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De onde pode vir a paz?

No início de mais um ano, as esperanças se renovam e também a coragem para alcançar as metas que nos propomos. É bom que seja assim: de esperança em esperança, vamos avançando e deixando marcas no caminho...

Na passagem do ano, juntamente com os votos de felicidade e de paz recebidos, não faltaram os mais variados ritos para “acordar e trazer boas energias” e invocar a paz para o mundo, como se ela estivesse em algum lugar e pudesse ser trazida, prontinha, para o nosso uso e consumo...

A paz é um direito das pessoas, aliás, pouco respeitado. Ela é ferida pelas guerras e pelo seu rastro de sofrimentos, destruição e morte; também é ferida pelos mais variados atos de violência e injustiça contra o próximo, no desprezo e desrespeito à dignidade das pessoas, no estilo de vida egoísta e individualista, que se fecha diante das necessidades do próximo, no descuido ou na exploração insensata da natureza, sem levar em conta o bem comum.

Donde poderia vir a tão desejada paz? Na sua Mensagem para o 46º Dia Mundial da Paz, comemorado pela Igreja Católica todos os anos no dia 1° de janeiro, o papa Bento XVI dirigiu-se aos “obreiros da paz”. Partindo da bem-aventurança do Evangelho – “felizes os promotores da paz; eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9) -, o Pontífice observa que essas palavras de Jesus, mais que uma recomendação moral, já são uma promessa  confortadora para todos os que se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor.

A fé cristã traz elementos fundamentais para a edificação da paz: cremos no Deus do amor, do perdão, da misericórdia e da paz; cremos em Jesus Cristo, Filho de Deus, irmão da humanidade, que veio para reunir a humanidade numa grande família de irmãos; ao mesmo tempo, manifestou-lhes os caminhos da verdade, da justiça e do amor, que precisam ser percorridos por todos os obreiros da paz.

Não partilhamos da ideologia da violência, nem da pretensão de solucionar os conflitos mediante o acirramento dos mesmos conflitos; e não acreditamos ser o ódio a força maior do homem, ou que a lógica do convívio social seja ditada pela lei da selva. O homem não é feito para a violência, mas para o amor e a paz. Violência é sintoma de um mal pessoal e social, que precisa ser tratado como verdadeira doença.

No entanto, a paz não está pronta, como um produto de consumo que se possa conseguir através de passes de mágica, ou pela imposição da força sobre os outros. A paz é um dom do Alto, enquanto Deus é para o homem o fundamento e a garantia última da justiça, da esperança e da prática do bem. Mas ela também é tarefa do homem, fruto de idealismo e de uma busca tenaz, pessoal e coletiva. Ela se expressa na harmonia interior de cada pessoa, na sua relação com o próximo e com o mundo.

A desordem na vida pessoal é causa da falta de paz, ou da sua perda. A falta de retidão na conduta pessoal não é apenas “questão pessoal”, que interessa à vida privada, mas tem repercussão sobre os outros e sobre o convívio social. Com freqüência, isso fica esquecido: ser bons, justos e honestos, é um bem para si e para os outros. Por isso, o cultivo da paz requer dignidade na conduta pessoal e honestidade em seguir os ditames da consciência moral, que aponta para a prática do bem e para a busca da verdade, da retidão e da justiça. Sem isso, não há paz consigo mesmo. Nem com os outros.

A paz também precisa ser edificada e cultivada nas relações com o próximo, nas suas mais variadas dimensões. O respeito que se pretende para si mesmo e para a própria dignidade deve também ser dado aos outros. A sensibilidade diante das necessidades e direitos do próximo, com o senso da justiça e da solidariedade nas relações sociais, é indispensável para a edificação da paz nas relações humanas. O mesmo vale para as relações entre os povos e as nações. O silêncio dos oprimidos nunca é sinal de verdadeira paz.

A paz depende ainda de nossas relações com o mundo que nos abriga e nos sustenta. O Papa refere-se ao cuidado da vida, a começar pelo respeito pleno à vida humana, em todas as suas fases; é impossível haver paz, quando não se respeita a pessoa humana, sua dignidade e sua vida. Mas o respeito e o cuidado referem-se também à vida, em geral: os maus tratos à natureza, as atitudes egoístas e individualistas na exploração e no uso dos bens da natureza são uma ameaça à paz. O mundo é a casa de toda a família humana e seu bem comum; quando a casa é descuidada pelos seus ocupantes, ou não há equidade no seu uso, os conflitos estão às portas...

Não cai do céu esta preciosa paz! Ela requer muitos obreiros corajosos e dedicados, que acreditem na possibilidade da paz e nos meios para alcançá-la. Construtores da paz são preciosos, necessários por toda parte e em todos os níveis do convívio social: nas relações políticas, nas atividades econômicas, nas instituições educacionais, na vasta rede das organizações sociais, religiosas, culturais e artísticas, no mundo da comunicação...

Lamentamos a falta de paz no Oriente Médio e em várias partes da África... Repudiamos, mesmo que apenas timidamente, os notórios fatos de violência acontecidos perto de nós, no ano apenas concluído; e já voltaram a acontecer em 2013! Mas, talvez, nos perguntamos pouco sobre o que levou a tantas tragédias de violência e à perda da paz. Convinha que a sociedade inteira se interrogasse profundamente sobre a pedagogia da paz, que não é um produto pronto e embalado para o consumo, mas fruto de uma busca lúcida e perseverante, pessoal e coletiva: educar para a paz, desde a mais tenra infância e ao longo de toda a vida, é uma necessidade; a família e a escola têm nisso um papel indispensável.
O ano de 2013, desde o seu início, está confiado aos obreiros da paz. Edificadores e educadores da paz serão reconhecidos como filhos de Deus.

Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 12.01.2013
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo