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Uma reflexão sobre atendimento em queixas escolares

Quando algo não vai bem na escola geralmente recorre-se a especialistas para responderem sobre a causa de um “desvio” de padrão, seja ele comportamental ou pedagógico. Encaminham-se, portanto, as crianças para diversos profissionais, dentre eles, o Psicólogo.

Em A Produção do Fracasso Escolar, Patto (1999), nos fornece diversos elementos referentes ao surgimento do fracasso nas escolas; um deles indica a tendência à psicologização das dificuldades de aprendizagem.

A observação de Patto continua atual, como foi possível observar em certas escolas que encaminharam crianças para atendimento em um departamento de Psicologia Escolar. Tais escolas indicaram um problema psicológico como causa para as dificuldades de aprendizagem de seus alunos.

Todavia, a perspectiva de intervenção nesse departamento contrapõe-se às práticas psicológicas adaptacionistas que não discutem os amplos aspectos envolvidos em queixas escolares.

Em atendimentos nesse contexto é preciso que o profissional escute não apenas a criança e sua família, mas também os outros atores envolvidos na queixa, porém não com o intuito de culpabilizá-los, e sim de oferecer um direcionamento ao desenvolvimento de estratégias para a superação das dificuldades escolares.

O projeto de pesquisa A Alfabetização e seus Avatares, do qual faço parte, adota esse mesmo procedimento de escutar a escola, por meio de um espaço de interlocução de professores de educação básica e pesquisadores. Um espaço de escuta e discussão de diversos temas educacionais que permite pensar as queixas escolares bem como sedimentar a interlocução com a instituição escolar.

Portanto, é preciso escutar a escola para compreender a dinâmica da instituição e a relação que o professor estabelece com o aluno e com suas dificuldades, sendo uma forma de analisar se há outros contingentes velados que podem favorecer para os problemas de escolarização.

Trabalhar nessa direção propõe ao Psicólogo e à escola pensarem sobre o caso de forma a abrirem mão de uma ação que tem como fim a adaptação do aluno às exigências escolares. Isso contribui para a construção de um trabalho em rede – a criança/adolescente, sua escola e sua família (SOUZA, 2007).

Inserir a escola é também uma maneira de intervir em questões educacionais que muitas vezes ficam intocadas como garantia da permanência de um domínio que “no caso da escola, tradicionalmente há o que ensina e o que aprende, o que sabe e o que não sabe, o que pensa e determina e o que age determinado” (PATTO, 1984, p. 198). Assim, muitas vezes a criança que chega para atendimento poderia ter sua demanda “resolvida” no próprio ambiente educacional. Mas, se as instituições escolares e profissionais atuarem sem reflexões trabalharão em favor de espaços de normatizações e produções de queixas escolares.

Por fim, não como detentor de um saber que resolveria a questão “ajustando” pessoas para manter padrões esperados, o Psicólogo, ao contrário, deve promover uma escuta dos diversos sentidos que podem estar atribuídos a um encaminhamento de queixa escolar.

 

REFERÊNCIAS

PATTO, M. H. S. A Produção do Fracasso Escolar: histórias de submissão e rebeldia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

_____________. Psicologia e Ideologia: uma introdução crítica à psicologia escolar. São Paulo: T. A. Queiroz, 1984.

SOUZA, B. de. P. Apresentando a Orientação à Queixa Escolar. In: Orientação à queixa escolar / Beatriz de Paula Souza (Org.). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

 

Manoela Piccirilli
manoelapiccirilli@hotmail.com
Psicóloga Clínica. Mestranda na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: Grupo de Pesquisa A Alfabetização e seus Avatares.

 

 

 


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