande filosofia de Aristóteles... Aristóteles
dizia: "O escravo é uma ferramenta animada",
isto é, um objeto e não um ser humano; portanto
a exclusão dos não cidadãos. Sim, este
universalismo é potencial , da mesma forma como a
democracia nascida em Atenas que se destina exclusivamente
aos cidadãos. Porém a idéia democrática
carrega em si o potencial da universalização,
fato que se tornou a tarefa da democracia moderna.
Pois
então, contamos com este humanismo universal que
irá permear a cultura latina, e a seguir, teremos
uma integração, eu diria, cidadã e
política dos habitantes dos países conquistados
por Roma. Referimo-nos ao édito do imperador Caracalla,
no século três, que estende a cidadania romana
a todos os habitantes do império. A partir deste
momento, o império romano não é mais
tão somente dos povos da Itália ou de Roma,
mas também dos espanhóis... dos africanos
do norte - como santo Agostinho um bérbere, africano
do norte - tornando-se cidadãos romanos de pleno
direito.
É
incrível que, enquanto observamos ainda nos dias
de hoje esta tendência de dominação
de uma etnia sobre outras, no império romano tenha
havido uma tendência absolutamente não racial,
não racista. Existiram imperadores que não
eram romanos e nem mesmo italianos.
Nessas
condições, constituiu-se de certa forma a
unidade das diferenças; as tolerâncias religiosas
relativas à Antigüidade pagã. Deuses
estrangeiros foram adotados pelos romanos: Osíris
o deus egípcio, como Orfeu o deus grego que morre
e renasce tal qual Osíris ; e por fim a integração
da mensagem de Jesus, que, uma vez concretizada, desintegrará
todas as outras com o seu monopólio da verdade.
De qualquer
modo, quero dizer que é real esta aceitação
de outras crenças, pois aceitar os deuses dos outros
povos, significa reconhecê-los. Eliminar os deuses
dos outros povos, como o fez, por exemplo, a conquista espanhola,
bem como a portuguesa, é negar de fato a existência
dos demais.
O terceiro
aspecto da Latinidade é a integração
do Cristianismo a partir de um momento extremamente importante,
isto é, o encontro do judaísmo de Jesus com
a cultura grega, com a cultura greco-latina. Esta extraordinária
circunstância histórica é a de Paulo,
o patrono desta cidade de São Paulo. São Paulo,
que na realidade se chamava Saül, que era judeu, fariseu,
anticristão, perseguiu os primeiros cristãos,
e como sabem, ele viu um clarão, teve um êxtase
- há um belo quadro de Caravaggio em uma igreja em
Roma, na Piazza del Popolo onde vemos Paulo caído
do cavalo, fulminado, tombado ao chão - ao ter uma
revelação de Jesus que lhe diz : "Paulo,
ou melhor, Saulo, Saulo, porque me persegues?". Como
é do conhecimento de todos, esta conversão
de Saulo terá imensas conseqüências porque
Paulo - Saulo que se tornou Paulo - enunciará esta
idéia básica: não há mais judeus
e não há mais gentios, - a palavra "gentio"
significando todos os outros povos, todas as outras nações
- existe uma só humanidade.
Este
pensamento e mensagem de Jesus, potencialmente universalista,
torna-se de fato universal; também com suas limitações,
já que o cristianismo, como sabem, não aboliu
a escravidão: contribuiu para sua abolição.
Houve
uma longa incubação da mensagem cristã
em todo o império romano e em todas as camadas da
sociedade durante dois ou três séculos, até
que, com a conversão do imperador Constantino, torna-se
não somente a religião de império como
também a única religião oficial. Nesse
momento o cristianismo integra a romanidade, integrando
a latinidade que o havia integrado anteriormente.
Existe
um duplo aspecto nesta integração: a integração
de uma mensagem de abertura, de amor, como a do sermão
da montanha, e o outro aspecto: da intolerância de
uma religião que se declara a exclusiva detentora
da verdade, que possui o monopólio da verdade e que
eliminará todas as outras de forma impiedosa.
Sabem
que esta tendência do monoteísmo - e, aliás,
quero lembrar-lhes que é de origem egípcia,
pois foi o Faraó Akenaton o primeiro a adorar um
deus único - é possuidora de aspectos que
remetem ao universal , já que é dirigida a
todos os seres humanos, com aspectos também - e em
certos momentos históricos, numerosos demais infelizmente
- extremamente intolerantes e fanáticos: como as
incessantes guerras religiosas na Europa, como o Islã
possuidor do mesmo caráter monopolista do monoteísmo.
Percebem
então que as guerras religiosas são um monopólio
ou uma característica específica do nosso
mundo ocidental e mediterrâneo, enquanto que na China
e no Japão, por exemplo, percebemos a pluralidade
das religiões, e uma mesma pessoa pode tanto professar
o culto dos ancestrais, o culto Xintoísta ou o culto
Budista. Finalmente, esta questão é não
somente o grande êxito da Latinidade em si, como de
todas as Latinidades.
E o
que são as Latinidades?
A Latinidade surge a partir da desintegração
do império romano do ocidente, isto é, com
a chegada dos povos bárbaros que integram uma parte
da civilização e da língua latina.
A língua latina transforma-se - como acontece com
todas as línguas na História - dando origem
às línguas nacionais a partir das linguagens
populares, já que os letrados continuam usando o
latim clássico, o da igreja. Contudo estas línguas
nacionais detêm um cunho latino, como naturalmente
possuem o italiano, o espanhol, o português, o francês,
o romeno, etc.
Presenciamos
então o surgimento das Latinidades, das línguas
mestiças evidentemente marcadas durante a Idade Média
pelo monopólio teológico da religião.
Porém, no âmago da latinidade ocorrerá
o que denominamos de Renascimento, ou seja, a ressurreição
da herança grega, que já houvera permeado
a latinidade do império romano.
Esta
ressurreição tem início na Itália
e faz brotar algo que romperá o isolamento religioso,
já que representa o despontar de um pensamento não
religioso, de um pensamento laico, autônomo, com ou
sem Deus.
Esta
corrente humanista surge com muita força na Itália,
com Pico della Mirandola, Giordano Bruno - que foi queimado
em Roma, como sabemos - com Leonardo da Vinci, e ao mesmo
tempo, com o advento da tecnologia, da ciência, da
filosofia, etc.
Todavia,
não existe somente esta corrente italiana, que, aliás,
propagar-se-á pela Europa Ocidental e influenciará
principalmente Erasmo. Há uma outra corrente subterrânea,
muito pouco conhecida, que podemos denominar de corrente
marrana: a dos convertidos. São os judeus convertidos
ao catolicismo pela força, por vontade própria,
ou mesmo pelo medo. Dentre esses marranos, há certamente
alguns que acabaram esquecendo suas origens e tornaram-se
católicos; outros permaneceram judeus secreta e clandestinamente,
mantendo uma aparência católica concomitante.
Porém há uma outra categoria bastante minoritária
para quem o confronto, o choque entre as religiões
cristã e hebraica, fez emergir algo novo, que transcenderá
ambas.
Para
dar-lhes um exemplo, o mais belo exemplo é o pensamento
de Spinoza, filósofo de origem judaica que naquele
tempo promoveu esta revolução mental própria
do mundo moderno: eliminou a idéia de um Deus exterior
ao mundo criando o universo tal qual um arquiteto. Elimina
esta idéia que naquela época permanece muito
arraigada em Descartes e em Newton, situando a substância
criadora no âmago da própria natureza.
A fórmula
de Spinoza é: "Deus, isto é, a natureza".
Não podemos dizê-lo com mais ênfase...
esse será o problema fundamental, isto é:
o fato de como a criação, as idéias,
a humanidade, a evolução originam-se do próprio
mundo que permanentemente se cria e recria.
Como
já haviam percebido os Inquisidores, perseguidores
dos Marranos, o marranismo era fonte de ceticismo e de racionalidade.
Além disso, o exemplo mais claro é o de Michel
de Montaigne cuja hereditariedade é toda de origem
marrana, isto é judia, possuidor deste conceito extraordinário
para sua época de guerras religiosas: o pensamento
do ceticismo e da relatividade. Foi Montaigne o primeiro
a dizer, quando da conquista da América: "chamamos
de bárbaros os que pertencem a uma civilização
distinta da nossa". É a ressurreição
da mensagem universal greco-latina, em um mundo pós-cristão.
Ao lermos os ensaios de Montaigne, encontramos inúmeras
referências aos gregos, aos poetas gregos e latinos,
porém nenhuma menção à Bíblia
ou ao Evangelho.
Podemos,
portanto dizer que a filosofia e a ciência moderna
tiveram origem no Renascimento, e que a partir deste momento
a latinidade não pôde mais se confundir com
a cristandade, que se estabelece de maneira mais ampla na
Europa.
Sob
a influência deste pensamento - do Renascimento e
do catolicismo - ocorre então na Europa, o que chamaríamos
de dialógica, ou seja, uma relação
ao mesmo tempo complementar e antagonista entre a religião
e a razão, entre a fé e a dúvida, graças
à qual podemos reconhecer os limites da razão,
e na qual podemos, como o demonstra Pascal - e isto é
muito importante e atual - concluir que não existe
nenhuma prova lógica nem empírica da existência
de Deus.
O que diz Pascal? Diz: "é preciso apostar".
É o grande tema da Aposta de Pascal: "doravante,
devemos apostar ". Seja em Deus ou, de acordo com nossos
princípios, no bem, no aprimoramento da humanidade,
em um mundo melhor: devemos sempre apostar. Nunca teremos
certeza de êxito em nossas iniciativas, e eis aqui
também esta sólida idéia em um país
de língua latina, a França, e que é
de suma importância.
Não
devemos esquecer que a latinidade contém duplamente
o helenismo - helenismo significando a herança grega,
já que os Gregos são os Helenos . Existe a
herança grega encontrada dentro da Latinidade do
império romano, e a herança grega encontrada
dentro da Europa latina e de forma mais extensa na Europa
moderna e por fim nos tempos modernos.
Deparamo-nos,
portanto com uma nova aventura para a palavra Latinidade.
Da mesma forma como Roma conquistou de forma bárbara
o mundo antigo, a Europa conquistou a América, a
América Latina com a pavorosa destruição
das civilizações Asteca e Inca, com uma subjugação
maciça.
Nesta
conquista bárbara podemos observar a rapacidade dos
conquistadores e a imposição imperiosa da
fé católica. Com algumas exceções,
pois sabemos que enquanto impunham a fé católica,
os jesuítas da missões, que se encontravam
no sul do Brasil e na Argentina, respeitaram a humanidade
dos índios.
Concomitante
e paralelamente ao aspecto bárbaro, assistimos à
introdução do português, do espanhol
e de novas Latinidades. É nessas novas latinidades
que se inicia o processo de emancipação. Primeiramente
a emancipação dos "criollos", isto
é, dos colonos desses países ao se emanciparem
da coroa espanhola e portuguesa, e com esta emancipação,
a dos escravos. No Brasil, no século XIX, e que ainda
não terminou... e que está muito longe de
terminar, ao pensarmos em países como o Peru, a Bolívia
e o Brasil, com o problema dos indígenas da Amazônia
e de outras regiões.
Porém,
assim mesmo contamos com um processo que chamarei de civilizador,
como o da mestiçagem que contribui para a integração
e emancipação dentro de um novo complexo nacional
e civilizador. Realmente, embora o processo não esteja
acabado, o exemplo mais marcante de uma nação
que criou uma civilização pela mestiçagem
é sem dúvida o do Brasil, exemplo de mestiçagem
civilizadora e criadora.
Da mesma
forma que na Europa não existe mais, desde o Renascimento,
uma Latinidade, mas sim Latinidades, na América Latina
também existem Latinidades e o termo Latinidade torna-se
um componente lingüístico e cultural das civilizações
mestiças e não a essência dessas civilizações.
Não podemos reduzir todos estes países à
simples Latinidade, nem mesmo a Argentina que é o
país mais europeu da América Latina. Em outras
palavras, o termo "latino" deve ser considerado
como um adjetivo e não como um substantivo.
A Latinidade
é um traço que caracteriza os povos, as nações
da América Latina e portanto podemos dizer que as
Latinidades se enriqueceram e continuarão a se enriquecer
pela mestiçagem e pelas diversidades no seio das
unidades nacionais. Digo "irão se enriquecer"
porque nos encontramos num processo de despertar das realidades
e das culturas indígenas nos países vizinhos
como o Peru, a Bolívia, o Equador, o despertar das
culturas Quéchua, Aymara. Assistimos este impulso
indígena muito forte que deverá nos levar
a uma nova ou a novas simbioses.
Tendo
dito isto e nessas novas condições, devemos
examinar um novo aspecto, aquele próprio às
Latinidades. E qual é este aspecto? Primeiramente,
quando examinamos os mapas geográficos, percebemos
que as Latinidades são do Sul: o Sul da América
- e naturalmente o México, culturalmente parte integrante
da América Latina e que se situa ao sul dos Estados
Unidos - e com a Europa do sul: Portugal, Espanha, França,
Itália, Mediterrâneo, ele próprio que
está no sul da Europa. Portanto, existe esta característica
que é o Sul.
Hoje,
e isto ocorre já faz alguns anos, não falamos
mais da oposição Leste / Oeste. Após
a queda do império soviético falamos do Norte
e do Sul. Dizemos: o Norte é rico, o Sul é
pobre; o Norte é desenvolvido, o Sul é subdesenvolvido;
o Norte é muito técnico, industrial, o sul
é principalmente rural, etc. De alguma forma o desenvolvimento
e a riqueza significam Norte, subdesenvolvimento e pobreza
significam Sul. Porém na realidade as coisas são
muito mais complexas.
Por que? Porque o Norte detém a hegemonia da técnica,
da indústria, do capitalismo, e que também
é a hegemonia do cálculo, do economismo. Isso
significa que o pensamento do Norte tende sempre mais a
se concentrar no cálculo, na economia - que, por
sua vez, também é cálculo e que todo
o conteúdo humano não se resume a um mero
cálculo.
O sofrimento não pode ser calculado, assim como também
o amor. Mesmo que se invente uma unidade de medida para
o amor, que chamaríamos de Cupido, nunca faríamos
uma declaração de amor a uma jovem dizendo-lhe:
"sinto trezentos Cupidos por você". Absolutamente
não! Nada disso é quantificável. Mas
a tendência do Norte é reduzir tudo ao cálculo:
reduzir a política à economia, ao crescimento,
à renda bruta. São meras noções
estatísticas formais.
Em outras palavras, é a hegemonia da quantidade em
detrimento da qualidade, das qualidades, tendo à
frente a qualidade de vida.
No
entanto, o atraso econômico do Sul comporta a salvaguarda
dos valores humanos não redutíveis a quantidades
nem a moedas. São os valores de convívio,
de hospitalidade, valores de qualidade de vida. De resto,
o Norte sente uma necessidade crescente desses valores.
Desde o século XIX o Norte busca o Sul: o Norte germânico
preso num mundo fechado apelava ao Mediterrâneo através
de seus poetas. Goethe notadamente que, referindo-se à
Itália. diz : "conheces o país onde floresce
a laranjeira?" Pode-se encontrar esse apelo ao Mediterrâneo
também em Hölderlin.
E, hoje,
na Europa, vê-se uma grande massa de veranistas alemães
que acorrem para as praias do Mediterrâneo, para as
ilhas gregas, para o Sul, para o sol, que buscam algo que
não lhes é oferecido por sua cultura e sua
civilização. Aliás, por que será
que a pizza difundiu-se pelo Norte e pelo mundo inteiro?
Ela é um símbolo daquilo que o Sul pode nos
trazer; alguma coisa que não pode ser encontrada
no chucrute nem na salsicha (risos da platéia).
Claro
que não se deve denegrir o Norte. É preciso
dizer também que o Sul, durante muito tempo, manteve
certas desigualdades bastante marcantes, principalmente
a desigualdade do estatuto da mulher. Na Espanha, ainda
há trinta anos, uma mulher não podia entrar
num bar desacompanhada. A chegada das mulheres ao mundo
do trabalho, ao mundo externo, é recente. A defesa
dos direitos da mulher começou incontestavelmente
no Norte e por essa razão, é preciso não
somente pregar, como eu faço, a resistência
do Sul, mas também a simbiose civilizadora entre
o que há de importante e útil no Norte com
o que decididamente deve ser conservado no Sul.
Nessa
simbiose vemos o que a Latinidade pode trazer: uma fonte
de universalidade e humanismo em que ela mesma pode se transformar,
acrescentando às reivindicações locais,
particulares e singulares, o elemento de universalidade
indispensável.
Quando,
num primeiro momento, houve resistência à globalização
econômica, e alguns tendiam a dizer que deveríamos
nos fechar em nossos países - chegou-se a ver essa
posição - houve também uma outra mensagem
trazida por José Bové, um homem da latinidade
e pastor francês, que disse: "o mundo não
é uma mercadoria". Isso quer dizer que podemos
aceitar uma civilização global, porém
com suas diversidades. Não queremos nos fechar. É
evidente que se deva respeitar os valores de cada cultura.
Nesse ponto, reaparece a questão do Sul.
Pensadores
negros de expressão francesa, como Aimé Césaire,
martiniquês, ou como Léopold Sédar Senghor,
africano senegalês, são pensadores universais,
sem abandonarem o pensamento da negritude, das qualidades
do negro, do black is beautifull.
Para
uma simbiose criativa, para uma civilização
planetária, o papel da latinidade, a meu ver, é
o de ser a porta-voz ao mesmo tempo do Sul e do universal.
Mas para isso, é preciso ultrapassar a noção
de desenvolvimento, que na minha opinião é
uma noção totalmente subdesenvolvida, por
tratar-se de um conceito técnico e econômico
que o Norte ocidental quer impor ao mundo, propondo-se como
modelo.
Como
se a técnica e o capital fossem locomotivas capazes
de puxar um trem com a democracia, o humanismo e o aperfeiçoamento
do destino humano. Com a visão de que a pobreza mede-se
apenas pelas estatísticas e pelo PIB, e não
por traços humanos como a humilhação,
como o fato de não dispor de medicamentos ou de acesso
às fontes de informação.
Em outras
palavras, a medida puramente quantitativa da pobreza é
um erro, porque, primeiramente, podemos considerar paupérrimos
os camponeses que vivem numa economia de subsistência,
numa policultura, produzindo eles próprios o que
necessitam para viver. Mas isso pode ser falso. Esses mesmos
camponeses, uma vez lançados nas nas habitações
paupérrimas das periferias dos grandes centros, não
possuem nenhum recurso, vivendo de pequenos trabalhos, numa
verdadeira miséria.
Em suma,
é preciso repensar essa idéia de desenvolvimento.
E a idéia de subdesenvolvimento, a meu ver, é
abjeta, porque nos faz ver os subdesenvolvidos como aqueles
que nada conhecem a não ser superstições.
Na realidade chamamos de subdesenvolvidos a povos que possuem
culturas milenares. Os índios da Amazônia possuem
tesouros em conhecimentos medicinais sobre as plantas, sobre
os animais. Esses povos têm uma sabedoria e uma cultura
oral de enorme riqueza. Na minha opinião, é
terrível pensar que tudo isso nada representa e que
devemos lhes dar pura e simplesmente o alfabeto e as idéias
abstratas. É preciso ir além desse conceito
de desenvolvimento.
Nós,
europeus, que nos consideramos desenvolvidos, percebemos
que nossa civilização traz uma pobreza moral,
traz o isolamento no egocentrismo e toda uma série
de problemas até então inexistentes: a poluição
urbana, a degradação da biosfera, o desencadeamento
das armas nucleares. Estamos vendo que caminhamos céleres
para um impasse. E dizemos aos demais países para
seguirem esse caminho, quando seria preciso dizer que escolham
um outro. Esse é o problema fundamental.
Por
isso creio que o papel da Latinidade poderia ser extremamente
importante, podendo integrar o que há de positivo
na idéia de desenvolvimento, como por exemplo, o
acesso aos medicamentos. Vê-se hoje, ainda, as indústrias
farmacêuticas impondo grandes dificuldades para reconhecer
a países como o Brasil o direito de fabricar seus
medicamentos genéricos. Logo, precisamos de uma política
da civilização, da simbiose da civilização.
Precisamos de uma política da humanidade, que se
dirija às necessidades mais prementes, mais fundamentais
para nossa humanidade, para o nosso planeta.
Sabemos
que uma política da civilização não
se pode limitar a uma luta militar contra o terrorismo,
porque a própria luta continua, desenvolve a violência
e, desenvolve um outro terrorismo, o terrorismo de Estado,
de extrema brutalidade. A política da civilização
deve lutar contra a violência, e não pela simples
repressão; mas sim pela mudança das condições
humilhantes e de dependência, existentes no mundo
atual.
Mas,
como fazer essa regeneração da humanidade,
para salvá-la da catástrofe para a qual ela
se dirige? Muitas vezes eu disse que a nave espacial Terra
era propulsionada por quatro motores: o motor ciência,
o motor técnica, o motor economia e o motor lucro;
mas que não havia piloto e que os passageiros da
nave não se entendem uns aos outros.
Nessas
condições, que fazer? É um trabalho
de fôlego. É preciso conscientização.
Quando tivermos consciência de que estamos caminhando
em direção a algo de terrível, a reação
surgirá e, talvez, possamos salvar o mundo... mas
já à beira da catástrofe! Vocês
devem conhecer as palavras de Hölderlin, aqueles versos
de seu poema à Grécia, chamado "Pathtmos",
onde ele diz: "quanto maior o perigo, maior a salvação".
E penso que é a consciência que pode fazer
isso. Para entendermos o que pode acontecer, vou dar um
exemplo mais lógico. Acreditava-se que as células-matrizes,
aquelas que, no embrião humano, têm a capacidade
de criar as células de todos os órgãos
como o fígado, o baço, o cérebro, etc...
- que têm a possibilidade universal, o que se chama
em linguagem biológica tutti potente - acreditava-se
que elas desaparecessem no adulto depois da criação
dos órgãos com células especializadas.
Mas há dois anos, uma descoberta muito importante,
feita durante as pesquisas sobre regeneração
de órgãos e sobre culturas de embriões,
mostrou que um ser adulto possui células-matrizes
em sua medula, em seu cérebro, em seu corpo. Somente,
essas células matrizes estão adormecidas.
A questão a ser levantada pela medicina nos próximos
anos é como despertar essas células. Já
foram feitas experiências num camundongo com lesão
cardíaca e, graças ao despertar dessas células
foi possível reconstituir um coração
normal. Mas deixemos a metáfora e voltemos a falar
da humanidade. Cada ser humano, e não somente ele,
mas cada coletividade humana também possui em si
potências regeneradoras que são como o equivalente
das células-matrizes. Elas ficam adormecidas enquanto
estamos numa sociedade especializada, burocratizada, que
busca exclusivamente a quantidade e o lucro. Mas quando
há uma crise, as células-matrizes podem despertar.
É o que Karl Marx chamava de homem genérico.
Ele se referia à capacidade de criação
e regeneração presentes no ser humano. Nós
dispomos dessas capacidades. Elas estão adormecidas.
E temos entre essas células-matrizes, as matrizes
do humanismo greco-latino. Assim, as latinidades podem estar
na vanguarda dos esforços para salvar a humanidade
do desastre para o qual ela corre.
Muito obrigado.
Edgar Morin.
Transcrição
e tradução: Liliane Lea Beraha e Luciano Loprete
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