ARTIGOS

COMUNICAÇÃO
Seminário Interdisciplinar entre Brasil e Cuba
- novas relações em contextos contraditórios -


Nos dias 03 e 04 de novembro/2004 foi realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, o I Seminário Interdisciplinar entre Brasil e Cuba sobre o tema Violência, Cultura e Metodologias de Intervenção - A experiência cubana na área da criança e do adolescente. O evento foi promovido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas/NEMESS - Programa de Pós-Graduação em Serviço Social - e Núcleo de Estudos da Complexidade/COMPLEXUS - Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PUC/SP). Contou com os apoios do Núcleo da Criança e do Adolescente/NCA (Pós de Serviço Social), das Faculdades de Serviço Social, de Ciências Sociais e da Assessoria de Relações Institucionais e Internacionais/ARII (PUC/SP).

As reflexões resultaram das exposições da Professora e Criminologista Dra.Caridad Navarrete Calderón, do Instituto Superior Del Ministério Del Interior e Del Centro de Investigaciones Jurídicas de Cuba, especial convidada. Participaram como interlocutores e com a comunicação de suas experiências, Dr. Wilson Taffner (Promotor de Justiça do Estado de São Paulo), Dra. Myrian Veras Baptista (Coordenadora do Núcleo da Criança e do Adolescente), Dra. Rosalina Santa Cruz Leite (Coordenadora do Projeto "Refazendo Vínculos") e a doutoranda Roseli Albuquerque da Silva (Pesquisadora do Nemess). Estiveram ativamente presentes profissionais de diferentes áreas (psicólogos, assistentes sociais, educadores), procedentes de várias localidades (Santos, Guarujá, Franca, Campinas,etc.). Tivemos a honra de coordenar e acompanhar o desenvolvimento dos trabalhos, contanto com a parceria da Profa.Dra.Maria Margarida Limena na produção e organização do evento.

Não poderíamos deixar escapar, entretanto, a oportunidade para tecer comentários e breves reflexões sobre alguns aspectos resultantes deste encontro. Polêmicos e aparentemente contraditórios a olhares mais severos, estes aspectos contribuíram para o difícil exercício de flexionar e distensionar nossa mentalidade por vezes enrijecida, nossos conhecidos conceitos, modos de pensar, de agir.

Com efeito, é muito freqüente entre nós que, por diferentes motivos, crenças, posições teóricas e ideopolíticas, necessidades e poderes, sejamos mais propensos a inflexões beligerantes do que complementares, racionais, afetivas. Ora, nosso empenho tem se mantido em outra direção, isto é, no envolvimento com ações, intervenções, pesquisas e produções multidisciplinares que permitam diminuir ou eliminar as fronteiras entre diferentes áreas de saber, forjando condições para a busca de conhecimentos mais amplos e qualificados que nos auxiliem a desocultar as grandes indagações sobre a complexa condição de vida humana. Foi nesta direção que se desenvolveu o Seminário.

A polidisciplinaridade, a preocupação interdisciplinar e construtiva de ações e políticas que envolvem adolescentes infratores , tanto em Cuba quanto no Brasil, foram dominantes em todo o Seminário. As diferentes análises e contribuições em torno das ações desenvolvidas com adolescentes pelos dois países (Brasil e Cuba) provocaram a formulação de um ideário estratégico, solidário de idéias e compromissado com a formação de nossos pequenos e jovens cidadãos. O modelo interdisciplinar educacional político cubano nos fez refletir sobre as relações e correlações entre políticas e sistemas, os limites das formas de organização social e política dos dois países, suas intercorrências, conquistas ou perdas, competências e construções, independentemente de seus regimes políticos.

Para um registro a favor de nossa memória presente e futura, passamos a elencar alguns aspectos que consideramos primorosos para os encaminhamentos das atividades de cooperação acadêmica que pretendemos viabilizar.


1. O modelo teórico metodológico cubano organiza-se em quatro instâncias interdinâmicas conforme explica a Profa. Caridad - metaprocesso, macroprocesso, microprocesso, personológico - trabalhadas nas dimensões coletiva, institucional, comunitária e individual. De um ponto de vista, esta propositura contribui para redimensionar nossa visão de realidade, das relações sociais, das instituições, do modo de produzir nosso próprio autoconhecimento. Por conseqüência, "gera grandes desdobramentos que levam a ligar, contextualizar e globalizar os saberes", como nos ensina Edgar Morin (2000).

2. O Serviço Social afastou-se, nas últimas décadas, das práticas com famílias carentes tornando nosso potencial interventivo menos potente do que gostaríamos que fosse. Vivemos uma época de resgate e revisão tanto de conhecimentos quanto das habilidades e estratégias de convivência e de enfrentamento das questões que envolvem os jovens infratores e seu grupo familiar.

3. Diferentes alianças podem ser feitas (entre instâncias de poder, organizações, profissionais) no sentido de instaurar políticas sociais específicas e fortes para jovens adolescentes (do macro ao microssocial), que invistam com vontade e sabedoria no jovem brasileiro. E nesta perspectiva, as ações mais esperadas são aquelas que viabilizem o movimento de inclusão, uma formação educacional abrangente (inclusive no campo desportivo), que contemple não só a capacitação profissional como também o aprendizado necessário para superar as próprias deficiências, as vitimações, a ignorância e que os motivem redescobrir o valor da vida, a reflexão social e política.

4. A retomada da implantação de políticas sociais para adolescentes pressupõe sensibilizar a sociedade a reassumir seus meninos, suas crianças, seus jovens , desvinculando pobreza, criminalidade e exclusão.

Assim, aprendemos com Cuba que aprendeu conosco: a diversidade, a humanidade, os métodos, a criatividade no desafio da complexidade cultural (diferentes conhecimentos), sociológica (formas de organização e relações sociais), cívica (fortalecimento da participação e concepção democrática), de modo a viabilizar uma reforma do pensamento que se estenda às nossas organizações, que nos permita o pleno emprego da sensibilidade e da inteligência para responder a esses desafios e exercitar a ligação de duas culturas dissociadas. (Morin, 2000).

 

Morin, Edgar. Cabeça Bem-Feita - repensar a reforma, reformar o pensamento, Trad. Eloá Jacobina, Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2000, p. 20 e 26.
Muchail, Salma Tannus. " Da Promessa à Embriaguês - A propósito da leitura foucaultiana do Alcibíades de Platão", Trabalho mimeografado apresentado no "Colóquio Internacional Foucault, 20 anos depois", Unicamp, Nov/2004.

Profa.Maria Lucia Rodrigues
PUC/SP - Nov/2004
www.pucsp.br/nemess
nemess@pucsp.br