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Transtornos Invasivos do Desenvolvimento: a clínica fonoaudiológica em questão

Na clínica fonoaudiológica que atua junto a sujeitos com diagnósticos médicos de TID ((Transtorno Invasivo do Desenvolvimento) é possível verificar uma prática voltada para as descrições comportamentais e de comunicação que respondem as avaliações da clínica médica-diagnóstica(1). Tais avaliações seguem muitas vezes escalas objetivas e, não propõem questionamentos quanto a caminhos possíveis de atuação na clínica fonoaudiológica de linguagem. É ainda importante considerar que o diagnóstico médico de TID não traz a si alienado de forma causal e linear, um conjunto de características de fala e linguagem que seja homogêneo e generalizante, mas sugere uma diversidade de sintomas sem um exame sobre as particularidades de fala. Tratando-se de sujeitos da e na linguagem, não se deveria interrogar sobre a relação que o sujeito com TID tem com a sua palavra? A linguagem, sob esse ponto de vista, ultrapassa a noção de comunicação, ou lugar da “falta/falha” para ser consertado, por este motivo, é interessante discutir a linguagem para além de um meio de comunicação, contemplando-a como o lugar onde sujeito e sentido se constituem. A partir dos trabalhos iniciados e desenvolvidos pela Linha de Pesquisa de Linguagem e Subjetividade orientados pela Profa. Dra Regina Freire, buscou-se delimitar a linguagem em sua dimensão sintomática-clínica como objeto da Fonoaudiologia, estabelecendo a semiologia, etiologia, diagnóstica e terapêutica específicas a esta clínica(2,3). Fundamentada nestes trabalhos, minha prática clínica junto a sujeitos com diagnóstico médico de Autismo, Síndrome de X Frágil e outros Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, privilegia um olhar que se afasta da noção de causalidade entre a etiologia médica e as particularidades de linguagem. A avaliação fonoaudiológica detém-se, portanto, nos modos de funcionamento da linguagem específicos a cada sujeito, identificando os sintomas de linguagem que se articulam por meio dos eixos multiestratificados: a língua, fala e a escrita enquanto letra fundante de um sujeito(4), articuladas aos eixos metafórico e metonímico, do sujeito e do Outro(5). O foco escolhido volta-se para a entrada ou a recusa do falante no funcionamento relativamente autônomo da língua, sustentando-se na dialogia, ou seja, na relação do falante e Outro, respeitando a sobredeterminação dos sintomas de linguagem, considerando-se que o entrelaçamento da língua, fala e escrita (corpo) sobre o sujeito, o outro e a intersubjetividade marcariam a singularidade de cada caso de patologia de linguagem(6).  Os trabalhos em desenvolvimento privilegiam um olhar nos efeitos da sanção sobre a causalidade e a reversibilidade dos sintomas de linguagem(7).

Referências Bibliográficas
1- Gadia CA, Tuchman R, Rotta, NT. Autismo e doenças invasivas do desenvolvimento. J. Pediatr. (Rio J), Porto Alegre, v. 80, n. 2 (supl), 2004.
2- Freire RM. Sobre o objeto da fonoaudiologia. Texto apresentado no II seminário introdutório promovido pela Faculdade de Fonoaudiologia da PUC-SP, 1996.
3- Freire RM. A fundação da clínica fonoaudiológica. Trabalho inédito apresentado no 9o. Congresso de Fonoaudiologia de Guarapari, 2002.
4- Lacan J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, [1966]1998.
5- Silva GG. Por uma multiestratificação estrutural dos sintomas de linguagem. Dissertação (Mestrado) – PEPG em Fonoaudiologia, PUCSP. São Paulo. São Paulo, 2007.
5- Bortolotto H. Linguagem e Subjetividade: estudo de caso de uma criança com Síndrome de X Frágil. Dissertação (Mestrado) – PEPG em Fonoaudiologia, PUCSP. São Paulo. São Paulo, 2008.
6- 3- Gouvêa G, Freire RM, Dunker C. Sanção em Fonoaudiologia, um modelo para organização dos sintomas de linguagem. 2009, no prelo.

Hedilamar Bortolotto

 


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