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Coluna “Fonoaudiologia em Questão”
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Algumas considerações sobre a Fonoaudiologia

Lendo as publicações mais recentes no campo da Fonoaudiologia, vejo-me, subitamente, inundada por páginas e páginas de uma escrita que (me) reconheço como familiar: falam-me de questões que insistem, que retornam, que desestabilizam e que apontam para a urgência de ampliar-se debates entre os que se propõem a, corajosamente, enfrentar o desafio de fazer da Fonoaudiologia, a última ciência do século XX.  Já dizia eu, em outro momento, retomando as palavras de Althusser, que  uma disciplina é uma ciência particular de um objeto próprio, com uma teoria e uma técnica (método) que permitem o conhecimento e a transformação deste objeto em uma prática específica. Lembrava ainda que, além da circunscrição de um objeto, cabe à ciência dizer, alçando um sistema rigoroso de conceitos abstratos, como pensar, questionar, refletir e construir o espaço teórico que envolve este objeto.

Um ponto de partida interessante para pensar-se o objeto da Fonoaudiologia pode estar na definição do fazer do fonoaudiólogo, contida na  lei de 9 de dezembro de 1981, a saber: " o profissional ..., que atua em pesquisa, prevenção, avaliação e terapia fonoaudiológicas na área da comunicação oral e escrita, voz e audição, bem como em aperfeiçoamento dos padrões da fala e da voz ". Um olhar atento à esta definição traz à tona algumas questões centrais que vem sendo ignoradas quando o que está em cena é a divisão operada sobre a Fonoaudiologia pelo que se convencionou chamar de especialidades profissionais em audição, voz, fala e linguagem. Primeiro, além da violência advinda da imposição desta divisão há, ainda, uma multiplicação ilusória das faces que linguagem e audição, enquanto objetos teóricos, podem tomar. Reconhecemos todos e a história confirma que a fonoaudiologia é inaugurada pela fusão de dois campos de atuação profissional pré-existentes e anteriores à ela,  - a logopedia e a audiologia. À essa fusão, que inaugura a formação universitária do  fonoaudiólogo, não se deve, sob pena de incorrer-se em graves erros metodológicos, atribuir um outro sentido que o de uma relação de mera conveniência. O que quero dizer é que a absorção da audiologia e da logopedia pela Fonoaudiologia não afetou a autonomia de cada uma dessas áreas, sequer interferindo em seu estatuto de campos específicos de atuação profissional e, principalmente, de campos de saber independentes. Confusões na circunscrição dos limites entre os dois campos vem sendo geradas por equívocos na definição deste dois objetos que são tomados fora de sua articulação aos princípios teóricos que fundamentam a fonoaudiologia no que lhe dá singularidade: a sua dimensão clínica.  Penso que  uma forma de contribuir para a discussão  que os fonoaudiólogos se colocam seria propor um deslocamento do plano dos campos - profissional ou de saber - ou dos objetos - audição e linguagem - , para o dos princípios estruturais da clínica. Entretanto, não será uma coluna o lugar ideal para o enfrentamento deste desafio, cabendo-lhe o de seu lançamento.

Voltemos pois à questão primeira, qual seja a do estatuto científico da Fonoaudiologia que, nascida de práticas, (a) crescida de saberes, já não pode ignorar a eficácia de um fazer que pede teorização. Ultrapassado o tempo inicial em que foi assujeitada por dizeres outros vindos da Medicina, da Linguística e da Psicologia, vislumbra sua autonomia consequente à recusa dos fonoaudiólogos em reduzi-la a qualquer outro campo de conhecimento. Cabe à estes, por direito, tomar à frente a tarefa de questionar estas mesmas disciplinas, antes fundantes e determinantes, devolvendo-lhes o estatuto de lugares de interpelação. Neste segundo tempo, marcado pela identidade e pela maturidade, a Fonoaudiologia avança ao circunscrever um objeto, promovendo forte deslocamento em suas relações com as ditas especialidades. Arriscar-me-ei a afirmar que a eleição da linguagem patológica e sua clínica como o objeto de uma das faces da Fonoaudiologia - a chamada antes de Logopedia - é o disparador que tem motivado os pesquisadores ao enfrentamento da difícil tarefa de escrever a sua própria história.  De um entremeio de saberes que dão à luz a esta nova disciplina, eu diria que há uma filiação que, em sendo legitimada, poderá ser extremamente vantajosa. Seu nascimento tardio dá à Fonoaudiologia a possibilidade de afirmar mãe e pai nesta filiação, oficializando a união da linguagem em sua instância patológica com uma certa clínica, com a qual compartilha concepções, suporta crenças, vislumbra caminhos. Se à (psico) Lingüística pode ser conferida a maternidade, com certeza a paternidade deve ser atribuída à Psicanálise. Em síntese, desenvolver esta linha de reflexão quando o que está em pauta é o estatuto científico da Fonoaudiologia pode ser de grande valor heurístico.

Finalizando, reafirmaria que o enfrentamento da constituição da Fonoaudiologia como disciplina terapêutica impõe a  escolha de uma de duas direções, opostas entre si e, de certa forma, contraditórias:

1.interpretar linguagem como manifestação de um funcionamento alheio à si própria ou

2.interpretar linguagem como manifestação de seu próprio funcionamento.

Optando pela primeira remeterá ao orgânico, ao psicológico ou ao social, a explicação da etiopatogenia. Estabelece-se  então uma relação de causalidade linear, em que a doença diagnosticada lá, é tratada aqui. Eis a vocação escolhida: caberá a Fonoaudiologia o estatuto de disciplina TÉCNICA, envolvida com a elaboração e o desenvolvimento de formas de curar.

Optando pela segunda, circunscreve um objeto próprio e, ao fazê-lo, propõe-se a delimitá-lo e a compreendê-lo. A origem da doença de linguagem será buscada em seu funcionamento regido por leis que colocam em relação os elementos que a constituem. A relação de causalidade não é mais linear já que atravessada por processos discursivos. Com esta opção a vocação da Fonoaudiologia é outra: deve perseguir o estatuto de disciplina CIENTÍFICA, voltada para a construção de teorias sobre a patologia de linguagem e para a relação entre estas e outras teorias. Em última instância, para a construção de métodos clínicos direcionados à cura.

A escolha cabe à nós, suas consequências estão postas!


Profa. Dra. Regina Maria Ayres de Camargo Freire,
coordenadora da linha de pesquisa Linguagem e Subjetividade - PUCSP
freireregina@uol.com.br

 


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