Linguagem e Subjetividade
Página Inicial
Linguagem e Subjetividade
Linguagem e Subjetividade
Banco de Dados de Fala e Escrita
Banco de Dados de Fala e Escrita
Cadastro para acesso ao banco de dados
Alfabetização e Seus Avatares
Laboratório de Observação de Linguagem
Parcerias
Eventos
Coluna “Fonoaudiologia em Questão”
biblioteca_novo
Links
Contato


   

Página inicial >Coluna "Fonoaudiologia em Questão"

LINGUAGEM E SUBJETIVIDADE: SOBRE A NATUREZA DESTA RELAÇÃO


Um cenário clínico, seja ele qual for, se estrutura a partir de paradigmas teórico-metodológicos distintos, o que imprime à prática clínica um caráter heterogêneo, isto é, o manejo do tratamento não é padronizável. Nesta coluna, em que a clínica fonoaudiológica está em cena, pretendo abordar a relação do clínico frente à linguagem sintomática a partir de uma perspectiva que enlace/articule linguagem e subjetividade. É nesta mesma direção que o Grupo de Pesquisa Linguagem e Subjetividade, coordenado pela Profa. Dra. Regina Maria Freire, vem desenvolvendo seus trabalhos.

As pesquisas nascentes deste Grupo de Pesquisa caminham numa direção diametralmente distinta a uma concepção de estimulação, ensino e (re) aprendizagem da linguagem. O abandono de uma proposta desta natureza deve-se ao cuidado do clínico em escutar, para além da fala sintomática, o sofrimento de um sujeito por sua condição de falante. Do lado do paciente, essa escuta lhe permite dizer do incômodo provocado por sua fala – o paciente ganha, assim, vez e voz (Fonseca, 2002); quanto ao clínico, sua escuta deixa de ser dirigida ou pré-determinada a partir de uma queixa... questões etiológicas perdem peso nesta clínica na medida em que o fonoaudiólogo se respalda em uma teorização sobre a linguagem que admite a “ordem própria/autônoma da língua” (Saussure, 1916). Dito de outro modo: as dificuldades de linguagem, habitualmente lidas como decorrentes de alterações perceptuais/discriminatórias ou articulatórias (Andrade, 2003; 2006), passam a ser pensadas a partir das relações do sujeito com a língua e com o outro (De Lemos, 2002, 2005, entre outros).

A que se deve essa possibilidade de escuta que se tem aqui defendido?
Pode-se dizer que a um determinado assentamento teórico que se permite tocar por questões movimentadas no interior da prática clínica – questões de natureza subjetiva que, portanto, dão visibilidade ao heterogêneo, à Fonoaudiologia que tramita por uma clínica que articula a objetividade teórica e os efeitos singulares provocados por um caso. Neste cenário, essa clínica preconiza que o singular afete o previsível/o todo de uma teoria, o que leva o clínico a reconhecer que o seu saber é incompleto/não todo (Carvalho,1995) diante do efeito de deriva da língua (Milner, 1987).

Dessa forma, manuais e procedimentos objetivos de avaliação ou terapêutica da linguagem perdem sua serventia... eles são restritos à medida que ora permitem o levantamento dos “erros” na fala sob a referência da gramática da língua; ora, apagam a relação dialógica entre o paciente e o terapeuta, deixando a linguagem à margem. A experiência clínica me tem indicado que a determinação dos “erros” e as tentativas de implementar formas padrões de fala dirigidas à percepção ou ajustes articulatórios não são garantia de sucesso terapêutico. Ao contrário, abrir as portas da clínica para que o sujeito sinta-se acolhido e possa reelaborar questões relativas ao seu sintoma frente às relações que entretêm com o outro, podem, sim, sinalizar uma direção possível para mudanças de posição do sujeito diante de sua fala. Mudanças que afetam, impreterivelmente, a subjetividade. Sob essa perspectiva, a “condução do tratamento há de ser precisa: há que se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado sentir-se “bem na própria pele” (Forbes, 2003).

Os segmentos clínicos a seguir, ilustram as discussões que levantei:
a) “Agora falando assim, sem gaguejar, me sinto um homem de verdade”;
b) “Com o trabalho de fono, passei a confiar mais em mim quando estou no palco. Antes eu tinha receio, parece que a voz saía fraca e eu não olhava direito pras pessoas. Hoje encaro bem a platéia”.
c) “Eu não erro mais o /r/, falo muito bem agora, né tia? Sabe que o João, da minha sala, ainda me chama de Andlé? Eu acho que ia ser bom ele também fazer fono pra falar bem igual eu”.
d) “Depois que comecei a fazer fono minha professora disse que eu tô melhorando... e é verdade. Eu gosto de ler e não fico mais lendo devagar igual bebezinho”.
e) “Eu falava igual o Pato Donald´s e o pessoal ria de mim. Hoje em dia, quem não me conhecia antes, nem imagina que eu falava mal. Chegaram até me confundir com mulher ao telefone, me chamavam de senhora. Hoje estou muito diferente, nem tenho mais motivo pra me afastar das pessoas”.

Meu intuito, ao apresentar os segmentos acima, foi indicar a indissociável imbricação entre linguagem e subjetividade. A relação à fala, na clínica fonoaudiológica, não pode passar ao largo de uma discussão sobre o sujeito e ao modo como ele se relaciona com o seu sintoma. Sem esse cuidado – esse espaço para o singular - muitos casos de fracassos clínicos podem ser, a meu ver, justificados.


Cláudia Fernanda Pollonio
Mestre em Fonoaudiologia e doutoranda em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP).

ANDRADE, L. (2003). Ouvir e Escutar na Constituição da Clínica de Linguagem. Tese de doutorado. São Paulo, Lael-PUC.
___________. (2006). “Captação” ou “captura” – considerações sobre a relação do sujeito à fala. In: Aquisição, Patologia e Clínica de Linguagem.
Orgs: Maria Francisca Lier-De Vitto; Lúcia Arantes. São Paulo: EDUC, FAPESP, pp. 201-218.
DE LEMOS, C.T.G. (1995). Corpo e linguagem. In: Corpo-mente: uma fronteira móvel. Org: Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho. Casa do Psicólogo. 1ª ed, pp. 235-247.
______________. (2002). Das vicissitudes da fala da criança e de sua investigação. In: Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, n. 42, pp.41-69.
FONSECA, C. da. (2002). O afásico na Clínica de Linguagem. Tese de doutorado. São Paulo, Lael-PUC.
FORBES, J. (2003). Você quer o que deseja? Ed. Best Seller.
MILNER, J. C. (1978). O amor da língua. Porto Alegre. Artes Médicas Editora.1987.
SAUSSURE, F. de (1916). Curso de Linguística Geral. Org. Charles Bally e Albert Sechehaye. Colaboração: Albert Riedlinger. São Paulo: Cultrix,1971.

 


Autor Data Título
Silze Costa 04-2017 A intervenção psicanalitica na clínica com bebês
Keila Balbino 10-2016 Como o filme “Quando tudo começa” colabora com a reflexão sobre a gestão escolar na escola pública
Ivana Corrêa Tavares Oliveira 09-2016 A interlocução saúde e educação e a inclusão de estudantes com deficiência no ensino regular
Keila Balbino 07-2016 Como o filme “Quando tudo começa” colabora com a reflexão sobre a gestão escolar na escola pública
Janaina Venezian 04-2016 Deve-se trabalhar com leitura e escrita na educação infantil?
Amanda Monteiro Magrini 03-2016 A inclusão dos AASI na rotina dos professores na educação especial
Bruna de Souza Diógenes 12-2015 Programa de Estudos Pós-graduados em Fonoaudiologia da PUC-SP: análise da produção de quatro décadas
Profa. Dra. Regina Maria Ayres de Camargo Freire 11-2015 Algumas considerações sobre a Fonoaudiologia
Ivana Corrêa Tavares Oliveira 10-2015 O projeto Jogos da Cultura Popular como ferramenta de Inclusão
Keila Balbino 09-2015 O papel do professor no momento da alfabetização
Ezequiel Chassungo Lupassa 08-2015 O Marco Histórico da Alfabetização no Brasil
Adriana Gaião Martins 07-2015 O lúdico e a aprendizagem: Um recorte teórico
Janaina Venezian 06-2015 Educação impossível
Gisele Gouvêa da Silva 05-2015 O retorno à Demóstenes
Sofia Nery Liber 04-2015 O Filme "A Família Bélier" e a Psicanálise
Ivana Corrêa Tavares Oliveira, Sofia Lieber, Keila Balbino, Regina Freire 03-2015 “Contribuições da legislação para mudanças políticas na educação inclusiva no atual cenário educacional brasileiro”
Bruna de Souza Diógenes 01-2015 O Trabalho Grupal: Vislumbrando novos olhares/fazeres no processo de alfabetização
Michele Picanço do Carmo 12-2014 Leitura e movimentos oculares
Sofia Nery Lieber 11-2014 Linguagem e subjetivação: sobre a natureza dessa relação
Bruna de Souza Diógenes 10-2014 Indicadores de Risco para os sintomas de linguagem: Interface Fonoaudiologia e Saúde Pública
Dayane Lotti e Adriana Gaião 09-2014 A leitura: cotidiana e motivacional
Ezequiel Lupassa 08-2014 Manifestações dos Distúrbios de Linguagem e da Aprendizagem
Regina Freire 07-2014 1ª Jornada Fonoaudiologia, Educação e Psicanálise
Juliana Mori 06-2014 Uma experiência na inclusão escolar de pessoas com autismo
Silvana Soares 05-2014 Mudanças na formação do professor: efeitos sobre a educação infantil e as séries iniciais
Manoela Piccirilli 04-2014 Uma reflexão sobre queixas escolares
Janaina Venezian 03-2014 Educação Infantil e Fonoaudiologia
Sofia Nery  Lieber 12-2013 A voz não se confunde com o som

Dayane Lotti, Isabela Leito Concílio

10-2013 Serviço de Apoio Pedagógico Especializado (SAPE): reflexões acerca da Sala de Recursos a partir de uma experiência em uma escola da rede pública da zona norte do Estado de São Paulo
Cinthia Ferreira Gonçalves 09-2013 A posição do aprendiz no discurso dos professores.
Keila Balbino 08-2013 Aluno: sujeito com conhecimentos que devem ser considerados no processo de alfabetização.
Vera Ralin 05-2013 Aparatos tecnológicos em questão
Ivana Tavares 04-2013 A escrita como sistema de representação.
Gisele Gouveia 03-2013 Semiologia Fonoaudiológica: os efeitos da sanção sobre o falante, a língua e ao outro
Dayane Lotti; Isabela Leite Concílio 11-2012 Queixa escolar e seus fenômenos multideterminados
Alcilene F. F. Botelho, Eliana Campos, Enéias Ferreira, Maria Elisabete de Lima 10-2012 Alfabetização e letramento
Wladimir Alberti Pascoal de Lima Damasceno 08-2012 A Clínica da Gagueira
Cinthia Ferreira Gonçalves 06-2012 A Análise de Discurso e a Fonoaudiologia: possibilidades de um diálogo
Manoela de S. S. Piccirill 04-2012 A Inibição na Produção da Escrita
Regina Maria Ayres de Camargo Freire 03-2012 Uma segunda língua, para quem?
Manoela de S. S. Piccirilli 01-2012 A Inibição na Produção da Escrita
Juliana Mori 12-2011 A escola e o bebê: é possível educar?
Gisele Gouvêa 11-2011 A questão da estrutura clínica em Fonoaudiologia
Christiana Martin 10-2011 Inclusão Escolar
Treyce R. C. V De Lucca 09-2011 Retardo de Linguagem: Questões Norteadoras
Kivia Santos Nunes 08-2011 O Silência e a Clínica Fonoaudiológica
Vera Lúcia de Oliveira Ralin 06-2011 Atuação fonoaudiológica na Educação - Um fazer possível
Cláudia Fernanda Pollonio 04-2011 Linguagem e Subjetividade: Sobre a natureza desta relação
Juliana Cristina Alves de Andrade 03-2011 O Sujeito e a Linguagem
Regina Maria Freire 12-2010 A Alfabetização e seus Avatares – CAPES/INEP
Giuliana Bonucci Castellano 11-2010 Prancha de Comunicação Suplementar e/ou Alternativa: o uso do diário como possibilidade de escolha dos símbolos gráficos
Beatriz Pires Reis 10-2010 Demanda para perturbações de Leitura e Escrita, há um aumento real?
Fabiana Gonçalves Cipriano 08-2010 Sintomas vocais em trabalhadores sob o paradigma da Saúde do Trabalhador
Vera Lúcia de Oliveira Ralin. 06-2010 Atuação Fonoaudiológica na Educação – Um fazer possível
Maria Rosirene Lima Pereira 04-2010 A clínica fonoaudiológica e o reconhecimento do falante
Hedilamar Bortolotto 03-2010 Transtornos Invasivos do Desenvolvimento: a clínica fonoaudiológica em questão
Fábia Regina Evangelista 01-2010 Indicadores Clínicos de Risco Para a Fonoaudiologia
Gisele Gouvêa 09-2009 Coluna "Fonoaudiologia em Questão"
Cláudia Fernanda Pollonio 08-2009 A clínica fonoaudiológica: sua relação de escuta à fala
Apresentação da Coluna 06-2009 Coluna "Fonoaudiologia em Questão"


 
 
 
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Desenvolvido por DTI- Núcleo de Mídias Digitais