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Medos
e Incertezas no Exercício da Prática Profissional
(*)
Maria
Lucia Rodrigues*
"A esperança é uma alegria instável
nascida da idéia
de uma coisa futura ou passada de cujo desenlace
duvidamos em certa medida... não há esperança
sem medo."
Espinosa
De que
temos medos? Quais nossas mais banais inseguranças?
O que nos assusta, nos afronta, nos provoca certo gosto
de morte? Às vezes temos mais medo daqueles que não
têm medo - como podem não tê-lo? São
tantos os medos que torna-se difícil identificá-los:
medo da adversidade, da depressão, medo do homem,
da loucura, da traição, medo de não
ser aceito, medo da pobreza, da riqueza, da injustiça,
da exclusão, medo do aniquilamento, medos das prisões
internas ou externas. Medos paradoxais, ou seja, os medos
sim e os medos não. Medos que nos instigam à
servidão, como nos lembra Chauí, "É
então, quem sabe, nesse 'medo que esteriliza os abraços'
que descobrimos não termos medo disto ou daquilo,
de algo ou de alguém, já nem mesmo medo de
nossa própria sombra, somente medo do medonho. Susto,
espanto, pavor. Angústia, medo metafísico
sem objeto, tudo e nada lhe servindo para consumar-se até
alçar-se ao ápice: medo do medo. Juntamente
com o ódio, o medo, escreveu Espinosa, é a
mais triste das paixões tristes, caminho de toda
servidão. Quem o sentiu, sabe" .
Indagar
os sentimentos que se desdobram destas emoções,
localizar com franqueza nossas dificuldades - que transitam
entre o pessoal e o profissional - e buscar esclarecê-las,
reconhecer os próprios limites e saber pô-los
a nu em reflexões partilhadas ainda que em meio a
opiniões divergentes, continua sendo um exercício
pouco comum e delicado. Falar deste tema é pouco
comum.
Conversamos
pouco sobre como fazemos o que fazemos, sobre o que sentimos
quando fazemos nossa prática: como nos relacionamos
profissionalmente, como compreendemos nossa profissão,
quais sofrimentos nos acolhem, como atendemos uma pessoa,
de que maneira realizamos uma visita domiciliar, o que falamos
a um doente crônico, de que modo trabalhamos com o
idoso, como olhamos o jovem infrator, enfim, como experienciamos
o doce e o amargo do dia-a-dia. A cultura da objetividade
científica forjou um tipo de intelectual quase duro.
Talvez seja necessário retomar a sensibilidade para
o exercício mais competente e solidário da
prática do Serviço Social.
Nosso
propósito neste ensaio consiste em cavar um espaço
mais largo para discutir o teor de algumas destas dificuldades,
principalmente quando entre nossas preocupações
encontram-se aspectos que envolvem velhos medos e velhas
inseguranças, solo de incertezas e prováveis
riscos, de emoções tão presentes no
cotidiano da vida pessoal e profissional.
1. Emoções
e sentimentos
Em dias
difíceis como os de hoje, em que impera a falta de
vontade política para quase tudo que diga respeito
à vida e à emancipação humana,
não é incomum certo esgotamento de idéias
e de utopias, um dar de ombros às participações
e, em decorrência, certo esmorecimento de nossa presença
nas decisões, nas ações; muitas vezes
agimos sem muita convicção, com uma espécie
de "consciência dividida ou amortecida",
ou seja, nem muito racional, nem muito alienada.
Sairemos
deste desconforto quando reassumirmos com mais generosidade
e acolhimento as dificuldades e os erros que vivenciamos,
pondo-nos em curso para melhor nos conhecermos, re-orientando
nossas atividades e participação nas diferentes
instâncias da vida; se o conhecimento reflete o mundo
externo e interno do homem, reflete do mesmo modo seus erros,
acertos, ilusões e esperanças.
É
necessário contar com isto sem intimidações,
sem desatrelar o mundo do afeto do mundo do intelecto. "A
projeção de nossos desejos ou de nossos medos
e as perturbações mentais trazidas por nossas
emoções multiplicam os riscos de erro. Poder-se-ia
crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando
toda a afetividade. De fato, o sentimento de raiva, o amor
e a amizade podem nos cegar. Mas é preciso dizer
que já no mundo mamífero e, sobretudo, no
mundo humano, o desenvolvimento da inteligência é
inseparável do mundo da afetividade, isto é,
da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são
a mola da pesquisa filosófica ou científica.
A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também
fortalecê-lo" .
A consciência
desta condição constitui uma dimensão
do aprendizado sobre o sentido de homo sapiens/demens, de
sua unidade e sua diversidade genética e genérica:
fazemos parte da espécie humana mas somos únicos,
somos individuais mas expoenciamos o coletivo dos homens.
Não somos só racionalidade, bondade, sabedoria,
magia, amor, trabalho; somos também loucura, consumo,
debilidade, maldade ... a moeda inteira em seus dois ângulos.
"Há relação manifesta ou subterrânea
entre o psiquismo, a afetividade, a magia, o mito, a religião.
Existe ao mesmo tempo unidade e dualidade entre Homo faber,
Homo ludens, Homo sapiens e Homo demens. E, no ser humano,
o desenvolvimento do conhecimento racional-empírico-técnico
jamais anulou o conhecimento simbólico, mítico,
mágico ou poético" .
Mas,
e o que são emoções? Difícil
conceituar. Qualquer ângulo que se queira acolher
(na perspectiva da psicologia, da antropologia, da sociologia,
etc.) será insuficiente para corresponder à
pluralidade de momentos e situações que exercitamos
na vida. Emoção é polissemia e pluridimensionalidade
de sentimentos que percorrem o mundo dos afetos e desafetos,
o mundo do amor e do desamor, do conhecimento e do desconhecimento.
Estudiosos
da inteligência emocional vêm nos alertando
sobre a importância das emoções num
mundo de relações cada vez mais individualizadas,
que valorizou muito mais a razão, o intelecto em
detrimento do emocional dos indivíduos. "...emoção
se refere a um sentimento e seus pensamentos distintos,
estados psicológicos e biológicos, e a uma
gama de tendências para agir" .
As emoções,
complexas reações neurais, afetam todo o sistema
operativo do pensamento tendo nos sentimentos suas qualidades
constitutivas. Afirma Maturana (2001,p.29) que são
as emoções quem guiam o fluir do comportamento
humano e lhe dão seu caráter de ação,
isto é, as diferentes emoções que distinguimos
em nosso cotidiano correspondem a distintos domínios
de ações relacionais. Diz ainda, que somos
seres biologicamente, constitutivamente amorosos, e é
este o fundamento humano; ficamos doentes quando se interfere
com o amor em qualquer idade e é ele, o primeiro
remédio para qualquer enfermidade (Idem, p.39). Se
aceitamos a idéia de que é a emoção
define o caráter da relação é
ela também quem define as relações
de trabalho. No trabalho relacionamo-nos sob a emoção
da obrigação, da responsabilidade, da competência,
as vezes da vaidade, da competição, outras
do afeto; somos comprimidos por um conjunto de emoções.
Nas relações sociais, relacionamo-nos basicamente
na confiança e o respeito mútuo (segurança
e risco). Mas a emoção fundamenta´que
constitui as relações sociais é mesmo
o amor, a aceitação do outro como um legítimo
outro em coexistência com alguém (comigo).
A cooperação ocorre nas relações
sociais e não nas relações de dominação
e sujeição. (idem p.60).
Medos
e incertezas espelham, entre um vértice e outro,
a intrínseca relação entre o sujeito
que conhece e o fenômeno que procura compreender,
investigar; a esperança e o anseio pela qualidade
das relações interpessoais e sociais, o desejo
por um futuro profissional mais competente são metas
que dependem ainda do modo como lidamos com as emoções,
os conhecimentos, a maneira como desenvolvemos nossa convivência
profissional, as condições de pesquisa e a
cultura da profissão.
2. Consciência
e Conhecimento
Para
Edgar Morin o conhecimento é um processo cognitivo
que se estabelece pela conjugação entre razão/reflexão,
erro/incerteza, objetividade/subjetividade; no trânsito
entre estes duplos, inclusive na inter-relação
possível que se estabelece entre eles, o conhecimento
é atravessado sempre pela emoção, condição
essencial de ativação cognitiva. Para compreendermos
o ser subjetivo não é suficiente somente o
conhecimento objetivo mas também uma compreensão
humana, que "...nos chega quando sentimos e concebemos
os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos
e suas alegrias. Permite-nos reconhecer no outro os mecanismos
egocêntricos de autojustificação, que
estão em nós, bem como as retroações
positivas ... que fazem degenerar em conflitos inexplicáveis
as menores querelas. É a partir da compreensão
que se pode lutar contra o ódio e a exclusão"
.
Vivemos
hoje, uma exclusão social abrangente e disseminada,
que não se limita às condições
materiais de vida e acesso aos bens e serviços; estende-se
às condições de qualificação
e competência, valores, solidariedade, afetividade,
aceitação, respeito, parceria, valorização
da vida, ética, cidadania.
Uma
das condições para enfrentar a exclusão
está no conhecimento; será necessário
apreender o sofisticado exercício de produzir luz
à nossa consciência, conforme propõe
António Damásio , de modo a estabelecer constante
conexão entre o desejo de compreender e de conhecer,
mantendo o aprendizado como uma constante para manter vivo
o impulso de cultivar a si mesmo, desenvolver o interesse
pelos outros tendo por horizonte a elevação
da qualidade de vida. Aceitar a idéia da "...consciência
como um sentimento de conhecer..." cujas estruturas
alicerçam-se no si mesmo e nas imagens e leitura
que processamos significa também compreender que
o "...preço que pagamos por essa vida melhor
é alto. Não é só o preço
do risco, do perigo e da dor. É o preço de
conhecer o risco, o perigo e a dor.... o custo de uma existência
melhor é a perda da inocência sobre essa mesma
existência" .
A separação
entre o emocional e o racional, simbolizada respectivamente
pelo coração e pela cabeça, provocou
confusões e cerceamentos aos processos de emancipação
e autonomia humanas. A inter-relação emocional
x racional é responsável pela mediação
entre os conhecimentos e os modos como nos orientamos e
agimos na vida. Quer dizer, entre o pensar, o sentir e o
agir não pode haver hierarquização
ou supremacia; a lógica recursiva tem aqui sua máxima:
não há pensamento sem sentimento e, sem ambos
não há ação consciente, ou seja,
apesar dos conflitos constantes, os sujeitos se constroem
nesta correlação e através dela buscam
a plenitude, o livre pensar, a livre expressão, engajando-se
e sentindo-se participantes na construção
de sua cultura, de sua sociedade.
Pensamento
e conhecimento alimentam-se de incerteza. Morin aponta três
princípios de incerteza no conhecimento:
· "o primeiro é cerebral - o conhecimento
nunca é um reflexo do real, mas sempre tradução
e construção, isto é, comporta risco
de erros;
· o segundo é físico - o conhecimento
dos fatos é sempre tributário da interpretação;
· o terceiro é epistemológico - decorre
da crise dos fundamentos da certeza em filosofia (a partir
de Nietzsche), depois em ciência (a partir de Bachelard
e Popper).
Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade
absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza".
Neste
sentido, conhecer significa dispor-se a enfrentar o inesperado
com uma predisposição consciente para apreender
tudo quanto se desdobra da interação entre
o que já sabemos sobre determinado objeto e o que
esse objeto proporciona de inusitado. O conhecimento é
libertador quando fundamenta uma expectativa racional e
emocional do âmbito da realidade social e histórica.
Medos,
incertezas, a perspectiva do erro, do inesperado, provocam
desafios de ordens diversificadas. A formação
para as novas competências e habilidades no que tange
às mediações e novas estratégias
para agir derivam da capacidade que reunimos para conjugar
sentimentos e conhecimentos. Sob esta ótica, para
aqueles que se preocupam com o difícil exercício
de articular os conhecimentos coloca-se uma séria
responsabilidade e desafio, a formação de
uma nova consciência humano-social. Nesta direção,
alguns aspectos merecem reflexão:
· considerar a dúvida, a crítica, o
contexto e a criatividade como critérios para a cientificidade;
· confrontar os limites da lógica e do conhecimento;
· buscar qualidade de formação do pensamento
crítico no exercício da autocrítica
e do autoconhecimento;
· apreender a auto-observação para
lapidar a lucidez;
· capacitar-se de modo continuado na aprendizagem
da compreensão e da lucidez;
· valorizar a sensibilidade solidária como
conhecimento ;
· comprometer-se com uma aprendizagem e uma prática
cidadã - "todo desenvolvimento verdadeiramente
humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias
individuais, das participações comunitárias
e do sentimento de pertencer à espécie humana"
.
· aprender a, compartilhar, conhecer e responsabilizar-se
pelas idéias, pelas ações, pelas decisões
e construção de uma nova cultura.
De qualquer
modo, diz Damásio "(...) melhorar as condições
da existência é precisamente a finalidade da
civilização, a principal conseqüência
da consciência; e, por no mínimo 3 mil anos,
com recompensas maiores ou menores, melhorar é o
que a civilização vem buscando. A boa notícia,
portanto, é que já começamos."
3. Reconhecendo
alguns "medos" no exercício da prática
profissional
Como
docente observo que a maioria das teses e dissertações
de mestrado e mesmo as de doutorado mais especificamente
em Serviço Social, mostra a constituição
do sujeito cidadão como preocupação
central do projeto de formação, da prática
profissional, da proposta educativa. A prática do
Serviço Social é basicamente, uma prática
de relações que se desenvolve no cerne das
diferentes manifestações das questões
sociais preocupando-se em promover a conjugação
entre o eixo de organização/desorganização
da vida social tendo em vista uma distribuição
mais justa dos bens e serviços sociais. Expectativas
prospectivas de transformações sociais requerem
ações qualificadas e competentes para trabalhar
com a condição de pobreza humana (e as situações
limites vivenciadas pelas populações excluídas
socialmente).
Revendo
algumas dissertações de mestrado e teses de
doutorado defendidas nos últimos dois anos, foi possível
perceber certa oscilação ou mesmo dificuldade
para compreender o que é Serviço Social, no
que consiste o exercício e o destino desta prática
profissional. Tenho a intuição de que precisaremos
abrir nossas fronteiras político-sociais, abandonar
as reflexões mais simplificadas, visualizar a potencialidade
de nossa profissão e a séria contribuição
prospectiva para a formação das liberdades
individual e coletiva.
Ainda
que o imprevisto, a incerteza, o risco teçam, nos
meandros, certa des-organização profissional
será este mesmo movimento o reabilitador e auto-organizador
de uma nova consciência histórico-profissional.
"O
Serviço Social entende e encaminha problemas"
... "o profissional sai da faculdade tão inseguro
de seus conhecimentos"... "Nós não
estamos lidando com o exato, estamos lidando mesmo com o
caos. Organizar esse caos é uma coisa muito complicada!"...
"O aluno de graduação não tem
preparo para defrontar-se com as situações
com que se depara"... "A profissão não
lhe dá esse preparo"... "saí da
faculdade com uma visão ingênua do mundo, achando
que realmente ia resolver os problemas das pessoas; peguei
aquele momento que o assistente social era um agente transformador"...
"a ilusão de transformar, como se fosse um passe
de mágica, mas não é bem assim, até
porque o ser humano é complexo - é um ser
social, cultural, psicológico e o trabalho com o
ser humano é gradativo"... "O Serviço
Social é uma profissão de prática"...
"ela tem um conhecimento geral, amplo... é a
profissão que mais consegue ter uma visão
do todo"..."O Serviço Social é uma
colcha de retalhos"... "é uma profissão
muito prática"... "tem essa função
de educar"... "Serviço Social trabalha
as relações sociais"... "é
uma atividade voltada para um fazer na direção
da cidadania, da justiça social, dos direitos sociais"...
"O
profissional ( neste caso aquele que trabalha com sujeitos
aidéticos) é o intelectual que consegue fazer
(boa) leitura da realidade; ele tem a responsabilidade de
orientar sobre a prevenção (contra o HIV),
estudar e esclarecer sobre a tuberculose que é transmitida
pelo ar, etc.; se você respira precisa de prevenção
e de tratamento se estiver doente; é uma questão
de saúde pública. Temos que ter conhecimento
e sensibilidade para lidar com estas questões. É
preciso perceber que há perda de saúde e eminência
da morte; é preciso trabalhar com isso."
"A
sensibilidade é importante neste trabalho para todos
os profissionais. O conhecimento adquirido na filosofia,
psicologia, sociologia, as ciências humanas, é
necessário para entender o outro lado das coisas..."
"Este
trabalho (com aidéticos) exige um conhecimento ampliado.
É um conhecimento também que transcende o
lado científico da terapêutica mendicamentosa,
e se volta mais para o ser humano."
--"Fui
tomada por uma emoção tão forte que
nem sei explicar; só sentia medo; fui invadida por
um medo de agressão, medo de que o usuário
- portador de distúrbios psíquicos - pudesse
matar a própria família; aconteceu no meu
plantão. Ele pegou uma faca grande de ponta e não
a soltava, andando em nossa direção... só
em falar fico perplexa, passei mal mesmo, foi muito pesado!
-- Mas qual foi o medo, F.?
-- Não sei explicar, fiquei apavorada. Depois de
tantos anos, de tanta experiência, não sei
explicar porque senti todo esse pavor! Quando retomei o
trabalho no dia seguinte, mal conseguia entrar no Núcleo;
não sei, estava paralisada, parecia que ia morrer.
Mal conseguia andar para entrar no prédio em que
trabalho! Uma colega me disse: vamos F., se quiser entramos
juntas! Entrei, e aquele paciente, que fizera tudo aquilo
nem me olhou, já estava medicado, talvez nem se lembrasse
do que havia ocorrido em dia anterior! Eram tantos os medos,
inclusive pelos profissionais que ali estavam (auxiliares
de enfermagem, serviçais) e cada medo de uma natureza.
Eu falava aflita: não dá para ficar com esse
paciente assim aqui, ele está sem controle, não
darei conta dele ...
-- Mas quais eram os medos? Da agressão? Da morte?
-- Da violência, da loucura... liberada ali em minha
frente...
-- Mas o que esse usuário fez que acionou esse medo?
-- Fiquei pensando depois que o que estava na base desse
medo era a responsabilidade, a sensibilidade, a competência
porque eu era responsável pelo plantão! Tinha
medo por mim, pelo usuário, por sua família
- a possibilidade dele ir lá e matar todo mundo -,
pelos colegas, sentia uma grande solidão, e tudo
isso num cenário de ameaça constante; só
estava eu e os auxiliares! Depois do medo sentia certo desaponto
e constrangimento; tenho refletido sobre esta situação.
"
O Serviço Social é uma profissão que
engendra atividades diversificadas, decorrentes dos múltiplos
desdobramentos das situações sociais de extrema
pobreza em que vivem as populações excluídas
e das políticas sociais porquanto insuficientes e
personalistas, desenvolvidas pelo poder público e
grupos de interesse.
Os depoimentos
que citamos colocam-nos diante de realidades e de uma cultura
profissional que precisam ser melhor cuidadas e equacionadas.
De um lado, encontram-se falas diversas sobre o significado
da profissão que nos permitem pensar sobre suas interfaces,
suas diferenças e seu poder de ação;
de outro, a visualização de ângulos
da profissão nem sempre priorizados; a evolução
dos trabalhos no campo da saúde, dos jovens, dos
idosos e do ensino faz necessária a busca responsável
por novos conhecimentos, a disposição para
o auto-conhecimento e a atenção à formação
de uma sensibilidade solidária. De acordo com Mo
Sung e Assman "Solidariedade não é uma
questão temática... tem a ver com o modo de
ver o mundo e a vida. Solidariedade é uma relação
inter-humana fundamentada na alteridade, que pressupõe
o reconhecimento do outro na diferença e singularidade,
atributos da alteridade. (...) A palavra sensibilidade quer
mostrar que a solidariedade como ato ético-subjetivo
radical só acontece quando entram em jogo os 'sentidos',
como percepção empática do sofrimento
e angústia dos outros"
Ao profissional
de Serviço Social coloca-se o desafio de reconhecer
o conhecimento sobre o humano, cabe definir-se sobre as
estratégias de ação, os modos de agir
(sua auto-ética) e seu eixo de conduta profissional
(ética). A auto-ética é uma qualidade
correlata a condições históricas e
culturais do indivíduo, que se funda nos valores
e ideais, históricos e sociais escolhidos por si
mesmo; é uma ética política que supõe
primordialmente a restauração do sujeito responsável
como pré-requisito para o conhecimento objetivo.
"A restauração do sujeito comporta a
exigência do auto-exame, a consciência da responsabilidade
pessoal, e o encargo autônomo da ética (auto-ética)"
Todas
as decisões carregam incertezas nas ações
que nem sempre desenvolvem-se na direção das
intenções que as orientavam inicialmente.
Temos visto reafirmadamente que toda a ação
é orientada por uma intenção mas é
importante considerar a possibilidade de que nem toda ação
mantém a intenção que a gerou; articulada
aos desdobramentos da ação em seu decurso
a intenção também se altera. Nos casos
mencionados, é importante constatar que é
o conhecimento do estrutural/conjuntural até o microssocial
ou das ações mais pontuais e parcelares, que
vai produzir maior segurança na profissão
e o exercício de uma prática mais confiante
e qualificada.
Como
afirma Anthony Guiddens , a confiança é o
contraponto do medo, do risco, é um ângulo
das relações sociais que precisa ser trabalhado
por aqueles que são envolvidos nas tramas relacionais;
a confiança requer a abertura de um para outro. Todos
os relacionamentos "são laços baseados
em confiança, onde a confiança não
é pré-dada mas trabalhada, e onde o trabalho
envolvido significa um processo mútuo de auto-revelação."
A reconstrução
dos conhecimentos em Serviço Social vai requerer
uma reforma do pensamento do profissional, organizando os
saberes e permitindo a manifestação inteligente
das idéias e das ações. Trata-se de
um movimento de religação, contextualização
e globalização desses conhecimentos com os
quais será possível construir os alicerces
para a formação de um profissional crítico,
sensível, menos resistente às incertezas,
a si mesmo, um profissional mais integrado à vida
e às criações humanas.
* Professora
Doutora, Titular do Programa de Estudos Pós-Graduados
em Serviço Social, Coordenadora do Núcleo
de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas
em Serviço Social da Puc/sp - Nemess.
(*)Texto reorganizado a partir de artigo publicado nos Cadernos
de Serviço Social, Ano IX, No.17, Número Especial
Comemorativo dos Cinquenta Anos da Faculdade de Serviço
Social, PUCCAMP, Dezembro/2000, p.108-116.
____________________________
Notas
- Cf.
Marilena Chauí, Sobre o Medo in Os Sentidos da Paixão,
São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p.39.
- Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, Trad. Eloá
Jacobina, Rio de Janeiro, Bertrant Brasil, 2000,p.51.
- Edgar Morin, Os Sete Saberes Necessários à
Educação do Futuro, Tra.d. Catarina Eleonora
F. da Silva e Jeanne Sawaya, São Paulo, Cortez e
Unesco, 2000, p. 59.
- Daniel Goleman Inteligência Emocional, Trad. Marcos
Santarrita, Rio de Janeiro, Ed.Objetiva, 1995, p. 303.
- Há na obra de Edgar Morin uma preocupação
central com o sujeito do conhecimento, seu modo de pensar,
suas estratégias para agir. De um ponto de vista,
o que mais lhe marca originalidade, é o desafio que
lança ao sujeito que pensa, age, relaciona-se, de
promover uma religação dos conhecimentos,
uma reforma do pensamento capaz de reorientar esses conhecimentos
para a melhor qualidade de vida e elevação
da condição humana. Sobre esta matéria
ver, Ciência com Consciência, O Método
(I,II,III,IV), Meus Demônios, A Cabeça Bem-Feita,
entre outros.
- Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, idem p.51.
- António Damásio, O Mistério da Consciência,
Comp. Das Letras, São Paulo, 2000.
- Idem, p. 395.
- Idem, p.399.
- Idem, p. 59.
- Hugo Assman e Jung Mo Sung, Competência e Sensibilidade
Solidária, Vozes, São Paulo, 2000, p.98.
- Edgar Morin, Os Sete Saberes Necessários à
Educação do Futuro, idem p.55.
- António Damásio, O Mistério da Consciência,
Comp. Das Lestras, São Paulo, 2000, p.399.
- Fragmentos de falas de assistentes sociais e alunos de
Serviço Social, sujeitos de pesquisa de dissertação
de mestrado defendida por Isabela Sarmet de Azevedo, sob
o título As Travessuras do Serviço Social:
entre o criar e o recriar a realidade do profissional, PUC/SP,
1999.
- Fala de assistentes sociais, sujeitos de pesquisa da dissertação
de mestrado defendida por Dagmar Creilde dos Santos, sob
o título O Processo de Interação entre
o Assistente Social e o Usuário HIV/AIDS, PUC/SP,
2000, p.55.
- Idem, p. 56.
- Idem, p.56
- Situação narrada por uma das participantes
no Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões
Metodológicas em Serviço Social - Nemess/PUCSP,
em atividade reflexiva sobre o tema.
- Hugo Assman e Jung Mo Sung, Competência e Sensibilidade
Solidária, Vozes, São Paulo, pgs. 97/98.]
- Entre outras obras ver, As Consequências da modernidade,
Trad. Raul Fiker, São Paulo, Ed.Unesp, 1991.
- E.Morin, Ética do Sujeito Responsável in
Ética, Solidariedade e Complexidade, São Paulo,
Palas Athena, 1998, p.71.
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