Este número de Lutas Sociais é dedicado à Heleieth Saffioti, socióloga feminista, conhecida por seu pioneirismo nos estudos sobre a mulher. Desde o
início, desarranjou o esquema acadêmico, acentuadamente masculino, com uma
proposta inusitada: investigar os estreitos laços que unem opressão feminina e
modo de produção capitalista. Ousada, lançou mão de conceitos de Marx para compreender algo de fundamental que, para ela, o marxismo deixara obscuro: a
imbricação classe-gênero na sociedade burguesa. Feminista, não titubeou em
demonstrar que reduzir a luta das mulheres à reivindicação por direitos sociais não
leva à emancipação feminina. Capitalismo e condições plenas de igualdade e
liberdade são excludentes. A luta feminista ou será também de classes ou não será.
A recíproca, para ela, também é verdadeira: a luta de classes não conduziráà emancipação humana sem destruir, ao mesmo tempo, a opressão feminina.
Heleieth Saffioti se foi há um ano. Mas deixou uma vastíssima produção
intelectual, que se expressa na entrevista concedida a Renata Gonçalves e Carolina
Branco; no artigo de sua própria lavra, "A questão da mulher no socialismo"; nos
textos de Maria Aparecida de Moraes Silva, que rememora as aulas magistrais e o
rigor com que sua "mestra" conduzia o ensino de sociologia, e de Lúcio Flávio de
Almeida, que lembra a intelectual militante, cujas pesquisas inovaram o
pensamento social crítico. Angélica Lovatto e Renata Gonçalves analisam algumas
das mais importantes obras de Heleieth Saffioti. A primeira examina o livro mais
vendido da autora, O poder do macho, que teve o mérito de apresentar, a um público
jovem e não-acadêmico, o quadro de discriminação contra a mulher e contra o
negro na sociedade brasileira. A segunda remonta aos primórdios da produção da
autora e apresenta os principais aspectos presentes, sobretudo, no livro A mulher na
sociedade de classes. A teórica e feminista inovou dialogando com e no interior do
marxismo e, por vezes, caminhando na contramão de muito do que se escreveu
neste campo, ao observar que o capitalismo não é cego ao sexo.
Os estudos de Heleieth Saffioti encontram eco nos artigos de Andréa
D'Atri, Cinzia Aruzza e Judith Orr, acerca da controversa relação entre feminismo
e marxismo. Desdobramentos deste debate podem ser observados no texto de
Luciano Fabbri, que recupera contribuições dos feminismos contemporâneos para
pensar o desafio colocado aos movimentos sociais e populares numa perspectiva
antissexista, antiracista e anticapitalista. O mesmo se aplica ao artigo de Cláudia
Mazzei Nogueira, que examina a divisão sexual do trabalho no sistema de
integração da BrasilFoods. Como previra Saffioti, a maior inserção das mulheres na
produção, ao contrário de uma igualdade, potencializou a desigualdade entre os
sexos, ao mesmo tempo em que aprofundou a precarização do trabalho feminino.
Lutas Sociais apresenta também uma seção variada de artigos que abordam
questões teóricas e políticas cruciais. James Petras e Robin Abaya trazem uma
análise crítica das principais posições acerca da guerra euro-estadunidense contra a
Líbia e argumentam que esta invasão se deveu fundamentalmente a razões de
ordem estratégica (esperamos continuar com este debate); Leandro Vergara-Camus
faz uma comparação entre a luta pela terra do EZLN e do MST, cujas bases sociais
rejeitam a lógica do mercado e privilegiam a produção de subsistência; e Célia
Regina Congilio examina a ideologia midiática de que mais educação e mais
qualificação garantem uma boa inserção do trabalhador no mercado de trabalho.
Compõem este bloco os artigos de João Valente Aguiar, que problematiza a
pertinência do conceito de formação da classe trabalhadora na mobilização do
operariado agrícola alentejano no Estado Novo português; e de Ronaldo Gaspar,
que critica as críticas de Hannah Arendt ao pensamento marxiano, evidenciando
importantes limites da autora a este respeito.
Quatro resenhas encerram este número de Lutas Sociais. Duas delas
dialogam mais de perto com o Dossiê: a de Raiane Assumpção sobre livro lançado
pelo Coletivo Mães de Maio que, numa semelhança trágica com Las Madres de la
Plaza de Mayo, denuncia o assassinato de seus filhos pelo Estado genocida
brasileiro; e a de Karina Bidaseca, que detecta esboços da formação de um
feminismo contra-hegemônico na América Latina. Eliel Machado e Waldir
Rampinelli apresentam livros que têm como pano de fundo a barbárie "na
América". O primeiro problematiza a criminalização da utopia revolucionária dos
Panteras Negras e o segundo aborda a história não-oficial estadunidense.
Renata Gonçalves
(pelo Comitê Editorial)
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