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O papel do professor no momento da alfabetização

Keila Balbino*

A alfabetização tem sido uma preocupação dos envolvidos com a educação, uma vez que contingências surgem ao longo do processo. Durante décadas, problemas como repetência e evasão escolar, decorrentes da dificuldade de alunos em vencer a apropriação do código escrito, foram identificadas. Mas como o professor pode auxiliar o aluno, de que forma?

Lerner (2002) aponta que, por muito tempo, pensou-se que o objetivo do professor seria ensinar as primeiras letras, juntá-las para formar as palavras, depois as orações e, ao final, organizar textos. Nesse sentido, os conteúdos das aulas de língua portuguesa se resumiam à ortografia e à gramática, acreditando-se que dessa forma a criança estaria apta a ler e escrever corretamente.

Ainda conforme a autora, uma das grandes dificuldades é que a leitura e a escrita praticadas na escola estão muito distantes das práticas da vida social. Na escola, a língua escrita é apresentada de forma fragmentada, ou seja, em pedacinhos que não representam qualquer significado, enquanto que na vida social a escrita é vista de outra forma. A leitura em voz alta é mais utilizada na escola que a leitura silenciosa, diferente do que acontece fora da escola. Na sala de aula, geralmente, as crianças são levadas a produzir textos em tempo muito reduzido. Vale lembrar que os adultos, ao escreverem um texto, utilizam-se de rascunhos e revisões até atingir a produção final, então porque exigir que as crianças o façam em tempo limitado? A leitura é uma atividade que tem como finalidade buscar informação para resolver determinado problema, para divertir, e até mesmo pelo prazer, mas na escola o objetivo da leitura é o aprender.

Em se tratando da língua escrita, a graduação tem como consequência, no início, a leitura mecânica para depois chegar a ser compreensiva. Dessa maneira, a leitura e a escrita são fragmentadas e perdem o sentido. Com isso se mantém a ilusão de simplificar os objetos de conhecimento e manter o controle da aprendizagem. No entanto, simplificar faz desaparecer o objeto a se ensinar, tolhendo as probabilidades das crianças se tornarem intérpretes e produtoras de textos.

As modificações são necessárias, mas podem ser controladas para que não se afastem da versão social. Acerca do assunto explica a autora:

    ...como o objetivo final do ensino é que o aluno possa fazer funcionar o aprendido fora da escola, em situações que já não serão didáticas, será necessário manter uma vigilância epistemológica que garanta uma semelhança fundamental entre o que se ensina e o objeto ou prática social que se pretende que os alunos aprendam. A versão escolar da leitura e da escrita não deve afastar-se demasiado da versão social não-escolar. (Lerner, 2002, p. 35)

Corroborando Lerner, Weisz (2002) critica o fato de, muitas vezes, o adulto desvalorizar a capacidade da criança, lendo para ela textos que não proporcionam possibilidades de aprendizagem. Relembra um autor que sabia escrever para as crianças, Monteiro Lobato, que falava sobre assuntos que a maioria considera difícil para as crianças . Ainda nesse sentido, Weisz (2002) considera o jornal um instrumento poderoso para ampliação do repertório cultural dos alunos, por ser a documentação da história, podendo-se assim estudar fatos atuais, novas descobertas da ciência, a conjuntura política, entre outros.

Entende-se, então, que para a criança estar alfabetizada não basta decifrar o código escrito, o desafio é formar leitores e escritores que sejam capazes de compreender o que está implícito nos textos e que se tornem pessoas críticas e independentes. É necessário formar alunos motivados a conhecer e apreciar a literatura e seus encantamentos, sendo preciso, para tanto, deixar de lado as atividades mecânicas e sem sentido que não incentivam a criança, que se distancia da leitura por considerá-la apenas uma obrigação escolar. A leitura deve fazer parte dos materiais utilizados em projetos, ser importante para realizá-los, proporcionando prazer.

Weisz (2002) afirma que toda criança sabe alguma coisa, mas cada uma sabe algo diferente da outra e o professor precisa identificar o que seu aluno já sabe e traz de sua vida cotidiana para chegar ao conhecimento formal; assim o professor o ajudará a sair do que sabe para o que ainda não sabe.

Quando a criança depara-se com uma determinada situação, busca em conhecimentos já adquiridos hipóteses para solucioná-las. Os conflitos gerados na alfabetização proporcionarão a superação das hipóteses inadequadas por meio de novas explicações. Vale salientar a postura do professor:

    Nesses momentos a atuação do professor é fundamental, pois a conquista de novos patamares de compreensão pelo aluno é algo que depende também das propostas didáticas e da intervenção que ele fizer. (Weisz, 2002, p. 25)

A autora esclarece que, para aprender a aprender, o aluno precisa dominar conhecimentos de diferentes naturezas, ter flexibilidade e capacidade de se lançar com autonomia nos desafios da construção do conhecimento. Então, é necessário um saber para aprender a aprender. Vale enfatizar o trabalho em duplas, pois nessa interação eles dão explicações uns aos outros que fazem sentido para eles. Essa observação fará o professor saber o que seus alunos pensam.

Ao trabalharem juntos, o que o colega está fazendo se torna observável para a criança. Nesse processo ela evolui e percebe que, o que o outro faz é mais econômico, produtivo ou mesmo mais bonito. Isso só acontecerá quando sozinha, ela chegar a essas conclusões porque:

    Trata-se de um delicado casamento entre a disponibilidade da informação externa e a possibilidade da construção interna. Isso é que é o tão falado construtivismo, um modelo explicativo da aprendizagem que considera, ao mesmo tempo, as possibilidades do sujeito e as condições do meio. (Weisz, 2002, p. 47).

Weisz (2002) salienta ainda que a criança que possui estratégias sofisticadas e que ensina às outras também aprende, pois na comunicação desenvolve argumentos que consolidam seus conhecimentos. O professor que consegue conhecer a turma toma decisões importantes em relação aos trabalhos, o que as observações dessas situações proporcionarão.

Lemle (2002) assevera que os conhecimentos necessários para a leitura e escrita podem ser adquiridos espontaneamente, mas também podem ser estimulados. Crianças que frequentam a pré-escola já são preparadas, mas se isso não acontece os professores podem trabalhar de forma a complementar essa falta para que os alunos consigam vencer impasses.

Concluindo, concordamos com a autora que o desafio é os alunos aprenderem a se comunicar por escrito, se tornarem escritores, produtores da língua escrita, transmissores de mensagens ao seu meio social e não apenas copistas. A escrita não pode ser simplesmente objeto de avaliação, mas de ensino. Conseguir que os alunos se apropriem da escrita por experiência, assim como saibam utilizá-la na prática, deve deixar de ser privilégio de poucos.

Esta reflexão faz parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Pedagogia e Gestão Escolar da Faculdade Metropolitana de Caieiras, “Trabalhando com a Alfabetização: Uma reflexão sobre a prática docente”, das graduandas Adelina Maria Dias dos Reis e Keila Tatiane da Silva Balbino, sob orientação da Profª. Ms. Amadora Fraiz Vilar Della Beta, 2011.



Referências bibliográficas

LEMLE, MIRIAN. Guia Teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 2002.

LERNER, DELIA. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed, 2002.

WEISZ, TELMA. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. São Paulo: Ática, 2002.

*Keila Balbino é pedagoga, mestranda em Fonoaudiologia pela PUC-SP, na linha de pesquisa Linguagem e Subjetividade e Professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental da prefeitura de São Paulo.

 


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