A Fundação São Paulo
Mantidas
Endereço:
Fundação São Paulo
Edifício Franco Montoro
Rua João Ramalho, 182
Perdizes - CEP: 05008-000
São Paulo - SP
(11) 3670-3333
fundacaosaopaulo@pucsp.br
Design: PUC-SP - DTI - Núcleo de Mídias Digitais

Davos e a América Latina

Tivemos um Davos com Dilma. Não como atriz coadjuvante, mas com uma presença marcante e central no evento. Esta presença se deve a uma convergência que foi a tônica da reunião. Pela primeira vez, a desigualdade estava no centro da pauta. Isto nas declarações expressas dos organizadores, e na sequência direta das declarações de Barack Obama de que a marca estruturante do seu governo nos seus anos finais será a redução da desigualdade. Não por outra razão a nossa presidenta teve este destaque: o Brasil é um dos países que conseguiram melhorar, em vez de agravar, a situação.

Primeiro, a própria reunião. Surgiu numa fase pujante do neoliberalismo, na visão de Thatcher de que não há alternativa (TINA – There Is No Alternative), do presidente americano de que é preciso enriquecer os ricos para reduzir a pobreza, e de um intelectual mais entusiasmado ainda que decretou o fim da história. Com Lehman Brothers a menos e uma crise a mais, a catástrofe climática, a polução do planeta, o esgotamento de recursos naturais, e um bilhão de pessoas passando fome, o clima de Davos mudou. Não pelo meio ambiente e pela fome, mas pelo fato que o próprio sistema se mostrou não funcional. Nos últimos 20 anos os lucros financeiros passaram de 10% para 40% da totalidade dos lucros nos Estados Unidos, em detrimento tanto dos trabalhadores como das empresas efetivamente produtivas. É o capitalismo dos intermediários, não dos produtores, com semelhantes desafios no Brasil, como se vê nos lucros dos bancos. A realidade é que o planeta está à procura de rumos.

Os dados são espantosos. O Banco Mundial trabalho com The Next 4 Billion, os quatro bilhões que na sua formulação elegante “não têm acesso aos benefícios da globalização”. Outro patamar é o dos 2,3 bilhões que vivem com menos de 2 dólares por dia, e nestes 1,2 bilhão que vivem com menos de 1,25. Isto num planeta que produz mais de um quilo de grãos por habitante, e onde o PIB mundial é de 70 trilhões de dólares, o que significa em média 6 mil reais por mês por família de 4 pessoas. Não é a produção que é o problema. O problema é de governança, o caos do processo decisório da sociedade.

O contexto da reunião foi igualmente marcado pela publicação pelo nada suspeito Crédit Suisse da pesquisa já não sobre a renda, mas sobre o patrimônio acumulado das famílias mais ricas. Os dados são simples: 85 pessoas possuem mais riqueza do que a metade mais pobre da população mundial. O mecanismo não apresenta mistérios: o pobre compra bens de consumo e sobrevive, o rico faz aplicações financeiras e acumula. Um bilionário que coloca um bilhão de dólares para render 5% ao ano, aplicação muito conservadora, está ganhando 137 mil dólares a mais a cada dia.

Este grau de desigualdade é simplesmente insuportável. E mais, não está mais sendo suportado, e os pobres hoje sabem que poderiam ter acesso a uma saúde decente, a uma educação decente para os filhos e assim por diante. Israel constrói muros na Palestina, os EUA outros muros na fronteira com o México, os europeus enchem o Mediterrâneo de barcos policiais, os ricos do Brasil se mudam para condomínios de luxo cercados de muros, e eletrificados. A solução, obviamente, não é esta. Nos países árabes 70% dos trabalhadores estão no setor informal, mas há belos shoppings com produtos de luxo da Europa, aliás produzidos na China. Não há primavera que funcione, as pessoas precisam de uma vida digna e de inclusão produtiva. Um país que distribui a renda, aumenta o salário mínimo, e assegura a menor taxa de desemprego da sua história, está chamando a atenção do mundo todo. Para a América Latina, chegou o que a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) definiu tão bem: La hora de la igualdad.

 

Ladislau Dowbor
14 de fevereiro de 2013

Ladislau Dowbor é professor de economia da PUC-SP e consultor de várias agências das Nações Unidas. Os seus textos, inclusive os textos citados no artigo acima, estão disponíveis online em http://dowbor.org. Contato ladislau@dowbor.org