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FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. (Org.). A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. 6. ed. Campinas, SP: Papirus, 2004 (1995). 159 p.

A Transformação:
os nós, os fios, as cores e o tecido

A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento, editado pela Papirus, na sua 6ª edição em 2004, é uma produção em que Ivani Catarina Arantes Fazenda, juntamente com os seus parceiros, busca ampliar horizontes em relação à pesquisa educacional. Esses pares, companheiros pesquisadores de longa data são por ela mencionados, singela, mas carinhosamente. Cada um, dentro de sua especificidade traz a síntese de suas pesquisas e a nós, cabe a ousadia de abstrairmos a essência dessas investigações. Uma imersão profunda no contexto aprazível que emana da pesquisa interdisciplinar. Através dessa obra, busca-se a soltura das amarras arcaicas de se fazer pesquisa e de formar pesquisadores, impregnadas nas formas e nos modos de conhecer da Academia e de muitos estudiosos. Amarras essas, envoltas de nós tão fortes, que somente a reflexão e a transformação do conhecimento são capazes de desatar. Iniciemos, pois, o desapertar desses nós!
O primeiro texto é de sua autoria – Sobre a Arte e a Estética do ato de Pesquisar na Educação. Fazenda relaciona a arte e a estética no contexto da pesquisa, o que exige uma certa “liberdade” para que os limites convencionais – aqueles que a grande maioria dos pesquisadores utiliza - possam ser transgredidos, quando lidamos com a cientificidade, ou quaisquer outras ações.
A pesquisa, quando realizada em sua inteireza, tem dessas coisas; tem desejo/medo de se deparar com o novo; tem objetividade/subjetividade; os olhares do “eu”, do “outro” e dos “parceiros teóricos”; tem ação/espera; razão/emoção; homogeneidade/heterogeneidade... tem beleza, tem arte e a nossa “cara”. É o espelho que reflete a imagem do pesquisador. Isso indica que a pesquisa pode ser exercida por todos que quiserem habitá-la, experienciá-la, pois a marca de cada sujeito e de cada temática não somem diante do “todo maior”; pelo contrário, a unicidade dessa marca abrilhanta e auxilia na composição da totalidade.
A autora, no momento em que reflete sobre essa mistura de desejos/sentimentos/ações pelas quais passam os pesquisadores, menciona, também, a importância de seu olhar de orientadora, que assume o papel de um observador – do outro lado – para tornar visível o que nem sempre é visto por quem está imerso na pesquisa. É uma leitura primordial, pois lê nas entrelinhas e vislumbra para a vida e para a prática de cada um de seus orientandos/as, as possibilidades que se apresentam em um plano maior – para o amanhã. Essa pesquisa, denominada interdisciplinar, tem como “nascedouro” a escola, que “gesta” numa “prenhez” constante, as formas de humanização, através da educação. Através da educação, o “afrouxamento” dos fios se inicia.
A Formação do Professor e Pedagogia crítica é a obra trazida por Lucíola Licinio de C. P. Santos. Essa produção revela os aspectos que subsidiaram/subsidiam a formação do professor, ao estabelecer relações sobre esse pensar na década de 1980 e na atualidade, com a inclusão da criticidade no contexto pedagógico.
Nessa perspectiva, sinaliza que na referida década, a formação do professor era pensada acerca de seus compromissos e dos papéis que deveria assumir, porém, sem instrumentalizá-lo para tais questões. Ao direcionarmos olhares mais contemporâneos sobre essa temática, percebemos que esta é pensada com base nos aspectos pessoais, intelectivos e coletivos que cingem a totalidade desse “ser professor”, imerso nessa sociedade em pleno ato de metamorfose.
Sob essa ótica, Santos apresenta sete fundamentos que balizam essa “nova” concepção. São questões bastante relevantes que delineiam esse caminhar, sempre “continuum”. Isso, por sua vez, exigirá pesquisa/ação/reflexão/ação para nos libertarmos das amarras de nossa formação. É necessário um mergulhar profundo no “eu” mais íntimo para se renovar, emergir e, com os “outros”, perceber-se novamente uma parte que compõe o todo. Um dos fios é puxado!
António Nóvoa, em Diz-me como ensinas, dir-te-ei quem és e vice-versa, inicia com uma epígrafe de rara beleza e magia. Esta referenda os movimentos do dia e da noite, como sendo ondulares/sinusoidais, “seios”, em que a vitalidade da vida se fecunda; portanto, se renova. O autor a utiliza para mencionar a formação dos professores e divide a sua produção em duas partes, na busca de pensar o professor e a sua formação, bem como interrogar acerca da pessoa/profissional existente em cada professor.
Enfatiza que o título desse texto causará “arrepios” àqueles que buscam racionalizar o ensino. “Por que será?” No entanto, revela que o pensamento/conhecimento, assim como a vida, imprime um constante renovar, pois essas relações são avivadas a cada mudança que se processa. Comenta sobre a crise de identidade pela qual os professores têm passado e cita como estes foram pensados nas décadas de 1960,1970 e 1980. Uma triste constatação! Com base nesses fatos, não acredita na separação do ser pessoal e profissional do professor, já que ambos resultam e se encontram num único “eu”.
Nessa perspectiva, apresenta o triplo “AAA” (adesão, ação, autoconsciência) para falar dessa identidade como processo. Para Nóvoa, esta “[...] é um lugar de lutas e de conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão”. Desse modo, evidencia-se a necessidade dos professores refletirem sobre aquilo que sabem/fazem, pois as facetas de sua formação o acompanham/acompanharão e novas possibilidades de releitura irão desvelar-se.
Ele nos mostra, ainda, alguns impedimentos sobre a formação dos professores nesse viés, mas destaca que essa deve ser reelaborada, permanentemente, não com o poder de mudar tudo, mas algumas coisas; “coisas estas, não poucas”. Dir-te-ei quem és assume a força e o caminho que se direciona ao ser professor, que é sempre diferente, em espaços e tempos também diversos. Mais um fio se liberta!
A Pesquisa Científica Acadêmica na perspectiva da Pedagogia Simbólica, texto de Carlos Amadeu B. Byington, reflete sobre a relação objetiva e subjetiva que circunda a pesquisa no contexto simbólico.
O autor clareia a utilização dessa linguagem ao apresentar algumas formas de seu funcionamento, bem como o seu conceito. Em relação à implementação prática da pedagogia simbólica na investigação, destaca que essa encontra algumas intempéries, principalmente na Universidade, pois a grande maioria age dentro dos preceitos positivistas, valorando apenas a razão. Entretanto, enfatiza que esta instituição tem tentado “correr atrás do prejuízo” e, na busca por clarificar avanços na área, Byington historiciza a priorização dos aspectos objetivos e a expulsão da subjetividade nas pesquisas. É um trecho “especial” dessa obra, que merece ser relido muitas vezes. Nesse momento, chama a cultura ocidental de “Frankensteiniana”. Isso é paradoxal, pois assusta e encanta pela profundidade da reflexão. Vale conferir!
Sobre a aprendizagem “vazia” (puramente objetiva) que temos apreendido, destaca que em tudo aquilo que já esquecemos está a fonte de pesquisa para compreendermos a falácia da educação sem subjetividade, já que “[...] a inteligência do ser não pode ser reduzida às funções do pensamento, da sensação, pois ela é igualmente dependente do sentimento e da intuição, e da emoção que tudo motiva”.
Vê-se que somos complexos, pois somos originais. A originalidade nos pertence e é reveladora do nosso ser e de nossas pesquisas, que em sua essência precisam ter as nossas caras e serem habitadas em sua totalidade. Isso, por sua vez, também requer um constante apreender, um ininterrupto ato reflexivo. Como é belo aprender; aprender o que está culturalmente instituído, através de nosso “estilo”; aprender através da humildade de “emburrecer-se”, para então, novamente conhecer. É um exercício de “desapego” para, posteriormente, apropriar-se novamente dos saberes. Esse movimento não se finda e é ambíguo, já que vai do saber ao não saber. Quando se chega nesse estágio, a liberdade contagia os pensamentos e a fruição toma conta do “SER”, pois se articula objetividade/subjetividade.
Nesse texto/presente, Byington referenda, ainda, considerações acerca dos quatro arquétipos que balizam a linguagem simbólica e com isso nos deixa a mensagem de que, “através da emoção e do prazer, diminuem muito as diferenças entre o clube, o lazer e a escola”. Com o soltar dos fios, um dos nós se desprende!
Hilton Japiassú, em A crise das Ciências Humanas, explicita os motivos da “agonia” dessas ciências em nossa sociedade. Destaca os muitos fatores que contribuíram/contribuem para o agravamento dessa situação (a revolução francesa, o darwinismo, o poder, a política, os interesses, as ideologias, a economia, as teorias...). Todos esses contextos e conceitos são explorados pelo autor.
Comungo com Japiassú de que os desejos dos sujeitos têm sido negados em nossa sociedade, o que, por sua vez, revela-nos a aceitação e a imposição das normas já estabelecidas. Durante muito tempo não tivemos e não nos demos a permissão para pensar além do pensado. O “eu” que pensa foi tomado pelo “outro” que começou a pensar por nós. Eis o momento da alienação! Eis, também, o poder apoteótico da “democracia” ao se fazer presente em meio às ciências humanas. Agora, tudo e todos podem. Então, por que ainda estamos agonizando? Por que ainda temos medo diante do que pensamos e sentimos? Essa crise necessita ser superada. Outro nó é revelado. Este, novamente, precisa da largueza para poder ser desfeito!
Avanços no conhecimento etnográfico da escola é o texto de Marli Eliza Dalmazo Afonso André. Nessa obra, a autora destaca que a pesquisa etnográfica começou a ser pensada, com maior profundidade, no final dos anos de 1970 e historiciza o seu processo de consolidação no mundo da pesquisa acadêmica até os anos de 1990.
A abordagem etnográfica na educação trouxe muitas contribuições à pesquisa, pois considera a multiplicidade dos conceitos e das práticas, a atitude e a flexibilidade na coleta e análise dos dados, a revelação do que é cotidiano/rotineiro dentro e fora da escola e a divulgação dos trabalhos dos professores. Contudo, menciona as críticas lançadas a esse tipo de investigação, o que revela a presença ambígua nesse contexto.
Ao longo de sua explanação, cita as três fases dessa pesquisa, bem com as quatro tendências atuais da etnografia na educação. Com isso, torna visível a transformação que espectra o mundo da pesquisa, da educação e dos modos de pensar os sujeitos. E assim acontece... Outro nó, aos poucos, começa a ser solto!
Menga Lüdke, em A Pesquisa na Formação do Professor, diz que o reconhecimento do processo de pesquisa tem favorecido o trabalho na formação dos professores. A autora tece as suas reflexões com base em duas perguntas bastante pertinentes para esse contexto: Como se forma o pesquisador/professor? Como se forma o professor/pesquisador? Em ambas questões, há um significativo caminho já trilhado e um outro tanto para ser desbravado. A pesquisa necessita inserir-se nesses processos de formação com base numa atitude ação/reflexão; ou seja, aprende-se a pesquisar, pesquisando.
No cenário da educação brasileira, esse tipo de investigação aparece nos Programas de Pós-Graduação, a nível de mestrado e doutorado. Isso indica que no mestrado, por ser o primeiro contato com a pesquisa – na sua inteireza – uma mistura de inquietação/acomodação e ousadia/medo cinge esse processo. Sobre essa experiência inicial, Lüdke relata um trabalho desenvolvido na PUC/Rio e considera, ao final, a relevância do trabalho em parceria na pesquisa. Nesse sentido, constata-se a necessidade de um ressignificar constante, seja do contexto da pesquisa ou dos sujeitos que a executam. Desse modo, o segundo nó liberto está!
Ética e Interdisciplinaridade, de Terezinha Azerêdo Rios é um texto em que a autora apresenta as idéias retratadas em seu livro Ética e Competência (1994). Discute competência, compromisso, ética, moral, política, reflexão, crítica, alteridade, interdisciplinaridade, teoria, prática e utopia. Esses conceitos são por ela habitados com muita propriedade, o que facilita a sua compreensão, já que há alguns entendimentos errôneos que precisam ser sanados.
Para Rios, esse revisitar aos conceitos permite uma nova vislumbração, um olhar inflado de possibilidades, interdisciplinar. Vale ressaltar aqui a necessidade da reflexão, pois essa nos permite avaliar uma pesquisa/trabalho/prática/ação e encontrar nesses atos a presença do sentido em nossa vida. O nó, anteriormente desfeito, revelou a presença de outro entrelaçamento de fios... Será este o último a ser desatado?
Vani Moreira Kenski finaliza com o texto Sobre o Conceito de Memória e nos apresenta o olhar corriqueiro que o termo engendra. Entretanto, suas reflexões são aprofundadas quando aborda os sentidos da memória e nos conduz à sua historicização. Traz o sentido mitológico, o orgânico, o emocional, o social, o cultural, o ficcional, o sentido da memória no fim do século, o tecnológico e o virtual.
É um texto que nos leva a pensar do quanto lembramos, bem como, do tanto que esquecemos. Esquecido, aparentemente, pois esse vivido se encontra no inconsciente. Também nos encaminha a pensar sobre como a nossa memória continuará sendo desenvolvida e aprimorada com a inserção da tecnologia/virtualidade. Será essa uma memória individual ou social? Quem ganhará ou perderá nessa metamorfose de lembranças, de memórias vividas, porém esquecidas e/ou, esquecidas, porque não foram vividas, apenas vistas?
Quem desatará esses e outros tantos nós que envolvem os atos de educar e pesquisar? Como adquirir forças para esse deslocamento e encontrar, em meio a esses fios, a sensibilidade para puxarmos “aquele bendito” fio que afrouxará, também, as nossas angústias enquanto pesquisadores/professores sempre em formação? Como e o que fazer para que esses fios sejam, depois de soltos, tingidos com cor – de qualquer cor – mas que representem o desejo da conquista, da “soltura” e do “desamarramento” e não voltem ao estágio de nós?
Houve a tentativa... Alguns foram soltos, outros tantos nós permaneceram/permanecem. No entanto, os textos que compõem esse livro, são reveladores da possibilidade e do colorido que podem estampar o contexto da educação, através da pesquisa. Com o perceber das cores – unas para cada fio que compõe a urdidura e formam a imagem do tecido, composto em tecido através dos nós desatados e libertos, a transformação se processa e o saber se renova. Nesse momento, a totalidade, antes interrompida pelo entrelaçamento dos fios, volta a circular – livre – até outro ponto. Como já pôde ser percebido, esse é um movimento constante... Resta saber o que faremos com esse novo encontro!!!

Resenha produzida por Leomar Kieckhoefel,