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Mesma grafia, línguas diferentes

Bruno Dallari
Prof. do Departamento de Lingüística
brunodallari@uol.com.br

Por que instituir uma grafia comum para línguas diferentes? As razões apresentadas são frágeis e não justificam o desconforto que a mudança vai causar. É ainda tempo de suspender a implantação do projeto de unificação ortográfica do português. A reforma foi aprovada em 1990, como acordo firmado entre os países-membros da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas, por bons motivos, não foi até agora implementada por nenhum dos signatários. O assunto vem sendo veiculado - mas não propriamente debatido - na mídia brasileira.

A noção genérica de que, de tempos em tempos, é preciso “atualizar” as regras ortográficas faz com que mesmo aqueles que manifestam uma certa contrariedade com a reforma a assumam como um mal necessário. E permite que os defensores da reforma impinjam a seus oponentes a pecha de “conservadores”.

Pode até ser que haja razões para que se proceda a uma reforma ortográfica do português brasileiro. Mas não nos termos em que está sendo proposta. E, sobretudo, não a fazendo conjuntamente com Portugal, na presunção de que se trate da mesma língua e conferindo a ela um caráter geopolítico.

O português brasileiro (PB) e o português europeu (PE), como são denominados pelos lingüistas, estão em vias de se tornarem línguas diferentes. Como se trata de processos de longo prazo, com a duração de alguns séculos, é difícil dizer exatamente em que momento uma língua passa a ser duas ou mais, no curso de sua dispersão. Já são notáveis, no entanto, os sinais da separação entre PB e PE. Diferenças fonéticas, sintáticas e lexicais vêm constituindo um agregado de modificações que já caracterizam a emergência de duas novas línguas, um processo que não se confunde com a irrupção eventual de elementos peculiares, regionais ou sociais, em uma única língua.

Em poucos segundos, o leitor de um livro ou jornal qualquer, identifica se está diante de uma edição brasileira ou portuguesa - e, não raro, se depara com dificuldades de entendimento. Não se trata apenas de uma variante regional - note que o mesmo não acontece com edições de lugares diferentes do Brasil, entre as quais as diferenças incidem sobre aspectos dispersos e ocasionais.

Mesmo assim, a semelhança da escrita não é um índice preciso da identidade entre duas línguas, já que a padronização homogeniza a produção lingüística de falares diferentes, apagando suas diferenças. A avaliação do grau real de distinção entre duas línguas requer que se passe do mundo da escrita ao reino da fala. É a oralidade que corresponde à realidade fundamental da existência e da identidade de uma língua e ao seu reconhecimento como tal pelos seus próprios falantes.

No caso do português, quanto mais nos afastamos dos registros formais, como o acadêmico ou jurídico, diretamente pautados pela escrita normatizada, e nos voltamos para as variantes populares, mais os falares brasileiros e os falares lusitanos se revelam incompreensíveis entre si, não atendendo ao critério da mútua inteligibilidade, um critério pedestre, mas internacionalmente adotado para identificar uma língua como tal a partir da comparação de diversos falares.

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