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Retardo de Linguagem: Questões Norteadoras

Chama atenção o número cada vez maior de crianças muito pequenas que chegam à clínica fonoaudiológica com queixa referente à fala. Elas chegam encaminhadas pela escola, pelo médico e, em alguns casos, por preocupação dos próprios pais. Cabe ao clinico conduzir sua escuta e tomar decisões que direcionam o processo terapêutico.

Os fonoaudiólogos devem refletir sobre a importância da fala dos pais ao enunciarem uma queixa de retardo de linguagem, atentando para o que eles consideram como sintomático na fala de seus filhos quando procuram a clínica fonoaudiológica – isto nos dá indícios sobre o que determinou o caminho que eles elegeram para conduzir o tratamento da criança; quais os sintomas apresentados pela criança; e de que maneira a escuta do fonoaudiólogo, que deve ser norteada por princípios teóricos e clínicos, pode determinar o encaminhamento dado a clínica. Para orientar este escrito convém circunscrever a definição do Retardo de Linguagem no campo da Fonoaudiologia. O Retardo de Linguagem é uma categoria nosológica que abriga manifestações lingüísticas heterogêneas. Sua definição no campo da Fonoaudiologia é bastante controversa, uma vez que, nesta área, como assinala Arantes (2001), as categorias nosológicas são, via de regra, definidas a partir do substrato orgânico que supostamente determina uma alteração de linguagem, tais como as afasias, as fissuras palatinas, a surdez, a paralisia cerebral, entre outras. O Retardo de Linguagem é, nesse sentido, uma exceção, pois suas causas não são atestáveis, o que faz com que ele se torne um quadro patológico cuja definição é pouco precisa. Autores como Ajuriaguerra (1983) - que aposta na presença de alterações perceptuais reconhece que o Retardo de Linguagem é um "Distúrbio de etiologia diversa e mal definida".

Cabe destacar que se trata de uma categoria ampla que inclui crianças de diferentes faixas etárias que não falam ou que apresentam um desenvolvimento peculiar de linguagem, até crianças muito pequenas que chegam à clínica e cujo diagnóstico envolve a difícil distinção entre normal e patológico (ARANTES, 2001; ANDRADE, 2006). Em uma leitura preliminar de trabalhos que versam sobre o tema do Retardo de Linguagem é possível constatar que não há uma abordagem teórica consistente que permita discernir o que caracteriza como patológicos determinados acontecimentos lingüísticos.

Um ponto complexo para a clínica são os casos de crianças pequenas cujo diagnóstico envolve avaliar a presença, ou não, de uma condição patológica. Durante o processo de estruturação da linguagem é possível observar rotas distintas, isto é, existem ritmos e estilos diferentes: há crianças que começam a falar mais tarde, mas que não necessariamente desenvolvem um quadro patológico. Muitas destas crianças pertencem à classe dos chamados falantes tardios: são crianças que começam a falar tardiamente, mas que alcançam um desenvolvimento de linguagem normal sem a necessidade de intervenção clínica. Porém, grande parte destas crianças denominadas “falantes tardios” (em torno de cinqüenta por cento) desenvolverão um quadro de retardo de linguagem e necessitarão de intervenção fonoaudiológica.

Rubino (2000) aponta que do ponto de vista clínico, a existência dos falantes tardios dificulta a decisão diagnóstica, pois é muito complexo distinguir aquilo que é uma variação individual do processo de aquisição da linguagem, daquilo que se configura como uma patologia de linguagem.

Para alguns autores (Lier-De VItto & Arantes,1998; Rubino, 2000) é necessário teorizar sobre a especificidade da fala da criança, mas segundo as autoras, isso implica necessariamente refletir sobre o papel do outro, e sobre os efeitos que esta fala produz em sua escuta, seja na escuta dos pais, ou na do próprio terapeuta, ou seja, no processo implicado quanto à posição que o clinico ocupa, pois ele precisa ter escuta para fala do paciente e fazê-lo ter escuta para sua própria fala.

A partir do que foi exposto, é possível observar a densidade das questões envolvidas nos casos de Retardo de Linguagem, questões relativas à sua origem, à distinção normal versus patológico, e, especialmente, uma reflexão sobre a linguagem. Todas essas questões se refletem diretamente no modo de se encaminhar a clínica, pois é a partir da posição do clínico frente a elas que decisões serão tomadas. Apostar num déficit orgânico pode justificar o atendimento indiscriminado de todos os casos que chegam à clínica, sem considerar a complexidade neles envolvida. Já a naturalização da distinção normal/patológico imposta por esses casos, pode significar assumir o atendimento de uma criança apenas levando em consideração a queixa da mãe. Não empreender uma reflexão sobre a linguagem, sobre o modo de presença do sujeito na linguagem, e desconsiderar assim a relação estreita entre estruturação da linguagem e estruturação subjetiva faz com que as questões como aquelas envolvidas no encaminhamento dos casos que apresentei acima sequer sejam consideradas. Nesse caso, corre-se o risco de não se discriminar os limites da clínica de linguagem.

Avalio que os aspectos apontados são relevantes e de grande importância para uma reflexão sobre a clínica de linguagem e sobre o papel do terapeuta neste espaço.
Considero, também, a importância de se discutir sobre o papel fundamental dos pais no processo de aquisição da linguagem; assim, é importante focalizar o olhar e abrir a escuta para o que eles dizem e, não somente para a criança sobre a qual eles se queixam. É necessário tentar entrever qual o entendimento que eles têm quanto à linguagem de seus filhos, a fim de assumir uma perspectiva que permita pensar um modo de incluí-los no tratamento. O foco incide, portanto, sobre a fala dos pais na clinica de linguagem, mas sem desconsiderar que a fala destes é determinada pelo modo de presença do terapeuta. Em cena esta a problemática das possíveis relações entre o entendimento dos pais quanto à linguagem de seus filhos e o modo como lidam com a fala deles, isto é, como escutam a criança, quais as hipóteses sobre as dificuldades da criança e como elegem o profissional que deveria conduzir o tratamento. Acredito que o eixo central nesta vertente é discutir como é a escuta do clínico para a fala desses pais, articulada à escuta para a fala da criança, pois parte-se da hipótese de que são estas escutas determinam o manejo clínico. Cabe ao clínico ter uma escuta particular para o que se presentifica na fala dos pais é diferente do que estes consideram como sintomático na fala de seus filhos. A partir dessas falas e de determinados princípios teóricos, o clinico tomará decisões pautadas na singularidade de cada caso.

Treyce R. C. V De Lucca

P.S: O presente texto é um trecho adaptado do trabalho de conclusão de curso em Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), intitulado “Entrevistas na Clínica de Linguagem: sobre as relações entre queixa e demanda nos casos de Retardo de Linguagem” de minha autoria, sob orientação da Dra. Lúcia Arantes.


Referências Bibliográficas

AJURIAGUERRA, J. Manual de psiquiatria infantil. (tradução) GERALDES P, ALVES, S. São Paulo: Masson, 1983.
ANDRADE, L. Procedimentos de avaliação de linguagem na clínica fonoaudiológica: entre o singular e o universal. In M. F. Lier-De Vitto & L. Arantes (Orgs.), Aquisição, patologias e clínica de linguagem, 2006 (pp.349-359). São Paulo: EDUC-PUCSP.ARANTES L. Diagnóstico e Clinica de Linguagem. Tese de Doutorado. LAEL PUC-SP, 2001.
____ Impasses na distinção entre produções desviantes sintomáticas e não sintomáticas. In: LIER-DE VITTO MF, ARANTES L (orgs.). Aquisição, Patologias e Clínica de Linguagem. São Paulo: EDUC, 2006. Pg. 219 – 226.
LIER-DE VITTO, MF, ARANTES, L. Sobre os efeitos da fala da criança: da heterogeneidade desses efeitos. Letras de Hoje, v. 33, n. 2.1998.
RUBINO, R. “Os falantes tardios como uma categoria limite entre a normalidade e a patologia”. In: Anais do 5o. Encontro Nacional sobre Aquisição da Linguagem e 1o. Encontro Internacional sobre Aquisição da Linguagem. Porto Alegre, 2000.

 

 


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