"BUSCANDO
UM RE-SIGNIFICADO DA VISITA DOMICILIAR NO SERVIÇO
SOCIAL"
Fátima
Aparecida Barbosa de Oliveira Micheletti*
A reestruturação da assistência psiquiátrica
no Brasil tem promovido mudanças no Sistema de Saúde
Mental, com a criação de novas práticas.
O município de Santos/SP desponta com uma experiência
inédita no Brasil, criando uma rede de serviços
substitutivos ao manicômio Casa de Saúde Anchieta,
hoje inteiramente desativado.
A proposta consistia em desativar gradativamente o Hospital
Psiquiátrico e criar uma rede de serviços
substitutivos àquele manicômio. A Casa de Saúde
Anchieta foi fechada integralmente em 1996; cinco NAPS -
Núcleos de Atenção Psicossocial foram
criados, seguindo o princípio da territorialidade,
ou seja, descentralização e reaproximação
da população usuária.
O Programa de Saúde Mental de Santos, que se iniciou
em 1989, foi inusitado e chegou a ter repercussões
nacionais, inclusive. Os profissionais envolvidos neste
processo guardam na memória histórias, segredos,
"confissões", enfim, retratos de uma prática
que transformou a vida de tantas pessoas que sofriam. Toda
uma prática transformadora ocorreu num compasso intenso
por inteiro, mas de difícil sistematização.
Várias práticas foram criadas e re-criadas
neste processo. Entre muitos temas passíveis de investigação,
priorizei o estudo da visita domiciliar no contexto do Programa
de Saúde Mental de Santos, por entender a forte necessidade
em revê-la e revalorizá-la como estratégia
de manutenção não só para o
sistema aberto de atenção à saúde
mental, como também para a consolidação
dos conhecimentos que integram a operacionalização
da prática profissional.
Assim, este estudo buscou re-significar a visita domiciliar
para a prática do Serviço Social e revalorizá-la
como estratégia fundamental para a manutenção
do sistema aberto de atenção à saúde
mental de Santos.
Para fundamentar este estudo, recorremos à pesquisa
documental e de campo com profissionais de diferentes áreas
do NAPS-II, utilizando o Grupo de Reflexão com profissionais
como instrumento principal para discussão sobre as
necessidades, significados e intercorrências atribuídas
à visita domiciliar.
O objetivo não foi o de proceder a uma avaliação
do serviço, mas, sim, "olhar a visita domiciliar
por dentro".
Para tanto, torna-se importante contextualizar a intervenção
municipal na Casa de Saúde Anchieta.
A Reforma Psiquiátrica Brasileira despontava para
a visualização de novas práticas de
atenção à Saúde Mental. Em maio
de 1989, na cidade de Santos/SP, no cenário da Administração
Democrática Popular ocorreu a "intervenção
municipal" na Casa de Saúde Anchieta, conhecida
como a "Casa dos Horrores", após denúncias
de maus-tratos e mortes de pacientes.
A "intervenção municipal" na Casa
de Saúde Anchieta constituiu uma política
de ação desenvolvida no governo popular no
período de 1989/1996 e ocorreu porque houve vontade
política em mudar aquela cruel realidade, tendo como
meta o fechamento da Casa de Saúde Anchieta, a criação
de uma rede de serviços substitutivos, estabelecendo
novos parâmetros para a Política de Saúde
Mental no Município. Grandes foram as dificuldades
enfrentadas para pôr em prática esta proposta
de intervenção. As dificuldades começavam
já na chegada ao hospital. Aquele espaço era
feio, sombrio e desumano - celas fortes medindo 2 metros
quadrados, com mínima ventilação, sem
luz e sem local para as necessidades fisiológicas
e higiênicas, pessoas deitadas no pátio com
o olhar distante, sem perspectiva, sem noção
do tempo; alguns mais solicitantes aproximavam-se pedindo,
desde cigarros, até contatos com familiares, em especial
nos questionavam sobre os motivos pelos quais haviam sido
ali "depositados". Conforme Sennet (1994), o espaço
pode tolher as sensações do corpo, os sentidos
e a liberdade.
Tudo era bucólico ali; as paredes, a disposição
das enfermarias, a falta de privacidade dos pacientes, além
da resistência às mudanças por parte
dos funcionários que trabalhavam há algum
tempo, convivendo naquela estrutura.
Além disso, havia implicações pessoais,
pois aquela prática mobilizava questões internas;
a loucura vista de perto permite séria reflexão.
A equipe de trabalho composta de médicos psiquiatras,
enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas
ocupacionais e auxiliares de enfermagem, era inexperiente
em relação ao modelo, uma vez que se tratava
de uma proposta inovadora e única no país.
Gradativamente, fomos operacionalizando no cotidiano a proposta,
adquirindo com as reflexões que realizávamos
em conjunto, maior nitidez para o trabalho.
No momento da "intervenção municipal",
e nos meses que se seguiram, a tarefa era uma só:
resgatar as histórias de vida dos pacientes internados
no hospital e tentar retomar, à medida do possível,
os vínculos familiares, visando à desinternação.
Para tanto, os profissionais, independente da especificidade,
uniram-se neste trabalho.
De acordo com as características de cada profissional,
os problemas começavam a surgir, por exemplo: dificuldades
em lidar com a população carente, dificuldade
com a linguagem utilizada provocando distanciamento dos
familiares, inexperiência e resistência em relação
às visitas domiciliares, entre outras. Eram dificuldades
do âmbito das relações e da realização
das ações. Nesta fase, as supervisões
institucionais tiveram um lugar de destaque; as dificuldades
foram se materializando no enfrentamento e criação
de alternativas.
No princípio, a visita domiciliar foi bastante significativa,
tinha por finalidade o contato com os familiares dos pacientes
internados. O objetivo destes contatos era conhecer suas
histórias contadas pela família e tentar entender
os motivos das internações, além de
ouvir as famílias no que concerne às fantasias,
medos e expectativas com relação à
nova proposta de atendimento. Tínhamos que colher
estes dados para pensar as ações da forma
menos agressiva possível, pois tínhamos clareza
de que o retorno dos pacientes às suas casas significava
uma mudança nos modos de vida, na rotina das famílias,
embora o conflito fosse inevitável.
"Não se pode transformar uma realidade dramática
e opressora sem violência polêmica, nos confrontos
com aquilo que se quer negar, incluindo na crítica
os valores que possibilitam e perpetuam a existência
de uma tal realidade." (Basaglia, 1995:9)
Culturalmente nos acostumamos com a atitude de manter distante
da família aqueles que apresentam distúrbios
ou problemas de saúde mental. As aproximações
com as famílias e a comunidade não foram tranqüilas,
mas aos poucos esta vivência atípica na cidade
foi revelando diversos matizes. Afinal, eram os "loucos"
fora dos muros de proteção do manicômio;
até então o que acontecia no interior daquela
instituição não afetava a vida da população,
não havia incômodo.
Após a fase de "humanização do
hospital"1, marcada por uma reestruturação
total (extinção das celas fortes e castigos,
pintura e arrumação do prédio, cuidados
gerais aos pacientes, tratamento clínico, dentário
e higiene pessoal, melhoria da alimentação
e, principalmente, a adequação do atendimento
com respeito aos pacientes) criou-se o Ambulatório
para acompanhamento sistemático daqueles que saíam
com alta médica. A "Assembléia Geral"
foi um dos eixos de sustentação desta humanização,
funcionando como o espaço onde trabalhadores, pacientes
e familiares redesenhavam a prática institucional.
O hospital foi desativado gradativamente, com a criação
de cinco NAPS - Núcleos de Atenção
Psicossocial, serviços substitutivos àquele
modelo.
"(...) Desinstitucionalizar não se restringe
nem, muito menos, se confunde com desospitalizar, na medida
em que desospitalizar significa apenas identificar transformação
com extinção de organizações
hospitalares/manicomiais, enquanto desinstitucionalizar
significa entender instituição no sentido
dinâmico e necessariamente complexo das práticas
e saberes que produzem determinadas formas de perceber,
entender e relacionar-se com os fenômenos sociais
e históricos."2
Trabalhar nesta proposta era um desafio; para tanto, tínhamos
que compartilhar conhecimentos, habilidades, ações
no sentido de operacionalizar e efetivar a prática
profissional.
O que garantia a necessária participação
e valorização do assistente social nesta prática
era sua própria formação, principalmente
no que tange à competência de trabalhar com
conflitos sociais, organizacionais e relacionais, neste
caso entre pacientes e familiares.
Os assistentes sociais inseriram-se em todas as atividades
do Programa, descobrindo-se capazes de interferir naquela
cruel realidade a que estavam submetidas as pessoas internadas
na Casa de Saúde Anchieta.
Estiveram com os "corações e mentes abertos"3
para aquela descoberta, que nos mobilizava até a
rever nossos conceitos e modos de vida.
A ativação dos recursos da comunidade, empenho
e o traquejo na atividade externa foram a tônica da
contribuição dos assistentes sociais.
Além do grupo realizado com profissionais do NAPS,
escolhi narrar o atendimento a um usuário e seus
familiares por considerar que esta alternativa facilitaria
a visualização do meu objeto de estudo: "a
narrativa (...) é ela própria, num certo sentido,
uma forma artesanal de comunicação".
(Benjamin, 1936:205)
A prática que desenvolvemos não deixa de ter
uma dimensão do novo, do criativo, do inusitado de
um lado e, de outro, de provocar certo constrangimento ao
vivenciar situações que nem sempre o processo
de formação favorece para um exercício
competente. Optei por trazer o que em minha prática
havia de mais vivo, tentando demonstrar a intimidade de
uma vida, a partir do exercício da visita domiciliar
com o objetivo de mostrar sua importância no processo
de intervenção profissional.
O trabalho realizado trouxe resultados importantes ao buscarmos
re-significar a visita domiciliar para a prática
do Serviço Social e revalorizá-la como estratégia
fundamental para a manutenção do sistema aberto
de saúde mental em Santos/SP.
A prática do assistente social pôde ser vista
em contextos interdisciplinares, mais verídicos e
atraentes, geradores de reflexões que permitiram
ao profissional aproximar-se mais da realidade e do usuário.
Essa retomada do significado da visita domiciliar reorienta
e valoriza o próprio exercício profissional
em ações diretas com as populações,
em contexto de microatuações4. A visita domiciliar
foi tratada no cenário da desinstitucionalização
na saúde mental, enquanto inserção
no território. Transitar no território do
usuário é um movimento de facilitação
para a intervenção; o fato de o profissional
conhecer a realidade do usuário, concreta e subjetivamente
e, principalmente, resgatar a referência da casa-moradia,
constitui um trabalho fundamental ao constatarmos que todas
as pessoas que vivenciaram a violência da institucionalização
desejam fortemente voltar para suas casas.
Estar no território é movimentar conceitos
e preconceitos, é sair da aparente acomodação
com relação à loucura, pois obriga-nos
a enfrentar discussões, medos, vergonha, fragilidade,
curiosidade, enfim, toda a gama de sentimentos provocada
pelo risco e contato com o diferente.
A atenção à crise no domicílio
e seu atendimento, aproximação e cuidado junto
às famílias também foram modalidades
enfatizadas enquanto alternativas à hospitalidade-integral
nos NAPS.
O melhor entendimento do que se passa com o usuário
portador de sofrimento psíquico e a busca de um lugar
menos subalterno na relação com familiares
e vizinhos também são processados no interior
da casa, no domicílio onde os conflitos e "verdades"
podem, mais facilmente, se manifestar. No relato do caso
mostramos o poder da visita como instrumento do conhecimento
e confronto com a realidade; este conhecimento possibilitou
a formulação de diagnósticos e propostas
de trabalhos. A casa revela singularidades ricas e intrigantes.
Importante destacar que, no Serviço Social, os registros
apontam para a utilização da visita domiciliar
com "fins de inspeção", mas ressaltamos
que a visita domiciliar sempre foi tratada como instrumento
de diagnóstico no estudo social, complementando informações
e impressões a respeito do usuário e seus
familiares.
O assistente social é o profissional que tem contato
direto com a realidade.
No Brasil, indicava-se o distanciamento como imprescindível,
a visita tinha o objetivo de convocar as famílias
a comparecer à obra. Justificava-se pelo fato do
correio nem sempre funcionar com eficiência, comprometendo
a chegada da convocação e também pela
dificuldade nos casos das pessoas analfabetas e semi-analfabetas
interpretarem o convite.
A realidade das casas era vista como entrave na realização
da entrevista na residência, assim como percebíamos
a relação temerosa e pouco espontânea
entre cliente, vizinhança/comunidade e assistente
social.
"No domicílio do cliente, o assistente social
deverá procurar afastar os vizinhos e amigos que,
por curiosidade ou por interesse, queiram participar de
entrevistas, pois é evidente que aquele não
falaria com a mesma franqueza ou procuraria argumentos para
convencer o assistente social certo de encontrar na platéia
espontânea para suas declarações. Se
não for viável a conversação
em particular, o assistente social limitar-se-á a
transmitir informações, pedindo ao cliente
que compareça à obra."(Vieira, 1970:61)
Mesmo diante da pouca espontaneidade expressa, é
inegável o cuidado com o espaço de vida do
"cliente".
É possível verificar que os objetivos da visita
domiciliar foram se transformando, acompanhando a evolução
da sociedade e das necessidades mais fortes das populações.
A descoberta do cotidiano enquanto possibilidade de transformação
da realidade trouxe novos contornos à prática
profissional, chamando-nos à crítica da interferência
na vida das pessoas e, principalmente, ao modo como mediamos
situações. Cabe aqui, marcar a necessidade
de contextualizarmos as situações e histórias
para não corrermos o risco das manifestações
reducionistas e até "acusatórias"
com relação ao usuário.
Na atualidade estamos vivendo um momento em que a entrevista
é compreendida como instrumento, estratégia,
atividade, e a visita domiciliar, da mesma forma, é
tudo isso. É importante reconhecer que a visita domiciliar
pode facilitar ao profissional o exercício da prática,
a mediação para uma reorientação
de vida.
"A vida é uma coisa inusitada, tudo pode acontecer!"
Esta frase, de algum modo, revela o desafio, o risco e o
sentido de busca constante.
"A mudança de paradigma teórico implica
nova articulação de instrumental prático.
Em vez de indicadores estáticos, temos que construir
indicadores de processos, indicadores de rede, mapas de
relações." (Faleiros, 1997:26)
Criatividade, habilidade e competência são
fundamentais para a prática do assistente social
em contextos interdisciplinares. A ampliação
de nosso conhecimento teórico, privilegiando o sujeito
individual e coletivo substancia nossa ação.
Trabalhar com a população excluída,
sem autonomia legítima e com a marca do diferente,
como foi nossa experiência no Programa de Saúde
Mental de Santos, trouxe-nos a possibilidade de redimensionar
conceitos, olhares e intervenções. As dúvidas,
inseguranças e inquietações quanto
aos limites profissionais, à invasão de privacidade,
o direito do outro, foram discutidas no grupo, com leveza,
atribuindo ênfase sempre no sujeito e na revisão
das nossas fragilidades para confronta-las.
O inusitado do trabalho da desinstitucionalização
pôde ser muito bem representado quando se diz que
"É preciso acolher o desconhecido, entender
que desordem não é não-ordem, que os
saberes são sempre inesperados, incertos e não
definitivos."(Barros, 1994:149)
Esta parada reflexiva nos fez também rever criticamente
o modo de reapropriação dos conhecimentos
sobre visita domiciliar, no sentido de redimensionar esta
rica estratégia no campo da prática profissional,
atribuindo o estatuto de procedimento já incorporado
pelas equipes do Programa de Saúde Mental.
Deixamos esta contribuição, destacando o desafio
do registro de uma experiência que tem um significado
singular para os sujeitos envolvidos no Programa de Saúde
Mental de Santos.
*
Mestre em Serviço Social e professora da Universidade
Católica de Santos/UNISANTOS.
_____________________________________
1 Proposta de reorientação das atividades
e prestação de serviços aos pacientes.
Priorizava o paciente e o complexo tratamento que lhe deveria
ser dispensado. Este tratamento não se reduzia apenas
à questão clínica; enfatizava a relação
social e a saúde no sentido amplo.
2 Nicácio, F., org. Desinstitucionalização.
São Paulo, Hucitec, 1990.
3 O Dr. David Capistrano da Costa Filho, Secretário
da Saúde do município, propunha um trabalho
com os funcionários da Secretaria Municipal de Saúde
de Santos que "abrisse caminhos à desejada conquista
dos corações e mentes da equipe de saúde".
Acreditava ser esta a "postura conseqüente: mudar
a prática para abrir caminho à mudança
de atitudes e pensamentos" in Contra a Maré
a Beira-Mar - A experiência do SUS em Santos: "A
Saúde em Santos: Propostas", 1996:205.
4 "Por perspectiva de 'microatuação'
entende-se o espaço plural de ações
e gestões localizadas, pontuais e diversificadas
que constituem o cotidiano do exercício profissional.
(...) No contexto de 'microatuação' (são)
priorizadas aquelas ações fundamentais que
potencializam a correlação de forças,
mas assumindo o desafio da particularidade com a qual trabalhamos".(Rodrigues,
1999:91).
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