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Impressões do Haiti

Cardeal dom Odilo Pedro Scherer relata suas impressões da visita feita ao Haiti

Domingo, 13 de janeiro de 2013, festa do Batismo de Jesus. Deixei o aeroporto de Porto Príncipe, capital do Haiti, em direção ao Panamá e a São Paulo. O céu avermelhado do pôr-do-sol encerra mais um dia de tempo seco na ilha “Hispaniola”, onde Colombo aportou por primeiro no Caribe.

Foi mais fácil chegar, que sair. Não só porque os controles do aeroporto foram menores na chegada, mas também porque um pouco do coração ficou no Haiti, depois dos dias passados por lá... As coisas ainda andam pesadas e bastante precárias para a população. Disseram que já melhorou muito!

A cidade de Porto Príncipe e toda a região sacudida pelo violento terremoto de 12 de janeiro de 2010, ainda mostram as feridas profundas, abertas pelo cisma. Dá para imaginar como ficou o país, que já era o mais pobre da América antes do terremoto, onde morreram mais de 300 mil pessoas, conforme cálculos aproximativos apresentados por lá. Entre elas, também doutora Zilda Arns, em plena missão da Pastoral da Criança.

Grande parte das casas ruiu ou foi seriamente danificada. As ruas já foram desobstruídas e os escombros, removidos. Boa parte do povo vive debaixo de tendas ou abrigos improvisados, formando imensas favelas. Mas a vida quer voltar à normalidade, mesmo que a duras penas. As ruas fervilham de vida, de tráfego, de gente, de confusão... Na rua, vende-se e se compra de tudo; ali se trabalha como dá, cozinha-se, come-se e também se anda... Calçadas cheias, muros e árvores servem de vitrine e cabide para tudo, roupa, móveis, sapatos... Frutas, ovos, carvão, gasolina, móveis, tudo se acha na calçada.

A vida quer retomar, mesmo de maneira caótica, nervosa, simpática. O transporte coletivo é feito de formas criativas e alternativas. Predominam os “tap-tap”, uma espécie de caminhonete pau-de-arara, apinhadas, penduradas de gente, que enfrenta os maiores sacrifícios para se deslocar num trânsito que nada perde para o de São Paulo em lentidão, nas horas de pico... Tem “tap-tap” de todos os tamanhos e enfeites, andam por toda parte, custam pouco, sempre cheios! Não se reclama, o povo viaja calado, agarrado em algo para não cair; gritam motoristas e cobradores para atrair passageiros ou para cobrar a passagem... Ruas ainda precárias, muito pó, nesta época não chove.

A vida vai vencendo a morte e a dor. Com arte, música e mística. Crianças arrumadinhas, com uniformes bem apresentados, “maria-chiquinha” em quantidade nos cabelos das meninas... São lindas e cheias de autoestima, porque vão para a escola! Impressiona a quantidade de crianças e jovens; quase não se veem pessoas idosas. Para um país que sofreu um desastre natural tão trágico, admira ver poucas pessoas com deficiências ou lesões físicas. O povo é, na sua quase totalidade, descendente dos africanos levados para a ilha pelos mercadores de escravos durante o período colonial francês.

O gosto pela arte e a beleza está retratado no artesanato e nas telas de artistas populares, muito coloridas, com cenas da vida cotidiana e que enfeitam os muros, à espera de algum comprador. Gostam de música, vozes afinadas, ginga africana, ritmos do Caribe.

Cardeal dom Odilo Pedro Scherer,
Arcebispo Metropolitano de São Paulo