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A questão da estrutura clínica em Fonoaudiologia

Permitam-me questionar, mais uma vez, a estrutura clínica fonoaudiológica, no sentido de um discurso de retomada que desdobra, como campo e função dos sintomas de linguagem, o avesso do que tradicionalmente se professa na Fonoaudiologia enquanto direção da cura. Trata-se de um discurso que opera a partir de um conjunto de pressupostos que coloca o objeto da Fonoaudiologia -  no campo dos sintomas de linguagem e na função clínica.

De modo que lê a audição, a voz e a motricidade orofacial como gradientes da linguagem e não como objetos autônomos e distintos. Partimos da hipótese que a estrutura clínica em Fonoaudiologia é composta por quatro relações ou elementos que se articulam pelas operações semiológicas, etiológicas, diagnósticas que direcionam à cura e ao tratamento. Desse modo, a semiologia, já proposta em dois trabalhos (Gouvêa, 2007; Gouvêa, Freire e Dunker, 2011), baseia-se na hipótese de que as patologias de linguagem estariam ligadas aos efeitos da sanção entre os falantes, pois argumentamos que qualquer pessoa ou, virtualmente, qualquer aparelho ideológico que faz uso da língua, derroga o seu emprego formal ou normativo , segregando ou habilitando o falante.

Desse modo, os sintomas de linguagem pertenceriam a uma estrutura de múltiplos estratos – escrita, língua e fala – cortados por outros três – sujeito, Outro e intersubjetividade – de forma que, sobre cada estrato, operaria uma lógica diferente de leitura. Assim, o estrato da escrita seria operado pela lógica da letra, o estrato da língua, pela lógica do signo e o da fala, pela lógica do significante. O estrato do sujeito seria regulado pela lógica do desejo e da demanda, o do Outro pela lei e, no plano da intersubjetividade, a lógica do ato de fala dirigido à alguém seria o operador. 

Deste modo, cada estrato representaria um tipo de estrutura que comporta sistemas de valores distintos, isto é, compostos por princípios distintos e reduzidos a uma única hipótese: de que são efeitos do falante e da sanção do Outro. No que diz respeito ao aspecto espacial da linguagem teríamos as figuras da retórica: metáfora e metonímia. No espaço temporal, a figura do atemporal, não cronológico.

A etiologia na Fonoaudiologia pode ser redimensionada a partir de uma proposição muito utilizada na ciência e na clínica que seria inferir a causa a partir dos efeitos, no paradigma não monista e reducionista da linguagem.  

O diagnóstico fonoaudiológico terá como direção, a não importação da medicina, da psicologia, da psicanálise, enfim, de qualquer outra clínica, mas um modo de subversão da própria prática e do lugar da leitura diagnóstica na clínica fonoaudiológica. Se, por exemplo, a dislexia vem da medicina, a fobia à escrita vem da psicanálise, a disortografia da psicomotricidade, interrogamos: o que é este diagnóstico para a Fonoaudiologia e como ele se articularia à semiologia, a etiologia e a terapêutica? Refutamos de início a hipótese de utilizarmos o CID-10 ou o DSM-IV para se falar de diagnóstico em Fonoaudiologia; as razões para não cairmos nas classificações médicas ou psicológicas advém da premissa que, nestes manuais, as explicações sobre o aparelho de linguagem não são tomadas como ponto de partida.

A nosso ver os diagnósticos de linguagem só podem ser dados por nós, fonoaudiólogos  e, ao nos mantermos no equivoco da importação do CID-10 e do DSM-IV, argumentamos que não somos os profissionais qualificados para realizar o ato diagnóstico. Consequentemente, perderíamos não só a diagnóstica como também os outros dois pilares da clínica: a etiologia e a semiologia, que são fundantes da diagnóstica. Assim, como poderíamos falar de clínica fonoaudiológica?

Poderíamos nos incluir como um ramo da medicina ocupada com as técnicas de habilitação e reabilitação da comunicação humana e apoiar o ato médico?  A chave de entendimento da diagnóstica fonoaudiológica poderia ser lida pelo modelo da multiestratificação estrutural dos sintomas de linguagem. Não que nos pareça uma tarefa fácil reverter a lógica diagnóstica na área fonoaudiológica, mas trata-se de um demanda da ordem do necessário. Não queremos com isso fazer do diagnóstico um juizado de pequenas causas, mas estruturar as bases, propor princípios básicos e próprios à clínica fonoaudiológica, que fortaleçam o poder diagnóstico fonoaudiológico e direcionem à cura pela palavra.

Gisele Gouvêa
Doutoranda em Fonoaudiologia, bolsista CAPES/INEP
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