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Juventude nas ruas: palavra bendita e pão mastigado

Os jovens estão nas ruas. São muitos: estudantes, artistas, desempregados, trabalhadores, ansiosos e utópicos. Entoando muitos gritos e portando muitas bandeiras. Que dizem as ruas? Caminhar a esmo é desperdício de energia. Há até os que estão ensimesmados no meio da multidão. Sentimos um despertar, mas seria este de lucidez ou de susto? Apenas uma hiper-passeata ou um coro de hiper-gritos? Discernimos consciência crítica ou pessoas domesticadas papagaiando slogans, em reprise da obra de Orwell (1984). E não podemos esquecer dos carecas, fascistas e oportunistas de plantão. Gente que pretende destruir o futuro, os sonhos e a utopia ao repetir o passado e o totalitarismo.

Felizmente há os que sabem o que querem com metas claras e estratégias organizadas. Estes mostram comprometimento, pois vivem a Pedagogia da Autonomia, como professou o mestre Paulo Freire. Há algo de subterrâneo nos acontecimentos “rueiros” que desinstalam as mordomias e certezas esclerosadas. A rua exprime algo que vem de dentro das pessoas. Uma insatisfação profunda com o tempo e o modo como sobrevivemos. Freud explica.

Há algo de único nesta hora dos jovens e de nossa sociedade civil. Algo lindo nesta juventude que “caminhado e cantando, seguindo a canção ”fala o que pensa, crê contra toda desesperança e sonha acordada. É bom lembrar que aqueles que vivem da exploração dos pequeninos passaram anos maquinando para manter este fosso. Lembro como hoje que na mesma cidade de São Paulo, grupos de direita manipularam 500 mil pessoas, em 19/3/1964, ao patrocinar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no preparo do golpe militar. Usaram do terço, da figura de São José e do clero e fieis da Igreja Católica contra o povo brasileiro, em ação patrocinada pela CIA. É preciso lembrar para nunca esquecer, dizem nossos irmãos judeus.

Mas há certamente algo de novo sob o sol! Vi jovens, que se assumiram como novos Péricles, escrevendo nas ruas: “Se quiserem ser livres, vocês tem que trabalhar muito”.

Vi jovens que se tornaram discípulos de Antístenes como “novos” Diógenes, e peregrinando como cães por ruas brasileiras, e escorraçados e machucados pela polícia militarizada, de lanterna na mão, buscavam um homem honesto. Buscavam parlamentares honestos, juízes honestos e instituições críveis. Este gesto de rua fez-se verdade nua e crua, deixando todos, os da realeza, nus. A força da firmeza permanente e da teimosia esfarelou o poder mentiroso. Solidariedade reverberou nas casas e na vida, imprimiu valor onde antes só havia desânimo. Pautou jornais, agendas, parlamento, Presidente e governadores.

Este nó engasgado na garganta, não pode ser palavra oca e vazia (como diria Simone de Beauvoir),mas deve fazer-se palavra grávida de sentidos, gestando nas Veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano) um novo modo de articular nosso país, dizendo palavras proféticas e éticas. Diante de elites dissipadoras (Celso Furtado) podemos agora ouvir um ensaio geral da melodia popular, propondo justiça e pão partido, sem circo. Ouvir o lamento triste de “Um Canto das três raças” que se fez mais que um soluçar de dor (Clara Nunes).

Os jovens querem assumir o papel de sujeito histórico, sem paternalismos e silêncios obsequiosos. A questão nevrálgica é mudar a estrutura do Estado brasileiro marcado pela escravidão, pelo latifúndio e pela monocultura. Reformatar o disco inteirinho, pois está contaminado de vírus endêmicos. Democratizar é o verbo a ser dito como uma proto-palavra e proto-ação matutina. Democracia diária tal qual o pão nosso de cada dia.

Há muito a fazer e a pensar. A sociedade civil quer outro Brasil possível e necessário. As instituições precisam sair da inércia que nos paralisa e faz a água democrática tornar-se fétida. Igrejas, Universidades, torcidas, movimentos sociais, sindicatos precisam reunir o povo em cada bairro e dizer: E agora José? Qual é o sonho? O que cada um fará para plasmar este sonho de forma participativa? O que é o mais urgente? Qual é o método ético para realizá-lo? Há lições no passado para estudar e não errar de novo? As redes sociais convocam, mas será que organizam? Quem morreu ou sofreu para realizar as mudanças, será lembrado e celebrado como pessoa semente? O que estamos vendo é novo ou é mais do mesmo? Certamente será novo se for bom, belo e verdadeiro. Quando os jovens unirem pão e palavra, está feita a revolução. Assim disse Jesus: “Em verdade vos digo que se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te ao mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará o que diz, será feito. (Mc 11,23)”.

Finalizo com uma frase de Dom Helder Câmara, arcebispo de Recife, profeta de nossa gente: “Marchar por marchar, não é ainda verdadeiramente caminhar. Caminhar é ir em busca de metas, é prever um fim, um chegada, um desembarque”.

 

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior
Depto. Ciência da Religião PUC-SP