A
reabilitação profissional do segurado do INSS:
sentimentos, sonhos e possibilidades
Lígia
Maria Castelo Branco Fonseca*
RESUMO
O presente
trabalho busca mostrar as configurações que
a Reabilitação Profissional, realizada pelo
Estado, assume na década de 90, inscrita no interior
do projeto de modernização, seguindo o receituário
para o Estado eficaz ao desenvolvimento. Modernizar, descentralizar
as ações e ampliar o número de trabalhadores
que retornaram ao mercado de trabalho são objetivos
do INSS. PREVIDÊNCIA SOCIAL - LIMITAÇÒES
PARA O TRABALHO - REABILITAÇÃO PROFISSIONAL
- REESTRUTURAÇÃO DOS POSTOS DE TRABALHO.
A sociedade
salarial contemporânea
Partimos
do pressuposto que a fragilização dos sistemas
de proteção social, no contexto da chamada
crise da sociedade do trabalho, emerge de propostas neoliberais
de Estado mínimo e de desmontagem dos mecanismos
de regulação keynesiana. Implica compreender
o que se passa na sociedade capitalista contemporânea,
onde a globalização das economias e dos mercados,
a reestruturação produtiva, as transformações
nos processos de trabalho, na materialidade e na subjetividade
da "classe-que-vive-do-trabalho" (Antunes, 1995)
representam fenômenos da crise do próprio capitalismo.
Em se tratando da realidade brasileira é preciso
compreendê-la subordinada ao capitalismo internacional
e às medidas de ajuste estrutural recomendadas enfaticamente
pelo Consenso de Washington, chanceladas pelo Fundo Monetário
Internacional - FMI.
Portanto, não são por acaso a implementação
do plano de estabilização da moeda, assim
como as medidas para abertura comercial, desregulamentação
dos preços e reforma tributária. O ideário
neoliberal também justifica o processo de privatização
de empresas e serviços públicos no contexto
da Reforma do Estado, o desmantelamento do sistema produtivo
e de uma economia com ênfase no mercado interno, a
destruição das formas de organização,
luta e participação política dos trabalhadores,
deslocando para a mendicância e a delinqüência
um universo significativo de pessoas que, outrora, seria
ativista de movimentos sindicais, sociais e populares, lutando
e conquistando direitos econômicos, sociais, políticos
e culturais.
A fome de uns e o medo de outros, o crime organizado, de
um lado, e a desmontagem do Estado , de outro, vão
tecendo a violência, a insegurança, a desestruturação
da vida e o "horror" (Forrester, 1997) contemporâneos.
A flexibilização das relações
capital-trabalho, abolindo a segurança dos direitos
conquistados, tem implicações sociais significativas,
expressas nas altas taxas de desemprego, comuns em quase
todos os países e vem ampliando o número de
trabalhadores em tempo parcial ou inseridos no mercado informal,
na maioria não protegidos pela legislação
do trabalho.
A demanda do mercado por trabalhadores chamados "qualificados",
coloca neste cenário o conceito de "empregabilidade"
(Hirata, 1997), que está associado à política
de seleção da empresa, estabelecendo uma relação
perversa, quando transfere ao trabalhador a responsabilidade
pela não-contratação, culpabilizando-o
pela incompetência para o emprego. Simplifica-se a
análise, deslocando-se a questão de um contexto
mais amplo, onde as determinações mantêm
uma relação de força superior ao desejo
dos sujeitos, mantendo-os subalternizados às condições
impostas pela sociedade capitalista, que os insere no universo
dos excluídos, já na infância, quando
interrompem o estudo, abandonam a escola para se engajarem
no trabalho, muitas vezes de domingo a domingo, sem seguro-desemprego,
férias, aposentadoria, décimo-terceiro e sem
benefício em caso de doença e/ou acidente
do trabalho.
O trabalhador qualificado para o mundo do trabalho atual
é aquele preparado para a "polivalência,
a multifuncionalidade, o comprometimento com a empresa"
(Kameyama, 1998: 9), qualificado técnicamente, o
que também não significa garantia de emprego.
Decorrente da reestruturação produtiva, surge
o fenômeno da externalização, que significa
a terceirização da produção
de mercadorias para grandes empresas, atribuindo às
empresas menores atividades menos rentáveis da produção,
realizadas na própria planta da empresa-mãe.
Esta externalização das atividades dá-se
com a contratação das empresas menores, que
ganharam a concorrência, que por sua vez contratam
temporariamente a mão-de-obra, constituída
por trabalhadores residentes na região onde se localiza
a grande empresa. Não raro, as empresas vencedoras
da concorrência procedem de outras cidades do Estado
e até mesmo de outros Estados. A mão-de-obra
contratada para o trabalho temporário, não
se encontra vinculada aos sindicatos daqueles segmentos
mais organizados, embora trabalhem no mesmo espaço
físico, diferenciados pelo vínculo empregatício.
Essa mão-de-obra que para Harvey (1993) é
denominada como sendo "trabalhadores periféricos"
está submetida aos mesmos riscos (contato com produtos
químicos, equipamentos), carga (posição,
turnos, ruído, pressões, ritmo) e intensificação
do trabalho, tendo, de forma precária, acesso às
ações de vigilância e assistência
à saúde. Enquanto os trabalhadores vinculados
à empresa-mãe conquistam benefícios
como planos de saúde particulares, aposentadoria
complementar, os trabalhadores terceirizados estão
excluídos destes benefícios, com cobertura
restrita ao Sistema Único de Saúde. Quando,
em decorrência de doença ou acidente não
podem realizar as mesmas tarefas no posto de trabalho, as
empresas contratadas os despreza, transferindo a responsabilidade
para o INSS, que passa a fornecer o benefício a que
o trabalhador tem direito.
É neste cenário de desintegração
da força de trabalho, de dispersão dos trabalhadores,
de precarização do emprego, do trabalho e
da vida, que se inscreve a Reabilitação Profissional,
enquanto possibilidade de reconstrução do
cotidiano e de alternativas de trabalho para o contribuinte
do INSS.
A
modernização do Estado e a Reabilitação
Profissional.
A
Reforma da Previdência presente na agenda do governo
da Nova República, permanece na agenda social dos
governos seguintes. Na década de 90, vai se configurar
como desdobramento da Reforma do Aparelho do Estado, orientada
predominantemente pelos valores da eficiência e qualidade
na prestação de serviços públicos
e pelo desenvolvimento de uma cultura gerencial nas organizações.
A proposta de Reforma do Estado não se dá
ao acaso, mas antes é orientada através de
os indicadores selecionados do desenvolvimento mundial,
seguindo o receituário para o Estado efetivo e eficaz
ao desenvolvimento. Propõe transformar as autarquias
em "agências autônomas", para que
suas atividades exclusivas alcancem a eficiência.
As atividades exclusivas referem-se àquelas que continuam
sob o controle do Estado, encontrando-se entre elas a previdência
social básica, a tributação, a fiscalização,
os incentivos e a segurança pública. Quanto
aos serviços sociais competitivos propõe transformá-los
em "organizações sociais", que representam
entidades de direito privado, com autonomia financeira e
administrativa, realizando a chamada "publicização",
onde se inserem os serviços de educação,
saúde, pesquisa, ciência, cultura, tecnologia,
meio ambiente e os Benefícios da Previdência
Social, dentre estes a Reabilitação Profissional.
Reformar o Estado é uma necessidade, no contexto
contemporâneo, para a expansão do processo
de globalização, que para ocorrer exige a
abertura dos mercados nacionais e a supressão das
fronteiras que separam os países uns dos outros.
A competição, livre de entraves que a possam
limitar, envolve todos. A liberdade de movimento de capitais
é o aspecto central. É preciso derrubar as
barreiras tarifárias que protegem os países
dos efeitos negativos da concorrência internacional.
Os investidores asseguram-se de que providências serão
tomadas, envolvendo liberalização, desregulamentação
do que está amparado pelo estabelecimento de normas,
privatização do que é assumido como
responsabilidade do Estado e terceirização
do que é definido como serviço público,
para desobstruir a realização das atividades,
onde quer que se viabilize a obtenção de lucros.
Isso é possível via sistemas de telecomunicações
por satélite, microeletrônica e tecnologias
de processamento de informações.
A Habilitação e a Reabilitação
Profissional inscrevem-se no Plano de Benefícios
da Previdência Social, reconhecidas pela Lei nº
8.213, devendo proporcionar ao beneficiário incapacitado
parcial ou totalmente para o trabalho, e às pessoas
portadoras de deficiência, os meios para a (re)educação
e de (re)adaptação profissional e social indicados
para participar do mercado de trabalho e do contexto em
que vive. Quando indispensáveis ao desenvolvimento
do processo de reabilitação, são fornecidos
aos segurados, inclusive ao aposentado, em caráter
obrigatório, prótese e órtese, bem
como seu reparo e substituição. Também
são fornecidos instrumentos e implementos necessários
para o desenvolvimento da atividade laborativa, recursos
para transporte urbano e alimentação.
Na década de 90, as estratégias de atualização
de normas, modernização gerencial, desenvolvimento
de recursos humanos e participação da sociedade
são criadas objetivando a otimização
dos recursos, racionalização do tempo de permanência
em programação, redução dos
custos e maior abrangência do número de segurados.
Com um quadro de funcionários extremamente reduzido
pelas aposentadorias e ausência de concurso público,
o serviço de reabilitação profissional
é prestado, estimulando-se as parcerias com a sociedade
civil para a realização da programação
profissional. Não há atribuições
para os profissionais na sua especificidade, na nova estrutura,
com exceção do médico, cabendo aos
demais (assistente social, psicólogo, sociólogo,
terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, enfermeiro etc) as
atribuições de avaliador da capacidade laborativa
e reabilitador profissional.
Não constitui obrigação da Previdência
social a manutenção do segurado no mesmo emprego
ou a sua colocação em outro, para o qual foi
reabilitado, concluindo o processo de reabilitação
profissional com a emissão de certificado individual
de reabilitação. A elevação
da escolaridade também não define a continuidade
do processo, mesmo sendo um aspecto fundamental para "empregabilidade"
do segurado, no mundo do trabalho. Somente a empresa com
cem ou mais empregados está obrigada a preencher
de dois a cinco por cento de seus cargos com beneficiários
reabilitados ou com pessoas portadoras de deficiência,
habilitadas, com determina a lei.
A
realidade da Reabilitação Profissional.
O
estudo foi realizado através de abordagem quanti
- qualitativa, pois foram utilizados dados estatísticos
para caracterização da situação
de Reabilitação Profissional no CRP de Santos,
obtidos a partir dos dados coletados e analisados nos prontuários.
Também representa o estudo de documentação
oficial pertinente à Reabilitação Profissional
(legislação e ordens de serviços),
para a constituição do cenário institucional.
Por último, a interpretação e análise
dos depoimentos dos seis sujeitos, ouvidos quando da realização
de um grupo temático e que puderam expressar o que
pensam da Reabilitação Profissional, falando
de seus sentimentos, sonhos e possibilidades de vida futura.
Estes sujeitos trazem em comum a identidade construída
na inserção de classe social, aqueles que
vivem do trabalho.
Os sujeitos investigados, na sua maioria (71,4%), são
homens com idade concentrada na faixa etária de 30
a 44 anos. As mulheres apresentam maior concentração
na faixa etária de 35 a 44 anos. Tanto o gênero
masculino, quanto o feminino têm a escolaridade limitada,
na sua maioria ao Primeiro Grau Incompleto, hoje Ensino
Fundamental.
O analfabetismo (13,4%) também se faz presente, incluindo-se
aqueles que somente assinam o nome. Entre os analfabetos
a predominância é do sexo masculino (80,0%),
não se encontrando analfabetos entre os segurados
com naturalidade no Estado de São Paulo. A maioria
dos segurados (61,8%), entre homens e mulheres, não
concluiu o Ensino Fundamental, incluindo-se o índice
de analfabetismo presente neste estudo.
A maioria dos trabalhadores, em se tratando de naturalidade,
procede do Estado de São Paulo (50,5%), os demais
apresentam uma concentração nos Estados da
Região Nordeste, destacando-se Bahia, Pernambuco
e Sergipe estes últimos mantendo uma proximidade
quanto ao território.
Considerando a área de abrangência do CRP de
Santos, os segurados têm sua residência fixada,
em sua maioria em Santos, Cubatão e São Vicente
(65.5%), municípios onde também se concentram
as atividades econômicas de comércio, portuárias,
industriais, transporte urbano e de construção
civil. Seguem-se os municípios de Guarujá,
Praia Grande, Vicente de Carvalho e Bertioga (23.6%), localidades
próximas ao polo industrial de Cubatão.
O estudo dos prontuários mostrou que um número
significativo dos segurados recebe o "auxílio
- doença", enquanto um número menor obteve
o nexo causal, que caracteriza o afastamento como decorrente
de "acidente do trabalho", recebendo neste caso
"auxílio - acidente". Os trabalhadores
acidentados no trabalho, em sua maioria, realizam atividades
na área industrial (44,4%), onde se destacam as empresas
que realizam etapas da produção de indústria
de grande porte e que constituem o setor terciário
(15,4%).
Do universo pesquisado 19,6% dos trabalhadores encontram-se
em situação de desemprego, todos recebendo
benefício "auxílio - doença".
Os demais mantêm vínculo empregatício
nas áreas: industrial, comercial, dos serviços
portuários, da construção civil, dos
serviços de limpeza e manutenção, do
transporte aéreo e do serviço doméstico.
Os trabalhadores vinculados à Prefeitura Municipal
de Santos estão sob regime estatutário, não
recebendo os benefícios do INSS.
As profissões que apresentam maior freqüência
(19,5%) estão relacionadas às tarefas que
demandam esforço físico e que não exigem
elevado nível de escolaridade, como: serviços
gerais, ajudante ou auxiliar de serviços gerais,
faxineiro e serviçal. Apresentam diagnósticos
relacionados às doenças de coluna, às
seqüelas de membros inferiores e/ou superiores e à
lesão por esforço repetitivo (LER), o que
permite inferir sua relação com o ambiente
de trabalho, as condições ergonômicas,
as medidas de prevenção e sentido do prazer
no trabalho realizado.
Entre os motoristas os diagnósticos de discopatias,
de pós-laminectomia, de LER e de doenças degenerativas
podem estar relacionados à longa jornada e ao ritmo
intensificado impresso neste trabalho. Os diagnósticos
de seqüelas de fratura e amputação são
resultantes de acidente do trabalho.
Os operadores da área industrial apresentam maior
concentração de diagnósticos relacionados
às doenças da coluna (discopatias e síndrome
pós- laminectomia). Os casos de acidente do trabalho
estão relacionados aos diagnósticos de seqüelas
de TCE e de entorse e déficit visual. Entretanto,
os operadores chegam realizar jornadas de trabalho de oito
horas, sentado em cadeira incômoda, manipulando manivelas,
em máquinas que não raro não possuem
amortecedores suficientes para evitar lesões na coluna.
Atualmente este trabalho é oferecido por empresas
prestadoras de serviços na área industrial,
com máquinas alocadas por hora, exigindo grande produtividade
do operador, para maximizar o custo - benefício.
Os trabalhadores cujas profissões exigem grande esforço
físico, como as de estivador e ensacador, apresentam
diagnósticos de seqüelas de fratura, entorses,
pós-operatório de ligamentos e discopatias,
predominando o acidente do trabalho, inclusive em um caso
de diagnóstico de Hérnia Discal Lombar. Tratam-se
de homens vinculados ao Órgão Gestor da Mão-de-Obra
-OGMO, criado com a terceirização do serviços
portuários, que somente ganham quando há demanda
por sua força-de.trabalho nas atividades portuárias,
caso contrário aguardam, como exército de
reserva, que os meios de produção deles necessitem.
Enquanto assalariados, não importa se mecânico,
vigilante, ensacador, ajudante geral ou vendedor, são
todos iguais, trazem o sentido de pertinência do ser
trabalhador. Fora do trabalho são consumidores, carregados
de afetos, esperanças, sonhos e fantasias. A perda
de utilidade ao mercado, o não estar sendo produtivo
e a exclusão expressa em 51,6% das empresas investigadas
apontam para a afirmação total do mercado,
em detrimento do sistema de proteção existente
e da aquisição de patrimônios dos sujeitos.
Os segurados falam do papel da reabilitadora profissional,
da intervenção voltada para o acolhimento,
o conhecimento da constituição desse ser social
na trama das relações estabelecidas durante
sua trajetória de vida, para a construção
de estratégias. Falam também das alterações
ocorridas após a ação profissional.
As perdas sofridas tomam a forma de sentimentos que imobilizam
e impedem a descoberta de alternativas e de perspectivas
de ruptura. Não foram muitas as oportunidades que
tiveram, mas a reabilitação profissional pode
viabilizar alguns ganhos, que se acrescentam aos seus patrimônios.
Os sonhos traduzem a esperança, a possibilidade da
construção de utopias e de reorganização
dos sujeitos investigados.
Considerações
finais.
O primeiro aspecto identificado no presente estudo relaciona-se
ao aspecto preventivo, traduzido no cumprimento de normas
de saúde e de segurança do trabalho por parte
das empresas. Sem dúvida alguma o desrespeito a estas
normas implica em prejuízos significativos ao trabalhador.
O estabelecimento de instrumentos de fiscalização,
de promoção da saúde no trabalho e
o investimento na qualidade dos recursos de saúde
são algumas, mas não as únicas, alternativas
de superação e redução do número
de acidentes do trabalho ocorridos anualmente.
As possibilidades de realização dos sonhos
de que falam os segurados vão além das alternativas
de trabalho. Trata-se de construir o projeto utópico
de uma sociedade mais justa, onde não caberá
espaço para a dominação. Mas para este
caminho uma questão fundamental se coloca: a "revolução
ética", que necessariamente conduzirá
à revolução das estruturas econômicas,
políticas, sociais e culturais da sociedade capitalista.
Trata-se de reivindicar a condição de cidadãos
com direitos, de reivindicar a distribuição
social da riqueza pelo Estado e de criação
de mecanismos de inclusão. Reivindicar que o crescimento
econômico sustentável se faça com o
investimento regular, expressivo e permanente no social,
adotando políticas sociais voltadas, efetivamente,
para a diminuição da desigualdade.
* Doutoranda em Serviço Social Na PUC/SP, professora
da Universidade Católica de Santos/UNISANTOS.
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