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O FILME "A FAMÍLIA BÉLIER" E A PSICANÁLISE

O filme “A família Bélier”, de Eric Lartigau, conta o cotidiano e o trabalho no campo de uma família francesa surda e sua relação com o mundo ouvinte. Apenas um de seus membros é ouvinte, Paula, uma adolescente de 16 anos, a intérprete indispensável da família, trabalhando na fazenda e ajudando a vender, nos finais de semana, o queijo produzido por eles. Na escola, ela descobre a paixão pelo canto e terá que escolher entre continuar sendo a intérprete da família ou ir estudar canto em uma outra cidade. Pensando sobre as questões abordadas no filme e minha experiência no campo da surdez, acredito que mais do que abordar a existência de dois mundos diferentes e a problemática da comunicação entre eles, o filme nos fala sobre partidas e rupturas que acontecem ao longo da vida e a posição do sujeito diante delas. Apesar de falar também sobre as dificuldades dos surdos em um mundo ouvinte, Lartigau não explora o lado do sofrimento e da tragédia que pode ser a surdez. Ele vai além e nos apresenta a problemática das relações entre pais e filhos, independentemente da existência da surdez. A cultura e o jeito sincero e muito direto dos surdos é divertida, sacudindo e sensibilizando o espectador. O interessante é que a escolha feita por Paula é possível porque seu professor de música, um adulto, no lugar de Outro, descobre seu potencial para o canto e o legitima.

Em uma cena há uma inversão de lugares e o espectador é colocado no lugar dos surdos, impondo-lhe o silêncio precisamente na hora da apresentação de canto de Paula, na escola. De repente, ficamos tão surdos quanto a família que vai vê-la cantar. Nessa hora, a surpresa tomou conta de mim e pude experienciar, acredito que eu e outros espectadores, um pouco do que pode significar ouvir com os olhos. No que se refere à posição do sujeito, falada aqui anteriormente, penso que além de Paula, seu pai também experimenta outro lugar no mundo quando pretende se candidatar ao cargo de prefeito da cidade. O curioso é que a chamada de sua candidatura tem como slogan “eu escuto!”, mostrando que há surdez também entre os políticos, quando estes não querem saber do que a população lhes pede, apesar da surdez aí ser de outra ordem. O que ficou claro para mim, uma vez mais, é que mesmo na ausência de audição e de oralidade, o registro simbólico está presente no mundo/cultura surda e que os surdos se constituem como sujeitos falantes, sofrendo efeitos da fala, oral ou gestual, do Outro, fazendo escolhas e tendo que se haver com as consequências destas escolhas. Isso é possível porque na voz do Outro, em seus movimentos, toques, expressões faciais, captadas pelo surdo com o olhar, estão presentes as dimensões da enunciação e do endereçamento à ele, de algo que lhe transmite desejo, enigma e falta, naquilo que esse Outro não mostra e não diz. Há, portanto, independentemente da surdez orgânica, física e biológica, uma dimensão enunciativa do olhar do Outro que captura o surdo e o coloca em algum lugar dentro de seu discurso, fazendo-o passar de falado a falante, fazendo-o sujeito, de modo paralelo ao que acontece com os ouvintes.

Sofia Nery Liber é Psicóloga e Psicanalista, mestranda em Fonoaudiologia pela PUC-SP, na linha de pesquisa de Linguagem e Subjetividade

 


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