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Última Edição: Volume 28

Lutas Sociais

Em 1996, James Petras publicou, no primeiro número da revista Lutas Sociais, um artigo de grande importância histórica: "Intelectuais: uma crítica marxista aos pós-marxistas". O sociólogo estadunidense chamava a atenção para o modismo, atrelado ao triunfo do neoliberalismo e ao refluxo da classe trabalhadora, do pós-marxismo como uma postura intelectual em rápido processo de expansão. Os anunciadores do fim do marxismo, ancorados em diferentes pilares da ideologia liberal, foram também os arautos de uma pretensa nova era exaltada como "pós". Apesar do foguetório intenso, não demorou muito para que as teses centrais que sustentavam o modismo se desmanchassem no ar, especialmente com a explicitação de uma profunda crise do capitalismo em escala planetária a partir de 2008. Em contrapartida, os estudos marxistas, apesar de inegáveis limitações, passaram por um extraordinário desenvolvimento.
Nas universidades brasileiras, para nos restringirmos a este campo, são muitos os núcleos de pesquisas marxistas e/ou que se dedicam ao estudo da teoria marxista e/ou a questões centrais ao marxismo. E, embora de forma incipiente, concepções marxistas se expressam em todas as lutas dos dominados, da América Latina à União Europeia, neste sombrio início da segunda década do século XXI. Esta presença é alentadora, mas sinaliza o quanto o marxismo deve avançar no plano das práticas de classe, sem as quais ele se reduz a, no melhor dos casos, uma tentativa de interpretar o mundo.

A universidade é também um importante lugar de luta teórica e ideológica e a revista Lutas Sociais sempre se dispôs a transpor as fronteiras do universo acadêmico. Neste sentido, nada como um número que contribua para o debate acerca dos rumos do marxismo contemporâneo.
É o que se expressa no dossiê, "Marxismo(s): prismas e lutas".

Stathis Kouvelakis retoma, de modo crítico, um fecundo trajeto analítico celebrizado por Perry Anderson nos anos 70 e faz uma cartografia do marxismo hoje. Valerio Arcary retoma, em perspectiva trotskista, uma análise na qual o marxismo tem demonstrado grande vigor: a das crises econômicas capitalistas; e outra que a acompanha como um desafio fundamental: a das condições de politização revolucionária das referidas crises.

John Bellamy Foster aborda a imensa potencialidade do marxismo para o exame de uma questão fundamental para os que se preocupam com a luta anticapitalista e que, por muito tempo careceu de estudos sistemáticos a partir desta perspectiva: a questão ecológica. Isabel Monal retoma uma dupla característica que, embora intrínseca à obra de Marx, tem sido repetidas vezes negada por grande parte de seus críticos (com a valiosa ajuda dos economicistas): a transdisciplinaridade e a complexidade.

Na direção inversa à dos que afirmavam que a globalização tornou irrelevante as questões nacionais, Lúcio Flávio de Almeida, procura atualizar o debate teórico sobre o tema e Marcelo Buzetto se volta para uma das mais importantes no mundo contemporâneo: a Questão Palestina. Jair Pinheiro se engaja no atual esforço para recuperar uma bela tradição de estudos marxistas sobre o direito, a qual foi soterrada a partir dos anos 30 do século XX; e Paulo Barsotti, pisando em terreno firme, recupera as análises de Marx sobre o bonapartismo e o jacobinismo, o que, além de inegável valor heurístico, proporciona importantes aportes para os estudos de novas configurações do poder político burguês, inclusive no âmbito da democracia liberal, no mundo contemporâneo.

Enfim, Fábio Mascaro Querido e, em dupla, Darlan Montenegro e Josué Medeiros publicam dois excelentes artigos sobre Daniel Bensaïd, que, como poucos, encarnou com abnegação, brilho e profundidade, a 11ª. tese sobre Feuerbach já aludida nesta apresentação:a interpretação do mundo é inseparável de sua transformação. Este número de Lutas Sociais é dedicado a Daniel Bensaïd.

Somente devido ao processo interno de produção da revista, especialmente o ritmo do recebimento de textos e da produção dos respectivos pareceres, os demais artigos não fazem parte do dossiê. Mas constituem excelentes esforços de análise marxista de temas candentes. Contribuem para o enriquecimento teórico deste número cuja avaliação, a partir de agora, cabe a quem nos lê.

Renata Gonçalves
(pelo Comitê Editorial)


PUC-SP
Programa de Estudos Pós Graduação em Ciências Socias