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Bens culturais da Igreja

Nos dias 25 e 26 de agosto foi realizado no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA) um simpósio sobre a preservação dos bens culturais, históricos e artísticos da Igreja Católica. Promotores do evento foram a Comissão da CNBB para a Implementação do Acordo do Brasil com a Santa Sé sobre a natureza jurídica da Igreja Católica perante o Estado brasileiro, a arquidiocese de São Paulo e a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP.

O simpósio teve boa participação de estudiosos da cultura e da arte, de administradores do patrimônio cultural da Igreja, restauradores, membros do clero, religiosos, estudantes e outros interessados, vindos de todo o Brasil. Bons palestrantes fizeram exposições sobre o patrimônio histórico, artístico e cultural da Igreja, sobretudo no Estado de São Paulo, sobre as leis para a sua preservação e sobre a elaboração de projetos para o acesso a verbas de incentivo à cultura. 

E não faltou a exposição sobre os artigos 6º e 7º do Acordo BrasilSanta Sé, que tratam dos bens culturais e dos bens cultuais da Igreja Católica e sua proteção e preservação. O patrimônio cultural da Igreja Católica, constituído por bens históricos, artísticos, culturais e documentais, é abundante e representa cerca de 50% de todo o patrimônio cultural brasileiro. Pelo Acordo, a Igreja reconhece que esse bem, embora pertencente a ela, é também do povo brasileiro; por isso, ela se compromete a colocá-lo à disposição da cultura do povo brasileiro. O Estado, por sua vez, salvaguardadas as finalidades originárias desses bens, se compromete a cooperar com a Igreja para valorizar, preservar e promover a fruição desses bens culturais da Igreja.

Seria longa a lista dos bens culturais da Igreja, que são de natureza muito diversificada. São edificações históricas, igrejas, conventos e outros; variadas formas de bens artísticos de arquitetura, pintura, escultura, música, teatro, literatura; bens documentais, de interesse público, custodiados pela Igreja, objetos de culto, como alfaias e objetos litúrgicos; e são também muitos bens imateriais, como simbologias sagradas, festas e ritos religiosos e sociais.

Desde suas origens, a fé cristã vem se expressando na cultura dos povos, assumindo os modos das culturas locais e contribuindo com suas expressões simbólicas próprias para a compreensão da pessoa humana, da sociedade, da vida e do mundo. O Papa Paulo VI já afirmava que evangelização e cultura andam juntas: ou a evangelização entra nas culturas, ou ela não é evangelização. São José de Anchieta, ao começar seu trabalho missionário no planalto de Piratininga, em 1554, fez exatamente isso: aprendeu a língua e os costumes dos indígenas, fez as catequeses na língua deles e traduziu o Evangelho na língua e na cultura dos indígenas. Não foi diferente com tantos missionários, que se dirigiram aos povos mais diversos do mundo. 

Além dos bens culturais, formalmente reconhecidos, há muitas expressões cristãs na cultura comum e nem sempre nos damos conta disso: o toque dos sinos nas diversas horas do dia, o fato de levar um crucifixo ou uma medalha ao pescoço, ter uma imagem sacra em casa, fazer o sinal da cruz ao passar à frente de uma igreja, colocar cruzes nos túmulos dos falecidos e alguma frase bíblica... Também são expressões de cultura cristã a celebração do domingo, como “dia de descanso”; várias festas “civis”, como o Natal, Sexta-Feira Santa, Corpus Christi, Finados e tantas festas locais dos Padroeiros. E não esqueçamos a quantidade enorme de manifestações culturais populares de cunho religioso e católico, como músicas, canções, poesia, ações comunitárias de solidariedade social, procissões, festas juninas, ritos familiares, que vão do batizado, passando pelo casamento e chegando ao velório e ao sepultamento. Em tudo isso, há muito de cultura cristã católica. É importante que nos apercebamos dessas formas “inculturadas” da fé e as preservemos e aprimoremos, sem deixar de criar novas e atuais expressões inculturadas da fé cristã e católica. 

O lema do sínodo arquidiocesano de São Paulo - “Deus habita esta cidade. Somos suas testemunhas” - tem tudo a ver com o tema que estamos tratando. Somos testemunhas de Deus na cidade pelo testemunho pessoal e comunitário de nossa fé e de nossa ação, pela caridade, a ação em favor da justiça, da honestidade pública e da reta ordem social. Mas, também com os diversos bens culturais católicos, proclamamos que Deus habita esta cidade imensa. Também com nossas igrejas, com suas torres e sua arte e celebrações litúrgicas, com a comunicação, educação, cultura popular católica... Tudo isso merece uma valorização especial e precisa ser colocado a serviço da evangelização. Tudo o que faz parte da Igreja está a serviço de sua vida e de sua missão.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Artigo publicado no jornal O SÃO PAULO, edição 31/8/2017