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Papa Francisco: do fim do mundo para o cerne do Evangelho

Os dias que antecederam ao conclave foram de perplexidade no mundo católico e de uma curiosidade por vezes mórbida por parte de expectadores outsiders. Os palpites espalhados pelos meios de comunicação internacionais revelaram-se equivocados. Parece que todos nos esquecemos da antiga e famosa repreensão de Dante Alighieri: "Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?". Ninguém acertou e, mais uma vez, o Vento soprou onde quis (Jo 3).

Havia, porém, quem acalentasse o sonho de ver no Vaticano alguém próximo do que fora João XXIII ou do que poderia ter sido João Paulo I, que nos encantara durante 33 dias. De certo, porém, só tínhamos a convicção de que deveria ser alguém de perfil conservador, de sólida doutrina e moral irrepreensível. Também parecia provável que os cardeais eleitores teriam em mente a necessidade de escolher uma pessoa com potencial para ser um líder espiritual e com disposição para aprofundar a necessária reforma na cúria romana que Bento XVI tentara encaminhar.

Finalmente, no último dia 13 de março, católicos do mundo inteiro foram dormir exultantes e esperançosos. De repente, as terríveis notícias que nos assombraram nos últimos meses caíram ao segundo plano. Jorge Mario cardeal Bergoglio deixava a metrópole de Buenos Aires para entrar para a história como o 266º Papa da Igreja Católica, o 1º não europeu em 1200 anos, o 1º oriundo da América Latina e o único jesuíta escolhido para o cargo até então. Homem simples, soube-se depois, estava habituado a viver sem pompas, em meio aos pobres.

Mas não pararam aí as surpresas que o Sumo Pontífice reservava a todos, inclusive aos não católicos. Bastaram poucos minutos de contato com a multidão que lotava a Praça São Pedro, e com os bilhões que acompanhavam o evento pela mídia, para que este padre, conservador na doutrina e desconcertante no testemunho de pobreza e humildade, encantasse-nos com seu sorriso simples e a ternura de quem é experiente no cuidado pastoral. A começar pelo nome escolhido: Francisco, o Poverello de Assis, exemplo de uma santidade radical que se espalhou pela Europa no início do século XIII. Bastou a escolha do nome, inédita entre papas, para sintetizar um programa de ação que, seguramente, será mais pastoral, mais espiritual e mais insistente na prática da charitas cristã.

O primeiro gesto do Pontífice eleito também não poderia ser mais emblemático: curvando-se diante do Povo de Deus, pediu que o abençoassem antes que ele lhes pudesse dar sua primeira bênção papal. Foi emocionante, generoso, profético.

Papa Francisco, diga-se logo, não se apresenta como mera alternativa a Bento XVI. Sua missão é mais a de intensificar um trabalho que seu antecessor não teve forças e saúde para levar adiante. Bento XVI preferiu renunciar, mas sua decisão está longe de ter sido um gesto desesperado. Coerente com sua filiação espiritual agostiniana, o agora bispo emérito de Roma, é um profundo investigador da miséria humana. Ele sabia ter alcançado o limite além do qual só a oração prossegue. O tipo de purificação necessário a esta comunidade chamada Igreja, a começar pelos seus príncipes curiais, passa pela conversão dos corações, mas deve avançar até as estruturas de poder e seus mecanismos mais recônditos. Bento XVI quis nos soprar que aqueles que dizem não ser possível fazer mais nada precisam sair do caminho dos que já estão agindo. Por isso, corajosa e humildemente, passou o cajado.

E o cajado, agora, pertence a Francisco, o papa que veio, segundo suas próprias palavras, do fim do mundo. Mas que também já começa a deixar sua marca como novo líder espiritual católico. Sua missão é recolocar corações e estruturas desta Igreja voltados para o cerne do Evangelho. E nós, Povo de Deus peregrino nesta terra, queremos estar a seu lado nesse projeto, exatamente nesta posição: atrás das pegadas deixadas por Jesus de Nazaré.

Afonso M. L. Soares
Livre docente em Teologia pela PUC-SP.