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SEVERINO, Antônio Joaquim; FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (Orgs.). Formação docente: rupturas e possibilidades. Campinas, SP: Papirus, 2002. 222 p.

A formação docente vista pelos diferentes olhares

Este livro faz parte de uma série temática que tem o objetivo de divulgar as produções científicas dos integrantes, docentes e discentes, do Fórum Paulista de Pós-Graduação em Educação (FPPGE), iniciado em 1990, onde discutem-se as questões relacionadas à pós-graduação e à pesquisa educacional.
É o segundo volume da Série Cidade Educativa, editado pela Papirus, em 2002, e traz uma coletânea de 12 capítulos que busca olhar a formação docente nas diversas possibilidades e em múltiplas rupturas.
O primeiro texto A chave do ensino eficiente de Alfonso López Quintáz, introduz-nos à necessidade de uma educação visando à formação integral do ser humano pelo pensamento rigoroso e pelo viver criativamente, incorporando valores descobertos e não ensinados. Revela o processo de desenvolvimento humano pelo encontro, vidas que se entrelaçam, com experiências significativas e que procura descobrir nessa relação às virtudes, os vícios, os valores e o ideal de vida.
Ao ingressar na educação, o autor rompe com a forma disciplinar de ensino e destaca a importância da relação e de inter-relações que as diferentes áreas podem estabelecer no universo e com o modo de ser de todas as coisas, o que possibilita mudanças na forma de pensar, sentir e querer.
O texto Aspectos humanos da competência docente: problemas e desafios para a formação de professores de Elydio dos Santos Neto, inicialmente traz-nos diferentes aspectos para a crise da educação escolar nas diversas dimensões: alunos, professores, pais, comunidade e instituições. Diante deste quadro, analisa a formação do professor e coloca que a competência docente deve ser permeada de exigências técnicas, políticas, profissionais e humanas.
Neto indica autores que trabalham os aspectos humanos da formação docente relativos à interioridade e a subjetividade de cada ser humano e dos avanços teóricos nessa direção, rompe com a formação tradicional e chama nossa atenção para a complexidade da natureza humana. Traz questões que mostram os desafios de se trabalhar a formação docente na complexidade e atenta para a importância de se investir em pesquisas e práticas formativas que vão em direção à interioridade humana.
Ana Gracinda Queluz, pesquisadora sobre a questão da formação docente, sintetiza em seu texto Professor e aluno: os dois fios num único desenho de formação aspectos temporais e simbólicos de alunos e professores no cotidiano escolar, oriundos de sua pesquisa em uma escola. Percorre com professores e alunos o caminho da pesquisa em atividades que resgatam os conceitos de disciplina, violência e agressividade e reflete com eles sobre suas atuações.
Do sabor ao saber desvela aos poucos descobertas na percepção de tempo de cada um, os talentos ocultos no tempo tarefeiro que afloram no tempo criativo, a receptividade do professor em valorizar o aluno e transformá-lo em “jóia”. A resignificação do espaço escolar em sintonia com o tempo criativo e com a escuta sensível, rompe com a dimensão temporal e constrói o desenho de formação do aluno e do professor.
No texto A formação de professores: aspectos simbólicos de uma pesquisa interdisciplinar, Ecleide Cunico Furlanetto aborda inicialmente sobre a crise na educação brasileira e a necessidade de buscar no novo, no simbólico um redimensionamento para a escola.
Refaz seu caminho como pesquisadora e mostra-nos em sua trajetória estudos que desvelam os símbolos presentes no cotidiano escolar e na formação de professores. Juntamente com Ana Gracinda Queluz pesquisa aspectos ocultos e pouco explorados da formação docente em escola da favela de Heliópolis/SP. Revela percursos da pesquisa necessários a cada desafio, coloca-nos frente à interioridade do simbólico através das matrizes pedagógicas e dos resgates das histórias de vida.
Descobre ainda a necessidade da escuta, do diálogo como ferramentas que possibilitam a transformação da prática escolar e assim uma nova maneira de formar o professor.
Em Avaliação do desempenho e formação docente: desafios, rupturas e possibilidades, Mere Abramowicz destaca aspectos sobre a avaliação do desempenho profissional do professor inserida em projeto socioeducacional mais amplo e integrada a outras ações como: programas de formação continuada, programas de gestão educacional participativa, programas de reorientação curricular e estudos e revisões na carreira do magistério e não como forma isolada do processo.
Enfatiza sobre a necessidade de rupturas de uma avaliação fundada em paradigmas tradicionais para uma avaliação processual que considere o fator humano, este analisado como o diferencial na formação docente.
A participação efetiva do professor no processo de avaliação torna possível a descoberta da sua autonomia, a reorientação de sua trajetória profissional e o processo gerador de competências. Nesse processo, o diálogo se faz necessário para garantir as interações e a complexidade das organizações escolares, o que possibilita uma avaliação de desempenho e uma formação docente que acompanhe as transformações da realidade educacional.
Na seqüência, apresenta-se o texto de Maria Anita Viviani Martins Compreendendo a ação docente, superando resistências que traz uma reflexão sobre a formação inicial do professor na universidade, em conflito com a complexidade de sua intervenção na realidade escolar.
A fim de compreender a realidade da formação do professor, explora as questões do ser, da dimensão existencial e da intencionalidade dos sujeitos. Mostra-nos o equívoco epistemológico que as palavras relacionadas à formação contribuem para uma formação conteudista, instrumental, técnica e prática do professor e enfatiza a formação contínua do educador. Leva em conta a necessidade da pesquisa da prática do professor como um movimento de intervenção para a construção do conhecimento pedagógico.
Como primeiro texto da trilogia que trata a questão das novas tecnologias na formação do professor, Potiguara Pereira em A Educação e as demandas presentes e futuras da tecnociência (C&T) salienta a influência que a tecnociência tem exercido sobre o homem e sobre a sociedade atual e futura. Diante do desenvolvimento e da modernização possibilita ao leitor refletir sobre os poderes que a tecnociência tem influenciado nos setores econômicos, políticos, científicos e sociais. No campo educacional, chama nossa atenção para a defasagem cultural a qual estamos inseridos, compreendida também a formação do professor. Elenca os desafios que a tecnociência impõe à educação em relação ao trabalho, à pesquisa, à redefinição do papel da escola, em específico do professor para promover seus recursos, relacioná-los aos benefícios trazidos pelo uso das telecomunicações.
Ao buscar soluções para o problema da defasagem cultural que vive a escola com relação ao desenvolvimento tecnocientífico, atenta-nos para alguns pontos fundamentais que são base para uma nova concepção de educação, na qual a escola tem papel decisivo nas diversas formações que possibilitam compreender o que é o homem, o mundo e o que ele representa neste mundo, inserida a esta, a formação do professor deve contemplar além da tecnociência, a filosofia e a arte.
Vani Moreira Kenski, em sua trajetória de pesquisadora apresenta em seu texto Crise nas redes: a angústia dos “incluídos” resultados da pesquisa que procura compreender como professores-pesquisadores sentem a interlocução entre suas memórias humanas e as tecnológicas e sobre a nova “lógica” de compreensão do mundo e de apropriação das informações tecnológicas. Revela-nos o mal-estar da cultura diante da velocidade e do excesso de informações que são veiculadas em lugares reais e virtuais e da impossibilidade das pessoas em transformar essas informações em conhecimento. É o desafio da memória humana com seus limites que gera angústia, a angústia do (des)conhecimento, a angústia de se sentir excluído. Apresenta-nos a crise entre as redes eletrônicas e os homens e traz como desafio uma nova lógica que se reflita nos modos de comunicação e de interação entre ambos, buscando a construção do conhecimento e as formas de uso das memórias.
O computador é a solução: mas qual é o problema? de Marcelo C. Borba refere-se ao uso das tecnologias e da modernização da escola como fundamentais para a formação do professor e trata especificamente do uso do computador, seus problemas e soluções.
Inicialmente traz-nos algumas questões que ilustram a relação computador-educação e as possíveis soluções para os problemas educacionais. Reflete sobre a imagem do computador “modernização” como bandeira política ou como estratégia de marketing de escolas públicas ou privadas.
Borba analisa três problemas relevantes em que o computador possa ser considerado como solução ou não para os problemas educacionais. O primeiro é em relação à questão da cidadania, focaliza o preparo para o mercado de trabalho e valoriza o direito à alfabetização tecnológica no mesmo nível da alfabetização matemática. O segundo refere-se às questões epistemológicas e pedagógicas visto que o conhecimento produzido na sala de aula pode se transformar com o uso das novas tecnologias, o que possibilita modificar de maneira qualitativa o ser humano, o que não implica na eliminação da escrita e da oralidade. E o terceiro é pensar no computador como uma nova mídia que pode modificar as práticas pedagógicas desenvolvidas na sala de aula e incorpora a elas um conhecimento interdisciplinar ao invés de disciplinar.
Maria Leila Alves e Marília Claret Geraes Duran apresentam no texto Formação contínua de educadores: um projeto de pesquisa-ação a análise dos resultados da pesquisa-ação realizada em escolas de Ensino Fundamental do Município de Diadema sobre a formação contínua de seus gestores e professores.
Inserem-nos no contexto pedagógico e político, apresentam os desafios e problemas que se mostram na maioria das escolas brasileiras e que serviram de base para caracterizar o problema da pesquisa, definir o objeto e delinear a formação continuada.
Explicitam a postura teórica sobre a formação continuada, sobre gestão educacional e sobre avaliação da aprendizagem, bem como sobre a escolha da metodologia pesquisa-ação.
Entre rupturas e desafios desvelam que processo de parceria entre gestores, professores e pesquisadores contribuiu para o enriquecimento coletivo e para o fortalecimento das ações de planejar e conduzir os processos educacionais das escolas e das salas de aula, o que permite avaliar seus resultados e atuar sobre eles.
Sylvia Helena Souza da Silva Batista e Nildo Alves Batista no texto A formação do professor universitário: desafios e possibilidades discutem a formação do professor universitário a partir de suas trajetórias como pesquisadores.
Revelam-nos diferentes olhares a luz da teoria e da parceria com teóricos sobre a docência universitária e a formação, suas relações com o saber, suas convergências sobre o que se espera de um professor universitário e de suas práticas acadêmicas consistentes e transformadoras da educação universitária.
Trazem-nos a compreensão acerca do processo de profissionalização docente com suas diversas alternativas e suas repercussões na formação do professor, os conflitos e as contradições que permeiam suas práticas, abrangem a complexidade que envolve as funções de ensino e educação nessa sociedade.
A experiência de se trabalhar a disciplina formação didático-pedagógica em saúde, revela-nos desafios e aprendizagens com relação às práticas de formação docente, o que possibilita vê-las para além da formação técnica e do conhecimento, mas também em um processo de desenvolvimento, em que estão envolvidos outros aspectos que se configuram num movimento de formação em nosso viver, inclusive acadêmico.
O texto final composto por Selma Garrido Pimenta, Lea das Graças Camargos Anastasiou e Valdo José Cavallet Docência no ensino superior: construindo caminhos apresenta reflexões sobre a docência universitária estudadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação de Professores (Feusp) em instituições de ensino superior no Brasil.
As experiências em algumas universidades realizadas pelo Grupo de Estudos que ilustram o texto ressaltam sobre a superação dos impasses atuais da docência e para um processo de reflexão e de avaliação das próprias práticas o que requer uma compreensão de se construir contínua e coletivamente, bem como perceber o aluno como parceiro, para avançar no processo da docência e do desenvolvimento profissional, juntamente com os processos de desenvolvimento pessoal e institucional, visando novas perspectivas para a docência.
Os diferentes olhares para a formação docente, apresentados neste livro, indicam uma formação que vai além da teórico-disciplinar, uma formação que compreenda a interioridade humana, a história pessoal seja ela numa dimensão simbólica, temporal, tecnológica ou na área da saúde.
Assim, o cotidiano da escola desde o Ensino Fundamental até a Universidade foi/é cenário das muitas pesquisas e proporciona importantes reflexões para quem pretende estudar a formação docente nas diversas áreas.


Resenha produzida por Arlete Zanetti Soares,