ARTIGOS

Universidade e regeneração planetária

EDGARD DE ASSIS CARVALHO, PUCSP, agosto 2004.


Muito já foi dito sobre o papel da Universidade, sua relação crítica com o sistema-mundo, sua estrutura regida pela incansável tríade ensino-pesquisa-extensão, sua organização ancorada na dita integração graduação-pós-graduação, sua função crítica diante dos avatares da modernidade líquida com a qual nos defrontamos. O que se pretende realizar aqui nesta breve reflexão não é delinear mais um diagnóstico, um programa de gestão universitária, mas traçar um conjunto de esferas cognitivas, uma noosfera, ou seja, um conjunto de idéias possíveis, alguns dirão utópicas, que possibilite criar as bases de um projeto revitalizador da função imanente da Universidade: conservar, regenerar e gerar saberes sobre o mundo, a terra, a vida, a humanidade, as artes, a história, o conhecimento.
Já dispomos de significativa reserva acumulada de iniciativas e propostas. Destaco apenas tres delas: em 1986, dezenove pensadores reunem-se na cidade de Veneza, sob patrocínio da UNESCO, em torno do tema "Ciência e as fronteiras do conhecimento: o prólogo de nosso passado cultural". O encontro produziu uma declaração com seis recomendações: 1. Superar os abismos entre ciências da vida e ciências do homem; 2. Entender que o modo de articulação do pensamento é o mesmo para todos os humanos, apesar da unidimensionalidade do pensamento científico consolidada a partir do século XVII; 3. Exercitar a transdisciplinaridade, ou seja, um modalidade educativa que supere o conhecimento parcelar fornecido pelas disciplinas, esses territórios-fortaleza do saber; 4. Imaginar métodos educacionais que não sejam compostos por pressupostos rígidos, mas por estratégias multipolares de seleção e atuação; 5. Produzir parâmetros para a ética científica e para processos decisórios superadores das rivalidades clânicas de docentes, cursos, departamentos; 6. Construir um patamar de universalidade que dialogue com a diversidade biocultural.
Dez anos mais tarde, em Portugal, na Fundação Calouste Gulbenkian, um outro conjunto de pensadores organiza um evento denominado "Para abrir as ciências sociais". O relatório final do encontro recomenda que qualquer abertura das ciências sociais para o século atual, apressadamente chamado de sociedade do conhecimento, deve conter duas recusas peremptórias e duas aceitações irrevogáveis. 1. Recusar a separação natureza/cultura, ou animalidade/humanidade, incrustada no pensamento moderno pelo menos desde Descartes; 2. Recusar o poder do Estado como mandante, executor e censor das ações sócio-educativas. 1. Aceitar a interminável tensão entre singular e plural, local e global, universal e particular como características permanentes dos humanos; 2. Aceitar que a objetividade e a busca da verdade devem ser sempre colocadas entre parêntesis e examinadas à luz das premissas sempre mutáveis e incertas da polifonia dos saberes.
Em 1997 vem à luz o relatório elaborado pela comissão internacional sobre a educação para o século XXI presidida por Jacques Delors. Os quatro pilares de um novo tipo de educação seriam: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser. O primeiro implica reconhecer que os erros não devem ser afastados como um mero componente irracional e descartável. Para conhecer é necessário estabelecer pontes e conexões entre passado e presente, entre presente e futuro, assumir que o conhecimento é sempre biodegradável, que a condição humana é sempre impermanente.
O segundo diz respeito ao destino dos conhecimentos adquiridos. Devemos nos contentar com a mera soma de tudo aquilo que aprendemos na vida, como se a totalidade fosse um sistema fechado, reduzido à mera soma de suas partes? O dilema é: ter uma cabeça-feita, que só se movimenta nos territórios restritos e esclerosados da especialização, ou uma cabeça bem-feita que religa as filosofias, as artes, os mitos com as descobertas superlativas geradas pela atividade da ciência. Essa cabeça-feita abre-se necessariamente às incertezas do mundo, reconhece a existência de múltiplos níveis de realidade, assume que o verdadeiro intelectual é sempre um outsider, que ousa dizer a verdade ao poder, um trangressor que ultrapassa sua área especializada e local, para refletir sobre a universalidade dos enigmas da cultura.
O terceiro incide nos princípios regulatórios que regem o cotidiano acadêmico. Viver junto supõe atidude crítica perante si mesmo e os outros, o que requer tolerância, diálogo destituído de ressentimento; supõe também deixar de lado um acordo tácito entre quem ensina e quem aprende. Viver junto implica não permitir que as gramáticas da criação sejam castradas pela mediocridade de espaços disciplinares confinados, marcados pelas experiências endogâmicas da repetição: mesmos programas, mesmas bibliografias, mesmas avaliações. Viver junto é mergulhar de cabeça nas experiências da criatividade e da beleza, na poética do mundo.
O quarto pressupõe uma atitude arqueológica: escavar, escavar sempre e cada vez mais mais, aparelhar-se, exercitar-se como na escalada de uma montanha, compenetrar-se como numa prática do iôga, penetrar em territórios desconhecidos, recuperar o tempo perdido de si mesmo, sua história, sua memória, suas dúvidas, seus condicionamentos. Entender dialogicamente a relação entre vida e idéias, para que aquilo que seja dito numa sala de aula não seja um contraponto esquizofrênico do que se faz depois de tres ou quatro créditos disciplinares, essa curta permanência em que nos defrontamos com nossa alteridade e a de nossos alunos. Auto e antropoética, ou seja, ética de si acoplada à ética da condição humana, percepção acurada de nossa condição bioantropossocial, 100% natureza - 100% cultura.
Por onde começar é a pergunta que sempre se faz diante desses desafios. Postergá-los implica conivência, disseminá-los e enfrentá-los exige atitude crítica, um mínimo de coerência, coragem e paciência redobradas, uma dose alopática de revolta. Em primeiro lugar, é preciso deixar-se contaminar pelo principio da incerteza racional e descobrir que razão e desrazão integram qualquer tipo de cognição, mesmo que a ciência instituída, do infinitamente pequeno, não se deixe contaminar por dispositivos míticos-mágicos-imaginários sempre presentes em teorias, conceitos, métodos. A disjunção homem-natureza foi o pressuposto reitor dessa cosmovisão.
Em conseqüência, ciências do homem e ciências da natureza, moles e duras, doces e amargas se quisermos, pré-paradigmáticas e paradigmáticas se conceituarmos, despregaram-se inexoravelmente do panteon do saber, converteram-se em dois continentes incomunicáveis, inundaram o aparato de controle do estado, dividiram o conhecimento em rubricas hierárquicas vazias de sentido ontológico. Mais cedo ou mais tarde a desterritorialização advirá com a religação efetiva desses falsos antagonismos, mesmo porque o futuro sustentável de Gaia baseado na energia do sol, no entrecruzamento das redes e nos mistérios do genoma exigirá isso.
Espero que uma ampla desobediência civil penetre em todos os setores universitários e bata de frente no grande paradigma do Ocidente, disjuntor do sujeito e do objeto, da alma e do corpo, da existência e da essência, do sensível e do inteligível, do necessário e do contingente, da partícula e da onda. Precisamos aprender a rejuntar, religar, o que nos ensinaram e continuam a nos ensinar que se encontra irremediável e eternamente separado: parte e todo, texto e contexto, necessário e contingente, local e global, particular e universal.
Por onde começar? Transformando a terceira tese sobre Fuerbach em um dístico, um mantra para contentarmos os meditantes, um encantamento a ser recitado de cor pela tríade aluno-professor-funcionário. Diz Marx: qualquer teoria da mudança das circunstâncias da educação exige, antes de mais nada, a educação dos educadores. Essa educação assume que a função escolar de qualquer nível estabeleça uma simultaneidade de conexões regida pelo tetragrama da ordem, desordem, interação e reorganização. A recuperação do passado, a construção sustentável do presente, a reinvenção do futuro serão resultantes disso. No lugar de uma universidade fria, operacional, contente consigo mesmo, uma pluriversidade mestiça, instável, impermanente, inserida na irreversibilidade do tempo, plena de bifurcações e brechas, marcada pela liberdade da invenção, pela extinção dos grupos corporativos, pela repulsa a fórmulas enregeladas e programas ultrapassados.
Emilio Roger Ciurana, amigo da Universidade de Valladolid, organizou um encontro denominado Educação, Universidade e Sociedade na era planetária. Lá estavam Edgar Morin, Gustavo López Ospina, Raúl Domingo Motta Ángel Ruiz, Rubén Peralta, Ivano Spano e eu mesmo para mais uma vez debater, imaginar, propor horizontes e utopias realizáveis para a Universidade. O pressuposto do encontro era de que a pluridimensionalidade do mundo hipermoderno traz consigo a urgente necessidade da compreensão dos objetos complexos que nos circundam, situem-se eles nos planos da cultura, dos afetos, das subjetividades, dos amores, das biopolíticas. Essa abertura é inseparável do futuro da sociedade. Novos saberes, novas configurações, novas organizações. É nesse patamar que a reforma do pensamento sairá da clausura em que se encontra para inserir-se no sistema-mundo e no projeto da regeneração do homem, ou seja, de um homem genérico saturado de razão, mas encantado de poesia e imaginação.
Antes de terminar gostaria de fazer algumas digressões históricas. Segundo conta a tradição, Platão haveria fixado na entrada de sua Academia uma tabuleta solicitando que todo indíviduo que não fosse um geômetra deveria manter-se afastado dela. Fizemos o mesmo por aqui: mantivemos a universidade isolada do mundo, com a crença vã que ela é um reflexo da sociedade. Com isso, e que a desigualdade do acesso e do recesso, da admissão e da expulsão converteram-e em fatos anódinos que não requerem maiores explicações.
Por isso, os rítmos e as memórias que constituem a cronopedia da grande Narrativa, ou seja, o registro geral de nossa curta presença no planeta - 130 mil nos imaginados - se ausentem da quase totalidade dos elencos disciplinares., não permitindo a tão sonhada emergência hominiana, a hominescência sonhada por Michel Serres. Guardiões do mosaico multicolorido da cultura, só dispomos da linguagem para sermos ouvidos, por vezes considerados, por outras execrados. Se essa argumentação fôr procedente é da Grande Narrativa - da paleossociedade à hipersociedade midiática - que devemos retirar os elementos necessários para a reforma da ensino e da pesquisa. Talvez nos desapontemos com o caráter discontínuo de nossa própria trajetória bioantropossocial, essa história-zéro, repleta de significantes flutuantes, tão a gosto de Claude Lévi-Strauss.
Afinal de contas, a mercadoria-homem, responsável pela desumanização material e espiritual de todo o sistema-mundo, impediu o florescimento de uma sentimento de totalidade, isso porque alienamos sentidos e práticas. No lugar de apostar na superação do fantasma da mercadoria, viu nele a única possibilidade de exercer poder, força, coerção. Não por acaso Marx buscou no Fausto de Goethe e no Timon de Atenas de Shakespeare inspirações que lhe possibilitaram dissecar a essência do dinheiro, o fetiche da mercadoria, o corpo-puta, alcagüete, traidor de homens, povos e culturas.
Esse estado de coisas envolve a reformulação da consciência desventurada e a superação da razão fechada, que se retroalimenta de fáceis racionalizações e ressentimentos inconfessados. Não tenhamos ilusões; a autogênese e a epigênese humanas não são processos frios cujo desvendamento se dá apenas pelo intelecto. Acham-se imbricados no mundo desordenado e contraditório das práticas sócioculturais e educativas. Exigem uma imersão na historialidade dos sistemas vivos e nos desatinos da paixão, molas propulsoras das experiências humanas diante da contingência do tempo.
O ato do conhecimento envolve intuição, criatividade, fruição, descoberta, escavação, ignorância, sabedoria, contemplação, desordem, loucura, ilusão, excentricidade, erro, desordem, fantasia, transferência, reorganização. Se esse atlas da experiência reverberar por aqui nos corredores da PUC de São Paulo seremos uma universidade para valer, um centro vivo de produção e reinvenção de saberes, pluralisticamente transdisciplinar, que vive sempre na temperatura de sua própria destruição. Se algum lugar de um futuro próximo essas idéias venham a frutificar, talvez concordemos com a definição dada por Einstein quando lhe foi perguntado o que era a educação. Disse ele: "Educação é o que fica depois que uma pessoa se esquece de tudo que aprendeu na escola".