ARTIGOS

Apresentação – EBEC

A Pesquisa e o estado da arte

Integro e represento o Núcleo de Estudos da Complexidade – Complexus e o Núcleo de Estudo sobre Ensino e Questões Metodológicas Nemess, ambos da PUC/SP e liderados, respectivamente, pelos Profs. Edgard de Assis Carvalho e Maria Lúcia Rodrigues. Antes de apresentar o “estado da arte” de nossas reflexões, talvez seja importante situar o surgimento dos Núcleos e descrever algumas de nossas atividades.

Núcleo de Estudos da Complexidade - Complexus

O Complexus foi criado a partir da iniciativa de alguns intelectuais das áreas de Ciências Sociais da PUC-SP, sob a liderança dos Prof. Edgard de Assis Carvalho e Lucia Helena Vitalli Rangel, no início dos anos 90. Em 1996 foi cadastrado oficialmente no Diretório de Grupos do CNPq, tendo por líderes os Profs. Edgard e a Profa. Lucia Helena Vitalli Rangel.

Congregando pesquisadores de diferentes áreas, o Complexus desenvolve atividades que se fundamentam nas matrizes paradigmáticas do Pensamento Complexo, qualificando seus pesquisadores para assessorias, conferências, consultorias e pesquisas pautadas pela perspectiva transdisciplinar e pela construção de meta pontos de vista para a contemporaneidade.

O perfil cognitivo do núcleo é objetivado nas seguintes linhas transversais de pesquisa:

•  Arte, literatura e pensamento. Investigação das configurações estruturais básicas das práticas artísticas e letradas no Brasil. Articulação de estudos históricos com as diversas abordagens das práticas contemporâneas. Pressupõe permanente diálogo com a controvertida tradição brasileira visando, porém, ir além dela, para atingir os multiplicidades que articulam o imaginário contemporâneo transnscional.

•  Cultura contemporânea, cotidiano e imaginário. Reflexão sobre os fenômenos de cultura de massa e meios de comunicação, da cibercultura e das práticas cotidianas que as cercam. Análise da produção dos gêneros ficcionais e da recepção nos campos a televisão, cinema, publicidade, mercado editorial e fonográfico.

•  Itinerários cognitivos e transdisciplinaridade. Reflexão sistemática sobre o desvendamento de trajetórias de pensamento no panorama cultural contemporâneo. As bases epistemológicas do pensamento complexo atuam como operador cognitivo nuclear responsável pelo questionamento das dimensões cartesianas do conhecimento.

•  Diversidades Culturais e o pensamento complexo: reflexão sobre as questões vinculadas às etnias.

Diferentes e diversas são as atividades programáticas que o Núcleo vem desenvolvendo, gradativamente ampliando seu campo de produção.

•  Orientação de teses e dissertações; Cursos de mestrado e doutorado no âmbito da pós-graduação em ciências sociais, abertos a estudantes de outros programas. Pós-doutorado vinculado diretamente ao Núcleo, mediante apresentação de projeto de pesquisa inédito que contemple as bases operativas do pensamento complexo.

•  Oficinas do pensamento. Discussão bimensal de temas culturais contemporâneos, de pensadores de pertencimentos disciplinares múltiplos envolvidos com o processo da religação entre as “duas culturas”.

•  Películas e Idéias. Programação mensal de projeção de filmes que problematizam a condição humana. Diálogos de pesquisadores da área de comunicação com os pesquisadores do COMPLEXUS.

•  Oficinas do conhecimento. Projeto multimeios em parceria com a Cortez editora, realizada na sede da livraria, aberto ao público em geral, centrado em meta temas como vida, terra, mundo, homem, conhecimento e fundamentado na religação dos conhecimentos.

•  Divulgação. Colaboração sistemática na revista MARGEM, da Faculdade de Ciências sociais e dos programas de pós-graduação em C.Sociais e História, periódico com nítida vocação transdisciplinar. Publicação de ensaios em revistas nacionais e internacionais. Participação em conselhos editoriais de revistas nacionais e internacionais. Participação em sítios e listas de discussão que problematizam temas teóricos, conjunturais e planetários contemporâneos. Traduções de livros e organizações de coletâneas centradas em temas transdisciplinares.

•  Seminários avançados. Discussão dos projetos de pesquisa de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Atividade coletiva de formação voltada à estimulação de colaborações coletivas e temáticas.

•  Cooperação institucional interna. O COMPLEXUS articula-se diretamente ao NEMESS, do programa de pós-graduação em Serviço Social no planejamento de atividades em nível de extensão e cursos regulares, bem como na realização de pesquisas.

•  Cooperação institucional em nível nacional. O COMPLEXUS estimula a formação e disseminação de núcleos do pensamento complexo em todo o Brasil. Mantém cooperação direta e histórica com o GRECOM, UFRN, com o Instituto de Estudos da Complexidade, IEC, Rio de Janeiro e com os programas de pós-graduação em ecologia da UFPR e com o doutorado interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, com a Associação Palas Athena, São Paulo.

•  Cooperação institucional em nível internacional. O COMPLEXUS articula-se com a Association pour la pensée complexe dirigida por Edgar Morin, com a cátedra itinerante Edgar Morin, da UNESCO, sediada em Buenos Aires, dirigida por Raul Motta, com os grupos do pensamento complexo dirigidos por Mario Ceruti, Itália (Universidade de Bergamo) e por Emilio Ciurana,Universidade de Valladolid.

Nemess-Complex

Liderado pela Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas em Serviço Social - NEMESS - tem como preocupação central a “formação para formadores”, desenvolvendo suas atividades a partir de dois eixos temáticos: metodologias de investigação e de intervenção e ensino, educação e cultura em Serviço Social. A proposta consiste em articular estes eixos de modo a contemplar o debate em torno das metodologias de ação utilizadas na gestão dos serviços e da prática cotidiana.

A Transdisciplinaridade e a Teoria da Complexidade constituem as bases em que se desenvolvem a produção das atividades no Núcleo. Prioriza a prática profissional, fomentando o desenvolvimento de saberes, a articulação dos conhecimentos, o exercício do rigor científico, a ética e o livre pensar.

O Núcleo tem, portanto, uma perspectiva plural, assentada no privilégio da criatividade e da investigação conjunta, seriamente inclinada à formação de sujeitos responsáveis.

Cadastrado no DG-CNPq desde 1991, reúne pesquisadores e estudantes, principalmente das áreas relacionadas ao Serviço Social, desenvolvendo atividades de reflexão sobre as metodologias de ação utilizadas na gestão de serviços sociais, formas de intervenção e políticas públicas, bem como orientação de dissertações e teses, publicações, realização de seminários nacionais e internacionais e pesquisas.

Possui quatro linhas de pesquisa, cujas bases teóricas repousam nos operadores cognitivos da complexidade:

•  Configurações Contemporâneas da Questão Social;

•  Formação, Ensino e Educação Ambiental;

•  Prática profissional, Estudos da Complexidade e Transdisciplinaridade.

Atualmente, desenvolve, em parceria com o Complexus, o Projeto de Pesquisa Vidas da Cidade, (do qual também participo como coordenadora), que tem por objeto a cidade e suas múltiplas interrelações. Pretende conhecer e reconhecer os modos de “vidas na cidade” como recurso à produção de instrumentos de planejamento e de intervenção urbanos e sociais mais de acordo com a sensibilidade e a diversidade das formas de sociabilidade humanas.

De natureza interdisciplinar, a pesquisa reúne 4 subprojetos: “Burnout - estresse e trabalho” - aborda as implicações do ritmo e natureza do trabalho na saúde dos trabalhadores, especialmente dos assistentes sociais; “Ekos da vida – uma comunidade de pescadores” - analisa de que modo uma comunidade tradicional de pescadores resiste às interferências e tensões do desenvolvimento urbano; “Elo da perdição – a cultura da droga e os adolescentes da Febem” - investiga os motivos que promovem o ingresso de jovens infratores na cultura da droga e os impulsionam ao mundo do crime; - “A sócio-construção dos laços intergeracionais nas famílias de adolescentes em contextos de liberdade assistida”.

A realização de uma pesquisa integrada, inter e transdisciplinar prende-se à afinidade de objetivos e propostas investigativas dos dois Núcleos. O possível alinhamento entre o contexto, a paisagem físico-humana e as adversidades cotidianas dos diferentes centros urbanos encontra-se bem arraigado na cultura visual, relacional e nas formas de vida das populações. Destas correlações nascem as diferentes contribuições dos Núcleos da PUC/SP e das parcerias com a Association pour la pénsée complexe - Paris, com a Universidade La Sapienza (Roma) e a Universidade della Basilicata.- Itália.

O percurso de nossa reflexão

Temos nos dedicado a problematizar os conceitos e operadores cognitivos que dão sustentação a um pensamento capaz de enfrentar a diversidade da condição humana, que se configura nas áreas de conhecimento empenhadas na tarefa de desencadear um projeto de regeneração humanista, regido pelas idéias de complexidade e transdisciplinaridade.

Assim, em nossas atividades de reflexão, ensino e pesquisa, abordamos as questões referentes à religação entre as ciências da cultura e as ciências da natureza, tematizando o mundo, a terra, a vida, a humanidade e apontando possibilidades de restauração do conhecimento pertinente, capaz de repensar as múltiplas dimensões da atividade humana sem causalidades e determinismos fixos.

Temos colocado como desafios, a exemplo de Edgar Morin, a necessidade de poder superar dois problemas importantes:

•  O desafio da globalidade, isto é, inadequação existente entre o modo de conhecimento – a partir de saberes fragmentados, compartimentados nas disciplinas e as realidades multidimensionais, globais, transnacionais, planetárias, das quais emergem problemas cada vez mais transversais, poli e até mesmo transdisciplinares;

•  A não pertinência, portanto, de nosso modo de conhecimento e de ensino que leva a separar os objetos de seu meio e as disciplinas umas das outras, impedindo que se possa pensar a complexidade do mundo e os problemas em sua multidimensionalidade.

Na mesma perspectiva, buscamos tematizar, a partir de trajetórias de pesquisa e reflexão, questões ligadas a aspectos relacionados a campos que, muitas vezes (e na perspectiva da ciência tradicional) não são entendidos como campos de conhecimento, mas como objetos de estudo das ciências tradicionais (o cinema, a literatura, as artes etc.).

O objetivo dessas escolhas prende-se àquilo que Morin define como a possibilidade de saber como as aquisições fundamentais que alguns chamam de cultura comum podem suprir certas lacunas do conhecimento (conforme a Religação dos Saberes). Ou melhor, como retirar delas o mais importante e ensinar, por meio disso, uma forma de organização do conhecimento daquilo que ele denomina “amontoamento dos saberes”, evidenciando não apenas o caráter estético das obras literárias e artísticas, mas tomandoos como saberes, como experiências de vida.

Porque pensar esses campos como possibilidade de compatibilizar as duas culturas (humanista e científica)?

Tomando como ponto de partida as idéias do próprio Morin, mas também de outros autores, das mais diversas áreas, que também se preocupam com as insuficiências dos instrumentos de conhecimento modelares, a conjugação desses campos permite uma outra forma de religação, de organização do pensamento. Constitui um dos modos de elucidar a sociedade, de aprofundar a tomada de consciência das características da vida cotidiana, de modo a poder captar a magia presente na racionalidade técnica que serve de base à experiência do homem urbano.

Em outros termos, constitui um operador privilegiado das formas de conhecimento (obviamente não aquela tida como privilegiada, graças à separação entre os diferentes domínios) a ser absolutamente levada em consideração, se quisermos dar conta da complexidade do mundo contemporâneo.

Enfim, tomar campos como a arte, a literatura, o cinema como formas de conhecimento permite um processo de compreensão que evidencia uma forte correspondência entre a produção cultural (entendendo a cultura como um conceito bastante alargado) e as experiências e modos de subjetividade que se explicitam, principalmente, nas cidades contemporâneas: a fragmentação, a falta de profundidade, o caráter de dispersão, a instabilidade, a descontinuidade, a experiência do tempo como um presente perpétuo, de caráter espacial (vou para a “night”; lembrar os exemplos trazidos pela pesquisa dos adolescentes).

Gostaria de enfatizar que, na perspectiva da articulação entre a cultura científica e a cultura humanista, não se trata simplesmente de tomar aspectos desses campos e transformá-los em objetos de pesquisa. Trata-se, sobretudo, de reconhecer nas manifestações culturais uma forma eloqüente de conhecimento do mundo e de nós próprios.

Articulando-os aos procedimentos tidos como científicos, poderíamos chegar a formas de conhecimento capazes de perpassar os diversos níveis de realidade (concreto, simbólico e imaginário), ultrapassando os limites disciplinares e contemplando a necessidade de conectividade entre as diversas áreas do conhecimento.

Um último aspecto relevante diz respeito à forma pela qual certos domínios revelam de forma mais radical os antagonismos e contradições da pp. realidade. Ao enxergarmos dialogicamente essa realidade, podemos assumir uma perspectiva crítica radical, chegando, inclusive, a talvez poder equacionar a questão sobre para quem e para que serve o conhecimento produzido, indo além do porque ele é produzido, restaurando o papel das humanidades.

A restauração das humanidades em crise implica na capacidade de se estabelecer um pensamento transdisciplinar, capaz ultrapassar os limites da especialização, da fragmentação e desintegração do conhecimento, do predomínio da informação sobre o acontecimento, do predomínio de uma ciência relativista - responsável pelos dispositivos de tratamento das alteridades e por minar as bases das humanidades -, da separação sujeito-objeto, aliadas às contra-marchas provocadas pelo próprio desenvolvimento científico.

Torna-se necessário, cada vez mais, uma perspectiva que deve ter por princípio uma dupla lógica, ou dialógica - racional e imaginal -, capaz de incorporar os itinerários míticos, mágicos e artísticos, articulando-se numa nova atitude científica.

Esta religação dos saberes poderia reencontrar um caminho revigorado para respostas a questões como: quem somos, onde estamos, de onde viemos, para onde vamos?

No plano cognitivo, creio ser este um grande desafio aos educadores do século XXI, a despeito dos limites que ainda nos são impostos em termos da contínua reprodução e fortalecimento do modelo da especialização, da fragmentação e da disciplinarização, que se sustenta na idéia segundo a qual as estruturas e competências tecnocientíficas bastam para resolver os complexos problemas que a humanidade hoje enfrenta. E creio, também, que o caminho está por se construir, bastando, para isso, lançarmo-nos à tarefa.

Gostaria, mais uma vez, de agradecer ao convite para participar deste Encontro, que nos deu a oportunidade de apresentar nossas idéias, nosso trabalho e de trocar experiências com todos aqui presentes.

Maria Margarida Cavalcanti Limena
Maria Lucia Rodrigues
Complexus e Nemess – PUC-SP