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Educar para a justiça e a paz

A educação das novas gerações é decisiva para o futuro da sociedade. Pode parecer um lugar comum e a coisa mais sabida do mundo; na prática, porém, as coisas não são tão óbvias assim. Não se põe em dúvida a necessidade de todas as crianças e jovens terem acesso à escola, mas é bom que nos perguntemos sobre a qualidade da educação que lhes é proporcionada.

O dia 1° de janeiro é, para a Igreja Católica, o Dia Mundial da Paz e o Papa envia todos os anos à Igreja, aos governantes e responsáveis por organizações internacionais uma Mensagem, na qual ele aborda algum aspecto importante para a edificação e a preservação da paz. Neste ano, o tema da Mensagem foi: educar os jovens para a justiça e a paz.

Há algum tempo, o ano novo vem iniciando em meio a crises e incertezas quanto ao futuro; novas tensões e situações de guerra surgem entre povos, ou no interior de nações. Enquanto a crise econômica e financeira mundial balançou economias, que pareciam tão sólidas, no Brasil, finalmente, respira-se com certo alívio; mas há quem diga que a crise global ainda está longe da solução.

Bento 16 diz que os jovens têm o direito de sonhar e de esperar por um futuro bom; e eles próprios podem, com seu entusiasmo, oferecer nova esperança para o mundo. E convida pais e famílias, com os diversos âmbitos da vida religiosa, social, econômica, política e cultural a prestarem especial atenção ao mundo juvenil, valorizando suas possibilidades de contribuir para um futuro de justiça e de paz.

No entanto, muitos jovens olham o futuro com apreensão e se perguntam sobre as razões que dariam sentido e esperança à vida. Seu idealismo choca-se, muitas vezes, com a dura realidade do meio em que vivem, onde os sonhos altos parecem carecer de fundamento; podem, então, ser tentados a amoldar-se ao vazio de valores, enredados nas tensões primitivas do individualismo, da ganância e da sede de poder e vaidades, passando a respirar os mesmos ares intoxicados que lhes causavam, no despertar de sua consciência juvenil, fortes arrepios de indignação e horror. Tentação sempre próxima é o gozo ávido e inconsequente da vida, até nos vícios suicidas da droga e do álcool.

Como evitar que eles percam cedo o entusiasmo juvenil e sua fé no futuro bom? Algumas questões são fundamentais. Primeira de todas, é educar para a verdade, sem ceder à tentação do relativismo absoluto, ou da redução de todos os valores à utilidade e à vantagem pessoal. Atenção especial merece a verdade sobre a pessoa humana, para descobrir o valor e a dignidade de si e da própria vida; isso é necessário para desenvolver atitudes construtivas diante da dignidade e dos direitos inalienáveis das outras pessoas. A pessoa humana é um bem em si mesma e não pode ser sacrificada em função de bens particulares, sejam econômicos ou sociais, individuais ou coletivos.

Outra questão crucial é formar para a liberdade autêntica – "valor precioso, mas delicado, pois pode ser mal entendida e também usada mal". A educação leva a compreender que a liberdade não se identifica com a ausência de vínculos, nem com o império do arbítrio, nem ainda com o egocentrismo subjetivo. Quando o homem crê ser um senhor absoluto, que não depende de ninguém e pode tudo o que lhe apetece, acaba prisioneiro de si mesmo e perde a própria liberdade. Esta é um bem relacional, que se mede constantemente com a liberdade dos outros e com Deus.

Risco insidioso na educação é o relativismo absoluto, que não reconhece nenhuma instância, fora de si, ou valor definitivo, e tem como última referência apenas o próprio eu, com seus desejos; sob a ilusão de liberdade, a pessoa pode estar levantando os muros da própria prisão e do fechamento total em si mesma, separada dos outros, incapaz de se relacionar com o mundo de forma adequada; e aí, cedo ou tarde, chega a angústia e a dúvida sobre a bondade da própria vida e de qualquer projeto a ser edificado em comum com os outros.

Mais um aspecto, que não pode ser subestimado na educação, é a formação acerca dos valores. Há uma norma, que o homem não criou para si, nem é imposta de fora, mas que lhe cabe reconhecer e acatar; ela é natural e está inscrita na consciência, fazendo distinguir o bem do mal. Com seu imperativo silencioso, mas forte, manda escolher o bem e evitar o mal. Formar para a consciência moral é indispensável para o bom exercício da liberdade, para o reconhecimento da dignidade do outro e para a convivência justa, respeitosa e pacífica entre as pessoas.

Justiça e paz não são fatos dados e prontos, mas o fruto de uma busca denodada e conjunta, onde as pessoas compartilham valores e atitudes. Paz não existe sem justiça, como não existe justiça, sem honra à dignidade humana. E esses bens são a fina flor do esforço de gerações, que acreditam neles; por isso, também os passam às novas gerações pelo processo da educação. Pais e famílias, apesar de tudo o que se possa dizer em contrário, ainda são os grandes agentes desse processo; e o Papa os encoraja a assumirem seu papel, apesar de todas as dificuldades. Mas também são poderosos agentes de educação a escola e outras estruturas educativas formais e informais, bem como os meios de comunicação social.

Se a qualidade da educação for boa, haverá justiça e paz; e os jovens não deixarão de fazer a parte que lhes cabe. A eles, Bento 16 volta seu apelo, já no final da Mensagem: jovens, sois um dom precioso para a sociedade! Não desanimeis, nem confieis em falsas soluções para superar os problemas. Sabei que vós mesmos também servis de exemplo e estímulo para os adultos, quando vos esforçais para superar injustiças e corrupção e vos comprometeis com a construção de um futuro melhor!

Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 14.01.2012
Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo